Dias Gomes
Sucupira,
ame-a ou deixe-a
CÍRCULO DO LIVRO S.A. Caixa postal 7413 São Paulo, Brasil Edição integral
Copyright © 1982 by Dias Gomes
Licença editorial para o Círculo do Livro por cortesia da Editora Civilização Brasileira S.A. Venda permitida apenas aos sócios do Círculo
Para meus filhos Guilherme, Denise e Alfredo
Sumário
O defunto voluntário... 4
O renuncista que deu certo... 22
O atentado pirotécnico... 37
O povo de Deus e o milagre dos coronéis... 55
A greve piscatória... 72
Um defunto à baiana... 86
O defunto voluntário
— Que estranho! — A exclamação de Tuca Medrado se refere a um homem alto, magro, rosto ossudo, barba por fazer, olhos perdidos além da arrebentação que espanta os banhistas.
— Estranho por quê? — Neco, deitado de costas na areia, apenas ergue um pouco o tronco nu, tostado de sol.
— De paletó e gravata... — Tuca vê que as ondas lambem os sapatos do excêntrico indivíduo, sem que ele se aperceba. — Será que vai entrar no mar daquele jeito?
— Cada um toma banho como quer, Tuca. — Neco volta a deitar-se, agora de bruços, o rosto nos braços cruzados. — Não há lei que obrigue ninguém a usar sunga.
— Eu sei, mas só maluco... — Tuca interrompe a frase, vendo que o homem agora descalça os sapatos, coloca-os fora do alcance das ondas, tira uma carta do bolso do paletó, prende entre os dois pés de sapato, em movimentos lentos e pensados, volta-se novamente para o mar, caminha em direção às ondas, que logo lhe atingem o peito. — Neco! ele vai se afogar!
— Que louco! — Neco levanta-se de um salto, o homem está com água pelo pescoço, uma onda mais forte traga-o totalmente, ele volta à tona debatendo-se. — Vamos lá!
— Cuidado você também, o mar tá perigoso! — Tuca corre atrás de Neco, que se atira ao mar e em poucas braçadas alcança o afogado, que se abraça com ele, os dois submergem, voltam à tona, a morte nos olhos.
— Não faça isso, seu idiota! Me largue, senão morremos os dois! — Neco tenta desprender-se dos braços do homem. — Me largue, desgraçado!
— Me deixe! Eu quero morrer!
— Mas eu não quero, porra! — Neco perde a paciência, dá um murro no queixo do suicida, que perde os sentidos, facilitando-lhe a tarefa de arrastá-lo para a praia, onde uma dúzia de banhistas os espera, emocionados, como diante de um espetáculo circense.
— Isso não adianta! — diz Tuca, vendo que Neco flexiona os braços do afogado, tentando fazê-lo voltar a si. — Tem que fazer respiração boca a boca.
— Mas você é que vai fazer! — Neco se choca, vendo que Tuca se debruça sobre o desconhecido, colando sua boca na dele. — Também esse cara não tinha o que fazer?
— Obrigado... — O suicida acaba de tomar café, devolve a xícara, baixa os olhos, encolhe-se na poltrona, envergonhado, vendo que Carijó se prepara para bater uma chapa.
redação.
— Tou... Não se preocupem comigo... — Ele ergue os olhos para Neco. — Não sei se devo agradecer ao senhor também... o senhor me salvou a vida.
— Mas se o senhor queria morrer, tem é que me espinafrar. Como é o seu nome?
— Espiraldo. Espiraldo Pirajá.
— Espiraldo Pirajá... — repete Tuca, anotando num caderno. — Parece nome de gente importante.
— É, mas todo mundo me chama de Pipi — esclarece, com amargura, Espiraldo.
— Mas Seu Pipi, por que se matar? — pergunta Tuca. — A vida é uma coisa tão bonita.
— Para a senhora, talvez. Não pra mim. Minha vida não tem sentido. Minha mulher me largou, levou meus filhos, tou desempregado há mais de seis meses, cheio de dívidas... Viver pra quê?
— Tudo isso o senhor explica aqui nesta carta? — Neco mostra a carta encontrada entre os sapatos de Espiraldo.
— É...
— "A este mundo cão" — Neco lê o sobrescrito. — Podemos publicar?
— Pra mim, tanto faz. — Espiraldo dá de ombros e volta a afundar na poltrona, como se procurasse afogar-se em si mesmo.
— Mas, Seu Espiraldo, o senhor acha que morrendo vai resolver seus problemas? — Tuca insiste, na tentativa de reanimá-lo. — O senhor só vai mesmo resolver o problema do nosso prefeito.
— Qual é o problema do prefeito?
— O senhor não sabe? Inaugurar o cemitério.
— Projeto de lei que destina o terreno situado na Avenida Odorico Paraguaçu, 150, e faz esquina com a Rua Ubaldo Cajazeira, de propriedade da prefeitura, a uma área de lazer, devendo nele ser construída uma praça, com jardins, coreto e uma quadra para a prática da capoeira, glorioso esporte nativo.
— Esse projeto é absurdo! — protesta Dorotéa Cajazeira, provocando manifestações de apoio e desagrado no plenário e na galeria. — Esse terreno é onde se encontra atualmente o Cemitério Municipal.
— Exatamente — confirma Lulu Gouveia, interrompendo a leitura. — O projeto visa dar utilidade pública a um terreno que atualmente não tem utilidade alguma. A reverter em benefício do povo uma área que hoje serve apenas de pasto a jegues, porcos e outros animais.
devidos providenciamentos no sentido do engavetamento desse projeto demagogista. — Infelizmente, não é assim tão fácil, coronel. — Dorotéa abre a bolsa, tira uma caixa de pó, empoa o rosto.
— Claro, vamos lutar para que não seja aprovado. Mas o projeto foi apresentado e tem que ser apreciado e posto em votação. Por mais absurdo que seja.
— Mas que coisa! — Dirceu limpa os óculos embaçados na barra da camisa, sua boca se contorce entre caretas.
— Transformar o campo santo em quadra de capoeira! É até uma heresia! — Pro senhor ver, Seu Dirceu, a que ponto chegamos nessa batalha candidatícia pelo governo do Estado. Já entramos no vale-tudo. Vale até capoeira.
— E tanto isso é verdade, coronel — Dorotéa se olha num espelhinho, umedece a ponta dos dedos, passa nas sobrancelhas —, que metade da nossa bancada já está inclinada a apoiar o projeto Lulu Gouveia.
— Metade?! — Odorico se volta, sentindo-se apunhalado pelas costas.
— Com certeza os vereadores que estão contra a sua candidatura dentro do partido — opina Dirceu.
— Justamente — confirma Dorotéa — os que apóiam o senador.
— Eu sabia! — Odorico esmurra a mesa, faz saltar papéis, canetas, cinzeiros — esse projeto capoeirístico tem somentemente um objetivo: dar um rabo-de-arraia na minha candidatura.
— O coronel fique tranqüilo — Dorotéa guarda o espelhinho na bolsa, levanta-se —, isso eles não vão conlevanta-seguir. Mas o ideal mesmo levanta-seria que o prefeito inaugurasse o cemitério antes da convenção do partido.
— Doido tou eu por isso. Mas de que jeito? A senhora me arranja um defunto? Arranja?
— Tenho que ir, coronel. — Dorotéa estende a mão para Odorico, que a segura entre as suas, vai com ela até à sala de espera.
— Diga às meninas que em meu perneamento vespertino eu passo por lá pra tomar um licorzinho de jenipapo... — Odorico tem um olhar malicioso.
— Está bem... até logo. — Dó apenas esboça um sorriso de compreensão, vendo que há mais alguém na ante-sala, esperando ser recebido.
— Senhor prefeito? — Espiraldo levanta-se, obriga Odorico a voltar-se. — Quer falar comigo?
— Ah, é verdade — lembra Dirceu —, esse senhor está esperando há mais de uma hora.
— O senhor me desculpe, eu estou deverasmente atarefado, Seu Dirceu Fonseca, meu secretário...
— Mas é um assunto que só interessa ao senhor! — A veemência de Espiraldo impressiona Odorico. — E interessa muito.
— Tá bem, pode entrar. — Odorico ergue os olhos para Espiraldo quando ele entra em seu gabinete, repara em seus olhos fundos, seu queixo pontudo. — Espera... eu já conheço o senhor de algum lugar...
— Talvez o senhor tenha visto meu retrato, saiu no jornal anteontem, na
— O rapaz que tentou o suicídio!
— Pela segunda vez — acrescenta Espiraldo, acabrunhado. — E pela segunda vez... fracassei.
— Mas que azar! — Odorico procura corrigir. — Quer dizer... sorte pra seus familiares, pras pessoas que precisam do senhor.
— Ninguém precisa de mim, seu prefeito. E parece que nem a morte me quer. — Oxente, não diga isso. Coragem. Quem sabe se numa terceira tentativa... Não que eu ache que o senhor deva...
