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Os apaixonados, 1900-190

No documento Einstein, Sua Vida, Seu Universo (páginas 41-69)

Com Mileva e Hans Albert Einstein, 1904 FERIAS DE VERÃO, IOOO

Recém-formado, levando os livros de física de Kirchhoff e de outros autores, Einstein chegou no final de julho de 1900 ao local das férias de verão

familiares, Melchtal,

um vilarejo encarapitado nos Alpes suíços, entre o lago Lucerna e a fronteira com o norte da Itália. No grupo, sua "tia terrível", Júlia Koch. Eles foram recepcionados

na estação pela mãe e pela irmã, que o sufocou com beijos; depois entraram na carruagem e subiram a montanha.

Quando se aproximaram do hotel, Einstein e a irmã desceram para caminhar. Maja confessou que não ousara discutir com a mãe o relacionamento dele com Mileva Maric,

conhecido na família como "o caso Doxerl", em virtude do apelido que Einstein dera a ela. Maja pediu-lhe que "agisse com tato em relação a mamãe". Seria conflitante

com a natureza de Einstein, porém, "manter minha boca enorme fechada", como ele declarou a Maric ao descrever a cena por car-

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ta; também não combinava com seu jeito proteger os sentimentos de Maric, poupando-a dos detalhes dramáticos posteriores.1

Ele foi até o quarto da mãe, que, depois de ouvir as notícias sobre os exames, perguntou-lhe: "Então, que fará com sua Doxerl agora?".

"Vou me casar com ela", respondeu Einstein, tentando manter o mesmo tom despreocupado que a mãe usara na pergunta.

A mãe, recordou Einstein, "atirou-se na cama, enterrou a cabeça no travesseiro e chorou feito criança". Quando enfim conseguiu recuperar a compostura, partiu para

o ataque. "Está arruinando seu futuro e desperdiçando oportunidades", disse. "Nenhuma família decente a receberá. Se ela engravidar, você se envolverá numa terrível

confusão."

Então, foi a vez de Einstein perder a compostura. "Neguei com veemência que estivéssemos vivendo em pecado", contou a Maric, "e a admoestei energicamente." No momento em que ele se preparava para sair, furioso, uma amiga da mãe entrou, "uma senhora miúda e animada, uma velhinha das mais agradáveis". Eles

imediatamente

embarcaram na conversa superficial exigida pela situação. Falaram do tempo, dos novos hóspedes da estância hidromineral, do comportamento irritante das

crianças.

Depois, desceram para comer e tocar música.

Períodos de calma e conflito alternaram-se durante a temporada. De tempos em tempos, quando Einstein pensava que a crise amainara, a mãe revisitava o tópico. "Ela

é uma figura, como você, mas você precisa é de uma esposa", fustigou a certa altura. Noutra ocasião, mencionou o fato de Maric ter 24 anos e ele apenas 21. "Quando

você fizer trinta, ela será uma bruxa velha."

O pai de Einstein, que ainda trabalhava em Milão, contribuiu com uma "carta moralista". De acordo com o ponto de vista dos pais — ao menos quando aplicado à situação

de Mileva Maric e não à de Marie Winteler —, uma esposa era um "luxo" aceitável apenas quando um homem apresentava uma renda folgada. "Tenho um baixo conceito dessa

visão do relacionamento entre marido e mulher", disse ele a Maric, "pois torna a esposa e a prostituta diferentes apenas na medida em que a primeira conseguiu um cliente para a vida inteira."2

Nos meses seguintes, houve momentos em que os pais dele aparentemente decidiram aceitar o relacionamento. "Mamãe, aos poucos, se conforma", escreveu Einstein a Maric

em agosto. E, de modo similar, em setembro: "Eles precisam se adaptar ao inevitável. Creio que ambos passarão a gostar muito de você

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quando a conhecerem". E novamente em outubro: "Meus pais recuaram, hesitantes e ressentidos, da batalha de Doxerl — uma vez que perceberam a inevitável

derrota".3

Mas, repetidamente, após cada período de aceitação, a resistência retornava intensa, e logo atingia um ponto frenético. "Mamãe costuma chorar amargurada, não tem

um único momento de sossego", escreveu ele no fim de agosto. "Meus pais choram por mim como se eu houvesse morrido, ou quase. Queixam-se insistentemente de que procurei

o infortúnio ao me dedicar a você. Acham que você não é sadia."4

O desespero dos pais dele pouco tinha a ver com o fato de Marie não ser judia, pois Marie Winteler também não o era, nem de ser sérvia, embora isso certamente não

ajudasse em nada sua causa. Em primeiro lugar, ao que parece, eles a

consideravam inadequada para esposa pelas mesmas razões levantadas pelos amigos de Einstein:

era feia e mais velha, vivia doente, mancava, e não brilhava como intelectual, apesar de ser dedicada aos estudos.

