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1.2 O dever régio de distinguir pelas vestimentas

1.2.1 O rei, as cortes e o trato das vestimentas

A imagem do rei e seu entorno, retomada por García de Castrojeriz no século XIV em glosa a Egídio Romano, já inspirava os monarcas castelhanos, notadamente D. Afonso X (1221- 1284), nas Siete Partidas, código jurídico que, apesar de não ter sido promulgado,61 continuou servindo de reflexão para as leis dos monarcas dos séculos posteriores, e mesmo para resolução de pleitos, como ficará determinado por D. Afonso XI nas cortes de Alcalá de Henares de 1348, diante da existência de diversos ordenamentos.62 A quinta lei do quinto título da Segunda

Partida, que trata da maneira como o rei há de se vestir, já expressava a capacidade que as vestiduras tinham para fazer conhecer os “homens por nobres ou vis”, cabendo aos reis a prerrogativa de utilizar “panos de seda com ouro e com pedras preciosas, para que os homens pudessem conhecê-los logo que os vissem sem precisar perguntar [por] eles”.63 Para além desse reconhecimento para com os homens, as vestiduras preciosas tornavam notória “a significância de nosso senhor Deus, cujo lugar [os reis] têm na terra”, isto é, a boa aparência do monarca – vigário de Deus – engrandecia a função real e a Deus; daí que, se alguém trouxesse tais vestes – “como aquele que se atreve a tomar honra e lugar de seu senhor, não tendo direito de o fazer” –, deveria perder a vida (el cuerpo) e tudo o que tivesse. O rei, aliás, que consentisse tal

60 “Mas aquí conviene de notar que el rey de la tierra deve, en cuanto pudiere, parescer al rey del Cielo en su

governamiento e en todas las cosas que ha de facer e de proveer, ca es una imagen en la tierra puesta, que representa la majestad de Dios”. GLOSA Castellana al “Regimiento de Príncipes” de Egidio Romano, libro II, tercera parte, cap. 17, p. 635.

61 O conjunto normativo só entra em vigor em 1348 durante as cortes de Alcalá de Henares. MOLINA MOLINA,

Angel Luis. Aspectos de la vida cotidiana en “Las Partidas”, Glossae. Revista de Historia del derecho europeo, n. 5-6, 1993-1994, p. 171.

62 D. Afonso XI estabeleceu que, caso um pleito ou contenda não pudesse ser julgado adequadamente pelo

ordenamento de Alcalá de Henares ou pelos fueros das cidades e vilas, deveria ser analisado à luz das Partidas, obedecendo essa respectiva ordem. Cf. AQUI comiençan las leyes que nos el rey fezimos en las nuestras cortes de Alcala De Henares, que se an aguardar en la nuestra corte e en todos los nuestros rregnos. In: CORTES de los antiguos reinos de León y de Castilla, tomo 1, ley 64, pp. 541-543. Para uma leitura sobre a característica medieval de coexistirem diversos ordenamentos jurídicos sem que houvesse uma concorrência entre eles, ver GROSSI, Paolo. A ordem jurídica medieval, passim.

63 “Vestiduras facen mucho conoscer á los homes por nobles ó por viles, et por ende los sabios antigos establecieron

que los reyes vestiesen paños de seda con oro et con piedras preciosas, porque los homes los puediesen conoscer luego que los viesen á menos de preguntar por ellos”. LAS Siete Partidas del Rey Don Alfonso el Sabio […]. Tomo 2. Madrid: Imprenta Real, 1807, Partida II, título V, ley 5, pp. 28-29.

distorção, teria que responder a Deus no outro mundo, sendo julgado como um vassalo que não respeita nem usa a honra que lhe dá seu senhor.64 O monarca poderia responder, portanto, à justiça de Deus, caso não utilizasse seu poder temporal para conduzir, corrigir e dar exemplo aos seus súditos.

