AULAS DE HISTÓRIA
2. O Projeto Residente e os Professores de História
O projeto Residente20 consiste em um levantamento de dados a partir de questionários que foram respondidos pelos estudantes e professores do Brasil e de outros países da América Latina. A análise dos dados permite compreender, diagnosticar, levantar hipóteses e abordagens das perspectivas do pensamento dos jovens estudantes do Ensino Médio e de seus professores sobre diversas temáticas, assim como análises comparativas no que se refere ao ensino e aprendizagem de História nos países da América Latina.
A equipe que compõe este projeto envolve professores pesquisadores de diversas instituições do Brasil e de outros países da América Latina, assim como discentes de pós-graduação e pós-graduação. Todos, em algum momento participaram tanto da elaboração dos questionários, como da coleta nas escolas e atualmente realizam análises e produção de trabalhos científicos com os referidos dados.
O software estatístico utilizado para tabulação e análise dos dados é o IBM SPSS, que segundo Barom: “É uma ferramenta que inclui uma ampla variedade de funcionalidades para acessar facilmente e gerir simultaneamente uma grande quantidade de dados, permitindo múltiplas formas de apresentação em tabelas e gráficos.”(BAROM, 2019, p.248)
Os questionários são quase inteiramente baseados na escala de Likert onde os estudantes e professores, diante de afirmações, tinham opções variadas, como por exemplo, se concordam totalmente, concordam, não têm opinião, discordam ou discordam totalmente do que está afirmado. Ou no caso da questão analisada neste trabalho as opções eram, nunca, quase nunca, às vezes, frequentemente, sempre. “Para cada uma destas opções, respectivamente, foram atribuídos os seguintes valores numéricos: -2, -1, 0, 1, 2. Estes valores foram, então, lançados no software, que calculou a intensidade de suas assinalações e dividiu pelo número de entrevistados.” (BAROM, 2019, p.249)
O questionário dos professores foi dividido em três blocos, sendo estes: Bloco I perfil;
Bloco II – Ensino e aprendizagem e Bloco III Passado, Presente e Futuro, que totalizaram 23 questões. Para este trabalho vou me deter aos questionários respondidos por 122 professores brasileiros.21
A faixa etária dos participantes é ampla e está entre 18 e 57 anos. Já em relação ao sexo temos 72 do sexo feminino, 48 do sexo masculino e 2 não responderam.
A primeira questão do Bloco I era sobre a formação e nos permite delimitar quanto a formação a área de conhecimento que estamos trabalhamos.
Vejamos a tabela 1
20 O título deste projeto que possui financiamento da CNPQ é: “Projeto Residente: observatório das relações entre jovens, história e política na América Latina”, sob a coordenação do professor Dr. Luis Fernando Cerri, docente da Universidade Estadual de Ponta Grossa.
21 Vale ressaltar que embora a amostra de 122 questionários possa parecer pequena frente ao número de professores de História do Brasil, sua análise permite levantar hipóteses sobre diversos elementos, sem perder de vista que não temos a pretensão de afirmar que as considerações deste trabalho se estendam aos demais professores não participantes.
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Tabela 1: 1. Qual a sua formação docente?
Frequency Percent Valid
Outro curso superior que não de
formação de professores de História 3 2,5 2,5 4,1
Curso superior de formação de
professores de História. 116 95,1 95,1 99,2
Não possuo curso superior. 1 ,8 ,8 100,0
Total 122 100,0 100,0
Fonte: Dados do Projeto Residente, 2019. Organizados pelos autores.
Como evidencia a tabela 116 dos participantes possuem curso superior de formação de professores de História, 3 possuem outro curso superior que não de formação de História, um não possui curso superior e dois não responderam a essa questão. Ou seja, podemos afirmar que a maioria está situada no âmbito da formação em História.
Com o intuito de saber em que tipo de instituição ocorreu a formação inicial, a segunda questão era:
Tabela 2: 2. Sua formação inicial ocorreu em que tipo de instituição superior?
Frequency Percent Valid
Fonte: Dados do Projeto Residente, 2019. Organizados pelos autores.
A maioria dos participantes desta pesquisa (101) se formou na Universidade Pública, 13 na Universidade Privada, 4 em Faculdade ou Instituto, 2 em Faculdade ou instituto Terciário Público e 2 não responderam. Desta forma, podemos afirmar que a maioria teve sua formação em História numa Instituição Pública.
Também foi perguntado sobre a pós-graduação com o objetivo de compreender a formação continuada e se essa ocorre dentro da área de conhecimento da sua formação.
Tabela 3: 3. Possui curso de pós-graduação?
