CAPÍTULO 3 SURGIMENTO DOS SINDICATOS E SUAS
3.2 AS DIVERSAS CONFIGURAÇÕES IDEOLÓGICAS DO
3.2.4 O sindicalismo e as doutrinas sindicais extraproletárias
Mesmo considerada a dimensão ética expressada pelo solidarismo e pelo cooperativismo, em termos de dignidade da pessoa trabalhadora, não há vestígios de suas relações com as entidades sindicais.
Já os sistemas de representação instituídos nas empresas – comissões de fábrica, comitês, autogestão –, sempre se configuraram como entidades constituídas de modo paralelo às entidades sindicais e, não raras vezes, construídas sobre interesses distintos dos sindicatos.
É bem verdade que, para alguns marxistas e anarquistas, as comissões obreiras desempenhariam um papel importante, tanto na articulação como nas estratégias da luta operária como, depois, para os primeiros, no desenvolvimento do Estado socialista.
Destaca-se, dentro da classificação apresentada por De Ferrari, o cristianismo social e o liberalismo político.
A doutrina da Igreja trata especificamente dos sindicatos e do seu papel na sociedade moderna. “[...] Le Play propugnou a constituição de sindicatos mistos, com o qual se buscava levar a paz à vida industrial e fazer desaparecer os antagonismos de classe [...]” (DE FERRARI, 1976, p. 75-77).
Na tentativa de opor-se simultaneamente ao socialismo e ao anarquismo, o Pe Antonio Vicent (1895, p. 468) traça a sua concepção de vida associativa, do ponto de vista cristão. Norteia-se ele na idéia de enquadramento dos direitos à associação como naturais do gênero humano. Após transcrever várias passagens da encíclica Rerum Novarum, reforça também a importância dos Círculos de Obreiros Católicos, Patronatos, etc. As associações obreiras teriam, pois, como sua base fundamental a religião e a moral.
Ainda, afirma ele (1985, p. 468): “[...] com gosto, vemos que em muitas partes se formam associações desta classe, umas só de obreiros, outras de obreiros e capitalistas; mas é de desejar que cresça seu número e sua atividade [...]”.
O liberalismo político, em sua fase intervencionista, talvez seja a mais marcante doutrina destinada a respaldar a oficialização dos sindicatos e dar-lhes um colorido ideológico diferenciado das concepções revolucionárias introduzidas pelos socialistas e pelos anarquistas. O tema envolve uma ampla literatura ou bibliografia, e ainda desperta interesse dos juslaboralistas, sociólogos do trabalho e cientistas políticos.
A nova configuração dos chamados sindicatos oficiais ou reformistas só pode ser entendida a partir da constituição do próprio Estado moderno capitalista.
Segundo Ripert (1947, p. 27)
[...] as classes burguesas detêm a riqueza e exercem o poder. Há, portanto, uma aliança entre essas duas potências, econômica e política. O capitalismo se vangloria de ser individualista e liberal. Ele mesmo cria as instituições jurídicas de que necessita de que necessita, mas pede, apesar disso, ao legislador, que as reconheça, obtendo-o facilmente [...].
Salienta ele que a crise de 1848, aliada à fase seguinte de progresso, fez o capitalismo passar a pedir mais reformas. Para ele, o direito não via somente necessidade de mais regras jurídicas, mas igualmente de uma outra técnica jurídica, já que o Direito Civil não conhecia a nova empresa, apenas o proprietário. Seria, então, necessário articular novas regras, mais sofisticadas, a fim de compatibilizar os capitais necessários à produção e dar uma nova feição jurídica à constituição das sociedades, das indústrias, das bolsas e dos bancos.
É justo em tal contexto que, para ele, ocorre o “declínio das fantasias individuais”. “[...] Assim, por exemplo, a regulamentação do trabalho industrial pelas leis chamadas sociais foi um benefício para a empresa capitalista [...]” (RIPERT, 1947, p. 24).
A regulamentação de alguns aspectos das relações individuais de trabalho – salário, jornada, etc. Serviria, sem dúvida, para aplacar o ímpeto do sindicalismo revolucionário e fazer nascer o sindicalismo reformista.
A abordagem de Hobsbawn (1981, p. 322) sobre as tendências do movimento trabalhista inglês desde 1850 comprova tais argumentos. Afirma o citado historiador que os patrões sempre foram hostis aos sindicatos, salvo quando eram obrigados a negociar com eles.
[...] Não foi senão até as décadas de 1860 e 1870 que descobriram que os mecanismos formais para facilitar as relações trabalhistas eram desejáveis de um ponto de vista comercial, e que a negociação de corpos de trabalhadores com corpos de patrões recebia vários graus de reconhecimento oficial e não oficial. Este foi o período da legislação sindical de 1867-75, de vários passos para a conciliação e acordos de escala móvel, da defesa dos sindicatos pelos comerciantes como meio para evitar perturbações [...].
Outros fatores assinalados na citada obra são o reconhecimento oficial dos sindicatos, em meio à Grande Depressão de 1870, e a consolidação de classe considerada a aristocracia do trabalho. Citando Rosa de Luxemburgo, registra esta interessante passagem:
[...] O patrão razoável e o trabalhador sindicalista razoável; o capitalista justo e o trabalhador justo, o burguês de coração grande, amigo dos trabalhadores e o proletário de mente burguesa estreita condicionam-se uns aos outros, e são ambos
corolários de uma mesma relação, cujo fundamento era a posição econômica da Inglaterra do meio do século dezenove [...] (HOBSBAWN, 1981, p. 323).
Ao se referir especificamente à experiência sindical alemã, a própria Rosa de Luxemburgo (1970, p. 27) não admite neutralidade de dirigentes sindicas – sindicatos cristãos, católicos, evangelistas e liberais – e reforça o caráter revolucionário do sindicalismo.
Como os dois pilares do chamado sindicalismo reformista, aponta Ricardo Antunes (1985, p. 26-27), o sindicalismo norte-americano – com raízes no “trade-unionismo” inglês – e o sindicalismo cristão, inspirado na encíclica Rerum Novarum de 1891. Estas consistem em experiências sindicais de caráter apolítico e negam o caráter revolucionário dos movimentos coletivos organizados. Neste sentido, atuam na margem estreita do economicismo e têm um caráter meramente reivindicativo.
Este modelo sindical norte-americano ter-se-ia consolidado após o massacre de Chicago, quando, em meio a greves e violência policial, quatro operários foram condenados à morte e outros três à prisão perpétua, “[...] sob a falsa acusação de terem cometido um atentado. A partir de então, o 1º de Maio tornou-se um dia de luta de toda classe trabalhadora operária [...]” (ANTUNES, 1985, p. 27). Uma nota final: menos nos Estados Unidos.