— Por isso é que eu venho aqui. Pra fazer um trato com o senhor. — Um trato? — O rosto de Odorico se ilumina.
— Como é que tá aí? — Odorico pára por trás de Dirceu, que se debruça sobre a máquina de escrever. — Leia tudo.
— Cláusula primeira — Dirceu ajeita os óculos, que escorregam para a ponta do nariz. — Pelo presente contrato, Espiraldo Pirajá, ora denominado CONTRATADO, confere a Odorico Paraguaçu, ora denominado CONTRATANTE,O direito exclusivo de sepultar seu corpo no cemitério municipal de Sucupira, em caso de morte natural ou acidental.
— Cláusula segunda — Odorico dita, Dirceu cata as letras no teclado. — O
CONTRATANTE se obriga a pagar todas as despesas de sepultamento do
CONTRATADO, bem como amparar a viúva e os filhos deste, mediante o pagamento de uma pensão mensal equivalente a dez salários mínimos durante dez anos, a contar da data da morte do CONTRATADO.
— A contar da morte...
—... do CONTRATADO.
— Que coisa horrível! — Dirceu sente embrulhar o estômago. — Horrível por quê, Seu Dirceu?
— Esse... esse contrato. O senhor tá contratando um defunto!
— Mas foi ele quem quis. Ele que propôs o negócio. Seu Espiraldo já tentou o suicídio duas vezes. É um suicida praticante e juramentado.
— De qualquer maneira... — Dirceu tira os óculos, limpa os óculos, recoloca os óculos. — Parece que o senhor tá se apro... aproveitando.
— Quem tá se aproveitando é ele, que vai ganhar enterro de primeira e vai ter a viúva e os filhos amparados por dez anos. Minha interveniência no caso é meramente adjutória, dentro do mais puro espírito de solidariedade cristã. E vamos trabalhar. Cláusula terceira. O CONTRATADO se obriga a fornecer ao CONTRATANTE O material necessário ao cumprimento da cláusula primeira, isto é, o próprio corpo em estado defuntício, no prazo máximo de trinta dias., sem o que ficará o presente contrato rescindido, sem ônus para qualquer das partes. Estando assim justos e contratados, firmam o presente instrumento, etc, etc. — Odorico espera que Dirceu termine com os termos de praxe.
— Seu Pirajá? — Odorico passa ao seu gabinete, estende as cópias do contrato a Espiraldo. — Se o senhor quiser conferir...
— Já está pronto? — Espiraldo passa os olhos rapidamente, sem muito interesse. — Podemos assinar?
— Mandei fazer em três vias. O senhor fica com uma. Eu vou assinando. — Odorico assina as três vias. — O senhor assina aqui embaixo. Seu Dirceu assina aqui, como testemunha. Seu Dirceu!
— Eu? — Dirceu atende, surpreso. — Mas... mas por quê?! — Porque é preciso duas testemunhas. É de lei.
— Se o senhor tivesse me falado... — Dirceu assina uma das cópias, a mão trêmula.
— As três cópias, Seu Dirceu. Depois vamos arrumar outra testemunha. — Odorico vê que Dirceu assina as outras cópias e sai, atabalhoadamente, tropeçando numa cadeira. — Seu Dirceu! O senhor desculpe, Seu Espiraldo, esse meu secretário é dado a esses destrambelhamentos compulsivos. O senhor toma alguma coisa? Pra comemorar o nosso contrato.
— Aceito.
— Um uísque? — Odorico abre o pequeno bar dissimulado na estante. — Ou prefere uma cachacinha "da cabeça"? Ou uma vodca?
— Tanto faz...
— À sua saúde! — Odorico serve dois cálices de vodca. — Não obstantemente, no seu caso, a saúde não seja de muita serventia...
— "Revertere ad locum tuum" — Espiraldo lê a inscrição latina no portão de ferro. — Foi o senhor quem escolheu essa frase?
— Foi — confirma Odorico —, mas se o senhor não gosta, eu mando mudar. — Não, pode deixar.
— Fique tranqüilo que eu vou mandar pintar o portão. — Odorico vê o muro branco pichado de palavrões e xinga-mentos à sua pessoa. — Essa molecada... vou mandar caiar tudo.
— Se preocupe com isso não.
— Mas eu faço questão. Pelo nosso contrato, o senhor tem direito a um enterro de primeira. — Odorico empurra o portão, tropeça numa galinha, que foge, cacarejando, seguida por uma ninhada de pintos. — Sai! Sai, diabo! Seu Moleza! Cidadão coveiro! Não repare, tudo isso vai ser limpo e reajardinado pra receber o amigo. Essas galinhas, esses bodes, aquele jegue, tudo vai ser posto no olho da rua hoje mesmo.
— Seu prefeito! — Tião Moleza vem correndo, assustado. — O senhor...- eu não sabia...
— Cidadão coveiro, o senhor é a vergonha do coveirismo nacional. Quero este cemitério restituído às suas verdadeiras funções de campo santo dentro de vinte e quatro horas. Ou o senhor será demitido, por justa causa.
— Seu Espiraldo, venha comigo. — Odorico pega o futuro defunto pelo braço, leva-o até o início da aléia principal. — Que tal aqui... bem em frente ao portão de entrada?
— É... — Espiraldo revela pouco entusiasmo. — É um bom lugar. — É uma posição nobre. E tem a vantagem de receber a brisa do mar. — O senhor não precisa se preocupar com esses detalhes.
— Que é isso? Como defunto inaugural, o senhor merece. Um mausoléu todo de mármore, com um epitáfio que o senhor mesmo pode escolher.
"Aqui jaz Espiraldo Pirajá, que a vida resolveu desertar apenasmente para ter a honra deste cemitério inaugurar." — E se eu não tiver coragem?
— Como assim? — Odorico se assusta. — O senhor assinou um contrato. Tem que cumprir.
— É que nas duas vezes anteriores eu perdi a coragem na hora H. Pode acontecer de novo.
— Espera lá, Seu Espiraldo. Eu tou confiando no senhor, na sua palavra. — Odorico salta sobre uma cova rasa, coberta de capim, alcança Espiraldo, que foge na direção da capela. — O senhor não pode me deixar na mão. Pense na sua mulher, nos seus filhos. Eles vão ter o futuro garantido...
— Eu preferia que alguém... — Espiraldo se abraça ao cruzeiro, olhar angustiado. — O senhor não conhece ninguém que possa me ajudar nisso?
— Ajudar como? — Um matador...
— Um matador? Bom, posso arranjar.
— Só que eu não queria saber quem é, nem quando vai ser. — Espiraldo faz a volta em torno do cruzeiro, alcança o portão, Odorico atrás dele. — De repente, um tiro... ou um atropelamento. Quando eu menos esperasse, entende?
— Entendo. De repentemente... — Odorico completa a frase com um gesto.
— Venha cá, capitão... — Odorico leva Zeca Diabo até à porta entreaberta. — Cuidado pra ele não ver o senhor. Tá vendo ali na sala de espera aquele homem?
— Aquele magricelo? — Grave bem o rosto dele.
— Pra quê, seu-dotô-coroné prefeito?
— Seu-dotô-coroné prefeito me desculpe — Zeca Diabo passa a mão pelo crânio curtido de sol e quase deserto de pêlos, que nem as caatingas nordestinas, onde passou mais de duas décadas fugindo da polícia baiana, matando pra viver e matando pra não morrer —, eu tou um burro veio encarquilhado e esse meu bestunto custa a entender as coisas, que diacho de serviço é esse que seu prefeito quer de mim?
— Que o senhor, que tem ajudado tanta gente a se livrar das consumições da vida, ajude talqualmente esse pobre homem.
— Ajudar como? Passando fogo nele?
— Tem cinqüenta mil antes — Odorico abre uma gaveta, tira um maço de notas, coloca sobre a mesa — e cinqüenta mil depois.
— Mas isso é serviço de matador. E seu-dotô-coroné prefeito sabe que eu não faço mais desse serviço.
— Oxente, e eu não sei que o capitão é hoje um homem regenerado? Eu não ia fazer a desaforice de chamar o capitão, se o caso em pauta não fosse diferente. O cidadão quer morrer, quer bater a caçuleta, assinou um documento — Odorico mostra uma cópia do contrato —, o capitão vai só apertar o gatilho, quem vai se matar é ele.
— Ele botou aí com a letra dele que vai dar cabo da vida?
— Tá aqui, um contrato, com firma reconhecida em tabelião. — Odorico agita o documento a um palmo do rosto de Zeca Diabo. — Ele vai se matar e eu vou amparar a viúva e os filhos. Um gesto humanitário, que nem o gesto do capitão. O senhor não vai matar, vai suicidar o homem. Apenasmente.
— É... sim... não... sim... — Zeca Diabo coca, balança a cabeça na vertical e na horizontal, apanha o maço de notas.
— Nenhum de nós pode ser acusado de nada, a não ser de misericórdia.