Frequency Percent Valid
Sim, na área de História. 66 54,1 54,1 91,0
Não 11 9,0 9,0 100,0
Total 122 100,0 100,0
Fonte: Dados do Projeto Residente, 2019. Organizados pelos autores.
Dos 122 professores, 109 possui curso de pós-graduação, sendo que 66 na área de História e 43 em área diferente e apenas 11 responderam não possuir nenhum curso de pós-graduação e 2 não responderam.
Na questão número 4 foi perguntado sobre quantos anos tinham de formação, ou seja, quando se formaram.
Tabela 4: 4. Há quanto tempo concluiu sua formação para lecionar, incluindo o corrente ano?
Frequenc y
Percent Valid Percent
Cumulative Percent
Valid
2 1,6 1,6 1,6
Até 3 anos 11 9,0 9,0 10,7
de 4 a 8 anos 25 20,5 20,5 31,1
de 9 a 15 anos 31 25,4 25,4 56,6
de 16 a 25 anos 42 34,4 34,4 91,0
26 anos ou mais 11 9,0 9,0 100,0
Total 122 100,0 100,0
Fonte: Dados do Projeto Residente, 2019. Organizados pelos autores.
Podemos analisar que o grande grupo está concentrado de 16 a 25 anos, ou seja, que se formaram no período de 1994 a 2003 com 42 professores, logo em seguida vem os que se formaram de 9 a 15 anos, que compreendem o período de 2010 a 2004, com 31 professores e empatados temos os dois grupos de menor e maior tempo de formação, ou seja, os de até 3 anos de formados e os de mais de 26 anos de formados, ambos com 11 professores cada.
O questionário possui outras 6 questões no Bloco I sobre o perfil dos participantes, entretanto para este trabalho vamos considerar apenas essas apresentadas anteriormente, pois nossa escolha foi analisar como o grupo que se formou de 16 a 25 anos, que é o maior número de participantes (42) responderam a questão 11 do Bloco II, bloco este que discorre sobre ensino e aprendizagem da História. Tal escolha se justifica por alguns critérios, primeiro por ter o maior número de participantes e por abranger um período em que as discussões sobre o ensino de História e a legislação estavam trazendo propostas interessantes sobre o processo de ensinar e aprender historicamente. Desta forma, ao analisar este grupo, pretendemos levantar hipóteses sobre a sua formação e a sua prática, mesmo que neste momento de forma preliminar.22
A questão 11 discorre sobre: O que normalmente acontece nas suas aulas de História?
Fizemos uma tabela a partir dos dados do programa SPSS que permite isolar o que estes 42 professores responderam sobre suas aulas.
Vejamos:
Tabela 5.
22 Posteriormente temos à pretensão de analisar as demais categorias quanto ao tempo de formação.
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11.O que normalmente acontece nas suas aulas de História
4. Há quanto tempo conclui sua formação para lecionar, incluindo
Às vezes Frequentemente sempre 11.1 Os estudantes ouvem as
minhas exposições sobre o passado
0 1 10 23 8 42
11.2 Informo aos alunos sobre o que foi bom ou mau, certo ou
11.6 Eles ouvem áudios ou veem filmes e vídeos sobre História
11.10 Busca e análises de material na internet
0 2 15 21 4 42
11.11 Produção de textos, material audiovisual ou digital
1 2 16 14 9
Fonte: Dados do Projeto Residente, 2019. Organizados pelos autores.
Como podemos visualizar na tabela 5 a pergunta 11 do questionário trazia 11 afirmações, e em cada uma, os participantes tinham como opções de respostas: nunca, quase nunca, às vezes, frequentemente e sempre. Neste trabalho, a análise recairá quase que exclusivamente para categoria “sempre”.
De acordo com a tabela podemos inferir que na categoria “sempre” os dados indicam que para este grupo o que mais ocorre nas aulas são as discussões sobre as diferentes explicações sobre o passado (11.3), 18 professores afirmaram que isso sempre ocorre nas suas aulas. Este é um dado que pode revelar que nestas aulas é possibilitado aos estudantes compreenderem que a História é construída por diferentes perspectivas teóricas, o que permitiria desmistificar a ideia de uma história única e produzir uma aprendizagem histórica.
Outro número interessante é que depois das discussões sobre as diferentes explicações sobre o que aconteceu no passado vem a utilização do material didático (11.7), 14 responderam que sempre usam livros escolares, apostilas ou outro tipo de material impresso(xerox), isso revela que as explicações estão articulados com um material didático. Muitas pesquisas, principalmente sobre a utilização do livro didático nas aulas de história afirmam a constante presença deste recurso nas aulas.
