Em sentido genérico, o termo “responsabilidade” designa a obrigação de responder por alguma coisa, impondo a execução de um ato jurídico que se tenha convencionado (responsabilidade contratual) ou o cumprimento de prestação atribuída à pessoa por determinação legal (responsabilidade extracontratual). Quando complementada pela expressão “civil”, a responsabilidade passa a exprimir, então, a obrigação de reparar ou ressarcir um dano, quando injustamente causado a outrem.1
Consistindo em um importante instrumento utilizado para resguardar o equilíbrio dos relacionamentos sociais, a origem da responsabilidade civil se deve ao aspecto moral intrinsecamente incluso neste instituto, no qual aquele que se apresenta como agente causador de um evento lesivo se torna obrigado a restaurar a situação ao seu estado anterior ou a indenizar o respectivo valor do prejuízo.
Neste sentido, conforme salienta Dias, a idéia de reparação do dano, que se apresenta como finalidade da responsabilidade civil “é inspirada, antes de tudo, na preocupação de harmonia e equilíbrio que orienta o direito e lhe constitui o elemento animador”.2
Quanto ao regime atribuído para a manifestação da responsabilidade civil extracontratual, no campo do direito comum vigora, na maioria das situações, a teoria da responsabilidade subjetiva, cujo enfoque recai sobre os danos ocasionados pela prática de atos ilícitos, estando a obrigação de reparar fundada na culpa, em sentido amplo, do agente causador.
1
SILVA, De Plácido e. Vocabulário Jurídico. 1997, p.124-125.
2
Segundo a sistemática subjetiva, descreve Pereira que o “âmago da responsabilidade está na pessoa do agente, e seu comportamento contrário ao direito. A norma legal alude ao dano causado, mas não é dano qualquer, porém aquele que se liga à conduta do ofensor.”3
Constata-se, assim, que o comportamento do agente é elemento fundamental para a apuração de sua responsabilidade, uma vez que o pressuposto do dever de indenizar, defendido pela teoria subjetiva, é a conduta culposa do agente.4
No entanto, o modelo de responsabilidade subjetiva não se mostrava suficiente para oferecer, em todas as situações, uma efetiva resposta aos danos constatados, devido à dificuldade de prova da culpa pela parte do lesado na relação jurídica, surgindo, para casos excepcionais, o regime da responsabilidade objetiva.
Com efeito, salienta Alonso que:
(...) a responsabilidade objetiva tomou corpo, quando o homem foi levado a uma situação de permanente perigo, fruto do enorme desenvolvimento tecnológico experimentado com o implemento da Revolução Industrial, sujeitando-o aos
infortúnios decorrentes dos riscos, sem que pudesse obter a reparação merecida.5
Em certas situações, diante das questões envolvidas, a opção do legislador não é a de colocar em relevo a falha de comportamento do agente, mas sim o dano, atendendo à necessidade primordial de sua reparação, determinando a objetivação da responsabilidade. Nestes casos, “pode o ato ser lícito ou ilícito, pode ou não haver conduta culposa, porém, aferido o necessário liame entre conduta e dano, existe a obrigação de indenizar”.6
A responsabilidade objetiva se destina, assim, a restabelecer o equilíbrio social com maior harmonia entre os interesses envolvidos diante da necessidade de segurança frente às transformações da sociedade, onde os riscos aumentam geometricamente e não se limitam à capacidade de previsão e controle do homem, expondo a sociedade como um todo.7
Neste sistema, o dano passa a ser reparado independentemente da existência de culpa, bastando a existência do evento lesivo e do nexo de causalidade. Não se indaga como ou porque ocorreu o dano, sendo suficiente apurar a ocorrência da lesão, vinculada a um fato qualquer, para se assegurar à vitima, a conseqüente reparação.8
3
PEREIRA, Caio M. da Silva. Responsabilidade civil. 2000, p.32.
4
ALONSO, P. Sérgio Gomes. Pressupostos da responsabilidade civil objetiva. 2000, p.20.
5
Ibid., p.36.
6
CASTRO, Guilherme de Couto. A responsabilidade civil objetiva no direito brasileiro. 1997, p.24.
7
ALONSO, P. Sérgio Gomes. op. cit., p.36-40.
8
Conforme salienta Iturraspe, com a responsabilidade objetiva, a antijuridicidade se desprende da conduta do agente e se desloca para o resultado da ação ou omissão, bastando a ocorrência do efeito repudiado pelo ordenamento para que incida a responsabilidade civil.9
Em sua atuação no campo ambiental, recebe a responsabilidade civil contornos específicos, adaptando a sua aplicação às características e à relevância do objeto protegido, adotando o critério da responsabilidade objetiva, conforme previsão do art. 14 da Lei nº 6.938/81, pelo qual “o poluidor é obrigado, independentemente da existência de culpa, a indenizar ou reparar os danos causados ao meio ambiente e a terceiros, afetados por sua atividade”.
O entendimento a respeito da objetivação da responsabilidade civil ambiental decorre também, nos dizeres de Fiorillo e Rodrigues, do teor da própria Constituição Federal, pois o parágrafo 3° do art. 225 não estabeleceu qualquer critério ou elemento vinculado à culpa como fator determinante para ensejar o dever de reparar o dano ambiental.10
Diante da natureza metaindividual que recai sobre o direito ao meio ambiente sadio e ecologicamente equilibrado, a responsabilidade objetiva representa, indiscutivelmente, o melhor mecanismo de se tutelar e efetivar a realização destes interesses difusos, já que neste caso não está se tratando de conflitos intersubjetivos, onde se pode levar em conta a intenção do agente, mas de violação ao interesse de toda a sociedade.