— Como é isso?! — O vigário cola o ouvido na treliça do confessionário. — O senhor vai matar um homem?!
— Não... — ajoelhado do outro lado da grade, Zeca tenta justificar —...eu não vou matar propriamente, vou só dar um empurrãozinho na morte que ele decidiu morrer.
— Um empurrãozinho, mais um tirinho... — Padre Honório extravasa a sua indignação. — E o senhor tem a coragem de vir me perguntar se Deus aprova uma coisa dessas? Francamente!
— Pera, pera... Não carece de seu vigário ficar assim tão zangadinho comigo. Se seu vigário acha que não tá certo, vou destrata o trato que fiz. Fica o dito pelo não dito e viva São Benedito.
— E é isso aí. — Zeca Diabo atira o maço de notas sobre a mesa de Odorico. — Tá desfeito o trato.
— Eu não dei minha palavra. Só disse que ia pensar, matutar. E pensei, matutei e tou devolvendo seu dinheiro. Não é serviço pra um homem de bem, temente a Deus e devoto de meu padim Pade Ciço Romão Batista.
— E agora, como é que eu faço? — Odorico anda pela sala, desatinado. — Que jeito é que eu vou dar?
— Oxente, mande um dos seus jagunços. — Não posso. Isso ia me comprometer. — Entonce mande chamar um matador.
— Um matador... — Odorico pensa. — É, acho que é a solução.
— Mas olha — Zeca Diabo ia saindo, volta da porta —, matador bom mesmo é cearense do olho amarelo.
— Cem mil — Odorico joga um maço de notas sobre a mesa. — Cinqüenta agora, o resto depois do serviço concluído.
— E asseguro a seu coroné que o serviço vai ser bem feito — estatura mediana, testa larga por cima dos óculos escuros, terno de brim claro, folgado, o paletó saco escondendo o arsenal, composto de dois revólveres, um cinturão de balas e uma peixeira, as calças boca-de-sino caindo sobre as sandálias de couro cru, o matador pega o dinheiro. — Seu coroné tem aí um retrato do cabra?
— Tenho — Odorico abre uma gaveta, tira um retrato de Espiraldo, 3 por 4. — E é fácil, ele tá hospedado no Grande Hotel. Tá na suíte presidencial. Ele exigiu, o sem-vergonhista.
— Seu coroné pode dormir sossegado. — O matador guarda o retrato e o dinheiro.
— Posso cuidar do enterro?
— Com a graça de Deus Nosso Senhor.
— Ei, espere... Quer tirar os óculos? — Odorico olha dentro dos olhos do matador, sorri, satisfeito. — Não há dúvida... olho amarelo.
— Co...coronel! — Dirceu entra no gabinete, pálido, gaguejante. — Esse homem que acabou de sair daqui!...
— Que é isso, Seu Dirceu? Por que essa cara de seu-vigário-cadê-minha farofa? — É um matador! O senhor contratou ele pra... pra... — o rosto congestionado, Dirceu não consegue concluir.
— Primeiro que tudo, o senhor continua com o péssimo hábito de escutar atrás das portas. — Odorico avança de dedo em riste para Dirceu, que se encolhe, na defensiva. — Segundo que tudo, trate de desescutar o que escutou e de desenxergar o que enxergou. Esse é um assunto top secret, como dizem os americanos. Top secretíssimo.
— Então... — Dirceu se contorce, sentindo eólicas estomacais. — Então é verdade!
— Pode abrir que é de paz. — O matador escuta a tranca ser retirada e a porta se entreabrir. — Capitão Zeca Diabo?
— Tá falando com ele.
— Eu sou Jesuíno, tou vindo do Ceará, soube que o capitão tava por aqui e decidi realizar um sonho que me aperreia desde menino: conhecer o Capitão Zeca Diabo.
— Tá bom. — Zeca Diabo acaba de abrir a porta. — Entonce vamos entrando. — Com sua licença. — O matador entra, emocionado, vê a velha mãe sentada na sua cadeira de balanço, cochilando, na emoção tropeça num tamborete. — Me desculpe...
— Chiii... Faz bulha não. — A velha ronca e quase desperta. — Minha santa mãezinha tá sonhando com os anjos.
— Mas vosmincê é mesmo o Capitão Zeca Diabo? — O matador tira os óculos e seus olhos cinza-amarelados têm reflexos estranhos à luz do candeeiro. -— O rei do cangaço?
— Oxente, por que tá duvidando?
— Imaginava vosmincê tão diferente. Eu era menino de calça curta e escuitava vossas proezas, os macacos da polícia que vosmincê sangrava na ponta da peixeira, as orelhas dos coronéis que vosmincê cortava, fritava com farofa
e comia! — Os olhos amarelos de Jesuíno brilham de admiração. — E eu só pedia a Deus que fizesse de mim um cabra pai-d'égua que nem o capitão. E que me permitisse a felicidade de um dia apertar sua mão.
— Sem querer me meter nos seus particulares, Seu Jesuíno, vosmincê faz o quê? — Minha profissão? — Jesuíno estufa o peito, com orgulho. — Sou matador. — Eu já desconfiava. — Zeca Diabo pega a palha e o fumo, começa a enrolar um cigarrinho. — Então esse menino, Jesuíno, cearense do olho amarelo, veio a chamado de seu-dotô-coroné prefeito.
— É, vim. Vim em razão de um servicinho. — Servicinho sujo, de gente excomunguenta.
— Por que o capitão diz isso? — Jesuíno se espanta com a reação indignada do personagem de tantas façanhas, para ele o maior dos matadores, seu herói e seu ídolo.
— Porque eu sei qual é. Seu-dotô-coroné prefeito me ofereceu e eu rejeitei. E acho que vosmincê devia rejeitar também.
— Posso não, capitão. — O matador não suporta o olhar duro de Zeca Diabo, seus dedos brincam nervosamente com o crucifixo que tem no pescoço. — Posso não.
— Por que não pode?
— Você tem certeza? — Neco estaciona o jipe em frente do Grande Hotel, espera a confirmação de Tuca, ainda incrédulo. — Olhe que esse hotel é uma nota preta.
— Que é que você acha, que eu estou inventando? Vi ele entrar aí. Fui atrás e vi ele pedir a chave na portaria e subir no elevador — confirma Tuca.
— Ele disse que estava desempregado, cheio de dívidas... — Será que era tudo mentira?
— E eu banquei o palhaço. Arrisquei minha vida pra salvar um vigarista de morrer afogado. — Neco desce do jipe, Tuca faz o mesmo, os dois entram no hotel e vão direto à portaria.
— Bom dia, que desejam?
— Só uma informaçãozinha. — Neco se debruça sobre o balcão. — Seu Espiraldo Pirajá está hospedado neste hotel?
— Espiraldo Pirajá... — O porteiro corre a vista pelo livro de registro de hóspedes. — Está. Na suíte presidencial.
— Suíte presidencial! — Neco se volta para Tuca. — Essa não! — A quem devo anunciar?
— Não, não quero falar com ele não. Vamos embora. Nessa eu entrei de gaiato. — Neco sai, furioso, Tuca corre atrás dele, os dois atravessam o saguão e não reparam num homem de olhos amarelos sentado numa poltrona, lendo um jornal. O homem apenas baixa o jornal e olha por cima dos óculos escuros, vê que não é a pessoa que está esperando, volta a ler.
— Em nome do Padre, do Filho e do Espírito Santo, amém. — Espiraldo se benze, levanta-se e atravessa a nave da igreja, apenas uma ou outra beata, fazendo suas orações, alcança a porta, o matador, ajoelhado no último banco, faz o sinal-da-cruz e segue atrás, Espiraldo atravessa a praça e ganha a praia, deserta de banhistas naquele fim de tarde, seus passos vão deixando na areia a marca dos sapatos, num caminho sinuoso, entre os saveiros encalhados para reparo, pegadas que a maré enchente vai fazer sumir daí a pouco, mas que ainda estão bem nítidas quando se ouvem dois tiros. Espiraldo cai de bruços na areia molhada.
— Serviço terminado, seu coroné.
— E o de-cujus? — Odorico vai até à porta, certifica-se de que ninguém escuta. — Quero dizer, o corpo da vítima?
— Tá lá na praia. Vim receber o restante do combinado.
— Espera... — Odorico ia abrindo a gaveta, volta a fechar, cauteloso. — Careço de um comprovamento.
— Seu coroné tá duvidando da minha palavra? — O matador se ofende.
nesses transacionismos defuntícios. Só pago o restante com a mercadoria na mão. Contra-entrega. Toma lá, dá cá.
— Seu coroné tá querendo me passar a perna? — O tom de voz de Jesuíno é ameaçador. — Gosto disso não.
— Calma, calma — Odorico pega o telefone, disca —, quero somentemente uma confirmação. Alô? É da delegacia de polícia? Boa tarde, Dona Chica Bandeira. Aqui é o prefeito. Tá correndo uma boataria... que mataram um homem na praia.