Essa pressão emocional atiçou o instinto rebelde de Einstein e a paixão dele por sua "malandrinha travessa", como a chamava. "Só agora percebo o quanto estou perdidamente

apaixonado por você!" O relacionamento, segundo as cartas revelavam, continuava composto de partes iguais de emoção e intelecto, mas a parte emocional agora se incendiara

com uma intensidade inesperada para alguém que se proclamava solitário. "Acabei de perceber que não pude beijá-la por um mês inteiro, e sinto imensamente sua falta",

escreveu ele a certa altura.

Durante uma breve viagem a Zurique em agosto, para explorar possibilidades de emprego, ele se viu perdido, andando em círculos, confuso. "Sem você não sinto confiança,

prazer no trabalho, prazer na vida — em resumo, sem você minha vida não é'

vida." Chegou a tentar compor para ela um poema, que começava assim: "Oh, aquele rapaz,

Johannzel!/ Tão louco de desejo/ Ao pensar em sua Doxerl/ Põe fogo no travesseiro".5

A paixão deles, contudo, era do tipo sublime, ao menos em sua concepção. Com o elitismo solitário dos frequentadores dos cafés alemães que liam a filosofia de Schopenhauer

com excessiva frequência, eles articularam ousadamente a distinção mística entre seus próprios espíritos rarefeitos e os instintos básicos e necessidades das massas.

"No caso dos meus pais, como ocorre com a maioria das pessoas, os sentidos exercem um controle direto sobre as emoções", escre-

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veu ele durante a guerra familiar de agosto. "Conosco, graças às circunstâncias favoráveis em que vivemos, o desfrute da vida é ampliado significativamente." A favor de Einstein, consta que ele enfatizou a Maric (e a si próprio) que "não devemos esquecer que muitas existências como a de meus pais tornam possível nossa

existência". Os instintos simples e honestos de pessoas como os pais dele garantiam o progresso da civilização. "Portanto, tento proteger meus pais sem comprometer

nada que seja importante para mim — e isso quer dizer você, querida!"

Na tentativa de agradar à mãe, Einstein bancou o filho encantador em sua estadia no grande hotel de Melchtal. Considerava excessivas as refeições intermináveis, e os hóspedes, "exageradamente vestidos, indolentes e mimados", mas tocou

violino exemplarmente para as amigas da mãe, manteve conversas educadas e fingiu se divertir.

Isso funcionou. "Minha popularidade entre os hóspedes e meu sucesso musical agiram como um bálsamo no coração de minha mãe."6

Quanto ao pai, Einstein decidiu que a melhor maneira de abrandá-lo, bem como de atenuar em parte a carga emocional gerada por seu relacionamento com Maric, seria

visitá-lo em Milão, conhecer algumas das novas usinas de energia, informar-se sobre a firma da família, "para que eu possa assumir o lugar de papai numa emergência".

Hermann Einstein ficou tão contente que prometeu levar o filho para passear em Veneza após a viagem de inspeção. "Parto para a Itália no sábado a fim de receber

os 'sagrados sacramentos' ministrados por meu pai, mas o valente suábio* nada teme."

A visita de Einstein ao pai transcorreu bem, no geral. Filho distante mas

obediente, ele se preocupava muito a cada crise financeira familiar, talvez mais que o

próprio pai. Mas os negócios iam bem naquele momento, e isso levantou o moral de Hermann Einstein. "Meu pai é um homem completamente diferente agora que não sofre

pressões financeiras", escreveu Einstein a Maric. Só uma vez o "caso Doxerl" interferiu o suficiente para levá-lo a considerar um encurtamento da visita, mas a ameaça

assustou tanto o pai que Einstein voltou ao plano original. Ele parecia lisonjeado pelo fato de o pai apreciar sua companhia e seu interesse pelos negócios familiares.7

