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O repatriamento das ossadas dos inconfidentes

Uma publicação com vários colaboradores e editada pelo Banco Sa- fra, em 1995, intitulada O Museu da Inconfidência, nos permite visualizar,

em primeiro momento, os elementos norteadores da criação da Insti- tuição. O texto de Ruy Mourão, diretor do Museu desde 14 de julho de 1974, traça o cenário político e ideológico que envolveu a criação do Museu da Inconfidência.

Esse documento realça os símbolos nacionalistas extraídos da In- confidência Mineira, pelo fato de ser um livro de divulgação das obras do MI, mas considera, também, os pressupostos da criação da Institui- ção de acordo com o interesse do Estado e de uma elite que concebia o patrimônio cultural naquele momento.

De acordo com Mourão (1995), a gestação do Museu da Inconfidên- cia começou quando não havia sequer a ideia de se criar a Instituição. O país ainda estava a procura de uma saída para a modernização e ia sen- do conduzido para um dos momentos mais importantes de sua história quando, contida a intentona comunista de 1935, o Presidente Getúlio Vargas se preparava para instituir o Estado Novo. Para o diretor, as con- tradições políticas desse presidente interferiram nesse processo.

Rui Mourão (1994), em outro escrito denominado A Nova Realidade

do Museu, relatou a circunstância da exumação dos inconfidentes mortos

na África. A missão de pesquisar a localização das sepulturas, promover as exumações e o transporte das urnas foi atribuída ao historiador mi- neiro Augusto de Lima Junior, que representava solução providencial por duas razões: tratava-se de militante do integralismo e pessoa a quem o presidente Getúlio Vargas se achava ligado por dever de gratidão. O pai de Augusto Lima Junior, quando à frente do governo de Minas Gerais, interferira de maneira salvadora na ocorrência em que o irmão do Presi- dente, Protásio Vargas, estudante em Ouro Preto, numa briga matara um colega de São Paulo. Augusto Lima Junior era um historiador da mesma linha de Gustavo Barroso, embevecido com o passado, apelava à retórica

no desejo de sustentar o sonho mítico de um Brasil quase só reverenci- ável. Ainda de acordo com Mourão (1994, p. 50), “tais circunstâncias acabaram por comprometer a operação de resgate empreendida em solo africano.” Essa situação alcançou repercussão na imprensa porque já era considerada a possibilidade de que os resultados dos trabalhos arqueo- lógicos e históricos convergissem conforme os interesses do governo de Vargas e seus correligionários.

Nesse processo que iniciou a mitificação dos inconfidentes como parte da nacionalidade brasileira, Gustavo Barroso, intelectual perten- cente ao Conselho Consultivo do Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (SPHAN) e atuante diretor do Museu Histórico Na- cional no Rio de Janeiro, acabou influenciando ideologicamente na con- cepção do que se tornaria o Museu da Inconfidência. Barroso também era preocupado com a formação de uma identidade nacional e formaria o culto da saudade por meio da preservação dos objetos. Quanto ao MI, o processo oficial do repatriamento das ossadas dos inconfidentes mi- neiros que iriam dar origem a Instituição teve início com o decreto São Mateus, de 21 de abril de 1936:

O monumento dependerá de mais tempo e estudos. Pro- visoriamente, num acordo com a Diocese de Mariana e a Santa Fé, por intermédio da Nunciatura, poderia converter a primorosa igreja do Rosário, em Ouro Preto, em museu de arte e história, colocando-se no consistório desse tem- po, onde seria armado um “altar da Pátria”, encimado pela cruz simbólica da “Terra de Santa Cruz” e pelo triângulo inconfidente, representativo da Santíssima Trindade. Desse modo, dentro do próprio simbolismo cristão, resolvería- mos o problema da consagração cívica, dentro de um tem- plo religioso (LEMOS, 2001, p. 204).

