5. RESULTADOS
5.1 AS CATEGORIAS CONCRETAS DO VIVIDO DOS ENFERMEIROS
5.1.2 PROJETANDO UM CENÁRIO PARA O FUTURO
5.1.2.2 O reconhecimento da responsabilidade gerencial
Ao se projetarem para o futuro, os enfermeiros gerentes reconhecem seu papel como fundamental na problemática das restrições para o trabalho, mostrando a sua importância enquanto agente transformador:
A gente tem que fazer algo diferente. E dentro do que tá, não vai demolir o hospital. Não vai! Não vai construir outro. Mas a gente pode fazer ficar melhor, a gente pode, acredito nisso (Jade).
O papel gerencial é traduzido na maneira com que o enfermeiro reconhece os limites dos trabalhadores com restrição e media os conflitos entre os trabalhadores sadios:
E... Você tem que distribuir de acordo com... De forma que os funcionários tenham o número de pacientes pra prestar o cuidado, né. Se eu tenho um funcionário com incapacidade, eu vou ter que tirar esse funcionário desse tipo de cuidado (...) (Francisca).
Porque tem funcionário que eu tenho que chegar e falar... “Olha, você não está seguindo nada da sua restrição... Então vamos tentar, né, fazer isso...” (Edna). (...) tentando criar estratégias pra isso, para minimizar o conflito dentro da equipe, respeitar a restrição que o funcionário tem. Respeitar (...) respeitar a história que ele tem dentro da instituição, né. É... (...) E respeitar, assim, as restrições que são impostas, as restrições médicas que são impostas É um... É um desafio (Flora). (...) a gente precisa conversar com toda equipe, porque não é fácil, porque os próprios funcionários com incapacidade, eles reclamam dos colegas, que não tem ajuda, que tem dificuldade pra pedir, porque faz cara feia, porque dá indireta, né, então é bastante complicado nesse sentido (Francisca).
Mas você tem que estar sempre tomando cuidado, né. Minimizando o conflito ao máximo sabe que, se conflito começa a ser gerado, é muito difícil de você reverter e, aí (...) ter uma equipe desunida é muito complicado (Flora).
Além de mediar os conflitos, chama a atenção nos discursos a seguir, que o enfermeiro gerente reconhece em seu papel, a potencialidade de poupar e retardar o agravamento das lesões nos trabalhadores:
E assim, eu te afirmo uma coisa, depende muito do enfermeiro que está com esses técnicos, para aliviar um pouco quem tem restrição, que aí o enfermeiro assume um pouco daquela responsabilidade pra si, pra deixar o trabalhador com restrição dentro das normas certinhas do que o médico propôs (Túlia).
E... Se tem, assim, por exemplo, um plantão que eu tenho só eu e uma funcionária com incapacidade, aí eu peço ajuda, num raio X, peço ajuda pra alguém. Eu não deixo essa funcionária com incapacidade fazer alguma coisa que ela não possa (Jade).
Ás vezes pela restrição, a gente tenta assim... É... Mostrar o lado do outro, que às vezes, nem é possível... Ou comparar com outras unidades, o hospital como um todo... A gente vai ter que se ajudar, trabalhando, vendo o que um pode fazer... (Edna).
Eu espero que eu continue, que eu possa continuar assim vendo esses problemas, vendo essas coisas e eu possa continuar ajudando, falando e melhorando, porque, tudo o que eu fiz, de uma forma ou de outra, foi feito... Aquele chão tava quebrado, mas ele foi concertado. Do jeito que ficou, ficou melhor do que tava e não tá causando risco. Então, eu espero que eu possa continuar com essa força... (Jade).
Os discursos também evidenciam que os enfermeiros reconhecem a importância de uma gestão mais participativa:
(...) todas as equipes, eles sempre souberam que... podiam contar comigo, assim, pra assistência, pra ajudar em tudo e qualquer coisa. Então, é... sou uma enfermeira, assim, que... Eu atuo mesmo. Eu não fico só escrevendo, só papel. Então é dessa forma que eu trabalho, assim, conversando, né, a gente... Eu faço também, eles sabem que podem contar comigo (Jade). (...) às vezes, eu como gerente, não percebo mas que o grupo vem... e fala, entendeu? Então, você tenta fala “olha, vamo tentar... Né”, realmente a gente pede assim: “ olha, quando você tiver com muita dor, então você vem e fala”... (Edna).
Os enfermeiros gerentes reconhecem o seu papel na função de sensibilizar os trabalhadores sadios para buscarem tratamento quando apresentam alguma queixa, a fim do diagnóstico e reabilitação precoces, conforme o relato abaixo:
(...) é o que eu falo pra eles, se você tá com dor, se você tá com... Você tem que
procurar um médico, né! É isso (Francisca).
O cuidado do enfermeiro gerente no momento de delegar atividades é ressaltado como um fator de melhora na problemática das restrições, evitando o agravo e também os conflitos:
Os gerentes, os chefes, eles também tem que pensar... Vai mandar a mulher limpar o teto? Não tem condição (Jade).