Nesse sentido, torna-se ainda mais compreensível o papel de grande importância na correção dos desvios dos povos que tiveram as leis promulgadas pelos monarcas. Essa sugestão, aliás, demarca um aspecto importante da concepção jurídica da época, de que as leis se pautam no costume, nas práticas cotidianas que remontam a uma antiguidade, atrelando, pois, a preocupação moral e a necessidade de correção daquilo que extrapolava o quadro de práticas comumente aceitas. O príncipe, segundo essa acepção, mais do que produzir leis, atuaria como uma espécie de intérprete do direito, de uma ordem que lhe antecede.65 Assim, da mesma forma que Deus dispunha os estados e lhes outorgava vestiduras convenientes, o rei era chamado para legislar e estabelecer uma divisão dos seus súditos, para dar a cada um o que lhe era direito. Era, pois, responsabilidade do monarca zelar pelos bons costumes dos povos a ele submetidos, especialmente através do exercício da justiça.66 O momento mais oportuno para definir regras

eram as cortes, porque ali estavam presentes: autoridades eclesiásticas, como bispos, abades, mestres das ordens militares; laicos pertencentes à nobreza, como os ricos-homens e cavaleiros; e os procuradores das vilas, pertencentes aos conselhos municipais, que vinham para solicitar leis e punições aos que se desviassem e colocassem em risco os demais.67 Nessas assembleias, pois, eram reiteradas as petições dos procuradores e estas cortes só poderiam ser convocadas pelo rei – ou por seus tutores, em casos de minoridades – e só adquiriam uma existência jurídica

64 “[…] et esto por dos razones; la una por sinificanza de nuestro señor Dios, cuyo lugar tienen en tierra; et la otra

porque los homes los conosciesen, asi como desuso deximos para venir á ellos á servirlos, et honrarlos, et á pedirles merced quando les fuese mester. Et por ende todos estos guarnimientos honrados que deximos deben ellos home ninguno non debe probar de lo facer nin de los traer, et el que lo ficiese en manera de eguarlarse al rey et tomarle su lugar, debe perder el cuerpo et lo que hobiere, como aquel que se atreve á tomar honra et lugar de su señor, non habiendo derecho de lo haber; et el rey que gelo consintiese, sin la grant aboleza que farie, estarle hie mal en este mundo, et demandárgelo hie Dios en el otro como á vasallo que non precia la honra que el Señor le face, nin usa della asi como debe”. LAS Siete Partidas del Rey Don Alfonso el Sabio, tomo 2, Partida II, título V, ley 5, p. 29.

65 GROSSI, Paolo. A ordem jurídica medieval, pp. 109-110. Para o autor, o príncipe aequus, no pensamento dos

medievais, “não cria o direito, mas o diz”, pois a equidade era indissociável da natureza. Ibidem, pp. 116-117. Deve-se igualmente levar em consideração a concepção, em Castela, de que o rei era o vigário de Deus e senhor natural dos seus reinos, atuando, pois, de acordo com Deus e sua criação, a natureza. RUCQUOI, Adeline. Tierra y gobierno en la Península Ibérica medieval. In: MAZÍN, Óscar; RUIZ IBAÑEZ, Javier (ed.). Las Indias occidentales. procesos de incorporación territorial a las Monarquías ibéricas. México, DF: El Colégio de México/ Red Columnaria, 2012, pp. 61-62; MARAVALL, Jose Antonio. Estudios de historia del pensamiento español, p. 121 et seq.

66 RUCQUOI, Adeline. Réflexions sur le droit et la justice en Castille entre 1250 et 1350, p. 138-139.

67 Como destaca Maravall, desde Afonso X há o reconhecimento da participação de homens sábios para

em sua presença, pois elas não podiam legislar por si próprias: a promulgação de leis cabia ao monarca, “cabeça do reino” e vigário de Deus.68