Mesmo que Einstein tenha ocasionalmente depreciado a ideia de se tornar * A expressão "valente suábio", usada frequentemente por Einstein para se referir a ele próprio, vem do poema "Conto suábio", de Ludwig Uhland. 72

engenheiro, teria sido possível que ele seguisse a profissão no final do verão de 1900 — sobretudo se durante a viagem a Veneza o pai lhe tivesse feito o pedido,

ou se o destino interferisse e ele fosse obrigado a assumir o lugar do pai. Afinal, ele não passava de um recém-formado por uma faculdade técnica, sem emprego de

professor, sem pesquisas destacadas e por certo sem padrinhos na academia. Se tivesse feito a escolha em 1900, Einstein decerto se tornaria um bom

engenheiro, mas dificilmente seria excepcional. Nos anos seguintes, ele flertou com invenções,

como hobby, e conseguiu resultados interessantes que iam de geladeiras

silenciosas a uma máquina capaz de medir voltagens elétricas muito baixas. Mas nenhuma delas

redundou numa descoberta excepcional para a engenharia nem em sucesso de

mercado. Ele poderia ter sido um engenheiro mais brilhante que o pai ou o tio, mas não há

indicações claras de que alcançaria um sucesso financeiro superior ao deles. Entre as muitas coisas surpreendentes na vida de Albert Einstein, está a dificuldade em obter uma posição académica. Incrivelmente, nove anos transcorreriam após

sua graduação na Politécnica de Zurique em 1900 — e quatro anos após o ano miraculoso em que ele não só revolucionou a física como conseguiu que sua tese de doutorado

fosse enfim aceita — até a oferta de um cargo de professor assistente.

A demora não se deveu a falta de interesse de sua parte. Na metade de agosto de 1900, entre as ferias familiares em Melchtal e a visita ao pai em Milão,

Einstein

parou em Zurique para tentar obter o posto de assistente de um professor da Politécnica. Era comum que um recém-formado conseguisse uma nomeação do género se assim

desejasse, e Einstein confiava que isso ocorreria. Nesse meio-tempo, recusou a oferta de um amigo que se dispunha a conseguir para ele um emprego numa

companhia

de seguros, desprezando-a como "oito horas por dia de trabalho enfadonho e monótono". Como disse a Maric: "Devemos evitar atividades estupidificantes".8 O problema era que os dois professores de física na Politécnica conheciam muito bem sua descompostura, mas não sua genialidade. Nem cogitou em arranjar um emprego

com o professor Pernet, que o censurara. Já o professor We-ber desenvolvera uma alergia tão profunda a Einstein que contratou dois estudantes da divisão de engenharia,

quando nenhum dos outros formados pelo departamento de física e matemática se candidatou à vaga de assistente.

Restava apenas Adolf Hurwitz, professor de matemática. Quando um dos 73

assistentes de Hurwitz foi chamado para lecionar num colégio, Einstein exultou e escreveu a Maric: "Isso significa que serei ajudante de Hurwitz, graças a Deus". Infelizmente, ele havia faltado à maioria das aulas de Hurwitz, um pecado que obviamente não foi perdoado.9

No fim de setembro, Einstein permanecia com os pais em Milão, sem ter recebido oferta alguma. "Pretendo ir a Zurique em Ia de outubro para falar pessoalmente com

Hurwitz sobre a vaga", disse. "Sem dúvida, é melhor do que escrever para ele." Durante o tempo em que estivesse lá, ele também planejava procurar aulas particulares capazes de sustentá-los enquanto Maric se preparava para prestar novamente

os exames finais. "Não importa o que aconteça, teremos a vida mais maravilhosa do mundo. Trabalho agradável, ficar juntos — e, o que é melhor, agora não devemos

satisfações a ninguém, podemos caminhar com as próprias pernas, desfrutar ao máximo a juventude. Quem poderia pedir mais? Quando juntarmos dinheiro

suficiente, poderemos

comprar duas bicicletas e passear de vez em quando."10

Einstein acabou resolvendo escrever para Hurwitz em vez de visitá-lo, o que provavelmente foi um equívoco. Suas duas cartas não servem de modelo para as futuras

gerações interessadas em aprender a redigir um pedido de emprego. Ele de pronto admitiu que não frequentara as aulas de cálculo de Hurwitz e que se interessava mais

por física que por matemática. "Como a falta de tempo impediu minha participação no seminário de matemática", desculpou-se, inconvincente, "não há nada a meu favor

exceto o fato de que compareci à maioria das aulas ministradas." Um tanto presunçoso, disse que estava ansioso por uma resposta, pois "a obtenção da cidadania suíça,

que solicitei, está condicionada à capacidade de provar que tenho um emprego estável".11

