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CONTEXTUALIZAÇÃO DA TEMÁTICA

3.2 O Trabalho e sua Historicidade

O trabalho ocupa um lugar importante na vida dos indivíduos. Ele surge como elemento essencial na condição humana e nas relações sociais. Por ser capaz de provocar no indivíduo possibilidades de formação técnica, cultural, estética, artística, política, bem como de ser fonte de desenvolvimento, realização, satisfação e crescimento pessoal, este assunto tem sido palco de grandes discussões seculares.

Historicamente, o trabalho começou a ganhar papel central na sociedade através do desenvolvimento da economia capitalista que teve início no século XVIII com a Revolução industrial. A produção que era definida anteriormente pelo próprio trabalhador, dá lugar à produção em série e passa a funcionar como motor de ascensão social.

Nesta época o trabalho era sintetizado como sendo a transformação dos recursos da natureza, ou seja, da matéria prima de forma consciente, com o uso de força física, mental ou intelectual para atender as necessidades humanas (MARX, 1982). No entanto, é nesse período que o trabalho causa insatisfação aos trabalhadores visto que a reprodução de recursos estava ocorrendo de maneira alienada e que a maior lucratividade voltava-se apenas para as empresas. Surgem então, os sindicatos que registram presença expressiva na vida desses profissionais.

Na atualidade, diversos fatores corroboram para que o trabalho seja modificado e ressignificado. Isso se dá devido às inúmeras transformações importantes no mundo desta prática, dentre elas: alto desenvolvimento tecnológico, rápida transformação das organizações, terceirização, extinção e surgimentos de novas modalidade de empregos( NEVES, 2018).

Evidencia-se que essas mudanças, tornam a definição de sentido do trabalho complexa e está, em parte, consoante ao ponto de análise de cada indivíduo em relação aos aspectos sociais (relacionado ao reconhecimento do mesmo pela sociedade), financeiros (recompensa), éticos (valores), morais (capacidade de envolvimento, motivação e satisfação), técnicos(conhecimento específico da área) , fisiológicos ( poder de adaptação) e pelas próprias condições de trabalho que o trabalho representa (FREDMAN, 1972).

Assim, inúmeros autores vêm sendo impulsionados a discutirem sobre o sentido do trabalho ao longos dos últimos anos com a finalidade de embasar suas pesquisas sobre o assunto e de justificar o papel central que esta atividade adquire na vida das pessoas (MICHAELSON, 2014).

Segundo os psicólogos Hackman e Oldhmam (1976), precursores ligados ao sentido e significado do trabalho, sistematizaram que as relações entre características e respostas individuais no trabalho poderiam influenciar no desempenho, na motivação, satisfação, absenteísmo e rotatividade da mão de obra.

Em seus estudos apresentaram o sentido do trabalho sobre cinco dimensões. São elas: 1) Variedade de tarefas que consiste na capacidade de um trabalho necessitar de uma variedade de tarefas e consequentemente uma gama de competências, 2) Identidade do trabalho que significa na capacidade de um trabalho permitir a sua execução do início ao fim com um resultado que seja visível e identificável. 3) O significado do trabalho que consiste na capacidade do trabalho promover impacto positivo e bem estar de outras pessoas tanto na própria organização quanto ao nível de ambiente social. 4) Autonomia onde o profissional deve ter liberdade substancial, independência e descrição na realização de suas tarefas e na determinação de procedimentos a serem utilizados em sua realização. 5) Feedback do trabalho onde o trabalhador recebe retorno dos seus resultados, obtendo retorno direto sobre o seu desempenho (Morin, 2001 apud HACKMAN; OOLDMAM, 1976).

De acordo com esses autores, essas cinco esferas quando bem elaboradas permitem ao trabalhador considerar seu trabalho como útil, importante e legítimo. Além disso, contribuem para o princípio da autonomia, pois o profissional se sente livre e capaz de tomar decisões que instintivamente geram sentimento de responsabilidade de realizar tarefas e atingir os objetivos fixados.

Posteriormente, entre 1981 e 1983, a equipe de investigação Meaning of work (MOW), se destaca na condução de pesquisas com amostras representativas de oito países com o intuito de identificar as dimensões que definem o sentido do trabalho para indivíduos trabalhadores. Por meio de um modelo heurístico, aquele que a pessoa busca por si mesma, por meio de perguntas descobrir o que deseja, chegou a definição do significado do trabalho como uma construção multidimensional e dinâmica, influenciada por variáveis pessoais, sociais ambientais, históricas e filosóficas ao seu redor ou no trabalho (TOLFO; PICCININI, 2007).

Em outras palavras, declara que o significado do trabalho, é determinado pelo contexto do ambiente, seja organizacional ou familiar que o indivíduo vivencia dentro ou fora dele, pelas escolhas e experiências deste relacionadas ao trabalho e ambiente familiar e social vivenciado (MOW, 1987, p.15)

Também Morin (2002), a partir dos estudos do grupo Mow, identificou as características de um trabalho que tem sentido como aquele que corresponda às competências

do empregado, oportunize a valorização pessoal, forneça segurança e boas oportunidades de aprendizado, permita experiências de relações humanas satisfatórias, salário adequado, grau de autonomia, horário conveniente e que seja moralmente aceitável e seguro.

