O ano de 2010 foi um ano de aproximações importantes em torno de um objetivo central no Município de Macaé, a minimização do quantitativo de alunos evadidos e ou infreqüentes no segmento do ensino fundamental. Ainda que o antagonismo de interesses se apresente cotidianamente, uma sociedade denominada democrática pode se mobilizar em prol de suas questões e todos os sujeitos precisam se colocar em defesa do direito universal garantido na Carta Magna em seu art. 205 “A educação, direito de todos e dever do Estado e da família, será promovida e incentivada com a colaboração da sociedade, visando ao pleno desenvolvimento da pessoa, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho”.
O princípio da provocação desta iniciativa estava na violência disseminada entre e contra os adolescentes e jovens em números preocupantes. Em 27 de novembro de 2009, foi realizada uma audiência pública21 no Conselho Municipal de Defesa dos Direitos da Criança e do Adolescente (CMDDCA), cujo objetivo era pensar estratégias que freassem a estimativa do Índice de Homicídios na Adolescência (IHA) que dava conta de 69 adolescentes com previsão de morte por ano em Macaé.
Dados do Relatório da Organização dos Estados Ibero-Americanos para a Educação registram que de 2002 a 2004 Macaé ocupou a 5º colocação entre os municípios com mais de 100.000 habitantes com o maior índice de mortes entre jovens e adolescentes. O IHA22, no ano de 2006 apresenta Macaé ocupando o 53° lugar neste ranking. O IHA 2009 / 2010 traz um quadro comparativo para estes anos conforme a seguir:
2009 2010 População de 12 a 18 anos Número total esperado de mortes entre 12 e 18 anos População de 12 a 18 anos Número total esperado de mortes entre 12 e 18 anos 22.475 63 23.417 87
Fonte: Homicídios na Adolescência no Brasil 2009 – 2010 / 2012
21 Fonte: <http://www.cmddcamacae.rj.gov.br/download/atas/2009/ata_ext_27_11_09.pdf > acesso em 30/06/2013; 11:44
22 Pesquisa inédita, que compõe um dos eixos de atuação do Programa de Redução da Violência Letal Contra Adolescentes e Jovens (PRVL). O IHA é uma ferramenta que estima o risco de adolescentes, com idade entre 12 e 18 anos, perderem suas vidas por causa da violência letal. O IHA avalia alguns fatores que podem aumentar o risco de morte, de acordo com raça, gênero e idade desses adolescentes.
Dos dados revelados e estimados às dezenas de outros não midiatizados, uma realidade triste e preocupante que fundamentaliza ação conjunta cuja educação se estabelece o nosso ponto de análise por ser esta a política de nossa inserção. Obviamente, temos clareza de entendimento de que não unilateralmente ela é responsável pelo quadro apresentado. Desta forma, o eixo central deste debate está no quadro de alunos evadidos no município, que para o ano de 2009 apontava 9% do total de matriculados, empiricamente co-relacionados ao aumento dos índices de violência.
Foi o Plano Diretor da Cidade, respaldado na sua Lei Complementar n.° 076 / 2006, art. 43 que diz: “instituir, de forma gradativa, programa de acompanhamento especializado dos profissionais de Serviço Social, junto ao corpo discente das escolas do município”, através de sua Gerente Miriam Reid, que também é Assistente Social e foi a Deputada Federal Presidente da Subcomissão Especial de combate à Evasão Escolar - Comissão de Educação, Cultura e Desporto, que implementa a Lei 10.287 de 2001. Esta Lei diz que:
Aluno que tiver 25 faltas não justificadas terá seu nome, endereço e nome dos pais ou responsáveis, encaminhados ao Conselho Tutelar, ao Juiz e ao Ministério Público, que, em audiência coletiva, ouvirão desses pais ou responsáveis as razões das faltas e o que é necessário para garantir a freqüência e a permanência do aluno na escola. (CARTILHA DE ORIENTAÇÃO SOBRE A LEI IMPLEMENTAÇÃO DA LEI 10.287/01. 2002)
A preocupação latente por parte da Gerente do Plano Diretor com os destinos dos adolescentes e jovens do município a aproximaram da SEMED através do seu corpo de orientadores educacionais que já pensava estratégias de ação através do Programa “Escola Legal”, implantado a partir da Portaria SEMED n°.006/2004 de 17 de agosto. A última aproximação se deu pela inserção da Assistente Social Vivianne da Motta Gil Rocha, concursada neste município, que no final do primeiro trimestre do ano de 2010 é convidada a compor esta equipe com atribuição de coordená-la na elaboração de um Programa de Combate a Evasão Escolar (PCEE). A partir da percepção da necessidade do profissional de Serviço Social neste contexto, devido a sua bagagem no trato com as expressões da “questão social” e principalmente pela convicção de ser este o profissional que faz a mediação nas políticas públicas, inaugura-se uma nova frente de trabalho com uma proposta de atuação a ser elaborada simultaneamente com um campo de estágio. Esta foi a base triangular (Plano Diretor / SEMED – Orientação Educacional / Serviço Social), que possibilitou à criação e implementação de um programa na política de educação direcionado à diminuição do quadro da evasão escolar, cujo protagonismo do Serviço Social foi preponderante.
