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2. A História dos Quilombos no Município de Anajatuba e a educação Escolar Quilombola

2.2 O reconhecimento dos territórios Quilombolas

Se hoje existem territórios Quilombolas no Brasil é porque num momento histórico, um grupo se posicionou, aproveitando uma correlação de forças políticas favoráveis e instituiu um direito que fez multiplicar os sujeitos sociais e as disputas territoriais.

Esse momento ocorreu com a aprovação da Constituição em 5 de outubro de 1988, segundo o art. 68 do ADCT, o qual passou a referir e salientar: Aos remanescentes das

comunidades dos quilombos que estejam ocupando suas terras é reconhecida a propriedade definitiva, devendo o Estado emitir-lhes os títulos respectivos (Tacito, 2005, p. 223).

Assim, o principal objetivo do art. 68 do ADCT, é o de assegurar a possibilidade de sobrevivência e florescimento de grupos dotados de cultura e identidade étnica próprias, ligadas a um passado de resistência à opressão, os quais, privados do território em que estão assentes, tenderiam a desaparecer, absorvidos pela sociedade envolvente nos territórios a que cada comunidade ocupa.

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Com o avanço das discussões sobre a territorialização dos Quilombos no Brasil, em 2003, é promulgado o Decreto nº 4887/2003 já supracitado acima e que origina o Decreto nº 3.912/200115.

Assim, marcava-se um avanço na tentativa de consolidação da Política de Regularização Fundiária, trazendo definições mais claras sobre o que a política de titulação compreende como Comunidades Quilombolas, demarcando funções junto aos órgãos institucionais, no que tange ao papel do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária, (INCRA), vinculado ao Ministério do Desenvolvimento Agrário, (MDA) e à Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial, (SEPPIR) e da Fundação Cultural Palmares, (FCP), pertencente ao Ministério da Cultura, (MINC).

O Decreto regulamenta o procedimento para identificação, reconhecimento,

delimitação, demarcação e titulação das terras ocupadas por remanescentes das comunidades quilombola e traz no seu Art. 2º, uma nova definição de remanescente de Quilombo, conceito

este definido como contemporâneo:

Consideram-se remanescentes das comunidades dos Quilombos, para os fins deste Decreto, os grupos étnico-raciais, segundo critérios de auto atribuição, com trajetória histórica própria, dotados de relações territoriais específicas, com presunção de ancestralidade negra relacionada com a resistência à opressão histórica sofrida. (Brasil, 2003).

Mais tarde e ainada, neste âmbito, o Decreto 4887/2003 contribui, para a ampliação do rol de comunidades que podem recorrer ao direito de demarcação e titulação coletiva de suas terras, marcando mais um avanço, no que tange regularização fundiária.

No que concerne ao Município de Anajatuba, o que foi feito a partir de 2005, para o reconhecimento dos territórios Quilombolas partiu das próprias comunidades e das orientações de movimentos sociais ligados à Igreja católica, como a Comissão da Pastoral da Terra, (CPT)16. No entanto, de 2005 a 2012, o processo de reconhecimento das comunidades foi moroso, devido a não ter recebido o apoio necessário.

No gráfico 13, observamos e inferimos as principais informações, no que concerne às comunidades Quilombolas de Anajatuba, segundo o site da Fundação Cultural Palmares17

15 Regulamentava as disposições relativas ao processo administrativo para identificação dos remanescentes das comunidades dos

quilombos e para o reconhecimento, a delimitação, a demarcação, a titulação e o registro imobiliário das terras por eles ocupadas. Disponível em www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto/2001/d3912.htm. Pesquisa realizada em 29 de janeiro de 2017

16 Comissão Pastoral da Terra (CPT) é um órgão da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), vinculado à Comissão

Episcopal para o Serviço da Caridade, da Justiça e da Paz e nascido em 22 de junho de 1975, durante o Encontro de pastoral da Amazônia, convocado pela CNBB e realizado em Goiânia.

https://pt.wikipedia.org/wiki/Comissão_Pastoral_da_Terra. Pesquisa realizada em 30 de janeiro de 2017

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Gráfico 13: Comunidades quilombolas em Anajatuba entre os anos de 2005 a 2016

Fonte: www.palmares.gov.br

Todo este processo de reconhecimento, por parte das comunidades precisa passar por etapas e requer tempo, por parte das lideranças locais, uma vez que estas precisam organizar toda a documentação e dar entrada ao processo. Requer também recursos financeiros, visando subsidiar o deslocamento das lideranças, elaborar e encaminhar a documentação até à FCP, registrar e emitir documentos, junto aos órgãos competentes.

Em Anajatuba este processo foi ainda mais difícil, pois a maioria das comunidades encontra-se localizada em lugares de acesso complexo e ninguém possui acesso à internet, telefone, correio, etc. Estes fatores refletir-se-ão no processo de demanda de titulação de terras, contribuindo para a lentidão com que se implementa esta política no município referente.

Apenas, após a comunidade ter conseguido a Certificação, enquanto remanescente de

Quilombo, os grupos podem solicitar a titulação de suas terras. Para tal, precisam manifestar

interesse via documento redigido por algum representante local, ou pelo INCRA, conforme o descrito no Artigo 07, da Instrução Normativa nº 57/200918. Em seguida, dá-se andamento aos estudos técnicos e científicos, contribuindo para a elaboração de relatórios antropológicos, denominados de Relatório Técnico de Identificação e Delimitação – RTID, que têm como objetivo descrever as características do território e apresentar os fatores econômicos, ambientais e socioculturais das comunidades. O INCRA no Estado do Maranhão dá um prazo mínimo de três anos para fazer esse estudo científico.

O Município de Anajatuba atualmente, apenas possui três comunidades remanescentes: Pedrinhas Itapecuru, Pedrinhas Anajatuba e Queluz. Tal, está relacionado com a morosidade da Titulação de Terras Quilombolas, devido a alguns fatores: falta de recursos financeiros, por parte do governo (para indeminizar terras e pagar aos servidores, etc.); de mão

18 Regulamenta o procedimento para identificação, reconhecimento, delimitação, demarcação, desobstrução, titulação e registro das

terras ocupadas por remanescentes das comunidades dos quilombos de que tratam o Art. 68 do Ato das Disposições Constitucionais Transitórias da Constituição Federal de 1988 e o Decreto nº 4.887, de 20 de novembro de 2003. Disponível em www.incra.gov.br/institucionall/...--/atos.../243-instrucao-normativa-n-57-20102009. Pesquisa realizada em 17 de março de 2017

0 5 10 15 20 25 Nº de comunidades quilombolas em 2008 Nº de comunidades quilombolas em 2012 Nº de comunidades quilombolas em 2015 Nºde comunidades quilombolas em 2016 identificadas certificadas em processo de certificação territórios certificados

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de obra qualificada para fazer o reconhecimento dessas comunidades; do excesso de burocracia, para o acesso a esta política, (ex: processo de requerimento de Certificação pelo qual as comunidades precisam passar), além dos conflitos externos entre fazendeiros e as comunidades

Quilombolas.

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