Ao longo dos seus estudos, Morin (2002) conceitua o sentido do trabalho como uma estrutura afetiva formada por três componentes: Significação (como a pessoa entende e define o trabalho, bem como o valor que lhe atribui), Orientação ( o que move a pessoa à ação) e Coerência ( harmonia e equilíbrio que o sujeito possui com seu trabalho e vida exterior).

Esses componentes vão de encontro ao estudo da psicodinâmica do trabalho desenvolvido por Dejours (2004) ao retratar que o processo de trabalho é algo que promove a construção da identidade do indivíduo e que oportuniza prazer ou sofrimento.

Morin (2002) ainda destaca que o sentido do trabalho é norteado pela organização do trabalho, pois a maneira como é estruturada, é capaz de mudar o comportamento dos trabalhadores fazendo-os atuar de maneira positiva mediante as tarefas que executam, como também com eles mesmos. Assim ressalta:

a organização do trabalho deve oferecer aos trabalhadores a possibilidade de realizar algo que tenha sentido, de praticar e desenvolver suas competências, de desenvolver seus julgamentos e seu livre arbítrio, de conhecer a evolução de seus desempenhos e de se ajustar (MORIN, 2001, p. 9).

Atualmente, apesar de diversas áreas buscarem analisar as transformações pelas quais o trabalho vem passando ao longo do tempo e como diversas mudanças afetam a vida dos indivíduos, e de já existir escalas bem estruturadas e validadas para avaliar tais questões, percebe-se que o sentido do trabalho passa por uma investigação de subjetividade e interpretação e, portanto, na lente do método científico, o termo não possui uma única definição.

Outro motivo complexo para o termo trabalho ter vários sentidos, são as contínuas transformações decorrentes do surgimento de novas tecnologias e mudanças nas formas de gestão para atender as tendências do mundo globalizado e que influenciam e modificam fortemente a vida do trabalhador.

Não obstante o trabalho esteja presente em diversos seguimentos( cada qual com suas particularidades) no que se refere ao setor da saúde, por agregar grande quantidade de recursos humanos e por sofrer mudanças atuais no cenário global que envolve o trabalhador, os termos “sentido do trabalho” para profissionais da saúde também tem suas particularidades.

No universo profissional de saúde, o trabalho adquire uma maior complexidade visto que não está relacionado apenas à produtividade, mas também a aspectos subjetivos percebidos diante da prática laboral. Para Dejour (2004), o contexto de trabalho representa

significações para o indivíduo e é representado de acordo com três dimensões: organização do trabalho, condições de trabalho e relações socioprofissionais.

Estas dimensões influenciam tanto no prazer quanto no sofrimento do trabalhador por serem constitutivas da interação entre condições subjetivas (dos sujeitos) e objetivas (da realidade de trabalho). Portanto, as vivências retratam o sentido dado ao trabalho e influenciam consideravelmente a motivação dos trabalhadores e também sua satisfação.

Estudos apontam que muitas vezes o trabalho é atravessado por concepções ambíguas; isto é, por vezes sentimentos de prazer, satisfação e realização, e outras vezes de sofrimento e vazio que alteram diretamente na dinâmica psíquica e emocional de todo aquele que transcorre pela experiência do trabalho ( DUARTE; SIMÕES, 2014). Isto posto, o sentido do trabalho vivo está relacionado ao poder do trabalhador em sentir, pensar, inventar, criar e recriar o seu fazer cotidiano nas organizações de trabalho(DEJOURS, 2011).

Compreende-se dessa forma que o trabalho se configura como um rompimento de barreiras e uma constante construção que implica em reflexão, avaliações e críticas individuais relacionadas com suas experiências calçadas pelo passado, presente, vida pessoal, nível cultural e que delinearão o futuro.

Sob viés filosófico, na vertente existencialista, Frankl (2014) cita que as pessoas precisam encontrar sentido em suas atividades para não mergulharem em uma frustação existencial. Sendo assim, o trabalho faz parte da experiência concreta da existência humana e portanto, há necessidade de ser discutido esse assunto constantemente no universo das organizações (MORIN; TONELLI; PLIOPAS, 2007).

Diante desta ótica, cabe refletir sobre os inúmeros desafios no trabalho que acometem os profissionais da área de saúde e especificamente sobre o trabalho do profissional enfermeiro, por seu quantitativo, maior proximidade com o paciente e pela extensa carga de trabalho que implicam na sua motivação, satisfação, desempenho, variações de comportamento, sucessos e fracassos que trazem a tona os sentidos atribuídos à sua vida.

Assim, ciente dos objetivos do estudo, considera-se que refletir sobre os sentidos atribuídos pelos enfermeiros a suas vidas mediante o processo de trabalho permitirá a construção de alterativas que permitam promover mudanças no nível organizacional, alcance de excelência na qualidade de vida do ambiente laboral, melhorias e resultados satisfatórios na vida pessoal de cada profissional.