Momento ímpar para um aluno do Serviço Social é a chegada ao campo de estágio. É onde a teoria ilumina a prática e a prática se alimenta da teoria, mas este aprendizado, a chegada ao campo de estágio, não é fácil ao aluno trabalhador. Embora nossa realidade de pólo interiorizado com o curso em horário noturno implique em um grande percentual de alunos trabalhadores, não temos campos de estágios que atendam a demanda de final de semana. Chegar ao campo de estágio foi tão ou mais difícil que passar no vestibular. Em contrapartida, a experiência se revelou riquíssima, pois enquanto a maioria dos colegas chegava às aulas da disciplina de Estágio Supervisionado em Serviço Social relatando as precariedades e as rotinas repetitivas pela inserção em uma dada política pública, nós, alunas estagiárias do Programa de Combate a Evasão Escolar (PCEE) vivíamos um verdadeiro bombardeio de informações e precisávamos aprender a tratá-las produzindo estratégias de ação. A realidade é que na maioria das inserções nos campos, os graduandos tinham experiências em uma área específica enquanto no nosso campo, obrigatoriamente até pela proposta do programa, tínhamos contato primordialmente com a educação, mas também assistência, saúde e área sócio-jurídica. Foi importante vivenciar estas experiências que em princípio não entendíamos a nossa posição dentro do programa talvez pela costumeira prática como executor final de políticas públicas, quando muito raro ele é o propositor. Logo, precisamos apontar que nossas experiências se desenvolveram, sobretudo, nos finais de semana, porém, ás vezes tivemos interações em horários administrativos conforme escala da supervisora de estágio, a assistente social Vivianne da Motta Gil Rocha.
As primeiras reuniões da Comissão de Combate a Evasão Escolar começaram a acontecer no segundo trimestre de 2010. Logo, quando nós estagiárias do Serviço Social do antigo Pólo Universitário Rio das Ostras, hoje Instituto de Humanidades e Saúde da Universidade Federal Fluminense, chegamos, havia um caminho percorrido na elaboração do programa a ser apresentado ao Poder Público, Juizado da Infância e Adolescência, Conselho Tutelar e outros, mas ainda pudemos participar da formatação final do texto. O objetivo geral do Programa de Combate a Evasão Escolar (PCEE) “Estudar é Legal” estava determinado a “consolidar uma política pública para combater as causas e erradicar a evasão escolar no Município de Macaé”, e dentre os seus objetivos específicos:
Conhecer as causas da Evasão Escolar (diagnóstico) e promover ações para eliminá-las (planejamento estratégico) a partir do esclarecimento da competência e do comprometimento de cada ente envolvido; Contribuir para a melhoria das condições de vida e promoção social das famílias envolvidas; Encaminhar para outros serviços da rede casos de famílias acompanhadas com demandas específicas; Desenvolver estratégias para motivação de professores, diretores de escolas e
equipes escolares em geral, para que se engajem efetivamente no PCEE. (PROGRAMA DE COMBATE A EVASÃO ESCOLAR – PCEE, 2010, p.11) Como estratégias de ação destacamos:
Criação da Comissão de Combate à Evasão Escolar, para articular e implementar as ações relacionadas aos objetivos propostos; Realização de Encontro para apresentação do programa, com a presença dos entes interessados; Levantamento de dados dos alunos com risco de evasão escolar; Visita domiciliar e cadastramento das famílias com alunos em situação de risco de evasão escolar; Pesquisa sobre as causas da evasão escolar local; Mobilização das famílias com alunos em situação de risco de evasão escolar e inclusão das mesmas na “Escola de Pais”; Implementar projeto-piloto da “Escola de Pais” a ser reproduzido nas unidades escolares ou outros aparelhos públicos. (PROGRAMA DE COMBATE A EVASÃO ESCOLAR – PCEE, 2010, p.12-13)