— Não é boato, é verdade — a voz da delegada pelo telefone. — Estamos recebendo a comunicação do hospital.
— Do hospital? — Odorico olha para o matador. — Então ele não morreu?! — Morreu não, coronel. Mas parece que não escapa.
— Obrigado. — Odorico recoloca o fone no gancho, descarrega toda a sua ira sobre o matador. — Tá vendo? O senhor é um descompetente!
— Não é possível! — A voz de Jesuíno se afina, choraminguenta, como a de uma criança repreendida pelas más notas alcançadas na escola. — Eu sapequei dois tiros nele!
— E eu que tinha o senhor em alta conta, mercê de seus pratrasmentes e de seu olho amarelo. Que deceptude, Seu Jesuíno, que deceptude.
— Seu coroné se apoquente não. — O matador abotoa o paletó, sente os revólveres e a peixeira sob ele. — Nunca deixei serviço pela metade. Agora é questão de honra.
— Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo. — Louvado seja.
— Olha, seu vigário, eu quero lhe dizer uma coisa — Zeca Diabo cola a boca na grade do confessionário —, sei que seu vigário deve de tá pensando que fui eu que atirei naquele homem que tava pedindo pra morrer. Mas seu vigário não bote esse pecado na minha conta não, porque não fui eu, juro pelo meu padim Pade Ciço Romão Batista.
— Não foi o senhor, mas alguém atirou no homem. E esse alguém estava a serviço da mesma pessoa.
— Bom, seu vigário já tá querendo que eu dê uma de cagüete. E se eu não faço mais serviço de matador, muito menos de traidor, que eu nunca fui.
— Está bem. Eu não vou pedir pro senhor me dizer o nome do mandante. Mesmo porque seria um segredo de confissão que eu não ia poder usar. Mas acho que Deus faria um grande desconto na sua dívida se o senhor desse um jeitinho de afastar daqui esse matador.
— Seu vigário acha? — Tenho certeza.
carta encontrada no bolso de Espiraldo.
— "Para minha esposa e para meus filhos." — Neco lê o sobrescrito, olha para Espiraldo, ainda inconsciente após a cirurgia. — É uma carta de despedida.
— E não explica nada, só que ele ia se suicidar — esclarece a delegada.
— A senhora não acha estranho que alguém tenha tentado matá-lo quando ele mesmo queria morrer? — pergunta Tuca.
— Estranho por quê? — Chica Bandeira responde com um sorriso irônico. — Que é que a nossa panterinha está querendo insinuar?
— Não é preciso ser detetive pra ver que é muita coincidência.
— E existem outras coincidências — acrescenta Neco, devolvendo a carta à delegada, afastando-se do leito para a enfermeira trocar o tubo de soro. — O cemitério está todo remodelado, pintadinho de novo. Parece que alguém adivinhou que havia um defunto a caminho.
— E parece que temos mais uma coincidência — ajunta Tuca, vendo Odorico surgir na porta, acompanhado de outra enfermeira.
— Boa tarde... — Odorico se acerca do leito, chapéu na mão, expressão compungida — tive notícia do covarde atentado e fiz questão de vir, de corpo presente, me solidarizar com a vítima. Como é que ele tá?
— Parece que fora de perigo — responde a delegada.
— Ainda bem... — Odorico esconde sua decepção. — E aproveito a presença da imprensa e talqualmente de nossa valentosa delegada pra verberar contra essa onda de violência que assola o município e que atenta contra o nosso foro de cidade civilizada.
— Come que tá o bicho? — pergunta Caboré, abrindo a porta do carro pra Odorico entrar.
— Tá fora de perigo — Odorico responde com raiva. — Não se pode mais confiar em ninguém.
— É isso mesmo — concorda o jagunço, sem Saber se o coronel se refere ao matador ou à vítima.
— Tou desiludido de tudo. — Odorico tira o chapéu, passa o lenço no rosto suado, vê um vulto esconder-se atrás de uma árvore à passagem do carro, reconhece o matador. — Bom, sempre resta uma esperança...
— Ele não tem acompanhante? — O vigário se surpreende ao ver que Espiraldo está sozinho no quarto do hospital, entregue aos cuidados da enfermeira.
— Tem não senhor — responde a enfermeira.
— Mas é muito perigoso... — O vigário interrompe a frase ao escutar a voz de Dorotéa Cajazeira.
— É aqui mesmo... Entrem...
— Sua bênção, padre — Zuzinha beija a mão do padre. — Deus lhe abençoe.
— Chegamos atrasadas? — pergunta Dorotéa.
— Não, acabei de chegar. E estava preocupado justamente por ver que ele está sem acompanhante.
— Coitado! — Zuzinha se aproxima do leito, manuseando as contas do terço. — Podíamos rezar um terço por ele.
— Que pecado! — Juju se apieda. — Um homem tão bonito e todo furado de bala.
— Juju! — Dorotéa repreende a irmã. — Padre, que é que o senhor queria de nós?
— Queria que vocês me ajudassem. Ele não tem ninguém. Eu queria que vocês se revezassem aqui, de modo que ele não fique sozinho um instante sequer.
— Eu fico com ele! A noite toda!
— Calma, Juju — volta a censurar Dorotéa. — O vigário está pedindo a nós três.
— Só queria preveni-las de uma coisa: há alguém contratado para matar esse homem. Se ele escapar com vida, é provável que o matador volte a atacar. — O vigário vê o pavor no rosto das Cajazeiras, mas prossegue. — De modo que é preciso uma vigilância constante. Se entrar aqui algum suspeito, gritem por socorro.
— Vejam! — Juju aponta para Espiraldo, que abre os olhos. — Ele está voltando a si!
— Que é que tá me olhando com essa cara de valha-me Deus-Virgem-Santíssima? — Odorico se irrita, vendo Dirceu parado à sua frente, angustiado.
— Co... como é que ele tá? — Dirceu custa a arrancar as palavras. — Ele quem?
— Seu Pipi.
— Até ontem ainda havia esperanças... — responde Odorico dubiamente. — Telefone pro hospital, pergunte como ele passou a noite.
— Como é mesmo o telefone do hospital? — Dirceu procura lembrar-se, sempre olhando para Odorico, inconformado.
— E pare de me olhar desse jeito. Eu não tenho culpa de nada. Foi ele que quis morrer. É me dói, Seu Dirceu, me dói deverasmente essa sua descompreensão. — Odorico sente o olhar acusador do secretário. — Logo o senhor, que sempre acarinhei como filho, imaginar que eu esteja sendo movido por outro sentimento que não a piedade e a solidariedade cristã. Logo o senhor!
— Perdão! Perdão! — Dirceu cai de joelhos, segura a mão de Odorico, beija, numa crise nervosa. — Eu não sei o que foi que me deu... Eu acredito! Eu acredito no senhor!
— Eu não sei se vou poder perdoar. — Odorico puxa a mão, levanta-se, mostra-se profundamente magoado.
— Se o senhor não me perdoar, eu me mato. — Dirceu agarra-se às pernas de Odorico. — Eu me mato!
idéia. — Quem sou eu pra dizer o que o senhor deve fazer de sua vida.
— Tá bom assim? — Juju ajeita o travesseiro, carinhosamente, sob a cabeça de Espiraldo.
— Tá... obrigado. — Espiraldo lança a Juju um olhar agradecido. — Você é um anjo.
— Ah, não diga isso... — Juju tem um risinho histérico. — Queria fazer muito mais por você.
— Sua sopa. — A enfermeira entra com um prato de sopa na bandeja. — Tá na hora.
— Deixe que eu dou a sopinha dele. — Juju arrebata a bandeja das mãos da enfermeira.
— Posso ao menos levantar a cama? — A enfermeira gira a manivela, levanta um pouco a parte superior do leito, lança um olhar de despeito a Juju e sai.
— Na boquinha... — Juju senta-se na borda da cama — na boquinha.
— Isso é intriga da oposição. — Odorico reage com veemência, esmaga o charuto no cinzeiro, levanta-se. — Fofoquismo oposicionista.
— É não, coronel — retruca tranqüilamente a delegada.
— A informação é da gerência do Grande Hotel. Seu Espiraldo Pirajá estava hospedado lá, mas as despesas corriam por conta do Coronel Odorico Paraguaçu.
— E a senhora tem a topetice, o desaforismo de vir aqui me acusar?! — Odorico avança para Chica Bandeira, que apenas firma os punhos nos braços da cadeira, sustentando seu olhar, sem se deixar intimidar. — Acusar de quê?!
— Mas eu não estou acusando o senhor de nada. — A delegada sorri, sentindo o desespero do prefeito. — Só vim lhe pedir uma explicação. Estou investigando o atentado. É meu dever lhe perguntar por que o senhor pagava as contas da vítima.
— Por que eu pagava... A senhora quer a verdade?