Seguindo uma larga tradição, os monarcas castelhanos recebiam a jurisdição de tornar lei/direito sua vontade e de aplicar a justiça.69 Não é preciso recuar muito no tempo para se perceber essa prerrogativa, bastando lembrar um exemplo do Especulo, código legislativo que, ao que tudo indica – e como será corrente entre os séculos XIII e XV70 –, foi promulgado durante as cortes por D. Afonso X. Na lei 3, já se determina que “quem pode fazer leis” são apenas o imperador e o rei, isto é, as máximas potestades temporais, não devendo ser reconhecidas como leis as que fossem dadas por outros homens.71 É preciso ressaltar que tais potestades eram as únicas sozinhas capazes de criar leis;72 os municípios, diante de sua relativa autonomia, também produziam e possuíam algumas ordenanças para regular a relação entre seus habitantes, o que explica a grande profusão e coexistência de ordenamentos. No entanto, o real sempre deveria prevalecer ante o municipal, e mesmo este último, muitas vezes, para evitar conflitos, deveria passar pela aprovação do monarca e seu conselho.73 Dessa maneira, em

Castela, vigoravam vários ordenamentos ao mesmo tempo, ocorrendo apenas no século XV uma tentativa de compilar as diversas leis para que não ocorressem problemas na aplicação e interpretação.74 Outro ponto importante a destacar diz respeito à concepção de lei destes homens, concepção que, ao contrário da moderna, não se desvincula do consuetudinário, como já afirmávamos mais acima: o costume é uma norma, um direito positivo em potencial, que era deveras levado em consideração pelos monarcas para promulgar ordenamentos nas cortes.75 Em

68 Cf. RUCQUOI, Adeline. De los reyes que no son taumaturgos: los fundamentos de la realeza en España, Temas medievales, n. 5, pp. 163-186, 1995.

69 Idem. Réflexions sur le droit et la justice en Castille entre 1250 et 1350, p. 145. Essa tradição, segundo Rucquoi,

conferia igualmente aos reis castelhanos a preeminência sobre assuntos da Igreja em seus reinos, dado o fato de serem os responsáveis pela ortodoxia e defesa da fé. Esse controle era reafirmado pelo uso do direito romano, o qual permitia a imposição do poder civil sobre a Igreja. Cf. Idem. Cuius rex, eius religio: ley y religión en la España medieval, pp. 133-174.

70 O’CALLAGHAN, Joseph F. Las Cortes de Castilla y León (1230 – 1350), pp. 168-171.

71 ESPECULO. In: LOS codigos españoles concordados y anotados. Tomo 6. Madrid: Imprenta de La

Publicidad, 1849, Ley 3, p. 8. Sobre a produção de obras jurídicas no reinado afonsino: MARAVALL, Jose Antonio. Estudios de historia del pensamiento español, pp. 99-145,

72 GROSSI, Paolo. A ordem jurídica medieval, p. 246.

73 Para a coexistência dos diversos ordenamentos em Castela, veja LADERO QUESADA, Miguel Angel; GALÁN

PARRA, Isabel. Las ordenanzas locales en la Corona de Castilla como fuente histórica y tema de investigación (siglos XIII al XVIII), Anales de la Universidad de Alicante, História Medieval, n. 1, pp. 221-244, 1982. Para além dos municípios e dos reis, os autores também chamam a atenção para as terras que se encontravam sob jurisdição de senhores.

74 Ibidem, p. 223. Tal característica parece ter sido comum aos outros territórios ocidentais a partir do século XIV,

o que, segundo afirma Grossi, seria decorrente do surgimento e desenvolvimento do Estado moderno, já que uma das características mais acentuadas do período medieval seria a autonomia em relação ao poder para promulgar ordenamentos, isto é, um direito que não necessita do Estado – compreendido como uma única fonte dele. Cf. GROSSI, Paolo. op. cit., p. 39.

decorrência disso, em diversos momentos, retomarão a concepção de que as leis seguem uma longa tradição de regras dadas para o bom convívio pelos antigos, ou seja, trata-se da atualização de um conteúdo já dado e que se confunde com a própria disposição da sociedade.76

