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O renuncista que deu certo

No documento Sucupira, ame-a ou deixe-a (páginas 22-37)

— E é este, senhores, o projeto de lei que tenho a honra de submeter à aprovação desta casa. — Dorotéa Cajazeira retira os óculos, passa à mesa da Câmara de Vereadores a mensagem do prefeito que acabou de ler. — Como bem esclarece a mensagem do Exmo. Sr. Prefeito Municipal, a abertura deste crédito especial se destina à execução de obras que somente virão beneficiar o povo desta cidade. E eu não creio que nenhum bom sucupirano, que tenha amor à sua terra, deixe de votar favoravelmente.

— Atenção, senhores. — O presidente aciona a campainha, fazendo cessar os comentários no plenário e nas galerias, depois que Dorotéa deixa a tribuna e vai ocupar o seu lugar na bancada situacionista. — Existem vários oradores inscritos para falar sobre o projeto de lei enviado pelo prefeito. Tem a palavra o vereador Luiz Gouveia.

— Senhores vereadores — Lulu Gouveia firma as mãos peludas sobre a tribuna, gira o olhar felino pela sala, faz uma pausa estudada —, confesso-me estarrecido ante o cinismo do senhor prefeito. Sua senhoria acaba de enviar a esta casa um projeto de lei que abre um crédito especial para ele gastar em benefício próprio, isto é, na promoção de seu nome como candidato a candidato ao governo do Estado.

— Vossa Excelência devia estar dormindo quando li a mensagem do senhor prefeito — aparteia Dorotéa, pondo-se de pé. — Nela estão especificadas as obras que o Executivo deverá realizar com esse crédito.

— Que obras? — Lulu Gouveia gesticula, alça-se nas pontas dos pés para aumentar sua pequena estatura, na barba cerrada os pêlos grisalhos parecem eriçar-se. — A rede de esgotos? O abastecimento d'água? Escolas? Hospitais? Não, o prefeito vai asfaltar a Avenida Odorico Paraguaçu. Vai reajardinar a Praça Rosa Paraguaçu. E vai comprar dois ônibus, dois frescões, para passear veranistas e turistas pelos quintais dos Paraguaçus.

— Pelos locais históricos da cidade — retifica Dorotéa.

— Pretexto para fazer propaganda de sua candidatura, mostrando obras promocionais, que pouco ou nenhum benefício trazem ao povo.

— Obras de fachada — aparteia o pedreiro Rosalvo Badaró, único representante do Partido dos Trabalhadores.

— Mistificação! — acusa Ganimedes Batista, farmacêutico aposentado, mais conhecido como Seu Mé, famoso pela invenção do Mé-Cura, preparado contra a dor de dentes, presidente do diretório do PTB.

— Esta casa não pode aprovar esse projeto de lei! — Lulu Gouveia esmurra a tribuna. — Projeto que não tem outro objetivo senão satisfazer a vaidade, a ambição e a megalomania do prefeito.

— Não aceito! Não aceito! Não aceito! — Odorico golpeia o ar, afastando imaginários inimigos, levanta-se da poltrona giratória, avança para Dorotéa Cajazeira e Dirceu Borboleta, assustados com a fúria do prefeito. — Temos de aprovar esse crédito especial custe o que custar. Isso é vital pra minha campanha.

— Está muito difícil, coronel. — Dorotéa cruza as pernas, procura contrapor ao descontrole de Odorico uma atitude serena e consentânea com seu papel de líder da situação. — Toda a oposição está contra. E do nosso lado há algumas defecções.

— Defeccionismo deverasmente lastimante, Dona Dó.

— Isso é uma traição! — esganiça, histérico, Dirceu Borboleta. — Infelizmente, metade de nossa bancada vai votar contra o projeto.

— Co... como é possível isso? Não me conformo! — Dirceu tira os óculos, limpa os óculos, põe os óculos.

— De fato, Seu Dirceu, é uma deceptude. — Odorico cai agora num tom de final de ópera. — É o fim.

