3. AIDS E MULHERES
3.2. Sexualidade e preconceito
3.2.1. O sentimento inconsciente de culpa
De uma paciente que chegando pela primeira vez em atendimento e muito assustada com o recente diagnóstico, havia sido casada por trinta anos, um casamento considerado infeliz, e vivia há dois anos com um outro companheiro com quem se realizava sexualmente, escutei: “Meu pai ( que a paciente tinha em grande consideração e se dizia ser a preferida do mesmo) um dia me mostrou uma casa lá no interior onde a gente morava: - Ali ficam as putas”. Esta paciente recusava-se a retornar sua vida sexual “devia ter permanecido com o meu marido” e para ela agora estava sendo punida por não ter correspondido ao papel de esposa que a tudo sacrifica.
(fragmento clínico)
As relações do ser humano com o sexual, tal como abordado anteriormente, sempre foi permeado de dificuldades. Para as mulheres, a sexualidade, apesar dos modismos e formas observadas nesta segunda década do século XXI, no Brasil, como “o ficar”, “as piriguetes”, as relações sem compromisso, há ainda uma forma silenciosa de vivenciar sua sexualidade. É comum observar nos relatos de pacientes “a vergonha” por estarem contaminadas pelo vírus da aids. Por que a vergonha? Culpa pela vivência de sua sexualidade? O que se revive com uma doença que desperta algo perigoso, sexo proibido?
Por que uma pessoa se contamina pelo vírus HIV, apesar do acesso bem mais facilitado de informação dos meios de proteção nas relações sexuais? Observa-se uma maior divulgação tanto na mídia como em currículos escolares, propagandas e debates nessa área. Que significações o uso de um preservativo traz em uma relação sexual? Ferreira (2003) questiona o que faz um sujeito abdicar do uso do preservativo e contrair o HIV quando estava muitas vezes em sua mão a possibilidade de evitá-lo.
Para esse autor, a existência de conflitos psíquicos anteriores, ligados a um intenso sentimento de culpa e que levariam a serem castigados para aliviarem tal sentimento. A doença seria o castigo para tal culpa. Mesmo que nas novas gerações se observe uma maior liberdade sexual é provável que isto não seja acompanhado de uma permissão interna. O superego continuaria censurando a satisfação sexual e parte desse resultado dar-se-ia por esses dolorosos e até trágicos tropeços que são a contaminação pelo HIV e o aborto provocado (FERREIRA, 2003).
No texto “Moral sexual ‘civilizada’ e doença nervosa moderna” (1908), Freud faz uma exposição sobre os antagonismos entre civilização e vida pulsional. Começa essa análise a partir de um livro “Ética Sexual”, de Van Ehrenfels, onde esse autor discorre sobre a moral sexual natural e a moral sexual civilizada. Dos danos a essa moral civilizada, Freud atribui a doença nervosa moderna, que se difunde na sociedade contemporânea. Freud ressalta que a influência prejudicial à civilização é principalmente “à repressão nociva da vida sexual dos povos (ou classe) civilizados através da moral civilizada que os rege” (FREUD, 1908, p. 172).
Segundo Freud (1908) a civilização repousa na supressão das pulsões e cada indivíduo renuncia a uma parte dos seus atributos: seus sentimentos de onipotência ou de inclinações vingativas ou agressivas de sua personalidade. Os sentimentos familiares foram importantes para parte dessa renúncia. Cada renúncia foi sancionada pela religião, oferecido em sacrifício pelo bem da comunidade. Citando Freud:
Aquele que em consequência de sua constituição indomável não consegue concordar com a supressão da pulsão, torna-se um criminoso, um “outlaw”, diante da sociedade – a menos que sua posição social ou suas capacidades excepcionais lhe permitam impor-se como um grande homem, um “herói” (FREUD, 1908, p.173).
Uma saída para o individuo é através da sublimação, onde o individuo conseguiria deslocar suas pulsões sexuais sem restringir sua intensidade, é uma capacidade de trocar seu objetivo sexual por outro, não mais sexual, mas psiquicamente relacionado com o primeiro (FREUD, 1908).
A meta de uma pulsão é a satisfação, mas ao longo da educação a criança tem a tarefa de restringi-la, para futuramente conseguir por suas zonas erógenas em subordinação e os genitais a serviço da reprodução. Considerando essa evolução das pulsões sexuais, três estádios de civilização são descritos por Freud (1908): um primeiro em que a pulsão manifesta-se livremente, sem considerar a reprodução; a segunda, em que a pulsão é suprimida, exceto quando serve à reprodução, e a terceira, só a reprodução é admitida como meta sexual.
Neste âmbito, e referindo-se ao terceiro estágio de civilização, Freud (1908) analisa sobre a abstinência sexual, exigência para ambos os sexos até o casamento, obrigando os que não contraem um casamento legítimo a permanecerem abstinentes por toda a vida. Esta posição de dominar a pulsão sexual, ficar abstêmio, leva a um grande dispêndio de energia,
descambando na neurose. Só uma minoria conseguiria deslocar essas pulsões para fins culturais, ou seja, sublimar. Citando Freud:
A meu ver, a satisfação sexual é a melhor proteção contra a ameaça que as disposições inatas anormais ou os distúrbios de desenvolvimento constituem para uma vida sexual normal. Quanto maior for a disposição de um indivíduo para a neurose, menos ele tolerará a abstinência (FREUD, 1908, p.179).
