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2 CAMPANHAS ONLINE: PERCURSO EVOLUTIVO, TÁTICAS E

2.4 Interatividade nas campanhas online

2.4.1 O risco da perda do controle

Contudo, Druckman, Kifer e Parker (2009, p. 24-25) alertam para a relação de conflito

que se estabelece entre a opção pela interatividade e o controle da informação. Desde

ferramentas mais comuns de interatividade mediática, como o fornecimento de hiperlinks, os

autores apontam que os websites de candidatos podem preferir não fornecer conexões que

levem a fontes diversificadas e ricas em conteúdo, limitando os hiperlinks a outras

ferramentas de campanha, artigos escritos pelo próprio candidato ou outros links não remetam

a informações sobre as quais o candidato não tenha controle. “Links externos são fáceis de

incorporar, mas os candidatos terão de pensar cuidadosamente sobre cada link individual e seu

efeito potencial sobre os visitantes

33

” (p. 25). Os autores ressaltam que ferramentas para

interação humana geralmente permitem ainda menor controle sobre o fluxo da informação, e

ainda requerendo maior capacidade logística em termos de pessoal.

O trabalho realizado por Stromer-Galley (2000) lança como hipótese para o baixo

nível de engajamento dos candidatos em interações dialógicas o receio da perda do controle

sobre a interação. Se num primeiro momento a internet permite que os candidatos tenham

maior controle sobre as informações divulgadas, permitindo difundir mais amplamente e a um

baixo custo suas opiniões e visões sobre fatos da campanha, opiniões sobre o mundo da

política, ataques e respostas aos adversários, os mesmos não teriam interesse em abdicar desse

33 O texto em língua estrangeira é: “External links are easy to incorporate, but candidates will have to think carefully about

controle em favor de um debate mais participativo por parte dos cidadãos. Qualquer abertura a

interação pode gerar certo nível de imprevisibilidade. Assim, se um político, em seu site ou

blog permite que internautas façam comentários de forma não moderada, admite receber

críticas que podem ganhar corpo pela aderência de outros usuários

34

.

Mesmo a possibilidade de aprofundamento das questões sobre políticas públicas e

propostas de campanha é apontada pela autora como um fator que afastaria os candidatos das

estratégias interativas, justamente porque o detalhamento minucioso de propostas políticas

poderia gerar discordâncias de parcelas do eleitorado. Sob esse ponto de vista, não seria

interessante para os candidatos provocar discussões em que eles podem ser criticados pelos

eleitores e serem obrigados a se posicionar de uma forma que possa desagradar outra parcela

do eleitorado (STROMER-GALLEY, 2000, p. 124; HOWARD, 2005, p. 74-75). “Um fórum

interativo [em um website] como um quadro de avisos público poderia criar um ambiente em

que as pessoas pudessem perguntar questões específicas sobre o candidato e fazer críticas em

relação a posicionamentos ou ações

35

” (STROMER-GALLEY, 2000, p. 125). Ao não interagir

diretamente com os internautas, os candidatos não precisariam responder às críticas e

questionamentos que exigiriam um posicionamento mais firme e específico, se beneficiando

da ambiguidade providenciada por afirmações e propostas de campanha mais vagas, nas quais

os eleitores podem encaixar suas crenças sem discordar.

Por outro lado, estudos de recepção apontam que o investimento em interações online

com cidadãos pode reforçar relações de identificação entre eleitores e candidatos (KLOTZ,

2004, p. 65). Em um estudo que procurou verificar relações desse tipo, Sundar, Kalyanaraman

e Brown (2003, p. 33) expuseram participantes a websites políticos em três níveis de

interatividade, e os resultados sugerem que nos níveis de interatividade médio (hiperlinks com

informações adicionais sobre o candidato) e alto (ferramentas de interlocução e e-mail para

contato) tendiam influenciar a percepção do candidato como mais carinhoso e sensível,

associando com maior identificação e afinidade. “Os resultados indicam que a interatividade

do site teve uma influência sobre a formação da impressão dos participantes a respeito dos

candidatos, bem como sobre o nível de concordância com suas posições políticas

36

34 Dois exemplos de “blogs” que não permitem interação como comentários são o Blog do Planalto

(http://blog.planalto.gov.br/), que funciona basicamente como ferramenta de divulgação de atividades selecionadas da

presidente; e o extinto blog do ex-prefeito do Rio de Janeiro Cesar Maia (http://cesarmaia.blogspot.com.br/), que

pouco incentivava qualquer ferramenta de interação.

