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Parte 2 – O início do jornalismo eletrônico

2.3 Os primeiros telejornais

2.3.2 O Repórter Esso

O Repórter Esso foi o primeiro grande sucesso telejornalístico da TV brasileira, traduzindo a contento a migração dos paradigmas radiofônicos para o início da televisão brasileira.

Iniciado na Rádio Nacional em 28 de agosto de 1941, o Repórter Esso, surgiu através da solicitação da Esso à agência norte-americana McCann-Erickson que, então, passou a produzir o telejornal de maneira muito semelhante ao apresentado nos Estados Unidos da América, indo ao ar em três edições diárias: às 8, às 12:55 e às 22:55 horas. Seu conteúdo vinha da redação da UPI38 e tinha maior ênfase no noticiário internacional.39 Parte de um projeto publicitário maior da Esso, o Repórter Esso era produzido também em outros países da América do Sul, como Argentina, Chile e Peru. No Brasil, o rádiojornal era apresentado por Heron Domingues que imprimia sua assinatura vocal à abertura.

O importância do Repórter Esso dentro do jornalismo eletrônico brasileiro se deve aos novos padrões estilísticos que ele introduziu através do manual de redação da

United Press International. Pelo manual, as notícias deviam ser redigidas respondendo a seis perguntas básicas: o quê?, quando?, quem?, como?, onde? e por quê? Além disso, estabelecia normas formais que diziam que as notícias não deveriam tem mais que 30 palavras e, lidas, deveriam durar no máximo 16 segundos, seguindo padrões norte- americanos. No Repórter Esso, era obrigatório o uso de uma linguagem correta, porém

38 United Press International

popular, sempre informando a precedência da notícia. Tematicamente também haviam diretrizes a serem seguidas, pois não eram informados suicídios, crimes hediondos ou desastres que não tivessem grande repercussão na comunidade. Pessoas não eram chamadas pelo seus nomes, com exceção feita àquelas de importância notória. Sempre que um candidato era citado em época de eleições, os outros candidatos deviam também ser citados. Por fim, o jornal não informava sobre tensões sociais ou perturbações na ordem pública.40

Além desse pacote estilístico importado do jornalismo norte-americano, o

Repórter Esso tem importância fundamental nesta pesquisa por ter sido o primeiro jornal eletrônico a utilizar uma abertura musical que conseguiu se estabelecer como marca registrada. Apesar de não ser um jornal com referências regionalistas, a música de abertura foi composta nacionalmente com exclusividade, segundo o Dicionário Cravo Albin de Música Popular Brasileira41, por Ivan Paulo da Silva, mais conhecido como Maestro Carioca, e executada pela banda do baterista Luciano Perrone, com Francisco Sergio no trombone e Marino Pissiani no trompete . A composição seguia o estilo de uma fanfarra, onde os ataques dos metais imitavam um toque de caixa e não levavam nenhum acompanhamento de seção rítmica42. A voz de Heron Domingues completava a composição. O toque dos metais parecia acrescentar um caráter marcial e épico à frase dita em alto e bom som, como que com urgência: “Amigo ouvinte, aqui fala o Repórter Esso,

testemunha ocular da história.”43

Em 17 de junho de 1953, concomitantemente com suas transmissões via rádio, o Repórter Esso passa a ser transmitido pela TV Tupi, tendo como apresentadores Antônio Carlos Nobre na Tupi São Paulo – posteriormente substituído por Mario Fanucchi e, finalmente, por Kalil Filho - e Gontijo Teodoro na Tupi Rio de Janeiro. O esquema de produção e conteúdo continuaram semelhantes ao rádio, com a produção centralizada na

40 Idem

41 Dicionário Abin da Música Popular Brasileira. Disponível em

http://www.dicionariompb.com.br/verbete.asp?tabela=T_FORM_C&nome=R%E1dio+Nacional - acessado em 06 de julho de 2006

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A seção rítmica é composta pelos instrumentos que são responsáveis pela condução rítmico-harmônica da música. Normalmente, são eles: o piano ou teclado, a bateria, o baixo, a guitarra e o violão.

agência publicitária McCann-Erickson, fornecimento de notícias da United Press

International, composição majoritária de notícias internacionais e redação seguindo o manual de redação da UPI. Apesar de ter sido um marco também na história do telejornalismo, o Repórter Esso televisivo pouco acrescentou à forma do telejornal da época. As notícias eram lidas em estúdio contra uma cortina de fundo e eram ilustradas por imagens e fotos que muitas vezes vinham do arquivo da TV, o qual vinha sendo incrementado pelas incursões para captação de imagens em 16 mm44. A inexistência do vídeo-teipe e das transmissões em ondas curtas obrigavam cada transmissora a produzir seu noticiário ao vivo, sendo que, conforme o Repórter Esso foi ganhando popularidade na televisão, cada cidade passou a possuir o seu apresentador: Luiz Cordeiro em Belo Horizonte, Edson Almeida no Recife, Helmar Hugo em Porto Alegre. O grande legado do

Repórter Esso para o telejornalismo foi a inauguração de um jornalismo organizado para a televisão, já inserindo alguns padrões norte-americanos, com duração de 33 minutos e apresentação diária às 19:45 horas, seguindo o padrão imposto pela Esso, obedecendo à mesma postura cênica e as mesmas intenções de conteúdo para todas as cidades da América Latina em que era produzido e transmitido.

Especificamente no caso brasileiro, o Repórter Esso levou para a TV a inconfundível fanfarra de abertura do rádio, bem como a adaptação da frase de chamada: “Amigo telespectador, aqui fala o Repórter Esso, testemunha ocular da história.” Na televisão brasileira, este é sem dúvida nenhuma o primeiro caso da consolidação de uma assinatura musical dentro do telejornalismo. A vinheta de abertura era composta por uma animação do tigre – mascote da Esso – que se apressava para ver as notícias enquanto ao fundo tocava a música de Maestro Carioca que delimitava o espaço da programação para a notícia.45

O Repórter Esso também pode ser considerado símbolo de uma época em que a televisão brasileira vivia de programas de patrocinador, como o “Mr. Fisk”, "Telenotícias Panair", "Telejornal Bendix", "Reportagem Ducal", "Telejornal Pirelli", "Gincana Kibon", "Sabatina Maizena" e o "Teatrinho Trol”. “O Repórter Esso espelhava assim as duas

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As câmeras utilizadas eram as Aurikon (com áudio óptico) ou Bell Howell (sem áudio), com filme em 16mm, que funcionavam a corda manual.

características mais evidente na fase inicial da TV brasileira: (...) a herança radiofônica e a subordinação total dos programas aos interesses e estratégias dos patrocinadores”46.

Durante quase 20 anos, o Repórter Esso foi o principal modelo de telejornalismo brasileiro, mas em 31 de dezembro de 1970, foi encerrado sem jamais ter sido transmitido em rede47 e sucumbindo aos novos modelos de jornalismo trazidos pela Rede Globo, em especial pelo Jornal Nacional.