MAPEAMENTO IMAGÉTICO IDENTITÁRIO II O TERRITÓRIO DA PRÁTICA
2. MOVIMENTOS CONTEMPORÂNEOS EM PROL DE BASE, DIRETRIZ E ESPECIFICIDADE PARA A PRÁTICA EM PEDAGOGIA ESPECIFICIDADE PARA A PRÁTICA EM PEDAGOGIA
2.4. O que expressa a Imagem Identitária Social?
No bojo destas propostas-ações reais, constata-se que as reflexões sustentadoras da Pedagogia como uma Prática Social encontram-se afundadas nas temáticas concernentes às relações existentes entre os agentes sociais e os sistemas institucionais também ‘vítimas’ dos diversos enquadramentos das atividades científicas e que vão encontrar na construção dos valores e das culturas os pontos principais e básicos da construção dessas Imagens Identitárias Socialmente reconhecidas.
Nesse sentido, assim como a Imagem Identitária Científica, a proposta Imagética Identitária nascida desses empenhos sociais aprisiona e enreda a Pedagogia em suas complexas tramas político-culturais, impedindo que esta se manifeste e produza conhecimentos genuinamente pedagógicos, porque estes, quando se apresentam, estão acoplados à docência ou às especialidades científicas. O problema que a vontade de identidade social imputa é precisamente a de não saber lidar com os agenciamentos (multiplicidades) próprios da atuação de uma Pedagogia Menor.
Nesta direção, há quem acredite e aposte, de maneira bem fundamentada teoricamente e articulada na prática, nas possibilidades de atuação desta Pedagogia. Para que isso se realize, é vital se compreender, por dentro, as lógicas
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soberanas daquele que explica, ou melhor dizendo, acredita que ensina.
[...] é preciso inverter a lógica do sistema explicador. A explicação não é necessária para socorrer uma incapacidade de compreender. É, ao contrário, essa incapacidade, a ficção estruturante da concepção explicadora de mundo [...]. Compreender é o que a criança não pode fazer sem as explicações fornecidas, em certa ordem progressiva, por um mestre. (RANCIÈRE, 2004, p.23)
Há que se entender que não é a criança que precisa de um mestre, mas é este mestre que precisa da criança para continuar se mantendo como mestre e por isso fica tão difícil, para não dizer impossível, que as aprendizagens sejam compreendidas através e na experiência, porque a experiência é aquilo que nos tira do lugar de certeza, nos invade, nos move e mobiliza. Portanto, o que se entende como aprendizagem, na verdade, é compreensão, a compreensão que continua precisando estar aprisionada e acoplada à lógica do controle, das teorizações, do sedentarismo e de um conteúdo e seus resultados. A aprendizagem é livre, pois é da ordem da experiência e do acontecimento.
Para pensar sobre como se opera essa identidade social, volta-se a atenção para o que Deleuze e Guattari apresentam como sendo um agenciamento - um agenciamento comporta dois segmentos, um de conteúdo e outro de expressão. O primeiro é o Agenciamento Maquínico de Desejo e o segundo é o Agenciamento Coletivo de Enunciação. Os dois segmentos se imbricam, estão em direta ligação. O funcionamento-conteúdo, o desejo-conteúdo (a mistura de corpos) está sempre diagonalizando a expressão, as singularidades expressivas (o coletivo de enunciação).
Ora, um agenciamento qualquer comporta necessariamente, tanto as linhas de segmentaridade dura e binária, quanto linhas moleculares, ou linhas de borda, de fuga ou de declive. Os dispositivos de poder não nos parece exatamente constitutivos dos
ϭϰϲ agenciamentos, e sim que fazem parte deles em uma dimensão sobre a qual todo agenciamento pode cair ou se curvar. (DELEUZE; PARNET,1998, p.153)
O conceito de agenciamento refere-se às instituições fortemente territorializadas e, estamos na presença de um, quando se pode identificar e descrever o acoplamento de um conjunto de relações materiais e de um regime de signos correspondente. No caso da Imagem Identitária construída socialmente, vive-se um agenciamento maquínico sendo operado a cada tentativa de modelação Imagética Identitária da profissão. Há duas expressões de agenciamento: o molar e o molecular.