Embora não houvesse um trabalho condensado sobre as estatísticas da evasão no município, a SEMED tinha uma direção do ponto de partida, logo, todos os referenciais do programa foram direcionados a uma escola de uma comunidade da periferia de Macaé, a Eraldo Mussi . Esta escola apresentou 175 alunos no primeiro semestre de 2010 com risco de possível evasão, sendo 70 mapeados para as primeiras visitas domiciliares. Para esta primeira ação tínhamos a dificuldade de entrar na comunidade e então começamos a estabelecer outras parcerias que pudessem viabilizá-la. Foi contatado um grupo de mulheres chamado “Mulheres da Paz”, que são senhoras e jovens senhoras que atuavam como ponto de apoio dentro da comunidade. Elas recebiam uma bolsa de auxílio pelos “trabalhos” prestados no valor de R$100,00 e uma vez estabelecida a parceria, seriam “nossos braços” dentro da comunidade. Também tínhamos a previsão de utilizarmos as instalações do CREAS para eventuais necessidades como reuniões com as Mulheres da Paz.
Óbvio que o objetivo do PCEE não se restringia a uma escola e de fato nenhum trabalho é fácil para o profissional de Serviço Social. Justificando esta frase, encontramos no primeiro objetivo específico que era conhecer as causas da evasão escolar, um mergulho na realidade local que foi muito difícil de ser absorvida devido ao descrédito que as unidades escolares depositaram na proposta do programa, justificadas em iniciativas similares ocorridas em solicitações anteriores e que nunca resultaram em ações efetivas considerando que a solicitação do quantitativo de alunos evadidos fosse apenas mais um programa neste universo. Ainda, a barreira que a alguns profissionais da educação estabeleceram na prerrogativa de que o Serviço Social estaria “ocupando” um espaço da orientação educacional. A primeira parte deste conhecimento estava na obtenção da Ficha Cadastral do Aluno Infreqüente (FICAI). Através desta ficha, os nomes dos alunos são revelados às instâncias necessárias conforme a Lei 10.287 determina. Consideramos que aparentemente havia uma atmosfera de medo de que estes números fossem revelados. A intenção do PCEE era de que um dia pudéssemos receber
em tempo real tais informações através de sistema eletrônico na expectativa de disponibilizar esforços para evitar a evasão. As escolas recebiam o ofício solicitando o envio das FICAIs mas nós não recebíamos respostas da grande maioria delas. Através das enviadas, começamos o trabalho de planilhar estes dados no modelo de tabela dinâmica do Excel.
Precisávamos conhecer os bairros e comunidades e suas demandas e para isso fizemos uso de toda e qualquer oportunidade que se apresentasse. Participamos de Feira de Integração23 onde atuamos como pesquisadoras sobre o que as pessoas achavam que era importante para o seu bairro e também algumas vezes fizemos acompanhamento do trabalho da Câmara de Vereadores de Macaé que realizava o projeto “Câmara Itinerante”, onde a sessão da Câmara acontecia em espaço público e as demandas eram ouvidas pelos parlamentares através dos próprios moradores. Foram experiências marcantes que nos fizeram conhecer um pouco mais sobre os bairros e comunidades, consequentemente, necessidades de pais, alunos e professores. Tanto nas “Feiras de Integração” quanto nas sessões da “Câmara Itinerante”, havia reivindicações por creches, postos médicos, saneamento básico, água, escolas, iluminação pública, segurança, transporte e outros, reafirmado que apenas o combate a evasão escolar é insuficiente para responder as demandas da população e que ela se constitui em mais uma das expressões da “questão social”. Descobrimos na versão “Câmara Itinerante” realizada na comunidade Malvina, que lá havia mais de 8 mil moradores e uma escola maternal e outra do ensino fundamental. No Parque Aeroporto, bairro mais populoso do município, as pessoas clamavam por mais segurança. A versão do Lagomar, um bairro ainda formatado como invasão, descobrimos que cerca de 40.000 pessoas moravam por lá, e que o bairro era composto, sobretudo por migrantes da região nordeste do Brasil, sem sistema de água potável adequado, correio ineficiente, sem creches, sem escola de ensino médio e apenas uma escola do ensino fundamental.
