CAPÍTULO 8 A GREVE NO BRASIL
8.1 OS IMIGRANTES E O MOVIMENTO OPERÁRIO BRASILEIRO
O presente estudo não se dirige à contextualização da greve em termos dogmáticos, nem consoante perfil da doutrina dominante ou da Organização Internacional do Trabalho.
A radiografia das composições doutrinárias e legislativas da greve, elaborada nos Capítulos anteriores, tem como interesse apenas demonstrar o objetivo daquelas de enquadrar esse fenômeno dentro do seguinte contexto: primeiro, das aspirações do Estado Liberal; segundo, do Estado do Bem-Estar Social; e, por fim, como fenômeno recepcionado e tolerado pelo Socialismo Democrático e pela Neosocialdemocracia.
Aqui não se fará uma análise detalhada acerca da interpretação e aplicação do Direito de Greve, no Brasil. Não é este o objeto do estudo. A pretensão é de perseguir o seu itinerário histórico, a fim de identificar as diversas correntes ideológicas formadoras dessa experiência. Por outro lado, intenta-se comprovar que a estrutura normativa atual segue os padrões doutrinários e legislativos orientados pela Organização Internacional do Trabalho e pelo Direito Comparado.
A teoria jurídica trabalhista, no tangente à influência do movimento anarquista na vida operária brasileira, é lacônica, muito embora exista uma bibliografia substancial acerca do tema.
Em língua espanhola, encontra-se relato de movimentação anarquista no Brasil já nos idos de 1835. Segundo Jaime Cubeiro (apud Morelli, 1988, p. 38), nesta época aparece, no Rio de Janeiro, um jornal anarquista “O Anarquista Fluminense”, ao qual sucederam - em ordem cronológica - “O Socialista da Província do Rio de Janeiro”, de 1845, o pernambucano
“O Proletário” e o carioca “O Grito Anarquial”. Todos estes, quando não propagadores diretos da ideologia anarquista, tinham a característica de combate aos governantes de então.
As primeiras experiências anarquistas em solo brasileiro, de acordo com o autor, forma a construção de comunidades, como a do município de Guararema, São Paulo, fundada por Arturo Campagnoli, em 1888, e a colônia Cecilia, fundada por Giovanni Rossi em 1890, no município de Palmeira, no Paraná. Esta a mais conhecida, objeto de muitos estudos, motivados pela sua força de resistência ao pôr em prática os princípios anarquistas em contexto social radicalmente adverso.
Também a obra do autor norte-americano Sheldon Maran (1979) retrata o período de 1890 a 1920, interregno no qual floresce e toma força a militância anarquista, devido ao considerável aumento do fluxo migratório provindo da Europa. Segundo ele, são justamente os imigrantes italianos, portugueses e espanhóis os que constituíram a liderança desse movimento e suas respectivas fileiras (rank and file).
Pontua ele que a sociedade escravagista tornou-se um obstáculo à introdução do país na moderna sociedade industrial. Por isso, o movimento imigratório só começou com fim da escravatura (1888) e a Proclamação da República (1899).
Contabilizou-se, então, cerca de 3.390.000 imigrantes a entrarem no país entre 1871 e 1920. A maioria formada de italianos; seguidos dos portugueses e, posteriormente, espanhóis.
[...] Segundo o censo de 1893 realizado na capital de São Paulo, os estrangeiros constituíam 54,6% da população total e um índice ainda maior da força de trabalho. Dos 10.241 trabalhadores classificados como artesãos (operários da construção civil devem ter sido incluídos nessa categoria) 85,5% nasceram no exterior. Na manufatura, 79% eram imigrantes; nos transportes e setores afins, 81%; no comércio, 71,6%. Excluindo as pesquisas no setor agrícola, os estrangeiros constituíam 71,2% da força de trabalho total da cidade [...] (MARAN, 1979, p. 15-16).
Já em 1901, o cálculo indicava que somente 10% dos operários industriais eram brasileiros.
[...] Em 1911, a pesquisa feita na indústria têxtil pela Secretaria de Trabalho do Estado de São Paulo indicou que de 10.204 operários em 23 fábricas, 7.499 eram estrangeiros, dos quais os italianos constituíam 6.044, os portugueses 824, os espanhóis 338, sendo os demais de diversas nacionalidades [...] (MARAN, 1979, p. 16).
Por volta de 1920,
[...] dos 1000,338 empregados em indústria (numa classificação ampla que abrange fábricas e pequenas oficinas), 51% nasceram no exterior. Nos transportes e comunicações, 58% dos 13.914 tabulados eram imigrantes, incluindo 62% dos 11.676 trabalhadores nos transportes terrestres e marítimos [...] (MARAN, 1979, p. 16-17).
Este é o panorama, muito embora saliente o autor que, de 1920 em diante, a participação estrangeira na força de trabalho tenha principiado a cair.
Outro achado importante: “[...] as lideranças operárias eram também ‘imigrantes’, em sua quase totalidade [...]”. Impunham-se, assim, várias dificuldades aos ativistas e agitadores da época. Uma delas era a variedade de idiomas. No entanto, destaca ele, que, a despeito disto, em 1917, aconteceu a maior greve deste período, que se iniciou na indústria têxtil
[...] e, na segunda semana de julho de 1917, já paralisava toda a indústria, o comércio e os transportes da cidade de São Paulo. Por quase três dias os grevistas controlaram as ruas. As elites paulistanas alarmaram-se a ponto de permitir que um comitê de jornalistas solucionasse a greve por meio de negociação direta com os representantes dos trabalhadores, da indústria e do governo [...] (MARAN, 1979, p. 19-20).
Pela pungência da ação e seu impacto sobre a organização sindical e trabalhista da sociedade da época, será de interesse trazer ao texto uma breve narrativa do desenrolar dos fatos na semana da grande greve anarquista no Brasil.
8.1.1 Motivações dos fluxos migratórios e seus dilemas
Como já salientado, a imigração, no Brasil, tomou força na década de 1880, a partir da política do Governo da Província de São Paulo de subsidiar o fluxo migratório para enfrentar a crise da mão-de-obra escrava nas fazendas paulistas de café, quando, depois de três séculos, o sistema escravista de exploração do trabalho começava a declinar.
Os estrangeiros, sobretudo espanhóis, italianos e portugueses eram recrutados majoritariamente na zona rural de seus países, com a promessa de construir fortuna no Brasil. Eram trazidos em grandes navios, em longas jornadas. Em solo, eram conduzidos de trem para a Hospedaria dos Imigrantes, de onde eram contratados pelos fazendeiros de café.
A ilusão da construção de riqueza, todavia, logo se desvaneceria em face da mentalidade intrinsecamente escravagista dos patrões. Aos novos trabalhadores, eram impostas jornadas de trabalho extenuantes, e condições de alojamento e trabalho muito precárias. Em pouco tempo, alguns trabalhadores rebelavam-se contra seus patrões e voltavam aos seus países4.
Os que não regressaram, migraram para a cidade de São Paulo e deram impulso à iniciante atividade industrial (LOPREATO, 1997). Muitos dos que ficaram rapidamente foram identificados pelo governo de então como anarquistas.
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8.2 ANARCO-COMUNISMO, ANARCO-SINDICALISMO, O AMBIENTE SOCIAL E AS