Então, eu acho que é sempre um cuidado que o gerente tem que ter nesse sentido, de, sim, solicitar quando não tem jeito, mas tentar ser o mais igualitário possível, pra não gerar tipo de conflito entre eles (Flora).
Então, com bom-senso, com comunicação, né! E... E estabelecendo o que cada um pode fazer, o que não pode, sem sobrecarregar, também, aquele o... que “não tem nada” (Jade).
Então o que eu sempre peço pra eles é que não faça nada sozinho, que sempre solicite ajuda pra os colegas, tá (Francisca).
(...) tem que ser um acordo com a equipe. Não adianta eu fazer um acordo com um funcionário específico e... E a equipe não vir junto nesse acordo, né. É um pacote! E aí, se eu não conseguir estabelecer isso com a equipe toda eu não vou conseguir. Não é poupar... Eu não sei se a palavra poupar... mas acho que respeitar o limite do... de quem tem algum tipo de restrição, né (Flora).
Os discursos apontam a necessidade de transformações estruturais (física, mobiliário e equipamentos), e também, o investimento em melhorar as relações interpessoais no trabalho para amenizar a problemática:
E no caso das instituições, o redesenho dos postos das estações de trabalho, troca de equipamentos, investimentos em equipamentos que sejam adaptados para o trabalhador (Frederico).
A gente normalmente pensa, de primeiro momento, em ergonomia e em equipamentos. Mas também existem, pra melhorar as condições de trabalho, as relações interpessoais dentro do ambiente de trabalho. Como a enfermagem é uma profissão que trabalha em ritmo acelerado, muitas
vezes é um trabalho feminino, pode ser entre as questões de gênero (Frederico).
O trecho a seguir evidencia que o enfermeiro gerente deve estar atento para as mudanças na estrutura física e de mobiliário para melhor atender os pacientes, sem perder o foco na saúde dos trabalhadores:
(...) “ah...a gente não poderia trocar as poltronas... as cadeiras da sala de medicação por poltronas, porque fica mais confortável para o paciente?”... E a primeira coisa que veio na cabeça foi: “Vai ficar mais confortável para o paciente mas o cara vai passar o dia inteiro abaixando pra ficar puncionando veia, numa posição péssima” (Flora).
Além das transformações estruturais, é necessário o investimento em treinamento técnico, para efetividade dessa estratégia gerencial:
(...) a gente até percebe alguns equipamentos que foram trocados na Instituição, mas que eles são pouco utilizados pelos trabalhadores. Então, a instituição, por exemplo, investiu em elevadores de pacientes, camas elétricas, mas se elas são mal utilizadas, é um investimento que não teve utilidade alguma. Porque, é aí que entra a gerência, se a gerência não treinou, a instituição investiu, a gerência não treinou e o trabalhador não tá utilizando corretamente equipamento (Frederico).
Nesse sentido, apesar dos enfermeiros reconhecerem seu papel para uma real mudança, os discursos revelam que os mesmos sentem o despreparo diante de tal problemática:
E aí acho que a gente fica meio sem saber o que fazer. (...) “Ahh... Não posso pôr aqui!” Mas tem uma, por exemplo, que ela só pode cuidar de paciente de semi, não pode cuidar de paciente de UTI, aí às vezes não tem pacientes de semi. “E agora o que é que ela vai fazer? Não sei o que eu faço com ela!” (Túlia).
É no sentido de a gente não tá se preparando pra lidar com esse funcionário da maneira correta, né. É... Tô falando de teoria. A gente não tem nenhum tipo de teoria, né? “Como é que eu lido?”, “Ah! Eu readequo!” Eu tenho que por ele num lugar onde ele não faz aquilo... Onde ele não repete o
movimento, já que ele tem problema com o movimento repetitivo. Será que é só isso? Não sei! Né. Será que o gestor tem mais algum papel além do respeitar a restrição médica? Não sei! (Flora).
(...) o enfermeiro no dia a dia, ele, é... Não tá capacitado pra esse enfrentamento, pra gerenciar esse conflito na equipe, é... A gente... Não tem essa discussão... Pelo menos os enfermeiros mais antigos não tem essa discussão na... Nem na faculdade e nem nas reuniões de grupo (Frederico). (...) alguma campanha institucional, alguma coisa que pudesse... É... Chamar a atenção dos gerentes, das chefias para isso... Pra essa problemática, para que a gente conseguisse aprender a lidar melhor com isso (...) Alguma teoria por trás disso, pra gente lidar com isso da melhor forma, né (Flora).
A enfermeira Flora destaca a importância de não criarmos uma cultura de que os trabalhadores são incapacitados devido à profissão, a fim de que possamos enfrentar essa problemática e no futuro esse quadro possa ser transformado:
(...) eu acho que a gente tem que começar a se questionar e parar de achar que isso é inerente a profissão (...) A gente fica vivendo um dia de cada vez, né. “Amanhã eu vejo que eu faço com a escala”... “Amanhã eu vejo como é que eu faço com isso”... Amanhã...? Eu não acho que a gente tá tendo a devida preocupação com o assunto é... E acho que a gente vai acabar tendo uma consequência disso né (Flora).