A impaciência de Einstein equiparava-se à sua confiança. "Hurwitz ainda não me respondeu", disse, três dias depois de enviar a carta, "mas não tenho dúvidas de que

conseguirei a vaga." Não conseguiu. Assim, tornou-se o único formado de sua seção da Politécnica a não receber uma oferta de emprego. "De repente, fui abandonado

por todos", lembrou posteriormente.12

No fim de outubro de 1900, Einstein e Maric estavam de volta a Zurique, onde ele passava a maior parte do tempo no apartamento, lendo e escrevendo. No formulário de pedido de cidadania daquele mês, escreveu "nenhuma" na

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questão a respeito de sua religião e, para ocupação, anotou: "Estou dando aulas particulares de matemática enquanto não obtenho uma posição estável".

Durante o outono, ele conseguiu apenas oito alunos particulares esporádicos, e os parentes interromperam o auxílio financeiro. Mas Einstein mantinha a fachada otimista.

"Vamos nos sustentar com aulas particulares, se as conseguirmos, o que é sempre duvidoso", escreveu a uma amiga de Maric. "Isso não é vida de biscateiro ou de cigano?

Mas creio que vamos conservar a disposição, como sempre."13 O que o mantinha feliz, além da presença de Maric, eram os artigos teóricos que escrevia por sua conta.

O PRIMEIRO ARTIGO PUBLICADO POR EINSTEIN

O primeiro dos artigos versava sobre um tópico familiar à maioria dos

estudantes: o efeito capilar que, entre outras coisas, faz a água grudar-se à lateral de um

canudo e se curvar para cima. Embora depois ele tenha considerado "imprestável" o ensaio, este é interessante da perspectiva biográfica. Não só é o primeiro artigo

publicado de Einstein como mostra que ele adotou com entusiasmo uma premissa importante — ainda não totalmente aceita — que estaria no centro de boa parte de seu

trabalho nos cinco anos seguintes: que as moléculas (e os átomos que as constituem) existem de verdade e que muitos fenómenos naturais podem ser explicados pela

análise do modo como essas partículas interagem uma com a outra.

Nas férias de verão de 1900, Einstein estivera lendo a obra de Ludwig Boltz- mann, que tinha desenvolvido uma teoria dos gases com base no comportamento de incontáveis

moléculas a ricochetear. "O Boltzmann é absolutamente magnífico", ele se entusiasmou em setembro, escrevendo a Maric. "Estou firmemente convencido do acerto dosprincípios

de sua teoria, isto é, estou convencido de que lidamos, no caso dos gases, com partículas discretas de tamanho definido finito que se movem conforme

determinadas condições."14

Compreender a capilaridade, porém, exigia observar as forças que atuavam entre as moléculas num líquido, não num gás. Tais moléculas se atraíam mutuamente, o que

explica a tensão superficial de um líquido, ou o fato de que as gotas se mantêm unidas, bem como o efeito capilar. A ideia de Einstein era que essas forças poderiam

ser análogas às forças gravitacionais de Newton, nas quais 75

dois objetos são atraídos um para o outro na proporção direta de sua massa e na proporção inversa ao quadrado da distância entre um e outro.

Einstein explorou se o efeito capilar apresentava alguma relação com o peso atómico de várias substâncias líquidas. Ele foi encorajado, portanto decidiu ver se poderia

descobrir algum dado experimental para testar melhor sua teoria. "Os resultados sobre capilaridade que obtive recentemente em Zurique parecem ser de todo novos, apesar de sua simplicidade", escreveu a Maric. "Quando voltarmos a Zurique, tentaremos obter dados empíricos sobre o assunto [...] Se isso contiver uma lei natural,

enviaremos os resultados para os Annalen.""

Ele acabou mandando em dezembro de 1900 para os Annalen derPhysik, o mais

importante periódico de física da Europa, o artigo, que foi publicado no mês de março seguinte.