No entanto, os antecedentes dessa iniciativa oficial já indicavam os limites da construção simbólica que estava para ser construída. Segundo Carmem Lemos (2001), antes do repatriamento oficial, as três primeiras ossadas, atribuídas a inconfidentes, já haviam sido exumadas em terri- tório africano e remetidas ao Ministério das Relações Exteriores, no Rio

de Janeiro, em 1932. A documentação que acompanhava esse processo informava que o cônsul do Brasil, em Dakar, solicitou auxílio de autori- dades da Guiné Portuguesa para a localização dos restos mortais de al- guns inconfidentes. Em 1934, após a mudança de direção da chancelaria em Dakar, o novo cônsul registrou ter recebido uma caixa de madeira com três ossadas atribuídas a inconfidentes e investigou a procedência antes de remetê-las ao Brasil, sendo suposto que as ossadas seriam de Domingos Vidal Barbosa e José Resende Costa (pai), além de outro in- confidente ainda indefinido. Lemos (2001) ainda diz que após a chega- da dos despojos o Brasil, o Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (IHGB) apontou que o lugar de falecimento desses inconfidentes não era o mesmo onde fora identificado no processo de exumação.

As três ossadas ficaram arquivadas no Itamaraty e voltaram à tona na década de 1990, quando a Universidade Estadual de Campinas (Uni- camp) iniciou um estudo técnico de reconstituição da face. A polêmica sobre a autenticidade dessas ossadas chegou a ser debatida nos jornais cariocas. Foi após essa discussão em torno das três primeiras ossadas que se deu a mobilização de autoridades para a promoção do repatria- mento oficial. Quais seriam as razões do “esquecimento” dessas ossadas ao reunir os despojos dos demais inconfidentes no ato oficial realizado por Vargas em 1936?

Lemos (2001, p 217) considera que

torna-se possível pensar o ‘esquecimento’ das três ossa- das, excluídas deliberadamente do repatriamento ‘oficial’, como alegoria da própria relação simbólica. [...] Exibi-las poderia significar a ‘desvalorização do mundo aparente’, a fragilidade da própria construção simbólica, evidenciando outros possíveis significados que a alegoria possibilita res- tituir.

O que se nota é que o fator simbólico das ossadas repatriadas teriam maior validade no imaginário social dos brasileiros quanto à vinculação entre o sacrifício daqueles inconfidentes mortos exilados na África e o re- conhecimento de Vargas em realizar tal empreitada de operação de resgate.

No entanto, se naquele tempo essas ossadas representavam risco à operação de Vargas, no ano de 2011 essas mesmas foram legitimadas pelo estudo da Unicamp e enterradas no Museu da Inconfidência na ce- rimônia do dia 21 de abril do corrente ano com a presença da presidenta Dilma Roussef. A ossada do inconfidente ainda indefinido foi atribuída a João Dias Mota e, em um processo de tomografia computadorizada, também foi possível recriar o rosto de José Resende da Costa. A contra- dição está no fato de que enquanto as ossadas desses três inconfidentes levaram mais de 70 anos para serem reconhecidas, as ossadas repatriadas por Vargas não precisariam de tal ordem devido ao atributo simbólico que se impunha no cenário político e social daquele tempo.

O fato é que o repatriamento oficial de 1936 obteve auxílio do governo português a fim de atuar junto às autoridades de Angola e Moçambique. Já em dezembro do mesmo ano, as cinzas desembarca- ram no Rio de Janeiro, sendo recebidas em solenidade com honrarias militares e discursos políticos. O presidente da República e outras au- toridades políticas do país estiveram presentes na celebração. O fato foi amplamente divulgado pelos jornais da época nos quais o apelo popular já era evidenciado.

Carmem Lemos (2001) conta, ainda, que as urnas foram transferidas no ano de 1938 do Rio de Janeiro para a Igreja Nossa Senhora da Con- ceição de Antônio Dias, em Ouro Preto, sendo recebidas, solenemente, em cortejo que percorreu as ruas centrais da cidade, com a participação do povo e autoridades, comandados pelo presidente Getúlio Vargas. O presidente procurou em seu discurso ressignificar uma narrativa histó- rica que viesse a fornecer subsídios para o Estado Novo, sob a égide da identidade nacional e da Inconfidência Mineira, em uma articulação de símbolos e tradições que penetraria no imaginário social brasileiro.

