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O Programa Nacional do Livro e do Material Didático57 é entendido “como uma estratégia de apoio à política educacional implementada pelo Estado brasileiro”, com o intuito de atender uma necessidade que se fez obrigatória a partir da Constituição Federal de 1988, que estabelece que “O dever do Estado para com a educação será efetivado mediante a garantia de [...] VII – atendimento ao educando no ensino fundamental, através de programas suplementares de material didático- escolar, transporte, alimentação e assistência à saúde” (HÖFLING, 2000, p. 159- 160).

57 A partir da publicação do Decreto nº 9.099 de 18 de julho de 2017, o PNLD (Programa Nacional do

Livro Didático) passou a ser denominado, sob a mesma sigla, de “Programa Nacional do Livro e do Material Didático”.

Trata-se de um programa muito amplo de aquisição e distribuição de livros e materiais didáticos, que tem grande relevância no âmbito da política educacional brasileira. Para Silva (2012, p. 817), o PNLD se constituiu como uma política de Estado e “tornou o livro didático um objeto acessível para praticamente todos os estudantes de escolas públicas brasileiras”. Isso pode ser verificado, pelo menos em termos legais, na LDB (BRASIL, 1996), na qual se determina o atendimento aos estudantes “em todas as etapas da educação básica”, conforme alteração de redação dada pela Lei nº 12.796 de 2013; e em outros documentos oficiais, tais como a Resolução nº 42, de 28 de agosto de 2012, que dispõe sobre o Programa Nacional do Livro Didático e o Decreto nº 9.099 de 18 de julho de 2017, que discorre sobre o Programa Nacional do Livro e do Material Didático.

O PNLD passou por muitas modificações ao longo dos anos, sua execução foi realizada por diversos órgãos (HÖFLING, 2000) e seu modo de funcionamento também sofreu alterações no decorrer da sua história, que teve início em 1929, com a fundação do Instituto Nacional do Livro (DI GIORGI et al., 2014)58. O atual formato do PNLD começou a ser delineado a partir de 1996, consolidado pelo Decreto nº 7.084 de 2010 (BRASIL, 2010), o qual foi revogado pelo Decreto nº 9.099 de 2017 (BRASIL, 2017). De acordo com o novo Decreto (BRASIL, 2017), o PNLD tem como objetivos:

I - aprimorar o processo de ensino e aprendizagem nas escolas públicas de educação básica, com a consequente melhoria da qualidade da educação; II - garantir o padrão de qualidade do material de apoio à prática educativa utilizado nas escolas públicas de educação básica;

III - democratizar o acesso às fontes de informação e cultura;

IV - fomentar a leitura e o estímulo à atitude investigativa dos estudantes; V - apoiar a atualização, a autonomia e o desenvolvimento profissional do professor; e

VI - apoiar a implementação da Base Nacional Comum Curricular (BRASIL, 2017, Art. 2º).

Nesse contexto, o PNLD assume a tarefa de avaliar e disponibilizar obras didáticas e outros materiais de apoio ao trabalho educativo, de maneira sistemática, regular e gratuita. E, a partir do Decreto 9.099 de 2017, prevê o atendimento não só às escolas públicas da educação básica, mas também, “às instituições comunitárias, confessionais ou filantrópicas sem fins lucrativos e conveniadas com o Poder Público” (BRASIL, 2017, Art. 1º).

58 Os artigos de Höfling (2000) e Di Giorgi et al. (2014) apresentam uma descrição da história do

Esse Programa envolve grande empenho do Estado brasileiro, tanto no planejamento, quanto na implementação para atender aos estudantes do ensino fundamental, do ensino médio e, atualmente, da educação infantil, como pode ser observado no Decreto de 2017 (BRASIL, 2017).

Ainda de acordo com o novo Decreto nº 9.099/2017, o PNLD abrange:

a avaliação e a disponibilização de obras didáticas e literárias, de uso individual ou coletivo, acervos para bibliotecas, obras pedagógicas, softwares e jogos educacionais, materiais de reforço e correção de fluxo, materiais de formação e materiais destinados à gestão escolar, entre outros materiais de apoio à prática educativa, incluídas ações de qualificação de materiais para a aquisição descentralizada pelos entes federativos (BRASIL, 2017, Art. 1º, § 1º).

Observa-se uma preocupação com a expansão do atendimento para toda a educação básica e uma expansão em termos de materiais que se pretende disponibilizar para as escolas. Há, também, no âmbito desse Programa (já de longa data), uma preocupação com a qualidade das obras didáticas, sendo implantado um processo de avaliação, com o intuito de melhorar a qualidade das coleções distribuídas nas escolas.

Com a publicação do Decreto nº 9.099/2017, foi ampliado o número de profissionais da educação beneficiados pelo Programa, pois, além de oferecer livros e outros materiais didáticos aos alunos e professores das escolas públicas (que já eram contemplados pelo Programa, conforme o Decreto nº 7.084 de 2010 – BRASIL, 2010), o novo Decreto prevê que “as ações do PNLD serão destinadas aos estudantes, aos professores e aos gestores das instituições” atendidas (BRASIL, 2017, Art. 1º, § 2º).