No território da prática social, demonstra-se o funcionamento do agenciamento molar em que se separa de forma extremamente demarcada o conteúdo (a identificação profissional) da expressão (como pode se manifestar a partir dos encontros que estabelece); a expressão necessariamente aparece em função do conteúdo. No agenciamento molecular não há sujeito, é imanência pura, e o conteúdo é arrastado pela expressão. O molar está para as intenções, assim como o molecular está para as enunciações. Ambos os processos não operam através de um princípio lógico de contradição, por isso há esperança de que dentro do território da prática social possa emergir uma outra expressão- manifestação da Pedagogia. Do molar pode nascer um molecular e neste também pode se instaurar o molar.
Isso porque a máquina é desejo, não que o desejo seja desejo da máquina na máquina, e de construir uma nova engrenagem ao lado da engrenagem precedente, indefinidamente, mesmo que essas engrenagens tenham ar de se oporem, ou de funcionarem de maneira discordante. O que forma a máquina, para falar claramente, são as conexões, todas as conexões que conduzem à sua desmontagem. (DELEUZE; GUATTARI, 1977, p.119)
Nas obras conjuntas de Deleuze e Guattari, encontram-se muitos conceitos que têm a mesma significância ou funcionalidade, como na obra sobre Kafka o
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conceito de Agenciamento substitui o de Máquinas Desejantes presente na obra o Anti-Édipo. O desejo é máquina, é encontro, é acontecimental, é funcionamento, diferentemente de um desejo entendido como carência, como falta e funcionante como necessidade do encontro (Édipo = estriamento de espaços). “O desejo é fundamentalmente polívoco e sua polivocidade faz dele um único e mesmo desejo que banha tudo”. (DELEUZE; GUATTARI, 1977, p. 85). Assim, se o desejo é produção, o ‘agenciamento-desejo’ é maquínico e, portanto, produção.
Contudo, este contexto descrito faz relação com a problemática da produção de novos enunciados, enunciados coletivos que não estejam sujeitados. Essa não-sujeição pode ser encontrada a partir da articulação entre o celibatário (singularidade – atual) e o povo (coletividade – virtual), ambos reais. São as produções dos celibatários ou singularidades artísticas que atualizam a virtualidade dos coletivos, ambos reais, são peças/engrenagens da máquina agenciamento.
A máquina abstrata (virtualidade) corresponde ao campo social, o coletivo, e o agenciamento maquínico, ao concreto (atual), que corresponde às singularidades em curso, ou seja, o celibatário. Os corpos desejantes são intensidades produzidas no processo, que estão inscritas nas conexões e polivocidades da máquina-cena como máquina desejo. “O agenciamento não tem somente duas faces. De um lado, ele é segmentário, estendendo-se sobre vários segmentos contíguos, ou se dividindo em segmentos que são por sua vez agenciamentos” (DELEUZE; GUATTARI, 1977, p. 124).
Assim, três são os elementos que (se) agenciam e formam a máquina: a) campo de justiça contra a lei transcendente; b) a linha contínua de fuga contra a segmentaridade de blocos; c) as duas grandes pontas de desterritorialização. Estes elementos são, em parte, responsáveis por quatro tipos de agenciamentos descritos na obra de Kafka: o primeiro refere-se ao agenciamento-cartas, o segundo de tornar-se animal, o terceiro de tornar-se feminino e o quarto e último, o agenciamento celibatário ou máquina artística de minoria. Este quarto, chamado de Função K, remete às construções-criações de alguém que não é sujeito,
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falando em nome de muitos. Não se instaura uma discursividade que vira lei, mas há a expressão pura dos desejos maquínicos expressantes na esfera social. Este último agenciamento, esta última função, que se encontra sempre em co- habitações com outras plurais funções, dá pistas sobre um funcionamento singular da Pedagogia, fora da Imagem Identitária socialmente exigida. Por isso, a expressão desta maquinaria Social é justamente de uma alternância entre dois pólos: um, o sócio-cultural da Pedagogia (que encontra na construção de valores modelizados e representativos suas bases apropriativas – Didáticas e Disciplinas científicas) e outro, o que faz da existência expressiva desses elementos a afirmação de suas Diferenças.
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