Recorrendo a Baczko (1985, p. 299), podemos considerar que “exercer um poder simbólico não consiste meramente em acrescentar o ilusório a uma potência real, mas sim em duplicar e reforçar a domina- ção efectiva pela apropriação dos símbolos e garantir a obediência pela

curou a legitimidade do seu governo pelo ato simbólico atribuído à In- confidência Mineira e, desse modo, garantir respaldo da população para uma sociedade organizada a seu modelo. Isso seria feito pela apropriação simbólica dos inconfidentes repatriados e celebrados em diversos rituais organizados pela e para uma população disposta a representar-se nos inconfidentes exumados.

Ao tratarmos do apelo cerimonial das urnas funerárias em Ouro Preto, as fontes analisadas destacam a participação popular e os símbo- los nacionalistas envolvidos no evento. No entanto, podemos questionar a espontaneidade desta participação popular, uma vez que a construção política, por meio do atributo histórico, determinou as proporções que a partir daquele momento foram estabelecidas. Segundo Mourão (1995), a solenidade do dia 16 de junho de 1938, quando as urnas foram trans- feridas do Rio de Janeiro para Ouro Preto, foi marcada por intensa par- ticipação popular, começando com as caixas lacradas e trasladadas a pé, carregadas por colegiais que seguiam enfileiradas, como em procissão. Proferidos, no adro da Igreja de Antônio Dias, os discursos forçaram uma curta parada da entrada para a nave, onde as urnas seriam depos- tas no corredor entre os bancos. Cada uma foi coberta com a bandeira nacional, e uma delas, coberta com a bandeira dos inconfidentes. Perce- bemos que esse ato se refere “a passagem do implícito ao explícito, da

impressão subjectiva à expressão objectiva, a manifestação pública num

discurso ou num outro acto público constitui por si um acto de insti-

tuição e representa por isso uma forma de oficialização, de legitimação” (BOURDIEU, 2002, p. 165).

As urnas funerárias só deixariam a Igreja de Antônio Dias, em Ouro Preto, quatro anos depois, tempo que duraram as obras da antiga Casa de Câmara e Cadeia, local de designação do Museu da Inconfidência. A tarefa de restauro do prédio foi do arquiteto Renato Soeiro, que realizou o projeto e coordenou os trabalhos a partir do Rio de Janeiro, e do enge- nheiro Francisco Antônio Lopes, que comandou a equipe local. Além do desgaste em que se encontrava o local, devido à depreciação praticada pelos prisioneiros, sob a administração do governador João Pinheiro da

Silva, o edifício passara por inúmeras modificações e adaptações para funcionar como penitenciária estadual. Recortado internamente por pa- redes novas, para a instalação de oficinas, o piso original e de pedra havia sido substituído por outro de tábua e ladrilho hidráulico, uma va- randa quadrangular apareceu no pátio interno e uma escada improvisa- da passou a fazer a ligação com o pátio que, pelo lado de fora, conduzia à casa do carcereiro. De acordo com Mourão (1995, p. 10), “recuperar a dignidade, a limpeza e sobriedade da antiga construção constituiu traba- lho penoso, realizado num momento em que os técnicos do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) apenas começavam a enfrentar desafios daquele tipo. Pisos e telhado, sistema elétrico e hi- dráulico, tudo foi integralmente renovado”.

Janice Pereira da Costa (2005) também delimitou o conteúdo polí- tico da criação do Inconfidência ao afirmar que, antes mesmo que a ex- pedição organizada por Augusto de Lima Júnior pisasse o solo africano, o lugar que abrigaria as cinzas dos inconfidentes já havia sido escolhido: a antiga Casa de Câmara e Cadeia ou o então Edifício da Penitenciária de Ouro Preto. A partir daquele momento, como o próprio plano de reformas anunciava, esse lugar passaria a ser destinado a abrigar o “Pan- theon” dos Inconfidentes e, por essa razão, sofreria modificações que tornariam tal lugar digno para desempenhar essa nova função. Como as obras no edifício levariam algum tempo, a urnas foram depositadas na Igreja de Antônio Dias na cerimônia descrita anteriormente. Com isso, o prédio que abrigou as cinzas dos inconfidentes já havia passado por várias fases, conforme as necessidades e interesses dos que comandavam o Estado.