— Odorico suspira fundo, faz uma pausa pra ganhar tempo, muda de tática. — É essa minha mania de ajudar todo mundo. A senhora sabe, tenho um coração de manteiga. Quando li na gazeta a via crucis desse infeliz, meu coração amanteigou-se, derreteu. E mandei que hospedassem ele por minha conta.
— Na suíte presidencial...
— Pra que ao menos uma vez na vida ele se sentisse vitorioso. — É esse o único envolvimento que o senhor tem com a vítima? — Oxente, e que outro eu podia ter?
— Tá bem, eu aceito sua explicação. — Chica Bandeira levanta-se, ajeita a bolsa de couro cru pendurada a tiracolo, a saia de brim caqui de talhe austero, militarizado. — Só não sei se a imprensa e a opinião pública vão aceitar.
— O quê?! — Odorico se assusta. — A senhora contou pra imprensa?
— Essa imprensa marronzista! — Odorico desfere um murro na mesa, depois que a delegada fecha a porta do gabinete. — Seu Dirceu!
— Coronel! — O secretário entra, assustado com o grito do prefeito. — Me ache aquele cearense do olha amarelo!
— Que... que cearense? — O matador.
— Eu?! — Dirceu gagueja. — Ma... ma... mas eu não sei...
— Então chame Caboré, o chefe da segurança. Temos que achar esse homem. Ou tou fodido.
— Eu vou dormir aqui esta noite... — Juju arruma a cama de acompanhante, lança olhares intranqüilos a Espiraldo. — Isso me deixa tão emocionada.
— Por quê?
— Nunca dormi com um homem... Será que não vão pensar mal de mim? — Mas por quê? — insiste Espiraldo.
— Porque eu sou uma moça donzela, ora essa.
— Todo mundo sabe que você não corre perigo. — Espiraldo tenta mover-se na cama, busca melhor posição. — Mal posso me mexer...
— Que pena... — Juju olha para Espiraldo, ainda enfaixado, a agulha de soro na veia do braço, vê a porta abrir-se lentamente e abafa um grito de susto. — Coronel!
— Chiii! — Odorico pede silêncio e entra, pé ante pé. — Vim fazer uma visitinha a essa pobre vítima da violência urbana.
— O prefeito! — Ao ver Odorico, Espiraldo se preocupa. — O senhor aqui... — Dona Juju podia sair um pouquinho? Queria ter um coloquiamento sigiloso com Seu Espiraldo.
— Ah, sim... tá bem.
— Seu Espiraldo Pirajá — Odorico espera que Juju saia e feche a porta, tira do bolso uma cópia do contrato —, data vênia, quero lembrar ao distinto o contrato que firmou comigo. Pela cláusula terceira do referido, "o CONTRATADO se obriga a fornecer o próprio corpo em estado defuntício, no prazo máximo de trinta dias..." Já se passaram vinte e dois e o senhor ainda não cumpriu esta cláusula.
— Não foi culpa minha — defende-se Espiraldo. — Seu matador é que errou o alvo.
— Não obstantemente esse lamentável entretanto, o senhor podia dar um jeito... — Odorico olha para o tubo de soro, gotejando, a intervalos certos. — Era só querer...
— Coronel, vou lhe confessar uma coisa. — A voz de Espiraldo vem emocionada. — Eu estou arrependido.
— Arrependido, como? — Não quero mais morrer.
corda!
— Eu recuperei a vontade de viver — confessa Espiraldo, como uma falta imperdoável.
— Não podia! O senhor assinou aqui. — Odorico quase esfrega o contrato no nariz de Espiraldo. — Assinou e apalavrou. É uma indignidade. Uma falta de caráter. De idoneidade moral.
— Coronel! — Juju entra, assustada, escutou os gritos de Odorico. — Não sei como se pode ser assim tão pusilânime.
— Por favor! — Juju corre em socorro de Espiraldo. — Não grite assim que ele pode piorar.
— Piorar! — Odorico guarda o contrato, sai, indignado.
— Por que ele gritou com você daquele jeito? — Juju leva a mão ao peito, sente o coração disparar pelo imprevisto da cena. — Que foi que você fez pra ele?
— Você é a culpada... — Espiraldo segura a mão de Juju, busca seus olhos aflitos. — Foi você quem me devolveu a vontade de viver.
— Eu?... — Juju sente uma corrente de calor percorrer o corpo todo. — Repita, repita o que acaba de dizer.
— Eu queria morrer... não quero mais. Não deixe que eles me matem.
— Eles, quem? O vigário falou de um matador... — Juju escuta girar a maçaneta, volta-se, assustada. — Quem é?
— Dá licença? — Zeca Diabo entra, cauteloso, não passa da porta, ao grito histérico de Juju, ele pára, imobilizado. — Sou eu... sou eu, Dona Juju!
— Não! Não! Não mate ele! — Juju continua gritando, cobrindo Espiraldo com o próprio corpo. — Socorro!
— Minha mãe do céu! Eu não vim pra matar ninguém, muito pelo contrário... — Zeca Diabo não consegue que Juju pare de gritar, trata de fugir, a enfermeira chega em seguida.
— Que foi? Que aconteceu?
— Querem matar ele! Querem matar meu Pipi!
— Desse jeito — a enfermeira vê que Espiraldo sufoca, sob o corpo protetor debruçado sobre ele —, desse jeito, quem mata ele é a senhora!
— Espiraldo melhora e Odorico piora. — Odorico lê a manchete d'A Trombeta, atira longe o jornal. — Essa imprensa... toda infiltrada de comunistas.
— Licença, seu coroné? — Caboré entreabre a porta, enfia a cara. — Taí o home.
— Mande entrar. — Odorico levanta-se, o matador entra. — Até que enfim, Seu Jesuíno. Andei catando o senhor pela cidade inteira, até os cafundós do Judas.
— Já sei, seu coroné tá dessastifeito comigo. — O matador não ousa levantar a cabeça, com sentimento de culpa. — Mas eu disse, vou terminar o serviço.
— Nada disso. Mandei chamar o senhor pra lhe dizer que esqueça o assunto. E pique a mula.
— É, pegue a estrada. Suma daqui. — E o serviço?
— Pode ficar com o que já lhe dei. E desapareça. — Seu coroné tá falando sério?
— Seriíssimo. A situação se complicou. Já estão suspeitando de mim... Caso encerrado.
— Eu sinto muito, seu coroné — o matador recoloca os óculos, abotoa o jaquetão de brim —, home que Jesuíno jurou matar tem que morrer.
— Mas eu não quero mais...
— Vosmincê não quer, mas eu quero. Agora não é mais por dinheiro não, é por dignidade.
— Mas que dignidade, homem!
— Se eu desistisse agora, nunca mais ia ter coragem de olhar pra minha cara no espelho. Questão de vergonha e respeito pela profissão, seu coroné. — O matador vira as costas e sai, Odorico fica sem ação e sem voz.
— Jesuíno Matador! — Jesuíno escuta, pára no primeiro degrau da escadaria do hospital, volta-se, vê Zeca Diabo lhe apontando o revólver. — Aonde vosmincê pensa que vai?
— Capitão, que é isso? O capitão tá me estranhando. Sou seu amigo, seu admirador...
— Vosmincê pode ser meu admirador, mas eu não admiro nada esse serviço sujo que vosmincê tá a fim de fazer. Por isso, vou contar até dez. Se vosmincê não se escafeder pra nunca mais voltar aqui, eu juro pelo meu Padim Pade Ciço Romão Batista, era uma vez um matador. — Zeca Diabo despoja Jesuíno dos dois revólveres, deixa-lhe apenas a peixeira. — Ê um, é dois...
— O capitão não pode fazer isso comigo! — Jesuíno mostra mais mágoa que medo. — É humilhação e falta de coleguismo.
— É três, é quatro... — Zeca Diabo prossegue na contagem progressiva. — Me admira o senhor, um homem do seu passado...
— É cinco, é seis...
—... me impedir de cumprir o meu dever. — É sete, é oito...
— E eu que era seu fã!
— É nove... — Zeca Diabo arma o gatilho, o matador começa a recuar, sente que Zeca Diabo não está brincando, tropeça, deixa cair os óculos e o medo aparece nos olhos amarelos. — E é dez! — O tiro lhe arrancou o chapéu, Jesuíno atravessa a praça correndo, passa pelo vigário, quase o derruba da bicicleta, some num capinzal.
— Muito bem, capitão. — O vigário salta da bicicleta.
— Brigadinho, seu vigário. — Zeca Diabo guarda o revólver, sorri. — Seu vigário acha que agora Deus Nosso Senhor vai botar uns jurinhos na minha conta?
— Acho que sim, capitão. Juros e correção monetária.
da igreja.
— É — responde Zuzinha, espichando o pescoço —, os dois fizeram as pazes, depois de tudo.
— Até que não é feia — comenta Dorotéa, escutando a seu lado um soluço. — Juju! Tenha modos, menina!
— Bandido! — Juju procura controlar-se, engole as lágrimas. — Homem nenhum presta!