Nestas experiências, observamos o quanto o Serviço Social pode contribuir com sua aproximação aos movimentos sociais e com sua ação pedagógica, cooperando para emancipação dos indivíduos sociais, contribuindo para a defesa do aprofundamento da democracia. Quando a grande maioria dos indivíduos enxerga os deveres do poder público como favorecimento à comunidade é porque o exercício democrático da cidadania não está evidenciado nas relações podendo o Serviço Social contribuir para o seu devido esclarecimento.
23 As “Feiras de Integração” ofereciam diversos tipos de serviços a comunidade receptora tais como expedição de documentos, orientação jurídica, noções de higiene, recreação infantil, arte e cultura popular.
Em paralelo a estas participações, um trabalho minucioso foi sendo construído em formato de tabela dinâmica no Excel para o rápido diagnóstico numérico da real situação sobre o quadro da evasão escolar através das FICAIs enviadas. Neste primeiro momento, conseguimos a adesão de cerca de ¼ das escolas do segmento fundamental no envio dos relatórios em Word a serem cadastrados no Excel para propiciar a geração de gráficos estatísticos. O trabalho condensado até este momento, 1° e 2° bimestre de 2010, dava conta de 20 escolas respondentes da solicitação de envio das FICAIs e um quantitativo de 462 alunos listados como evadidos ou em risco de evasão escolar conforme evidenciado no gráfico 1:
Gráfico 1: Quantitativo de Escolas do 1° e 2° bimestre de 2010
Fonte: Relatórios enviados pelas unidades escolares à Orientação Educacional da SEMED Outras questões foram reveladas a partir deste trabalho. Por exemplo, encontramos a E. M. Antonio Alvarez Parada, uma escola do centro da cidade ocupando o 1° lugar neste ranking. As justificativas para esta colocação se expressavam através do quantitativo de alunos de outros bairros da cidade que não conseguiram vagas nas unidades próximas aos seus lares sendo remanejados para a Álvares Parada. A dificuldade estava na falta do transporte para estes alunos, sobretudo no início do ano letivo devido à necessária acomodação do quantitativo de matrículas pelas unidades que acabava por provocar um número elevado de faltas. A questão da acomodação próxima das residências dos alunos se
justifica porque estas crianças são pequenas e o transporte sem a presença de seus responsáveis (os ônibus garantem a gratuidade apenas para o aluno), se constitui num trauma para o aluno nos primeiros anos da vida escolar. O desvio do itinerário dos responsáveis para a escola antes do trabalho implica num gasto a mais para o trabalhador e o atraso na jornada de trabalho.
A Escola Eraldo Mussi, 2° posição no ranking, se constituiu no nosso maior foco conforme justificativas demonstradas no gráfico 2.
Gráfico 2: Justificativas para evasão escolar na Escola Eraldo Mussi
Fonte: Relatórios enviados pelas unidades escolares à Orientação Educacional da SEMED
Esta escola situava-se numa localidade em que a violência do tráfico estava ao seu derredor. As “Mulheres da Paz” nos auxiliaram muito quando não podíamos entrar na comunidade, nos trazendo informações sobre aqueles alunos e suas famílias, mas por algumas vezes conseguimos fazer visitas domiciliares. No demonstrativo de causas não justificadas, visualizamos naquele espaço uma série de questões, na nossa concepção, determinantes. Eram alunos desmotivados ao processo de ensino e aprendizagem por causa de “bulling” e, como exemplo, destacamos o caso do aluno “A” que tinha dificuldades de aprendizagem. Ele era de uma família migrante da região nordeste do país e sua mãe tinha problemas psíquicos, inclusive já havia posto fogo no barraco de madeira. Ela chegou a fazer acompanhamento psíquico, mas não dava continuidade. Esta criança de 10 anos de idade era repetente do 3° ano e quando perguntado se queria estudar ele dizia que não. As condições de moradia eram totalmente insalubres o que também favorecia o adoecimento.