Cabe mencionar que o PNLD demanda um investimento de recursos públicos gigantesco. A título de exemplo pode ser observado no quadro 4, o demonstrativo físico-financeiro do PNLD 2016 (que atendeu integralmente os anos iniciais do ensino fundamental)59, explicitado no Relatório de Gestão do Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE – BRASIL, 2016).

59 Como o programa funciona em ciclos trienais, a cada ano é realizada a escolha e distribuição

integral de livros a um dos níveis de ensino e para os demais é feita apenas a reposição anual parcial das obras reutilizáveis que podem ter sido danificadas ou não devolvidas e ainda, quando há necessidade, é realizada complementação anual parcial, para cobrir eventual aumento de matrícula. Os livros consumíveis são distribuídos para todos os alunos anualmente (BRASIL, 2010; 2012).

Quadro 4 - Demonstrativo físico-financeiro do PNLD 2016

Fonte: BRASIL, 2016, p. 113

De acordo com o Relatório de Gestão do FNDE (BRASIL, 2016) referente ao exercício de 2015, os gastos do governo federal com o PNLD 2016 totalizaram mais de um bilhão de reais. Só para os anos iniciais do ensino fundamental foram investidos mais de R$ 400 milhões na aquisição e distribuição de obras didáticas. Ainda segundo o Relatório, no período compreendido entre 2012 a 2015, foram adquiridos e distribuídos no âmbito do PNLD, mais de 600 milhões de livros.

Além de promover recursos para o trabalho docente, de acordo com Di Giorgi et al. (2014, p. 136), o PNLD pode “contribuir para aumentar o capital cultural dos alunos e, consequentemente, de suas famílias”, sobretudo, considerando que os alunos das classes menos favorecidas não possuem recursos financeiros para investir na compra de livros.

Como se pode verificar, é uma política pública importante para a educação. Envolve um longo processo60 com altos custos para os cofres públicos. Precisa, portanto, efetivamente contribuir para a produção e disponibilização de livros e materiais didáticos de qualidade para as escolas. Em termos práticos, pode-se dizer que isso tem acontecido? No que se refere especificamente aos livros didáticos da área de ciências, esse Programa tem contribuído para a formação para a cidadania?

Sobre essa questão, vale ressaltar que essa política pública possui as condições para exigir coleções que se constituam em instrumento para a ação docente, de maneira a colaborar (com outras medidas), para a construção de concepções críticas e contextualizadas sobre a atividade científico-tecnológica e para a divulgação de propostas de ensino em consonância com os pressupostos CTS, visando à alfabetização científica e tecnológica dos estudantes. Essa afirmação se sustenta ao observar que, enquanto política pública, o Ministério da Educação (contando com comissão técnica, composta por especialistas de diferentes áreas do conhecimento)61, tem a prerrogativa de elaborar os editais que definem, em detalhes, as regras para a inscrição das coleções didáticas, as especificações técnicas, os parâmetros e as especificações da avaliação, bem como, os critérios avaliativos e de realizar o processo de avaliação pedagógica das obras didáticas, no âmbito do Programa.

Em outras palavras, o PNLD estabelece as regras, os critérios do processo avaliativo e realiza a avaliação oficial dos livros didáticos, influenciando, dessa maneira, na produção e na qualidade desses materiais.

Com o intuito de melhor conhecer o processo de avaliação oficial ao qual são submetidas as coleções didáticas de ciências no âmbito do PNLD e de avaliar as contribuições dessa política pública para o ensino de ciências sob o enfoque CTS, foi realizada uma análise dos critérios avaliativos oficiais para a área de ciências, no que diz respeito à presença da perspectiva CTS, cujos resultados são apresentados no item 5.

60 As etapas e os procedimentos adotados no âmbito do PNLD podem ser consultados no site do FNDE (http://www.fnde.gov.br/programas/programas-do-livro/livro-didatico/funcionamento) e no Decreto nº 9.099, publicado em 18 de julho de 2017, que dispõe sobre o Programa Nacional do Livro e do Material Didático.

61 O Decreto nº 7.084 de 2010 (BRASIL, 2010) já previa em seu Art. 11 que o Ministério da Educação

deveria constituir “comissão técnica integrada por especialistas das diferentes áreas do conhecimento”. O Decreto nº 9.099 de 2017 (BRASIL, 2017), manteve essa determinação.

4 CAMINHO METODOLÓGICO

Este capítulo explicita o caminho metodológico percorrido neste estudo, que teve como norteadora a seguinte indagação: Quais abordagens os livros didáticos integrados de ciências humanas e da natureza do PNLD 2016, destinados ao 4º ano do Ensino Fundamental, apresentam no que refere às inter-relações CTS?

As opções metodológicas e as etapas da pesquisa, com a descrição das razões que motivaram a escolha da amostra do estudo, os procedimentos para coleta dos dados e os parâmetros que guiaram a análise e a interpretação dos dados são apresentadas a seguir.