— Eu sinto que esses vereadores estão sendo pressionados. Sabe, numa hora dessas, véspera de eleições, há pressões de todos os lados. Umas claras, outras misteriosas. A lealdade fica em segundo plano. O que vigora é o interesse pessoal. É triste, mas é assim — conclui Dorotéa Cajazeira.

— Sabe, Seu Dirceu, eu me sinto talqualmente Cristo, vendido por Judas. — Odorico estende os braços em cruz, pateticamente. — Ou talqualmente César, traído por Brutus. Ou talqualmente Getúlio Vargas, afogado no mar de lama. Só que eu, Odorico Paraguaçu, filho de Eleutério, neto de Firmino e bisneto de Pelópidas Paraguaçu, não vou dar um tiro no coração. Eu vou passar à história de outro modo.

— Co... como, coronel?! — Dirceu fita Odorico com gaguejante ansiedade. — Tenho uma idéia, uma carta na manga da camisa pra derrotar todos eles. — Odorico veste o paletó de linho branco, cravo vermelho na lapela, apanha o chapéu panamá, o guarda-chuva, ergue o rosto, como se posasse para a posteridade. — A renúncia!

— Renúncia?! — Dó e Dirceu reagem em coro. — Isso mesmo: vou renunciar!

— Odorico, eu recebi seu chamado, vim correndo — Ildásio Paranhos não disfarça a sua estranheza —, mas confesso que ainda não entendi...

— Coronel Ildásio — Odorico põe a mão sobre o ombro do vice-prefeito para dar mais ênfase —, é uma missão muitissimamente importante, que carece de uma pessoa de sua gabaritagem política. Quero que o compadre esteja em Brasília amanhã. Já marquei pelo telefone, o nosso deputado vai receber o compadre às três da tarde.

— E o que é que eu vou conversar com ele?

— Oxente, o coronel vai ter uma confabulância político-sigilista sobre nossas candidaturas, a minha a governador e a do compadre a prefeito.

— E pra isso é preciso que eu saia daqui assim às carreiras? — pergunta Ildásio, ainda confuso com a inesperada missão.

— É que o nosso deputado também vai entrar em campanha — procura explicar Odorico. — Não sendo amanhã, ele só vai poder receber o compadre daqui a seis meses.

— Tá bom. Então eu vou ver se pego o avião em Salvador ainda hoje. Mais alguma recomendação?

— Faça assentamento dos prós e dos contraprós que o deputado levantar concernentemente à problemática candidatória. — Odorico passa o braço sobre os ombros largos de Ildásio, leva-o até à porta do gabinete. — E não tenha pressa de voltar. Aproveite bem Brasília... tem lá uns motéis com quarto espelhado, cama redonda, cine prive...

— É mesmo?... — O corpo balofo do Coronel Ildásio se sacode todo, numa gargalhada obscena. — Até a volta.

— Até a volta, compadre. — Odorico fecha a porta, volta-se para Dorotéa Cajazeira e Dirceu Borboleta, que presenciaram toda a cena. — Pronto, a primeira parte do nosso plano está cumprida.

— O senhor acha que precisava mesmo afastá-lo de Sucupira? — Dorotéa levanta-se, questionando ainda o plano de Odorico.

— Ele é vice-prefeito, se eu renuncio, ele é empossado.

— Mas ele é também candidato a prefeito. Se tomasse posse, não podia mais se candidatar.

— Lá isso é verdade — confirma Dirceu —, a lei não permite reeleição.

— Sei disso, mas seguro morreu de velho e desconfiado inda tá vivo. Pode ser que ele prefira cumprir o resto do meu mandato a uma candidatura que pode ser mal sucedida. Mais vale uma pomba na mão...

— Mas o senhor não vai renunciar de verdade, não é? — Dirceu se mostra receoso... — É só um golpe...

— Golpe de mestre — afirma Dorotéa, já plenamente ganha para a jogada do prefeito.

— Temos que tomar todos os acautelatórios. — Odorico pega uma carta sobre a mesa. — Aqui está a carta de renúncia, já escrevi. Esta carta vai ficar com o senhor, Seu Dirceu.