— Bem feito, pra você ser mais recatada. Não pode ver homem...
— Meninas, vocês estão numa igreja — lembra Zuzinha, ajoelhando-se ao ver que o vigário entra, seguido de Tião Moleza, o sacristão.
O renuncista que deu certo
— E é este, senhores, o projeto de lei que tenho a honra de submeter à aprovação desta casa. — Dorotéa Cajazeira retira os óculos, passa à mesa da Câmara de Vereadores a mensagem do prefeito que acabou de ler. — Como bem esclarece a mensagem do Exmo. Sr. Prefeito Municipal, a abertura deste crédito especial se destina à execução de obras que somente virão beneficiar o povo desta cidade. E eu não creio que nenhum bom sucupirano, que tenha amor à sua terra, deixe de votar favoravelmente.
— Atenção, senhores. — O presidente aciona a campainha, fazendo cessar os comentários no plenário e nas galerias, depois que Dorotéa deixa a tribuna e vai ocupar o seu lugar na bancada situacionista. — Existem vários oradores inscritos para falar sobre o projeto de lei enviado pelo prefeito. Tem a palavra o vereador Luiz Gouveia.
— Senhores vereadores — Lulu Gouveia firma as mãos peludas sobre a tribuna, gira o olhar felino pela sala, faz uma pausa estudada —, confesso-me estarrecido ante o cinismo do senhor prefeito. Sua senhoria acaba de enviar a esta casa um projeto de lei que abre um crédito especial para ele gastar em benefício próprio, isto é, na promoção de seu nome como candidato a candidato ao governo do Estado.
— Vossa Excelência devia estar dormindo quando li a mensagem do senhor prefeito — aparteia Dorotéa, pondo-se de pé. — Nela estão especificadas as obras que o Executivo deverá realizar com esse crédito.
— Que obras? — Lulu Gouveia gesticula, alça-se nas pontas dos pés para aumentar sua pequena estatura, na barba cerrada os pêlos grisalhos parecem eriçar-se. — A rede de esgotos? O abastecimento d'água? Escolas? Hospitais? Não, o prefeito vai asfaltar a Avenida Odorico Paraguaçu. Vai reajardinar a Praça Rosa Paraguaçu. E vai comprar dois ônibus, dois frescões, para passear veranistas e turistas pelos quintais dos Paraguaçus.
— Pelos locais históricos da cidade — retifica Dorotéa.
— Pretexto para fazer propaganda de sua candidatura, mostrando obras promocionais, que pouco ou nenhum benefício trazem ao povo.
— Obras de fachada — aparteia o pedreiro Rosalvo Badaró, único representante do Partido dos Trabalhadores.
— Mistificação! — acusa Ganimedes Batista, farmacêutico aposentado, mais conhecido como Seu Mé, famoso pela invenção do Mé-Cura, preparado contra a dor de dentes, presidente do diretório do PTB.
— Não aceito! Não aceito! Não aceito! — Odorico golpeia o ar, afastando imaginários inimigos, levanta-se da poltrona giratória, avança para Dorotéa Cajazeira e Dirceu Borboleta, assustados com a fúria do prefeito. — Temos de aprovar esse crédito especial custe o que custar. Isso é vital pra minha campanha.
— Está muito difícil, coronel. — Dorotéa cruza as pernas, procura contrapor ao descontrole de Odorico uma atitude serena e consentânea com seu papel de líder da situação. — Toda a oposição está contra. E do nosso lado há algumas defecções.
— Defeccionismo deverasmente lastimante, Dona Dó.
— Isso é uma traição! — esganiça, histérico, Dirceu Borboleta. — Infelizmente, metade de nossa bancada vai votar contra o projeto.
— Co... como é possível isso? Não me conformo! — Dirceu tira os óculos, limpa os óculos, põe os óculos.
— De fato, Seu Dirceu, é uma deceptude. — Odorico cai agora num tom de final de ópera. — É o fim.
— Eu sinto que esses vereadores estão sendo pressionados. Sabe, numa hora dessas, véspera de eleições, há pressões de todos os lados. Umas claras, outras misteriosas. A lealdade fica em segundo plano. O que vigora é o interesse pessoal. É triste, mas é assim — conclui Dorotéa Cajazeira.
— Sabe, Seu Dirceu, eu me sinto talqualmente Cristo, vendido por Judas. — Odorico estende os braços em cruz, pateticamente. — Ou talqualmente César, traído por Brutus. Ou talqualmente Getúlio Vargas, afogado no mar de lama. Só que eu, Odorico Paraguaçu, filho de Eleutério, neto de Firmino e bisneto de Pelópidas Paraguaçu, não vou dar um tiro no coração. Eu vou passar à história de outro modo.
— Co... como, coronel?! — Dirceu fita Odorico com gaguejante ansiedade. — Tenho uma idéia, uma carta na manga da camisa pra derrotar todos eles. — Odorico veste o paletó de linho branco, cravo vermelho na lapela, apanha o chapéu panamá, o guarda-chuva, ergue o rosto, como se posasse para a posteridade. — A renúncia!
— Renúncia?! — Dó e Dirceu reagem em coro. — Isso mesmo: vou renunciar!
— Odorico, eu recebi seu chamado, vim correndo — Ildásio Paranhos não disfarça a sua estranheza —, mas confesso que ainda não entendi...
— Coronel Ildásio — Odorico põe a mão sobre o ombro do vice-prefeito para dar mais ênfase —, é uma missão muitissimamente importante, que carece de uma pessoa de sua gabaritagem política. Quero que o compadre esteja em Brasília amanhã. Já marquei pelo telefone, o nosso deputado vai receber o compadre às três da tarde.
— E o que é que eu vou conversar com ele?
— E pra isso é preciso que eu saia daqui assim às carreiras? — pergunta Ildásio, ainda confuso com a inesperada missão.
— É que o nosso deputado também vai entrar em campanha — procura explicar Odorico. — Não sendo amanhã, ele só vai poder receber o compadre daqui a seis meses.
— Tá bom. Então eu vou ver se pego o avião em Salvador ainda hoje. Mais alguma recomendação?
— Faça assentamento dos prós e dos contraprós que o deputado levantar concernentemente à problemática candidatória. — Odorico passa o braço sobre os ombros largos de Ildásio, leva-o até à porta do gabinete. — E não tenha pressa de voltar. Aproveite bem Brasília... tem lá uns motéis com quarto espelhado, cama redonda, cine prive...
— É mesmo?... — O corpo balofo do Coronel Ildásio se sacode todo, numa gargalhada obscena. — Até a volta.
— Até a volta, compadre. — Odorico fecha a porta, volta-se para Dorotéa Cajazeira e Dirceu Borboleta, que presenciaram toda a cena. — Pronto, a primeira parte do nosso plano está cumprida.
— O senhor acha que precisava mesmo afastá-lo de Sucupira? — Dorotéa levanta-se, questionando ainda o plano de Odorico.
— Ele é vice-prefeito, se eu renuncio, ele é empossado.
— Mas ele é também candidato a prefeito. Se tomasse posse, não podia mais se candidatar.
— Lá isso é verdade — confirma Dirceu —, a lei não permite reeleição.
— Sei disso, mas seguro morreu de velho e desconfiado inda tá vivo. Pode ser que ele prefira cumprir o resto do meu mandato a uma candidatura que pode ser mal sucedida. Mais vale uma pomba na mão...
— Mas o senhor não vai renunciar de verdade, não é? — Dirceu se mostra receoso... — É só um golpe...
— Golpe de mestre — afirma Dorotéa, já plenamente ganha para a jogada do prefeito.
— Temos que tomar todos os acautelatórios. — Odorico pega uma carta sobre a mesa. — Aqui está a carta de renúncia, já escrevi. Esta carta vai ficar com o senhor, Seu Dirceu.
— Comigo? — Dirceu se assusta com a responsabilidade.
— É. Amanhã, sexta-feira, dia de lobisomem, depois que eu partir com destino ignorado, o senhor vai reunir a imprensa marronzista e amarelista e comunicar que eu renunciei. Pode mostrar a carta e até mesmo ler alguns trechos. Mas não entregue a ninguém.
— Isso é importante — sublinha Dorotéa —, deve ser depois de encerrada a sessão da Câmara.
— Teremos então o sábado e o domingo para levantar o povo. — Dorotéa anda pela sala, agitada, duas manchas de suor aparecendo sob as axilas.
— Marque uma concentração popular para domingo. Seu Dirceu, providencie faixas e cartazes. No dia seguinte à minha renúncia, a cidade deve amanhecer enfaixada e encartazada de ponta a ponta: QUEREMOS ODORICO,VOLTE,ODORICO,
TODO o PODER A ODORICO e outras que tais.
— E na segunda-feira, quando abrir a Câmara, o que é que eu faa... faaço com esta carta? — Dirceu gagueja, a carta parece engasgá-lo.
— Aí eu já estarei de volta, nos braços do povo.