Destaca-se ainda, que a escolha sobre o sistema a regular este tipo de lesão deve ser realizada de forma a atender ao interesse coletivo, sendo importante e necessária a decisão a respeito da responsabilidade objetiva porque este “aperto de cinto” permite ao instituto adquirir caracteres preventivos servindo como forma de inibir a efetivação de danos a estes bens.
A razão do tratamento diferenciado definido para o dano ambiental decorre do fato do meio ambiente integrar a categoria de valores fundamentais, onde se protege a vida em sua dimensão intrageracional e intergeracional, bem como suas bases de sustentação.11
Em consonância ao estatuído por Benjamin, o modelo clássico de responsabilidade foi desenhado para situações em que a equação conflitiva operava no plano individual, de índole inter-subjetiva sintetizada no esquema um-contra-um, de modo que, sem “uma cirurgia
9
ITURRASPE, Jorge Mosset. El daño ambiental en el derecho privado. 1999, p.96.
10
FIORILLO, C. A. Pacheco; RODRIGUES, Marcelo Abelha. Manual de direito ambiental e legislação
aplicável. 1997, p.125.
11
radical, patente, então, que o dano ambiental, supraindividual por excelência, não poderia ser tratado pelo Direito Privado.”12
Adotando uma concepção redistributiva, embasada no princípio do poluidor-pagador, visando evitar o ônus social e impor a internalização das agressões ao ambiente, a responsabilidade civil ambiental adota o caráter objetivo da responsabilidade tendo “como base a socialização do lucro ou do dano, considerando que aquele que obtém lucro e causa dano com uma atividade, deve responder pelo risco ou pela desvantagem dela resultante.”13
Dissertando quanto ao regime de responsabilidade civil por danos ambientais, Milaré assevera que o dano ambiental possui legislação especial, sendo “regido pelo sistema da responsabilidade objetiva, fundado no risco, que prescinde por completo da culpabilidade do agente e só exige, para tornar efetiva a responsabilidade, a ocorrência do dano e a prova do vínculo causal com a atividade.14
Servindo de fundamento para a responsabilidade objetiva, a teoria do risco procura oferecer resposta a situações que, sem este acerto técnico, não seriam reparadas através da responsabilidade subjetiva, buscando estabelecer uma situação de equilíbrio, no qual impere a conciliação entre os direitos do homem e seus deveres para com seus semelhantes.15
Deste modo, enfatiza Machado que a responsabilidade civil ambiental é resolvida pelo binômio dano/reparação, não sendo questionada a conduta do agente ou a razão da degradação, já que o dano ao meio ambiente ”acaba sendo uma apropriação pelo poluidor dos direitos de outrem, pois na realidade a emissão poluente representa um confisco do direito de alguém em respirar ar puro, beber água saudável e viver com tranqüilidade”.16
Enfocando o dano ambiental, Mirra os conceitua como:
(...) toda degradação do meio ambiente, incluindo os aspectos naturais, culturais e artificiais que permitem e condicionam a vida, visto como bem unitário imaterial coletivo e indivisível, e dos bens ambientais e seus elementos corpóreos e incorpóreos específicos que o compõem, caracterizadora da violação do direito difuso e fundamental de todos à sadia qualidade de vida em um ambiente são e
ecologicamente equilibrado.17
Neste sentido, conforme descreve Leite, a expressão “dano ambiental” constitui-se na realidade, como um termo ambivalente, podendo designar tanto a alteração nociva do meio
ambiente, quanto a repercussão desta alteração na esfera de interesses das pessoas18,
12
BENJAMIN, Antonio Herman V. Responsabilidade civil pelo dano ambiental. p.19-20
13
LEITE, José R. Morato. Dano ambiental: do individual ao coletivo extrapatrimonial. 2003, p.126.
14
MILARÉ, Édis. Direito do Ambiente. 2005, p. 426.
15
DIAS, J. de. op. cit., p.57 e 84.
16
MACHADO. P Affonso Leme. Direito Ambiental Brasileiro. 2003, p. 327.
17
MIRRA, Álvaro L. Valery. Ação civil pública e reparação do dano ao meio ambiente. 2004, p. 94.
18
perspectiva esta que é reconhecida na própria Lei nº 6.938/81, que, ao tratar da responsabilidade refere-se a “danos causados ao meio ambiente e a terceiros”
Esta perspectiva é também acolhida por Catalá que identifica duas categorias distintas afetadas pelo dano ambiental, a primeira relacionada ao dano ambiental puro, alheio a qualquer conotação pessoal, e a segunda, correspondendo à integração do dano ambiental junto aos denominados danos pessoais, patrimoniais ou econômicos.19
No primeiro caso, o objeto a ser tutelado é o próprio meio ambiente em sua integridade e equilíbrio, considerado como bem autônomo e de interesse difuso, afeto a toda coletividade. Na segunda perspectiva, o prejuízo recai sobre a esfera de interesse de um particular, não mais como membro da coletividade, mas como indivíduo20, pois, neste caso, a lesão ao meio ambiente não é diretamente considerada, mas sim o seu efeito individual, motivo pelo qual esta modalidade de dano é denominada como dano ambiental individual, dano ambiental por ricochete, ou dano por intermédio do meio ambiente.
Para fins deste estudo, será adotada esta primeira modalidade, motivo pelo qual toda menção ao termo dano ambiental deverá ser considerada como lesão provocada ao meio ambiente como elemento autônomo, causando uma diminuição na qualidade de vida de toda a coletividade, dado o caráter indivisível do objeto tutelado.
4.2 DANO AMBIENTAL MINERÁRIO E O REGIME ESPECÍFICO DO DEVER DE