— Comigo? — Dirceu se assusta com a responsabilidade.

— É. Amanhã, sexta-feira, dia de lobisomem, depois que eu partir com destino ignorado, o senhor vai reunir a imprensa marronzista e amarelista e comunicar que eu renunciei. Pode mostrar a carta e até mesmo ler alguns trechos. Mas não entregue a ninguém.

— Isso é importante — sublinha Dorotéa —, deve ser depois de encerrada a sessão da Câmara.

— Mas não convém se arriscar. Sei de um que se estrepou por causa disso... — lembra Odorico. — O melhor é dizer que não houve tempo de entregar a carta ao presidente da Câmara e que então só segunda-feira a renúncia será apreciada pelos vereadores.

— Teremos então o sábado e o domingo para levantar o povo. — Dorotéa anda pela sala, agitada, duas manchas de suor aparecendo sob as axilas.

— Marque uma concentração popular para domingo. Seu Dirceu, providencie faixas e cartazes. No dia seguinte à minha renúncia, a cidade deve amanhecer enfaixada e encartazada de ponta a ponta: QUEREMOS ODORICO,VOLTE,ODORICO,

TODO o PODER A ODORICO e outras que tais.

— E na segunda-feira, quando abrir a Câmara, o que é que eu faa... faaço com esta carta? — Dirceu gagueja, a carta parece engasgá-lo.

— Aí eu já estarei de volta, nos braços do povo.

— E eu duvido que algum vereador se atreva a votar contra o crédito especial — conclui Dorotéa, sentindo que precisa ir ao banheiro passar desodorante.

— Não terei mais adversários, nem aqui, nem alhures. Passarei como uma motoniveladora por cima de todos eles.

— Olha, o trem já apitou! — grita Juju, aflita, correndo atrás de Odorico, juntamente com Dorotéa, Zuzinha e Dirceu Borboleta, os cinco chegando esbaforidos à estação.

— Caboré — Odorico chama o chefe da segurança, que vem mais atrás —, corre lá e dê ordem ao maquinista pra esperar um minuto, enquanto me despeço. Quero também que todo mundo veja que eu fui embora mesmo. Seu Dirceu, o senhor espalhou o boato que eu ia viajar?

— Espalhei. Até dei um telefonema pr'A Trombeta, dizendo que era um leitor anônimo...

— E não é Tuca Medrado que vem ali correndo? — Dorotéa aponta para a repórter d'A Trombeta, que salta do jipe, seguida do fotógrafo Carijó, e corre para eles.

— Então vamos nos despedir. — Odorico abraça as Cajazeiras, uma por uma. — Adeus!

— Adeus, coronel. — Zuzinha simula uma dramática despedida. — O senhor vai mesmo? — Juju leva aos olhos um lenço cor-de-rosa.

— Tenho de ir. — Odorico aperta a cabeça de Juju contra o peito. — Adeus, Dona Dó.

— Adeus, coronel.

— Senhor prefeito! Senhor prefeito! — Tuca pára, arfante. — O senhor está de partida pra onde?

— Lamento não poder satisfazer a curiosidade da jovem e bela comunicadora. — Odorico sobe o primeiro degrau do vagão.

— Quais os objetivos dessa viagem inesperada?

— Os objetivos... logo mais a imprensa lida, vista e escutada de todo o país vai saber. Com a alma lavada e enxaguada na amargura, me despeço de vocês e desta terra que tanto amo. Adeus, Sucupira! — Odorico tira do bolso do paletó o lenço branco e acena, o trem começando a se movimentar, na plataforma outros lenços respondendo ao seu.

— Rádio Difusora de Sucupira, a que não erra na mira, transmitindo diretamente do gabinete do prefeito. O Sr. Dirceu Fonseca, secretário de Administração, convocou a imprensa escrita e falada para fazer uma importante comunicação. — O radialista aproxima o microfone de Dirceu, cercado de repórteres, fotógrafos e funcionários.