Embora o rei não tivesse a necessidade da consulta aos outros estados para tomar as decisões, as cortes configuravam eventos nos quais o monarca poderia se informar sobre os mais diversos temas de importância para o reino, como impostos, guerras, bem como de promulgar ordenamentos que tangenciavam a todos sob sua tutela, dentre os quais os respectivos ao vestuário.77 A participação dos três estados representava a releitura do princípio “quod omnes tangit, ab omnibus debet approbari”, oriundo do direito romano,78 isto é, “o que

toca a todos, deve ser aprovado por todos”. Nesse sentido, aqueles que eram convocados representavam todos os membros de seus respectivos estados, pois defendia-se que as decisões tomadas durante as cortes afetavam todos aqueles que não estivessem presentes, de tal modo que não poderiam alegar ignorância ou desconhecimento das leis tomadas.79

No caderno das cortes de Madri, de 1419, podemos compreender melhor essa articulação entre as cortes, os estados e as leis, bem como sobre a importância do conhecimento dos costumes dos povos sob a tutela do monarca. Na décima oitava petição, D. João II de Castela afirma que tanto seu reino como todos os reinos cristãos eram departidos em três estados – eclesiástico, militar e das cidades e vilas –, sendo todos eles “uma coisa” a serviço do monarca. Essa disposição era importante para que o monarca e seu conselho – que reunia algumas pessoas desses estados80 – tivessem informações suficientes de seus senhorios para melhor lhes prover.81 Assim, é atribuído um lugar no próprio exercício do poder a esses estados, contribuindo com o monarca no zelo de seu reino. No entanto, como passará a ser recorrente no século XV, a participação desses homens nas decisões será cada vez menos frequente em relação às leis reais, as chamadas pragmáticas, que serão o principal modo de legislar

76 Sobre essa característica do direito medieval se orientar para o passado, ver: GUREVITCH, Aron I. As categorias da cultura medieval, pp. 200, 213-214.

77 O’CALLAGHAN, Joseph F. Las Cortes de Castilla y León (1230 – 1350), p. 181.

78 Ibidem, p. 156. Sobre o conceito, ver: MERELLO ARECCO, Italo. La máxima “Quod omnes tangit”: una

aproximación al estado del tema, Revista de Estudios Histórico-Jurídicos, n. 27, pp. 163-175, 2005. O conceito, em Castela, encontra-se já no século XIII, nas Partidas, mas é no século XIV, segundo Maravall, que a máxima passa a conferir de fato uma participação mais ampla dos outros estados nas cortes. MARAVALL, Jose Antonio. Estudios de historia del pensamiento español, pp. 163-177.

79 O’CALLAGHAN, Joseph F. op. cit., p. 157.

80 O conselho real, surgido em 1385, era constituído por prelados e laicos de grande importância, como arcebispos,

adiantados e nobres, sendo incorporados, posteriormente, doutores e letrados. Sobre as ordenanças a respeito do conselho entre os séculos XIV e XV, ver: DIOS, Salustiano de. Ordenanzas del Consejo Real de Castilla (1385- 1490), Historia. Instituciones. Documentos, n. 7, pp. 269-320, 1980.

81 CUADERNO de las Cortes celebradas en Madrid en el año de 1419. In: CORTES de los antiguos Reinos de León y de Castilla, tomo 3, pet. 18, pp. 20-21.

especialmente a partir dos Reis Católicos (1474-1504), além de uma participação maior do conselho real na tomada dessas decisões junto aos monarcas.82 Nessas mesmas cortes de Madri, na petição 19, os procuradores já reclamavam da pouca recorrência das cortes no reinado do ainda jovem D. João, diferentemente do que outrora ocorrera com os antecessores do rei, que, “quando algumas coisas gerais ou árduas novamente queriam ordenar ou mandar por seus reinos”, chamavam “cortes, com ajuntamento dos ditos três estados”.83 Como se pode perceber,

as cortes eram as situações tidas por mais propícias para se relatar o que estava ocorrendo nos reinos, bem como para legislar ou dotar com maior formalidade as decisões políticas. Em relação às petições apresentadas pelos procuradores ou demais estados, o monarca as examinava junto de seu conselho84 e tornava público seu posicionamento, aprovando ou recusando a petição conforme julgava em prol ou não de sua pessoa ou de seu reino. Em seguida, suas decisões, bem como uma breve exposição do que era tratado, eram recolhidas nos cadernos e deveriam ser dadas a conhecer pelos oficiais de justiça, para que ninguém alegasse o desconhecimento de seu conteúdo.