Freud (1908) apresenta assim uma leitura dos casamentos relatando as restrições que ocorriam em sua época, onde as relações sexuais eram permitidas, porém enquanto função reprodutora, levando após alguns poucos anos ao fracasso e distanciamento dos cônjuges. Aos homens era-lhes possibilitado maior liberdade sexual, “a dupla moral”, o que não acontecia às mulheres.
Nesse aspecto se pode perceber maiores conflitos na mulher entre esse lugar onde a sociedade cobra essas posições mais elevadas de contenção de sua atividade sexual e aos atos transgressores dessa moral, os desajustes, o rebaixamento de sua auto estima e os sentimentos de culpa.
No texto “Totem e tabu” (1913) Freud faz referência ao significado de “tabu”, palavra de origem polinésia que diverge em dois sentidos contrários: por um lado “sagrado”, “consagrado”, por outro, “misterioso”, “perigoso”, “proibido”, “impuro”. Tabu trás o sentido de algo inabordável. Difere das violações morais ou religiosas. “A violação de um tabu transforma o próprio transgressor em tabu (...)” (FREUD, 1913, p.39). Pessoas, animais, lugares ou coisas consideradas tabu possuíam um poder perigoso que pode ser transferido através do contato com elas, quase como uma infecção. O desejo de violar um tabu persiste no inconsciente, e aos que obedecem o tabu tem uma relação ambivalente quanto ao que o tabu proíbe.
Nesse texto de 1913, Freud apresenta uma mitologia do que seria a origem da formação cultural, que resumidamente: um pai poderoso, tirânico que exigia a submissão dos filhos e propriedade das mulheres. Os filhos, que tinham sentimentos ambivalentes em relação a esse pai, mas por ódio, se reúnem, o matam e o comem em uma refeição. Após o assassinato, a identificação se faz presente, a afeição recalcada surge, e com isso o sentimento de culpa. É através do sentimento de culpa filial que se fundamentam dois tabus: os agressivos (parricídio) e os sexuais (incesto).
Segundo Laplanche e Pontalis (1998), Freud teria feito reservas ao uso do termo sentimento de culpa inconsciente, preferindo a expressão “necessidade de punição”. A necessidade de punição é uma exigência interna postulada por Freud como dando origem ao comportamento de certos sujeitos em que a investigação psicanalítica mostra que procuram situações penosas e humilhantes e se comprazem com elas – masoquismo moral. Segundo Freud:
O sentimento de culpa dito normal e consciente (consciência moral) se baseia na tensão entre o Eu e o Ideal-de Eu. É a expressão de uma condenação ao Eu movido por sua instância crítica. Provavelmente, os sentimentos de inferioridade que conhecemos nos neuróticos também pertencem a esse gênero de tensão. O sentimento de culpa também é consciente no caso de duas afecções que nos são bastante familiares, a neurose obsessiva e a melancolia (FREUD, 1923, p. 58).
Freud em “O problema econômico do masoquismo” (1924a), ao descrever o masoquismo moral, relata que na clinica há pacientes cujo comportamento se opõe às tentativas de influenciá-los pelo tratamento e que isso levou a atribuir-lhes um sentimento de culpa “inconsciente”. Considera uma das maiores resistências e ameaça ao tratamento, pois via de regra, os ganhos obtidos com a permanência neste estado de doença derivam de uma somatória de forças que se rebelam contra a cura. O maior dos ganhos é o apaziguamento do sentimento de culpa inconsciente. “É justamente pelo sofrimento propiciado que a neurose se torna mais valiosa para a tendência masoquista” (FREUD, 1924a, p. 111).
Segundo Freud (1924a) ao superego é atribuída a função de exercer a consciência moral e a consciência de culpa é uma expressão de tensão que se forma entre o Eu e o superego. O superego surge com os pais introjetados no Eu, conservando as características principais das pessoas introjetadas, como seu poder sobre a pessoa, sua severidade e a tendência a exercer o controle e a punir. Neste ponto ocorre a superação do complexo de Édipo. A consciência moral ativa dentro do superego pode tornar-se duro, cruel e inclemente contra o próprio Eu. O complexo de Édipo é considerado por Freud (1924a, p.113) “como a fonte da qual as nossas normas de Moralidade (a Moral) historicamente emanaram”.
Para Freud (1930) quando uma pessoa fez algo que sabe ser “mau” ou na intenção de fazê-lo e se perde o amor de outra pessoa de quem é dependente deixa também de ser protegida de uma série de perigos. Citando Freud:
Enquanto tudo corre bem com um homem, a sua consciência é lenitiva e permite que o ego faça todo tipo de coisas; entretanto, quando o infortúnio lhe sobrevém , ele busca sua alma, reconhece sua pecaminosidade, eleva as exigências de sua consciência impõe-se abstinência e se castiga com penitências (FREUD, 1930, p.130).
Sexualidade e sentimento de culpa se acham assim intimamente imbricados e podemos considerar que nas mulheres onde as restrições impostas à sua conduta sexual teve um papel relevante em quase toda a história da humanidade, pressupõe-se que sua vida sexual ainda esteja cerceada com os ditames da moral sexual onde sexualidade e pecado caminham juntos, e a presença de angústia e culpa a relacionarem sua própria vida sexual a terem contraído a aids.