— O senhor prefeito, Co... coronel Odorico Paraguaçu — Dirceu faz uma pausa para dominar a emoção, ajeita os óculos —, antes de viajar, deixou comigo uma carta que eu devia entregar hoje ao presidente da Câmara Municipal. Infelizmente, isso não foi possível, porque a Câmara já está fechada. Como amanhã é sábado, depois é domingo, só segunda-feira vou poder me desincumbir dessa tarefa.

— Mas o que diz essa carta? — A pergunta é de Tuca Medrado, que se esforça por ler o sobrescrito do envelope que Dirceu tem em mãos.

— Ela comunica à Câmara uma importante decisão tomada pelo prefeito. A decisão de renunciar.

— Senhores ouvintes! — a voz do radiorrepórter se sobrepõe ao espanto, à perplexidade que domina a todos — como acabaram de escutar, o prefeito de Sucupira, Coronel Odorico Paraguaçu, acaba de renunciar.

— O senhor pode nos dar uma cópia dessa carta? — pede Tuca.

— Isso eu não posso. Entenda... é uma questão de ética... A carta é dirigida ao presidente da Câmara.

— Ao menos um trecho...

— Bom, eu posso ler um pedaço. — Dirceu abre a carta, os óculos caem sobre a mesa, ele apanha, lê, esforçando-se para não gaguejar, consciente da importância do momento histórico. — "Nesta data, e por este instrumento, deixando com o secretário de Administração as razões do meu ato, renuncio ao mandato de prefeito municipal. Fui vencido pela reação e, assim, deixo a prefeitura. Forças terríveis levantaram-se contra mim e me intrigam ou difamam. A mim não falta a coragem da renúncia."

— Aqui, seu coroné, aqui! — Caboré acena, Odorico desce do trem, que acaba de parar num local ermo. Caboré ajuda-o a vencer a pequena distância que vai da linha de ferro à estrada de terra, defendendo-o do lamaçal e das urti-gas, dentro da noite que faz o trem parecer uma lagarta de fogo serpenteando no matagal.

— Será que ninguém me viu descer? — pergunta Odorico, entrando na caminhonete.

— Acho que não, seu coroné.

— Então, toca. Toca de volta pra cidade, pra casa das meninas.

— O vigário aceita uma taça de champanhe? — Cremilda Gouveia, fazendo as honras da casa, estende a bandeja, o vigário se sente tentado, afinal toda a oposição está ali bebendo, comemorando.

— Que é isso, padre? — Neco Pedreira intervém. — Hoje é um dia especial. Não é pecado encher a cara.

— Está bem... — O vigário acaba cedendo. — Mas sabe que ainda não consigo acreditar?

— Na verdade, não é fácil acreditar — admite Neco. — Parece um sonho — acrescenta Tuca.

— Nunca imaginei que Odorico fosse capaz de um gesto desses. — O vigário bebe um gole do champanhe, seu paladar afeito aos bons vinhos reconhece, é champanhe nacional. — Sempre imaginei o coronel um desses homens que só abandonam o poder à força.

— Será que ele não ficou maluco? — A pergunta é de Rosalvo Badaró, líder do

PT.

— Quem sabe? — admite Ganimedes Batista, que sempre teve dúvidas sobre a sanidade mental do prefeito.

— Neste caso, bendita loucura! — saúda Neco Pedreira, erguendo a taça. — Atenção, vamos fazer um brinde! — Lulu Gouveia faz cessar o vozerio, concentra a expectativa. — A Sucupira, que acaba de se livrar de seu maior inimigo! Viva Sucupira!

— Viva! — Não fosse a má qualidade do champanhe e a cena seria idêntica às comemorações pela libertação de Paris.

— Um frade, a esta hora da noite... — Juju olha através das venezianas, vê o frade descer de uma caminhonete, cruzar o portão, tocar a campainha.

— Abra a porta, Juju, deixe de ser medrosa. — Dó resolve, ela mesma, ir abrir a porta, Juju e Zuzinha apreensivas. — Que dese... Coronel!

