CONTEXTUALIZAÇÃO DA TEMÁTICA
3.3 O Sentido Existencial e a Dimensão Espiritual no Trabalho
O sentido da vida marcado pela sociedade atual como propósito, retorna ao princípio do pensador Karl Marx, do século XIX: a recusa à alienação. Esta alienação definida como aquilo que produzo e não compreendo a razão, vai de encontro ao fundador da Logoterapia no século XX, Viktor Frankl, que explora o sentido existencial do indivíduo e a dimensão espiritual da existência.
No campo da filosofia há uma formulação clássica segundo o qual o trabalho pode ser sintetizado como uma ação transformadora consciente, fonte de realização e como um modo de se marcar a presença do indivíduo no mundo. Essa vertente traz o olhar de que o sentido da vida do enfermeiro no trabalho mobiliza o seu potencial por ser fonte de motivação primária, tange uma direção e o impulsiona à sua realização e plenitude ( ROCHA, 2020).
O trabalho dos enfermeiros tem como predominância o cuidado humano e está implicado em uma aliança ética com a sociedade. Tem como perspectiva a preservação da dignidade e unicidade do ser em sua totalidade. Sob o ponto de vista no campo fenomenológico é entendido como um modo de ser e nessa afirmação confere a condição de humanidade às pessoas (WALDOW, 2015).
Nessa fundamentação, os enfermeiros vivem o significado de suas próprias vidas por meio do cuidado na medida em que perpassam caminhos profundos que envolvem a suas existências (ARRIEIRA et al, 2017). Assim, sendo parte da condição subjetiva, a consciência do propósito do seu trabalho transcorre por caminhos profundos de sua existência com base nos valores, emoções, sentimentos, saberes, comportamentos e atitudes, em uma condição de inter-relação com os outros indivíduos e com as coisas no mundo que está inserido (ROCHA, 2020). Logo, o trabalho é significado pela “lente” do mundo de cada enfermeiro, pelas suas experiências nas formas de viver, de ser e de se expressar, no sentido de favorecer as suas potencialidades e manter a sua condição humana em equilíbrio com todas as dimensões do existir humano.
Neste entendimento, para se desvelar os sentidos da existência dos enfermeiros no trabalho é necessário compreendê-los como seres espirituais por ser a dimensão especificamente humana e que permite a capacidade de unicidade e de busca de sentido da vida (SOUZA; GOMES, 2012).
A dimensão espiritual como parte da natureza humana é desvelada pela vivência e experiência de cada indivíduo. Esta dimensão se manifesta diferentemente para cada indivíduo, podendo aparecer de várias formas como: propósito de vida, conexão com uma
força/ ou algo superior, força, fé, autoconhecimento, guia de conduta, dentre outras maneiras. Neste raciocínio, ser humano é buscar significado em tudo que está em si próprio e a sua volta. Além disso, a espiritualidade pode ser vista como um tipo de resiliência, ou seja, capacidade de enfrentamento de adversidades e de proteção para indivíduos superarem questões existenciais que a vida apresenta.
Embora o homem esteja vivenciando uma época em que o desenvolvimento das tecnologias e comprovações científicas se evidenciam em todas as áreas do conhecimento, carece ser abordada a diferenciação entre o conceito de espiritualidade e religião enquanto constructo do trabalho dos enfermeiros em cuidados paliativos oncológicos que é o objeto de estudo em questão.
A espiritualidade, apesar de não haver uma definição específica, é universalmente designada como um eixo que faz com que a pessoa busque uma conexão na relação com ela mesma, com a sua própria vida, na relação com outro, na relação com a natureza e com o transcendente/ ou eu superior/ Deus, podendo estar ligado à religião ou não, e que palpáveis a experiência humana.
Já a religião, de acordo com Koening (2012)
é definida enquanto um sistema de crenças e práticas observados por uma comunidade, apoiados por rituais que reconhecem, idolatram, comunicam-se com a aproximação do Sagrado, do Divino, de Deus( em culturas ocidentais) ou da Verdade Absoluta da Realidade ou do Nirvana( em culturas orientais).
A religião geralmente está conectada a um conjunto de escrituras e ensinamentos que discorrem sobre o significado e propósito do mundo, a função de cada indivíduo, suas responsabilidades e missão, servindo desta maneira como um código moral de conduta.
No respectivo estudo, esta dimensão se apresenta como alicerce do sentido da vida, permitindo o despertar do sentido e possibilitando aos enfermeiros a capacidade de atingirem a sua autotranscendência. De acordo com Frankl (2017a), é através da consciência da autotranscendência que o homem se distancia da visão apenas de si mesmo para ir em direção a algo, alguma coisa ou alguém que não ele mesmo, no sentido de reciprocidade para o encontro do propósito da vida.
Desta forma, a dimensão espiritual se mostra significativa na área dos cuidados paliativos oncológicos, pois influencia na maneira como os enfermeiros irão amparar o paciente na sua multiplicidade de aspectos que envolvem o processo de adoecimento e na maneira de atender a sua integralidade com segurança até o processo de morte.
Clarifica-se nesse entendimento a importância da valorização dos enfermeiros como seres integrais, pois para que construam uma prática de cuidado às pessoas em cuidados
paliativos oncológicos com um conjunto de ações integradas e com garantia de um cuidado holístico, torna-se necessário considerá-los enquanto seres biopsicossociais e espirituais.
Estudos apontam que esta dimensão se torna muito importante e coopera para a realização cotidiana do seu trabalho já que é considerada como força motriz e como agente transformador regulador das emoções em situações de contato com a fragilidade humana como, por exemplo, a finitude da vida.
Pondera-se que promulgar a espiritualidade onde a finitude da vida humana está iminente, é o ensejo para que os enfermeiros se tornem mais sensíveis ao valor que o trabalho lhes proporciona e constitui uma ferramenta efetiva que reorienta o cenário de cuidado habitual substituindo a perspectiva biomédica para mais abrangente e humanizada.
CAPÍTULO 4