Outro caso muito marcante foi o da aluna “B”, uma adolescente de 14 anos repetente do 4° ano. Por conta de seu desenvolvimento físico, ela se sentia constrangida a permanecer numa sala de aula junto às crianças de estatura muito menor. Sua mãe também sofria de transtornos psíquicos e depressão e não era acompanhada por profissionais da área. Moravam na mesma casa de tijolo e chão batido, num ambiente escuro e muito mofo ela, a mãe, o avô, 3 irmãos menores sendo um bebê e o irmão mais velho de 18 anos também fora da escola e segundo informações comprometido com o tráfico.
O desafio para o Serviço Social contemporâneo está no desvelamento das expressões da “questão social” nas suas diversas áreas de atuação. Indiscutivelmente neste estudo, a violência se constituiu apenas a porta de entrada para a descoberta de um universo perverso de violação de direitos de uma parte da população que está em formação e, portanto incapaz de por si só reivindicar direitos. As leis teorizam ações que ainda estão longe da prática. O efeito se desdobra em cadeia visto que o indivíduo é um todo e é na totalidade que ele precisa ter suas necessidades observadas.
Aqui está, portanto, o grande desafio àquele cuja matéria é, cotidianamente, lidar com as seqüelas decorrentes do processo de constituição da questão social a partir da lei geral da acumulação: conhecer as muitas faces da questão social no Brasil, das quais a mais perversa é a desigualdade econômica, política, social e cultural a que estão submetidas milhões de pessoas, o que requisita um grande esforço de pesquisa sobre o Brasil. É necessário e imprescindível conhecer profundamente nossa matéria: a questão social brasileira. (BEHRING E SANTOS, 2009, p 275) O encontro dos endereços registrados nos documentos passados pelas escolas era de grande dificuldade na localização, visto que Macaé é uma cidade que, para além de uma população flutuante bastante expressiva, possui uma desorganização territorial que nos obrigava a procurar por horas um endereço. Nesta fase de pesquisa e montagem do Programa, tínhamos apenas a Vivianne de assistente social na coordenação destas visitas e 3 estagiárias do Serviço Social. Não podemos deixar de registrar que tínhamos escassez de transporte para nos conduzir.
Outro adolescente que denominaremos “C”, quando conseguimos encontrar a sua casa, descobrimos que morava com a avó e que ele não estava mais ali. Tinha sido retirado do bairro por conta de ameaças do tráfico e a avó afirmou não saber do seu paradeiro. Ela dizia ter saudades dele, que gostaria de vê-lo na escola, mas que infelizmente ele não obedecia a mais ninguém. Era filho de pais separados que, segundo a avó, não se preocupavam com a vida do filho.
Numa outra casa, encontramos a mãe de uma adolescente de 13 anos. Ela tinha 28 anos e estava desempregada, o padastro era motorista. A mãe disse que não havia renovado a matrícula da aluna porque “não adiantava”, pois a adolescente afirmava que não queria estudar, preferia ficar pelas ruas e em casa de amigas. A mãe demonstrava total corte na relação com a filha, sem qualquer indício de tentativa de reconstrução do diálogo e sem saber como resgatá-lo. Desconfiava que a filha fizesse uso de bebidas alcoólicas e não conseguia estabelecer diálogo.
Para a Escola Eraldo Mussi, as justificativas cujos relatórios não caracterizavam as causas, em grande parte o tráfico se impunha como a forma daquelas crianças conseguirem dinheiro para as suas necessidades. Tínhamos as meninas que expunham seus corpos na ânsia de conquistar um traficante, a desmotivação e o desinteresse do aluno e dos pais e outras questões. Nas justificativas em que familiares são as causas mais comuns, encontramos casos em que pais ou mães foram presos e o responsável imediato não conseguia se organizar para o encaminhamento destes alunos à escola. Ainda, pais que trabalhavam embarcados e não tinha quem se responsabilizasse pela vida escolar destes alunos e pela frequencia às unidades escolares.
O ambiente impróprio para o desenvolvimento de uma criança foi percebido em