— Meu Deus — grita Zuzinha, vendo Odorico levantar o capuz. — Oxente, por que esse espanto? Não combinamos que eu vinha pra cá?

— Claro. — Dó fecha a porta. — É que ninguém ia imaginar que o senhor viria assim...

— Tive que me disfarçar. — Odorico desata o cordão franciscano. — Se alguém me vê entrando aqui, nosso plano ia por água abaixo.

— E reparando bem — Juju tem os olhos vidrados em Odorico —, o senhor fica tão bem de batina...

— Juju! — Dó repreende a irmã mais nova, vendo em seu rosto um sorriso indecoroso.

— Queria tirar essa fantasia... — Odorico sente calor, ameaça despir o hábito. — O senhor está com roupa por baixo? — pergunta Zuzinha, assustada. — E a menina queria que eu estivesse nu em pêlo?

— Ai! — O grito histérico de Juju provoca novo olhar de censura de Dorotéa. — Nós já preparamos o seu quarto. Eu vou levar o senhor até lá.

— Por que você precisa levar? — protesta Juju. — O coronel não sabe ir sozinho? — pergunta Zuzinha.

— Questão de delicadeza, não é, Zuzinha? — Dorotéa se justifica e leva Odorico. — Vamos, coronel.

e Zuzinha, mas segue Dó pelo corredor, entra no quarto, cuidadosamente arrumado, três jarras com flores sobre a cômoda, três porta-retratos com as três solteironas.

— Veja se está tudo como o senhor gosta ou se falta alguma coisa. Aqui tem água... e aqui licor de jenipapo.

— Acho que não falta nada. — O olhar de Odorico vai da colcha rendada ao ar pudico de Dorotéa. — Acho que esta vai ser uma renúncia com tudo a que tenho direito...

— O... dê-o-dó... rê-i-ri... cê-o-co — Odorico, rê-e-rê... nê-u-nê, nun... cê-i-ci... o-u — renunciou. Odorico renunciou — com enorme esforço, sem descer do cavalo, Zeca Diabo consegue ler a manchete d'A Trombeta, em torno de cujo exemplar, afixado no muro, se aglomera uma dúzia de curiosos. — Ô Seu Tião Moleza! Que é que foi que seu-dotô-coroné prefeito andou aprontando?

— Diz que ele largou tudo e picou a mula, capitão. — Danou-se!

— Que é que diz aí essa gazeta debochista? — Odorico, deitado na rede, toma mais um gole de cachaça da cabeça, fabricada em sua própria fazenda e distribuída gratuitamente aos amigos e amigas.

— Dá a sua carta. — Zuzinha lê. — "Desejei uma Sucupira para os sucupiranos, afrontando nesse sonho a corrupção, a mentira e a covardia."

— Que bonito! — Juju não contém o seu entusiasmo. — Tem aqui umas opiniões.

— Opiniões de quem? — quer saber Odorico.

— Do povo. De várias pessoas. Uns acham que sua renúncia é uma desgraça pra Sucupira. Que é capaz de haver uma revolução. Outros acham ótimo.

— A esquerda badernista.

— E há quem diga que o senhor estava de pileque quando renunciou. — Que infâmia! — protesta Juju.

— Os calunistas de sempre — Odorico reprime um soluço —, os difamistas praticantes.

— Tudo caminhando bem — anuncia Dorotéa, que acaba de chegar da rua, em companhia de Dirceu Borboleta.

— As faixas e os cartazes já estão providenciados — complementa Dirceu. — Hoje mesmo começamos a pichar os muros.

— Só há um problema: é que o senhor mesmo é autor de uma lei que proíbe colar cartazes e pichar muros.

— Este é um caso de exceção, Dona Dó. Trata-se agoramente de uma pichação patriótica.

— E eu tenho uma informação — acrescenta Dó —, os líderes dos partidos de oposição estão reunidos lá na Câmara.

— Reunidos?! — Odorico tosse, engasga-se com a cachaça. — Mas hoje, sábado, tem sessão?

apreciar e aprovar a renúncia.