— E eu duvido que algum vereador se atreva a votar contra o crédito especial — conclui Dorotéa, sentindo que precisa ir ao banheiro passar desodorante.
— Não terei mais adversários, nem aqui, nem alhures. Passarei como uma motoniveladora por cima de todos eles.
— Olha, o trem já apitou! — grita Juju, aflita, correndo atrás de Odorico, juntamente com Dorotéa, Zuzinha e Dirceu Borboleta, os cinco chegando esbaforidos à estação.
— Caboré — Odorico chama o chefe da segurança, que vem mais atrás —, corre lá e dê ordem ao maquinista pra esperar um minuto, enquanto me despeço. Quero também que todo mundo veja que eu fui embora mesmo. Seu Dirceu, o senhor espalhou o boato que eu ia viajar?
— Espalhei. Até dei um telefonema pr'A Trombeta, dizendo que era um leitor anônimo...
— E não é Tuca Medrado que vem ali correndo? — Dorotéa aponta para a repórter d'A Trombeta, que salta do jipe, seguida do fotógrafo Carijó, e corre para eles.
— Então vamos nos despedir. — Odorico abraça as Cajazeiras, uma por uma. — Adeus!
— Adeus, coronel. — Zuzinha simula uma dramática despedida. — O senhor vai mesmo? — Juju leva aos olhos um lenço cor-de-rosa.
— Tenho de ir. — Odorico aperta a cabeça de Juju contra o peito. — Adeus, Dona Dó.
— Adeus, coronel.
— Senhor prefeito! Senhor prefeito! — Tuca pára, arfante. — O senhor está de partida pra onde?
— Lamento não poder satisfazer a curiosidade da jovem e bela comunicadora. — Odorico sobe o primeiro degrau do vagão.
— Quais os objetivos dessa viagem inesperada?
— Rádio Difusora de Sucupira, a que não erra na mira, transmitindo diretamente do gabinete do prefeito. O Sr. Dirceu Fonseca, secretário de Administração, convocou a imprensa escrita e falada para fazer uma importante comunicação. — O radialista aproxima o microfone de Dirceu, cercado de repórteres, fotógrafos e funcionários.
— O senhor prefeito, Co... coronel Odorico Paraguaçu — Dirceu faz uma pausa para dominar a emoção, ajeita os óculos —, antes de viajar, deixou comigo uma carta que eu devia entregar hoje ao presidente da Câmara Municipal. Infelizmente, isso não foi possível, porque a Câmara já está fechada. Como amanhã é sábado, depois é domingo, só segunda-feira vou poder me desincumbir dessa tarefa.
— Mas o que diz essa carta? — A pergunta é de Tuca Medrado, que se esforça por ler o sobrescrito do envelope que Dirceu tem em mãos.
— Ela comunica à Câmara uma importante decisão tomada pelo prefeito. A decisão de renunciar.
— Senhores ouvintes! — a voz do radiorrepórter se sobrepõe ao espanto, à perplexidade que domina a todos — como acabaram de escutar, o prefeito de Sucupira, Coronel Odorico Paraguaçu, acaba de renunciar.
— O senhor pode nos dar uma cópia dessa carta? — pede Tuca.
— Isso eu não posso. Entenda... é uma questão de ética... A carta é dirigida ao presidente da Câmara.
— Ao menos um trecho...
— Bom, eu posso ler um pedaço. — Dirceu abre a carta, os óculos caem sobre a mesa, ele apanha, lê, esforçando-se para não gaguejar, consciente da importância do momento histórico. — "Nesta data, e por este instrumento, deixando com o secretário de Administração as razões do meu ato, renuncio ao mandato de prefeito municipal. Fui vencido pela reação e, assim, deixo a prefeitura. Forças terríveis levantaram-se contra mim e me intrigam ou difamam. A mim não falta a coragem da renúncia."
— Aqui, seu coroné, aqui! — Caboré acena, Odorico desce do trem, que acaba de parar num local ermo. Caboré ajuda-o a vencer a pequena distância que vai da linha de ferro à estrada de terra, defendendo-o do lamaçal e das urti-gas, dentro da noite que faz o trem parecer uma lagarta de fogo serpenteando no matagal.
— Será que ninguém me viu descer? — pergunta Odorico, entrando na caminhonete.
— Acho que não, seu coroné.
— Então, toca. Toca de volta pra cidade, pra casa das meninas.
— O vigário aceita uma taça de champanhe? — Cremilda Gouveia, fazendo as honras da casa, estende a bandeja, o vigário se sente tentado, afinal toda a oposição está ali bebendo, comemorando.
— Que é isso, padre? — Neco Pedreira intervém. — Hoje é um dia especial. Não é pecado encher a cara.
— Está bem... — O vigário acaba cedendo. — Mas sabe que ainda não consigo acreditar?
— Na verdade, não é fácil acreditar — admite Neco. — Parece um sonho — acrescenta Tuca.
— Nunca imaginei que Odorico fosse capaz de um gesto desses. — O vigário bebe um gole do champanhe, seu paladar afeito aos bons vinhos reconhece, é champanhe nacional. — Sempre imaginei o coronel um desses homens que só abandonam o poder à força.
— Será que ele não ficou maluco? — A pergunta é de Rosalvo Badaró, líder do
PT.
— Quem sabe? — admite Ganimedes Batista, que sempre teve dúvidas sobre a sanidade mental do prefeito.
— Neste caso, bendita loucura! — saúda Neco Pedreira, erguendo a taça. — Atenção, vamos fazer um brinde! — Lulu Gouveia faz cessar o vozerio, concentra a expectativa. — A Sucupira, que acaba de se livrar de seu maior inimigo! Viva Sucupira!
— Viva! — Não fosse a má qualidade do champanhe e a cena seria idêntica às comemorações pela libertação de Paris.
— Um frade, a esta hora da noite... — Juju olha através das venezianas, vê o frade descer de uma caminhonete, cruzar o portão, tocar a campainha.
— Abra a porta, Juju, deixe de ser medrosa. — Dó resolve, ela mesma, ir abrir a porta, Juju e Zuzinha apreensivas. — Que dese... Coronel!
— Meu Deus — grita Zuzinha, vendo Odorico levantar o capuz. — Oxente, por que esse espanto? Não combinamos que eu vinha pra cá?
— Claro. — Dó fecha a porta. — É que ninguém ia imaginar que o senhor viria assim...
— Tive que me disfarçar. — Odorico desata o cordão franciscano. — Se alguém me vê entrando aqui, nosso plano ia por água abaixo.
— E reparando bem — Juju tem os olhos vidrados em Odorico —, o senhor fica tão bem de batina...
— Juju! — Dó repreende a irmã mais nova, vendo em seu rosto um sorriso indecoroso.
— Queria tirar essa fantasia... — Odorico sente calor, ameaça despir o hábito. — O senhor está com roupa por baixo? — pergunta Zuzinha, assustada. — E a menina queria que eu estivesse nu em pêlo?
— Ai! — O grito histérico de Juju provoca novo olhar de censura de Dorotéa. — Nós já preparamos o seu quarto. Eu vou levar o senhor até lá.
— Por que você precisa levar? — protesta Juju. — O coronel não sabe ir sozinho? — pergunta Zuzinha.
— Questão de delicadeza, não é, Zuzinha? — Dorotéa se justifica e leva Odorico. — Vamos, coronel.
e Zuzinha, mas segue Dó pelo corredor, entra no quarto, cuidadosamente arrumado, três jarras com flores sobre a cômoda, três porta-retratos com as três solteironas.
— Veja se está tudo como o senhor gosta ou se falta alguma coisa. Aqui tem água... e aqui licor de jenipapo.
— Acho que não falta nada. — O olhar de Odorico vai da colcha rendada ao ar pudico de Dorotéa. — Acho que esta vai ser uma renúncia com tudo a que tenho direito...
— O... dê-o-dó... rê-i-ri... cê-o-co — Odorico, rê-e-rê... nê-u-nê, nun... cê-i-ci... o-u — renunciou. Odorico renunciou — com enorme esforço, sem descer do cavalo, Zeca Diabo consegue ler a manchete d'A Trombeta, em torno de cujo exemplar, afixado no muro, se aglomera uma dúzia de curiosos. — Ô Seu Tião Moleza! Que é que foi que seu-dotô-coroné prefeito andou aprontando?
— Diz que ele largou tudo e picou a mula, capitão. — Danou-se!
— Que é que diz aí essa gazeta debochista? — Odorico, deitado na rede, toma mais um gole de cachaça da cabeça, fabricada em sua própria fazenda e distribuída gratuitamente aos amigos e amigas.
— Dá a sua carta. — Zuzinha lê. — "Desejei uma Sucupira para os sucupiranos, afrontando nesse sonho a corrupção, a mentira e a covardia."
— Que bonito! — Juju não contém o seu entusiasmo. — Tem aqui umas opiniões.
— Opiniões de quem? — quer saber Odorico.