35 O texto em língua estrangeira é: “An interactive forum such as public bulletin board could create an environment in

which people would ask specific questions of the candidate or make comments criticizing a position or action”

36 O trecho em língua estrangeira é: “Furthermore, the results indicate that the interactivity of the Web site had an influence

(SUNDAR, KALYANARAMAN & BROWN, 2003, p. 47) Contudo, quanto maior o

conhecimento político do participante, menor a influência atribuída à ferramentas interativas.

Em outro estudo de recepção realizado por grupos focais, Stromer-Galley e Foot

(2002) investigaram a percepção dos participantes acerca da utilização de ferramentas

interativas por parte de candidatos, durante as primárias estadunidenses de 2000. As autoras

sugerem, com base nos resultados, que os cidadãos, no contexto eleitoral e nível de acesso a

internet dos Estados Unidos, conseguem distinguir nos websites estratégias de interação

humana das de interação mediática, sendo que a percepção é de que tais ferramentas

aumentam a sensação de envolvimento dos cidadãos, especialmente na comparação com a

televisão, bem como o controle do internauta em relação às campanhas. A interatividade

humana seria mais valorizada, pois permitiria partilhar opiniões e obter feedback sobre essas

opiniões, levantar questões e obter respostas, e participando de debates e interações mais

espontâneas com os candidatos (STROMER-GALLEY & FOOT, 2002, s.n.).

Estudos comparativos que tratam da aplicação de ferramentas de interatividade por

parte de candidatos apontam diferenças observadas quanto à utilização de ferramentas para

difusão de informação de campanha. Druckman, Kifer e Parkin (2009) ao avaliar os websites

de campanha nas eleições estadunidenses de 2002 e 2004, apontaram que, embora 96,7% dos

candidatos tenha mantido websites durante os pleitos, 72% utilizaram links e apenas 43,7%

apresentaram interatividade multimídia e 9,2% forneceram ferramentas para fluxo de

comunicação de mão dupla. (DRUCKMAN, KIFER & PARKIN, 2009, p. 40-42).

No contexto da campanha estadunidense de 2006, Gulati e Williams (2009, p. 59-62)

apontam que menos da metade dos candidatos utilizaram ferramentas como perfis no

Facebook (Election Pulse, 40%), blogs (39%), feeds RSS (18%) e fóruns de discussão online

(8%), sendo que a utilização pelos partidos menores for dramaticamente menor do que nos

dois partidos maiores. Gulati e Williams (2009, p. 65) ressaltam que em 2006 apenas dois

candidatos ao Senado, James Webb (Partido Democrata) e Rae Vogele (Partido verde)

conduziram chats online, permitindo interação em tempo real. Nos dois trabalhos, a discussão

dos autores ressalta que candidatos com maior quantidade de recursos e profissionais

especializados tenderam a maior experimentação com ferramentas interativas. Por outro lado,

quanto mais acirrada a competição, menor a probabilidade de os candidatos envolvidos

recorrerem a ferramentas que incorram na perda do controle sobre o fluxo da informação.

Assim, é preciso considerar que a opção pela a interatividade dentro das táticas de

campanhas online não deve ser compreendida de forma isolada dos contextos das campanhas

e das estratégias off-line. Por um lado, pode ser vantajoso para o candidato ter total controle

da informação nas suas extensões online de campanha, por outro lado a limitação das

ferramentas de interatividade pode resultar numa baixa identificação do eleitorado, além da

impressão de falta de opções de informação, que os internautas ávidos podem buscar em

outras fontes. Não utilizar tais ferramentas, não oferecendo oportunidades de participação

para internautas, pode ser tão prejudicial quanto sua utilização de forma pouco estratégica.