— Não pode! — Odorico levanta-se da rede, indignado. — Isso não pode acontecer.

— Não pode porque não temos a carta — conclui, frustrado, Lulu Gouveia, jogando um balde d'água fria na fogueira oposicionista.

— Com quem está a carta? — pergunta o representante do PP, Dedé Menezes, coletor de impostos, professor primário, cabelo escorrido partido ao meio, sempre de gravata-borboleta e também conhecido pelo apelido dúbio de Conde Buceta.

— Com o secretário de Administração, Dirceu Fonseca — esclarece Rosalvo Badaró.

— Então, basta convocar o Sr. Dirceu Borboleta e pedir pra ele trazer a carta. — É isso aí — Ganimedes Batista apóia com entusiasmo a solução encontrada pelo colega do PP.

— Acho que é essa a solução. — Lulu Gouveia também apóia. — Porque se esperarmos até segunda-feira, sei não... Odorico é capaz de voltar atrás e perdemos essa oportunidade de nos vermos livres dele.

— Veja lá, Seu Dirceu, trate de esconder essa carta num lugar bem seguro — recomenda Odorico.

— Pode deixar, coronel. — Vou guardar na minha gaveta lá na prefeitura e tirar a chave. Ninguém vai saber.

— Isso, vai, vai depressa... — Odorico leva Dirceu até a porta, apressa sua saída, fecha a porta e volta-se para Dó, Juju e Zuzinha, que o aguardam na sala. — Enfim, sós!

— Dr. Lulu Gouveia! — Dirceu já havia aberto a gaveta, ia guardar a carta, vê o líder e mais dois vereadores da oposição entrarem em sua sala, interrompe o movimento, fica sem saber o que fazer. — Os senhores aqui...

— Podemos falar com o senhor um instante? Viemos em comissão, representando os partidos de oposição.

— Hoje... hoje é sábado, não tem expediente... — Dirceu se dá conta de que ainda está com a carta-renúncia na mão, guarda-a na gaveta, fecha à chave. — Eu passei aqui só pra... pra fechar minha gaveta, que tinha esquecido.

— Isso não impede que o senhor tome conhecimento de nossa missão — argumenta Lulu Gouveia.

— Claro...

— Sabemos que o senhor está de posse da carta-renúncia e que não pôde entregá-la ontem.

— Para que Sucupira não fique sem prefeito durante dois ou três dias, resolvemos convocar uma sessão extraordinária para esta tarde.

— Esta tarde... eu não posso. Não posso... — Dirceu procura escapar. — Só segunda-feira. Hoje eu vou caçar borboletas. Por favor... me dêem licença...

— O senhor não pode, ao menos, nos dar a carta? — Lulu Gouveia barra o caminho de Dirceu. — Aqui está o presidente da Câmara, entregue a ele.

— Não! O prefeito mandou que eu levasse lá... lá na Câmara. Aqui, não! E só segunda-feira, só segunda-feira. Hoje eu tenho que caçar borboletas, já disse!

— Atenção, povo de Sucupira! — Dorotéa Cajazeira, num caminhão munido de alto-falante e decorado com pôsteres de Odorico e faixas que pedem a sua volta, anuncia: — Amanhã, às três horas da tarde, todos à Praça Rosa Paraguaçu! Grande concentração popular para pedir ao prefeito que desista da renúncia!

— Queremos Odorico! — grita Juju atirando volantes, e o refrão é repetido por Zuzinha e mais uma dúzia de mulheres que enchem o caminhão.

— QUEREMOS ODORICO! QUEREMOS ODORICO!

— Viva Odorico, pai dos pobres — Nezinho do Jegue, num momento de sobriedade, segura o jumento para o caminhão passar. — Viva o amigo do povo! Protetor dos necessitados!

— Caminhão na rua distribuindo volantes, cidade coberta de faixas pedindo sua volta, comício marcado para amanhã, tudo preparado — Lulu Gouveia conclui, dando contas de sua missão aos demais vereadores da oposição novamente reunidos

No documento Sucupira, ame-a ou deixe-a (páginas 22-37)

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