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Minha Casa Minha Vida.

3.1 O Programa Minha Casa Minha Vida no Brasil.

O PMCMV foi formulado, em 2009, como um Programa econômico anticíclico e com uma política fiscal expansiva. Tinha como objetivo central ser um impulsionador do setor da construção civil e do mercado imobiliário brasileiro, afetados, como o conjunto da economia, pela crise econômica internacional de 2008. Cardoso e Aragão (2013, p. 37) relatam que essa crise surgiu a partir dos “problemas sistêmicos financeiros provocados pela crise dos mercados secundários de títulos lastreados em hipotecas, envolvendo os chamados subprimes”.

Neste contexto de crise internacional, o Brasil foi duramente afetado, ocasionando recessão econômica, diminuição no Produto Interno Bruto (PIB), além de outros efeitos. Como dimensionam Cardoso e Aragão (2013), a reação do governo do ex-presidente Lula frente à crise internacional foi rápida, pois o país não poderia permanecer em tal situação por um longo período.

Diante daquele cenário, as medidas adotadas para o enfrentamento da crise previam a expansão do crédito pelos bancos públicos (Banco do Brasil, BNDES e CEF), com o objetivo de mitigar a retração do setor privado e dos demais setores em dificuldades. Tais providências tinham um caráter anticíclico, pois segundo Cardoso e Aragão (2013, p. 37), “o governo manteve os investimentos em infraestrutura previstos no âmbito do PAC e mobilizou a Petrobrás no sentido de que também mantivesse os investimentos previstos”.

Como parte do conjunto de medidas do Governo Federal, em março de 2009, o PMCMV foi lançado com o claro objetivo de criar condições de ampliação do mercado

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habitacional para o atendimento das famílias com renda de zero a dez salários mínimos, dinamizando a cadeia de produção da construção civil e de outros setores da economia. Tanto para Cardoso e Aragão (2013), Maricato (2014), como para Rolnik e Nakano (2009), o PMCMV tem uma forte inspiração nas políticas habitacionais implementadas em outros países da América Latina, como México e Chile. Para Rolnik e Nakano (2009, p. 131):

Em linhas gerais, essas experiências promoveram um modelo de inclusão pelo consumo, em que a moradia para a população de baixa renda deve ser ao mesmo tempo uma mercadoria a ser acessada por meio de relações de mercado e uma oportunidade de negócio para empresas privadas. Assim como no caso do PMCMV, essas políticas habitacionais tiveram como aspectos fundamentais a produção em grande escala por empresas privadas e a concessão de subsídios governamentais diretos ao comprador para viabilizar a compra da casa própria por grupos que estariam fora do mercado.

Para Amore (2015), esta nova política pública habitacional foi formulada pelos Ministérios da Casa Civil e pelo Ministério da Fazenda, em diálogo com os setores da construção civil e imobiliário. Através da medida provisória (Nº 459/2009), posteriormente transformado na Lei Nº 11.977/2009, o Programa foi formulado como uma forma declarada de enfrentamento da crise dos subprimes norte-americanos, que tinha provocado a quebra de bancos e impactado diretamente a economia financerizada mundial. A respeito disso, Amore (2015, p. 18) afirma que:

O contexto da crise econômica, junto com o enfraquecimento do Ministério das Cidades no seu papel de formulador e condutor da política urbana, levou o governo acolher a proposta do setor da construção civil, apostando no potencial econômico da produção de habitação em massa.

O PMCMV não foi criado somente com o objetivo de enfrentar o déficit habitacional brasileiro, mas, centralmente, de atender as demandas do mercado, que se encontrava em crise. De acordo com Cardoso et al (2015), o Programa, ao longo dos seus sete anos de existência, não apenas ficou restrito à provisão de moradias. Os autores esclarecem que:

Sua importância transcende a questão habitacional e sua implementação envolve uma trama complexa de agentes e interesses, atravessada por uma série de disputas, conflitos, arranjos, articulações e contrassensos, fato que ficou evidente já mesmo na sua origem (CARDOSO et al 2015. p. 73).

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Com a criação do PMCMV, previa-se a construção de mais de 1 milhão de moradias, com um investimento de 34 bilhões de reais, oriundos do Orçamento Geral da União e do FGTS, alocados no FAR, operados pela Caixa Econômica Federal. Em suma, o Programa não previa somente a provisão de unidades habitacionais, mas, por ter um caráter anticíclico, visava a gerar empregos e, consequentemente, renda, em um setor da economia capaz de mobilizar diversos outros setores associados: desde a indústria extrativista e produtora dos materiais básicos da construção civil até a indústria moveleira e de eletrodomésticos8, que eram ativadas no momento da entrega das chaves (AMORE, 2013).

O PMCMV ilustra bem a possibilidade e as contradições da ação pública do Estado em relação à formulação e implementação de políticas sociais de habitação no país. Maricato (2014, p. 75) indica que: “o PMCMV retoma a política habitacional com interesse apenas na quantidade de moradias e não na sua fundamental condição urbana”. Como a provisão habitacional ficou a cargo basicamente do mercado, os estados e municípios criaram uma certa “dependência” em relação ao PMCMV na construção de novas moradias.

No âmbito municipal, em muitas ocasiões, as políticas públicas habitacionais ficaram restritas a ações de regularização fundiária e urbanização de assentamentos precários. Segundo Cardoso e Aragão (2011), o papel do Estado na promoção de habitação de interesse social ficou delimitado em dois tipos de atuação: 1) o poder público é o agente promotor (modelo de execução do SNHIS); e 2) o setor privado é o agente executor (modelo de implementação do PMCMV).

Em linhas gerais, o PMCMV é formado por dois subprogramas: o Programa Nacional de Habitação Urbana (PNHU) e o Programa Nacional de Habitação Rural (PNHR). O PNHR tem por objetivo subsidiar a produção ou reforma de imóveis aos trabalhadores rurais, agricultores familiares, comunidades tradicionais (como quilombolas, extrativistas, pescadores artesanais, ribeirinhos e indígenas) e reassentados do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (INCRA), cuja renda familiar anual bruta não ultrapasse R$ 60.000,00. O PNRH é composto por duas fontes de recursos advindos do OGU e de recursos do FGTS, onde as unidades

8 Os beneficiários do Minha Casa Minha Vida tinham à disposição uma linha de crédito, que segundo o

Ministério das Cidades era em torno de R$ 18,7 bilhões para a compra de móveis e eletrodomésticos para as novas unidades habitacionais. O anúncio do financiamento foi denominado de “Minha Casa Melhor”. As famílias poderiam financiar até R$ 5 mil, com taxas de 5% ao ano, e o prazo de pagamento era até 48 meses e desconto de 5% em relação aos preços à vista.

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habitacionais poderiam ser contratadas na zona rural de qualquer município, independentemente do seu número de habitantes.

Em relação ao Programa Nacional de Habitação Urbana, este tem por objetivo a produção ou aquisição de novas unidades habitacionais ou a requalificação de imóveis urbanos para famílias com renda mensal de até R$ 5.000,00 reais. O PNHU visa à compatibilização da prestação da casa própria com a capacidade de pagamento da família, onde é estabelecida modalidade segundo o porte do município e a Faixa de renda da família beneficiária. Em linhas gerais, o PNHU é composto por cinco modalidades: PMCMV empresas, municípios, oferta pública, entidades e FGTS (Quadro 2).

Quadro 2: Programa Minha Casa Minha Vida: Modalidades, Faixas e Fontes de Recursos.

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