O que nos interessa demarcar aqui, entretanto, é que, em determinadas cortes, julgava- se necessário pedir a intervenção do monarca no que dizia respeito à aparência de seus súditos, notadamente das mulheres – as quais logo abordaremos mais detidamente –, atentando-se para os diferentes estados do reino. De maneira semelhante às prescrições do clero em relação ao estado dos leigos, essa preocupação em distinguir e especificar o que cabia a cada um foi tomando corpo nos reinos de Castela principalmente em meados do século XIV, momento em que se nota igualmente um maior cuidado dos monarcas – ou dos procuradores nas petições – em minudenciar os delitos relativos à aparência exterior, com atenção para os diferentes grupos, ou seja, com o intuito de assegurar que não houvesse confusão entre estados diferentes, detalhando-se e restringindo-se, assim, o uso de determinadas vestimentas e adornos, segundo o que lhes era conveniente.85 Diferentemente dos ordenamentos promulgados na segunda metade do século XIII, durante o reinado de D. Afonso X, de 1252 a 1284, que se detinham mais na limitação de peças de vestuário, bodas e banquetes dos cavaleiros e ricos-homens, a

82 VALDEÓN BARUQUE, Julio. Las cortes en tiempos de Pedro I y primeros trastámaras. In: LAS Cortes de Castilla y León en la Edad Media, vol. 1, p. 209; GONZÁLEZ ARCE, Juan Damián. Apariencia y poder. Jaén: Universidad de Jaén, 1998, p. 26; MARTÍNEZ MARTÍNEZ, María. Indumentaria y sociedad medievales (ss. XIII- XV), En la España medieval, vol. 36, 2003, p. 56.

83 “Alo que me pedistes por merced que por quanto los rreyes mis antecesores sienpre acostunbraron que quando

algunas cosas generales o arduas nueua mente querian ordenar o mandar por sus rregnos, que fazian sobre ello Cortes, con ayuntamiento delos dichos tres estados de sus rregnos […]”. CUADERNO de las Cortes celebradas en Madrid en el año de 1419, pet. 19, p. 21.

84 DALCHÉ, Jean Gautier. L’organisation des cortes de Castille et León, pp. 277-280. 85 Cf. GONZÁLEZ ARCE, José Damián. Apariencia y poder, pp. 82-84.

partir de meados do século XIV até finais do XV, constata-se maior atenção à diversidade das categorias sociais.86 Em grande medida, tal diversificação foi motivada pela reestruturação das cidades e o restabelecimento das rotas comerciais, fatores que promoveram o desenvolvimento da produção têxtil e de outros setores que lidavam com produtos de prestígio,87 para além do maior fluxo monetário e seu alcance entre os diversos estados. Desse modo, tal dinâmica contribuiu para uma maior qualidade e circulação dos produtos valorizados, como os trabalhados com seda, os panos e as telas estrangeiros, especialmente aqueles oriundos de Flandres – que eram bastante apreciados nas cortes europeias.88

Esse desenvolvimento das cidades e o crescente interesse por novas vestes, aliás, também impulsionou a crescente especialização de diferentes ofícios, muitas vezes – como é o caso da produção têxtil mencionada – dedicados à produção de determinadas peças do vestuário: gibão, couros, sapatos, chapins, entre outros. Movimento que contribuiu para a circulação e vulgarização dos artigos de prestígio, e para que o produto oferecido mantivesse uma qualidade aceitável, levou a que as cortes e os conselhos municipais também tratassem de estabelecer valores e métodos de produção adequados.89 As telas e demais materiais preciosos

passam a atuar, desse modo, como um código de poder, havendo uma correspondência entre a aparência e o estado.90 No entanto, com a difusão cada vez mais crescente desses objetos, as fronteiras, ao menos na aparência, tornavam-se mais fluídas, o que deu lugar a críticas quanto à ilusão de elevação que a ostentação poderia oferecer.91