Redigido sem a elegância ou a verve dos artigos posteriores, apresentava no máximo uma conclusão ténue. "Parti da ideia simples das forças atrativas entre as moléculas

e testei as consequências experimentalmente", escreveu ele. "Usei as forças gravitacionais como analogia." No final do ensaio, declara, vacilante: "A questão de

se e como nossas forças estão relacionadas às forças gravitacionais deve, portanto, ser deixada completamente em aberto por enquanto".16

O artigo não gerou comentários e não contribuiu em nada para a história da

física. Sua conjectura básica estava errada, pois a dependência da distância não é a mesma

para diferentes pares de moléculas.17 Mas foi o bastante para lhe garantir a primeira obra publicada. Isso significava que ele agora tinha um artigo publicado para

acrescentar às cartas que pretendia enviar, a professores da Europa inteira, pedindo emprego.

Em sua carta a Maric, Einstein usou o termo nós quando discutia os planos de publicação do artigo. Em duas cartas escritas no mês seguinte à divulgação do artigo,

ele se referiu a "nossa teoria das forças moleculares" e a "nossa

investigação" . Assim foi lançado o debate histórico sobre quanto crédito Maric merece por ter

Nesse caso, ela aparentemente esteve envolvida na pesquisa de alguns dados que ele pretendia usar. As cartas dele continham as ideias mais recentes sobre forças

moleculares, mas as dela não continham ciência substancial. E, numa carta de Maric à sua melhor amiga, tem-se a impressão de que ela desempenhava o papel de companheira

solidária, e não de parceira científica. "Albert redigiu um estudo sobre física que provavelmente será publicado em breve nos An-

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nalen der Physik", escreveu. "Você pode imaginar quão orgulhosa me sinto de meu amado. Não se trata de um ensaio comum, mas de algo muito significativo. Trata da

teoria dos líquidos."18 ANGÚSTIA DO DESEMPREGO

Quase quatro anos tinham se passado desde que Einstein renunciara à cidadania alemã, e desde então ele permanecia apátrida. Todo mês, separava algum dinheiro para

o pagamento que precisaria fazer para se tornar cidadão suíço, condição que desejava profundamente. Um motivo era sua admiração pelo sistema suíço, pela democracia,

pelo respeito cordial aos indivíduos e sua privacidade. "Gosto dos suíços

porque, no geral, eles são mais humanos do que outros povos com os quais vivi", disse posteriormente."

Havia razões práticas também; para trabalhar como funcionário público ou professor numa escola estatal, ele precisava ser cidadão suíço.

As autoridades de Zurique investigaram-no minuciosamente, chegando a pedir a Milão um relatório sobre seus pais. Em fevereiro de 1901, deram-se por

satisfeitos,

e ele se tornou cidadão. Manteria essa condição por toda a vida, mesmo recebendo cidadania alemã (novamente), austríaca e americana. Na verdade, estava tão

ansioso

para se tornar cidadão suíço que pôs de lado seu sentimento antimilitar e se apresentou para o serviço militar, como exigido. Foi recusado por suar nos pés ("hyperídrosis

ped"), pé chato ("pes planus") e veias va-ricosas ("varicosis"). O exército suíço, pelo jeito, era muito exigente, e por isso seu certificado de dispensa recebeu

o carimbo de "inepto".20

Poucas semanas depois de ele obter a cidadania, contudo, os pais insistiram para que retornasse a Milão e fosse morar com eles. Decretaram, no fim de 1900, que ele

não poderia ficar em Zurique após a Páscoa, a não ser que conseguisse emprego por lá. Quando a Páscoa chegou, Einstein continuava desempregado.

Maric, com certa razão, concluiu que o chamado a Milão se devia à antipatia dos pais dele por ela. "O que mais me deprime é o fato de que nossa separação tenha de

acontecer de um modo tão forçado, em consequência de maldades e intrigas", escreveu à amiga. Com uma distração que mais tarde se tornaria emblemática, Einstein deixou

para trás, em Zurique, o pijama, a escova de dente, o pente, a escova de cabelo (naquela época ele usava uma) e outros artigos

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de toalete. "Mande tudo para minha irmã", ele orientou Maric, "para que ela possa trazer para casa consigo." Passados quatro dias, acrescentou: "Fique com meu guarda-chuva

por enquanto. Depois vemos o que faremos com ele".21

Tanto em Zurique como depois em Milão, Einstein enviou cartas com pedidos de

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