— Do povo. De várias pessoas. Uns acham que sua renúncia é uma desgraça pra Sucupira. Que é capaz de haver uma revolução. Outros acham ótimo.
— A esquerda badernista.
— E há quem diga que o senhor estava de pileque quando renunciou. — Que infâmia! — protesta Juju.
— Os calunistas de sempre — Odorico reprime um soluço —, os difamistas praticantes.
— Tudo caminhando bem — anuncia Dorotéa, que acaba de chegar da rua, em companhia de Dirceu Borboleta.
— As faixas e os cartazes já estão providenciados — complementa Dirceu. — Hoje mesmo começamos a pichar os muros.
— Só há um problema: é que o senhor mesmo é autor de uma lei que proíbe colar cartazes e pichar muros.
— Este é um caso de exceção, Dona Dó. Trata-se agoramente de uma pichação patriótica.
— E eu tenho uma informação — acrescenta Dó —, os líderes dos partidos de oposição estão reunidos lá na Câmara.
— Reunidos?! — Odorico tosse, engasga-se com a cachaça. — Mas hoje, sábado, tem sessão?
apreciar e aprovar a renúncia.
— Não pode! — Odorico levanta-se da rede, indignado. — Isso não pode acontecer.
— Não pode porque não temos a carta — conclui, frustrado, Lulu Gouveia, jogando um balde d'água fria na fogueira oposicionista.
— Com quem está a carta? — pergunta o representante do PP, Dedé Menezes, coletor de impostos, professor primário, cabelo escorrido partido ao meio, sempre de gravata-borboleta e também conhecido pelo apelido dúbio de Conde Buceta.
— Com o secretário de Administração, Dirceu Fonseca — esclarece Rosalvo Badaró.
— Então, basta convocar o Sr. Dirceu Borboleta e pedir pra ele trazer a carta. — É isso aí — Ganimedes Batista apóia com entusiasmo a solução encontrada pelo colega do PP.
— Acho que é essa a solução. — Lulu Gouveia também apóia. — Porque se esperarmos até segunda-feira, sei não... Odorico é capaz de voltar atrás e perdemos essa oportunidade de nos vermos livres dele.
— Veja lá, Seu Dirceu, trate de esconder essa carta num lugar bem seguro — recomenda Odorico.
— Pode deixar, coronel. — Vou guardar na minha gaveta lá na prefeitura e tirar a chave. Ninguém vai saber.
— Isso, vai, vai depressa... — Odorico leva Dirceu até a porta, apressa sua saída, fecha a porta e volta-se para Dó, Juju e Zuzinha, que o aguardam na sala. — Enfim, sós!
— Dr. Lulu Gouveia! — Dirceu já havia aberto a gaveta, ia guardar a carta, vê o líder e mais dois vereadores da oposição entrarem em sua sala, interrompe o movimento, fica sem saber o que fazer. — Os senhores aqui...
— Podemos falar com o senhor um instante? Viemos em comissão, representando os partidos de oposição.
— Hoje... hoje é sábado, não tem expediente... — Dirceu se dá conta de que ainda está com a carta-renúncia na mão, guarda-a na gaveta, fecha à chave. — Eu passei aqui só pra... pra fechar minha gaveta, que tinha esquecido.
— Isso não impede que o senhor tome conhecimento de nossa missão — argumenta Lulu Gouveia.
— Claro...
— Sabemos que o senhor está de posse da carta-renúncia e que não pôde entregá-la ontem.
— Para que Sucupira não fique sem prefeito durante dois ou três dias, resolvemos convocar uma sessão extraordinária para esta tarde.
— Esta tarde... eu não posso. Não posso... — Dirceu procura escapar. — Só segunda-feira. Hoje eu vou caçar borboletas. Por favor... me dêem licença...
— O senhor não pode, ao menos, nos dar a carta? — Lulu Gouveia barra o caminho de Dirceu. — Aqui está o presidente da Câmara, entregue a ele.
— Não! O prefeito mandou que eu levasse lá... lá na Câmara. Aqui, não! E só segunda-feira, só segunda-feira. Hoje eu tenho que caçar borboletas, já disse!
— Atenção, povo de Sucupira! — Dorotéa Cajazeira, num caminhão munido de alto-falante e decorado com pôsteres de Odorico e faixas que pedem a sua volta, anuncia: — Amanhã, às três horas da tarde, todos à Praça Rosa Paraguaçu! Grande concentração popular para pedir ao prefeito que desista da renúncia!
— Queremos Odorico! — grita Juju atirando volantes, e o refrão é repetido por Zuzinha e mais uma dúzia de mulheres que enchem o caminhão.
— QUEREMOS ODORICO! QUEREMOS ODORICO!
— Viva Odorico, pai dos pobres — Nezinho do Jegue, num momento de sobriedade, segura o jumento para o caminhão passar. — Viva o amigo do povo! Protetor dos necessitados!
— Caminhão na rua distribuindo volantes, cidade coberta de faixas pedindo sua volta, comício marcado para amanhã, tudo preparado — Lulu Gouveia conclui, dando contas de sua missão aos demais vereadores da oposição novamente reunidos no plenário da Câmara —, tudo meticulosamente arquitetado.
— Odorico prepara um golpe! — denuncia o representante do PT, Rosalvo Badaró, demonstrando invejável clarividência política. — Tá na cara!
— Mas golpe pra quê? Contra quem? — A gravata-borboleta subindo e descendo no pomo-de-adão, Conde Buceta não entende. — Contra quem?
— Ô gente, será que vocês não entendem? — Lulu Gouveia tira um lenço, limpa o suor do rosto, aproveita, limpa o nariz achatado. — Ele só fingiu que renunciou. Pra voltar nos braços do povo e obrigar a Câmara a fazer tudo que quer.
— Esse é o golpe — Rosalvo Badaró sobe no estrado da mesa diretora pra ser mais veemente.
— Mas o tiro pode sair pela culatra. — Lulu Gouveia também sobe no estrado e espera que todas as atenções estejam voltadas para ele. — Se nós conseguirmos nos apossar da carta-renúncia. Aí fazemos uma convocação extraordinária e como a renúncia é um ato de vontade própria do prefeito, não cabe aprovar ou rejeitar. É um fato consumado.
— Assume o vice-prefeito. — Ganimedes Batista não se entusiasma com a idéia.
— O vice-prefeito está viajando — lembra Dedé Menezes.
tarde. — Lulu Gouveia, olhar reluzente, saboreia, por antecipação, a vitória política. — Só que pra tudo isso é preciso conseguir a carta — lembra, realisticamente, Ganimedes Batista.
— Se eu bem entendi, vosmincês querem que eu vá lá na prefeitura e arrombe a gaveta de Seu Dirceu das Barbuleta. — Zeca Diabo fecha a porteira da gaiola do canário, troca a água, coloca alpiste, pendura na parede, ao lado da imagem de Padre Cícero. — Mas isso não é um negócio meio sujo?
— Capitão, os fins justificam os meios. — Lulu Gouveia olha para o vigário, convocado por ele para ajudar a convencer o ex-cangaceiro. — O meio não é lá muito limpo, mas o fim é muito nobre.
— Sucupira está sem prefeito — esclarece Neco Pedreira, também amigo pessoal e biógrafo do Terror do Cangaço. — E uma cidade sem prefeito é como um saveiro desgovernado, ou uma casa onde todo mundo manda e ninguém obedece. Vira bagunça. O senhor já andou hoje pela cidade?
— Não... tava aqui pitando o meu cigarrinho de palha, tratando do meu canário, matutando...
— O povo está agitado, querendo invadir armazéns, tocar fogo em automóveis. Ninguém sabe o que pode acontecer.
— Só o senhor, Capitão Zeca Diabo, pode salvar Sucupira do caos — conclui, enfático, Lulu Gouveia.
— Assaltando a prefeitura e roubando a carta de seu-dotô-coroné prefeito. — Roubando, não, não vamos empregar o verbo roubar — atalha Neco Pedreira. — Resgatando é a palavra mais justa.
— Capitão, Deus escreve certo por linhas tortas. — Lulu Gouveia invoca o testemunho e o apoio do vigário. — É ou não, Padre Honório?
— Se o capitão não acredita em nós, não vai duvidar do vigário. — Neco Pedreira força o pronunciamento do vigário, que baixa a cabeça, passa a mão pelo rosto, constrangido.
— Bom — Zeca busca o olhar do padre —, se seu vigário disser que isso tá certo, eu vou!
— Oi, como estão as coisas? — Odorico, deitado na cama, suspensórios arriados, copo numa mão, cigarro de palha na outra, assiste a um bangue-bangue na televisão.
— Tá tudo correndo bem. — Juju entra, fecha a porta sem fazer barulho. O diretório do partido está reunido aí na sala... acho que vai demorar.
— Ótimo... Otimamente ótimo... — Odorico sorri, malicioso, estende a mão para Juju. — Podemos então nos divertir um pouco...
— Não! — Juju resiste. — Agora não... podem escutar!