Entendemos que o Programa Nacional do Livro Didático (PNLD), principalmente nos anos 80 e posteriormente, permitiu, juntamente com os professores das Universidades e os professores da Educação Básica aperfeiçoarem as narrativas históricas e os recursos presentes nos livros didáticos, procurando focar, dentre outras na questão da aprendizagem histórica.
Embora saibamos que a forma de utilização deste material possa ocorrer de diversas maneiras, é possível pensar que as modificações ocorridas, mesmo que em alguns aspectos de forma discreta, possam ter sido percebidas por este grupo na sua formação e/ou na sua prática enquanto professores.
Outro aspecto que nos chama atenção é o dado que 12 professores afirmaram que sempre informam aos alunos sobre o que foi bom ou mau, certo ou errado na História (11.2). Essa afirmação precisa ser tomada com algumas ponderações. Se indicar juízo de valor sobre eventos históricos, ela se torna preocupante, pois para a história todo acontecimento histórico precisa ser compreendido dentro do seu tempo e espaço e articulados com os processos históricos mais amplos aos quais estão vinculados. Quando o professor ao explicar atribui este sentido de bom ou mau, certo ou errado pode incorrer em uma simplificação e acabar dando um direcionamento aos estudantes em detrimento de outras perspectivas e/ou explicações históricas. No entanto, quando o professor se refere a eventos que são inadmissíveis na história da humanidade, como por exemplo, o Holocausto, crimes de guerra e torturas podemos considerar essa possibilidade de explicação.23
O restantes das respostas, como é visível na tabela tiveram um coeficiente menor em relação as anteriores e estão relacionadas com a participação dos estudantes, por exemplo, 9 responderam que sempre ocorre produção de textos, material audiovisual ou digital; 8 que sempre os estudantes ouvem as suas exposições sobre o passado, 6 afirmaram que sempre os estudantes pesquisam diversas fontes históricas: documentos, fotografias, figuras, mapas e 6 que sempre os ouvem áudios ou veem filmes e vídeos sobre História; 6 que sempre fazem trabalho em grupo; 4 que sempre fazem buscas e análises de material na internet; apenas 1 respondeu que sempre os próprios estudantes recordam e reinterpretam a História e apenas 1 também que sempre fazem teatro, visitas a museus, projetos com a comunidade.
Tais dados podem indicar que a participação dos estudantes é um elemento secundário, pois as respostas do que sempre normalmente se centram as aulas ainda estão focadas na prática do professor. Segundo Caimi e Oliveira, “[...] tão importante quanto a explicação de uma situação concreta do passado seria os alunos compreenderem como se chegou a tal conhecimento, identificando hipóteses, raciocínios e métodos que orientaram os historiadores na sua produção.”
(CAIMI; OLIVEIRA, 2014, p.92)
A tabela 5 revela-se muito rica no que se refere as variantes e também aos inúmeros cruzamentos. Essa análise preliminar dos dados aqui pontuados é um exercício necessário para o entendimento do todo. Assim, em um segundo momento tenho a pretensão de explorá-la nas demais categorias de respostas, observando sempre as possibilidades de cruzamento de dados favorecendo uma ampla análise.
23 Pode ser que os 6 professores que responderam que normalmente isso nunca ocorre nas suas aulas de História, tenham tido este entendimento da questão.
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Referências bibliográficas
BAROM, Wilian Carlos Cipriani. Pesquisas na área do Ensino de História e o Software IBN SPSS Statistics. História & Ensino, Londrina, v.25, n.02, p.239-268, jul./dez.2019.
BARREIRO, Iraíde Marques de Freitas; GEBRAN, Raimunda Abou. Prática de Ensino e Estágio Supervisionado na Formação de Professores. São Paulo: Avercamp, 2006.
CAIMI, Flávia Eloisa; OLIVEIRA, Sandra Regina Ferreira. A História ensinada na escola: é possível penar/agir a partir do todo? Interações, Campo Grande, v.15, n.1, p.89-99, jan./jun.
2014.
FOSENCA, Selva Guimarães; COUTO, Regina Célia do. A formação de professores de
História no Brasil: perspectivas desafiadoras do nosso tempo. In: FONSECA, Selva Guimarães;
ZAMBONI, Ernesta. Espaços de formação do professor de História. Campinas: Papirus, 2008.
p.101-130
ZAMBONI, Ernesta; LUCINI, Marizete; MIRANDA, Sonia Regina. O saber histórico escolar e a tarefa educativa na contemporaneidade. IN: SILVA, Marcos (org.). História: que ensino é esse? Campinas: Papiprus, 2013. p.253-276