• Nenhum resultado encontrado

O sistema de custeio após a Lei 13.467/2017

Observa-se inicialmente que a reforma trabalhista, no que tange a forma de custeio sindical, alterou os artigos 545, 578, 579 e 582 da CLT, que passam a apresentar a seguinte redação (grifo nosso):

Art. 545. Os empregadores ficam obrigados a descontar da folha de pagamento dos seus empregados, desde que por eles devidamente

autorizados, as contribuições devidas ao sindicato, quando por este

notificados [...]

Art. 578 As contribuições devidas aos sindicatos pelos participantes das categorias econômicas ou profissionais ou das profissões liberais representadas pelas referidas entidades serão recolhidas, sob a denominação de contribuição sindical, pagas, recolhidas e aplicadas na forma estabelecida neste capítulo, desde que prévia e expressamente

autorizadas.

Art. 579. O desconto da contribuição sindical está condicionado à

autorização prévia e expressa dos que participarem de determinada

categoria econômica ou profissional, ou de uma profissão liberal, em favor do sindicato representativo da mesma categoria ou profissão ou, inexistindo este, na conformidade do disposto no art. 591 desta consolidação.

Art.582. Os empregadores são obrigados a descontar da folha de pagamento de seus empregados relativa ao mês de março de cada ano a contribuição sindical dos empregados que autorizaram prévia e

expressamente o seu recolhimento aos respectivos sindicatos.[...]

Isto posto, devemos levar em consideração que a mudança trazida pela Lei 13.467/2017 apresenta uma nova forma de se realizar a contribuição sindical, a qual passou de compulsória à facultativa, segundo Sergio Pinto Martins (2017, p. 328):

A contribuição sindical passa a ser uma exigência facultativa, voluntária. Trabalhador ou empregador poderão optar em recolher ou não a contribuição sindical. Juridicamente poderia ser chamada de doação o ato do empregado em contribuir para o sindicato, pois não tem mais obrigação legal de fazê-lo.[...]

Há muito tempo se discutia a mudança dessa forma de contribuição, tendo em vista que estava em desacordo com o art. 2º da Convenção n. 87 da OIT, que por sua vez é entendido como um artigo de extrema importância, pois exalta a liberdade do trabalhador em escolher uma organização para filiar-se.

Ainda, entende-se que a CLT ao tratar a contribuição sindical como compulsória, não estaria respeitando o princípio da liberdade sindical, direito

fundamental prezado pela nossa Constituição Federal, segundo Ricardo Souza Calcini (2018, p. 139):

Deste modo, o legislador reformador, ao tornar a contribuição sindical facultativa, se pautou no princípio da liberdade de associação que está previsto no ordenamento jurídico brasileiro desde a Constituição de 1891, sendo que a liberdade de contribuição é mero corolário lógico do direito e associar-se ou não. Esses, inclusive, são os ditames contidos no inciso V do artigo 8º da atual Constituição Federal. Vale destacar, inclusive, que para significativa parcela da doutrina, a imposição de contribuição obrigatória a todos trabalhadores viola a liberdade sindical [...]

Constata-se, portanto, direito do trabalhador de filiar-se, bem como, contribuir para a entidade que julgar mais convincente, podendo fazer uma análise detalhada do estatuto de cada uma delas, e após esse estudo fazer sua escolha.

Outra crítica feita em relação à obrigatoriedade da contribuição sindical é a feita por Oliveira Neto (2010, p. 85):

A contribuição sindical beneficia estruturas sindicais totalmente descompromissadas com o interesse dos trabalhadores e empregadores. Como o recurso oriundo independe de qualquer contrapartida, muitas diretorias se perpetuam no poder em prejuízo dos interesses de seis representados.

Ou seja, alguns autores apresentam além do entendimento de que essa forma de contribuição não se adequava ao princípio da liberdade sindical, o entendimento de que tal forma fortalecia entidades sindicais de modo geral, sem que estas precisassem prestar bons serviços, relativizando assim, a eficiência dos serviços prestados por essas entidades.

Após a Lei 13.467/2017 entrar em vigor, a forma de autorização da contribuição foi utilizada de má fé por algumas entidades sindicais tendo em vista que os artigos alterados não continham de forma especifica que autorização deveria se dar de forma individual por cada trabalhador, sendo assim, se usou de convenções coletivas que autorizavam o desconto do valor da contribuição de modo geral, segundo Calcini (2018, p. 137-138):

Autorização coletiva do desconto da contribuição sindical pela via assembleia sindical É cediço que muitos sindicatos profissionais, com fundamento no inciso III do artigo 8ª da Constituição Federal,passaram a

convocar assembleias específicas com o objetivo de obter a autorização coletiva do desconto da contribuição sindical em nome de seus representados. E a pergunta, neste caso, é uma só: tal procedimento tem o condão de efetivamente substituir a vontade prévia e por escrito dos trabalhadores? [...]ainda que muitas entidades sindicais estejam convocando assembleias com o único objetivo de substituir a vontade de cada funcionário autorizando, coletivamente, o desconto da contribuição sindical em nome dos seus representados certo que dito procedimento não detém nenhuma legitimidade e/ou embasamento legal, estando eivado de plena e absoluta nulidade.

Deste modo, segundo Renato Rua de Almeida (2019):

Por essas razões, o Presidente da República houve por bem valer-se da prerrogativa constitucional de enviar ao Congresso Nacional a Medida Provisória 873, de 1º de março de 2019, sobre a forma de se arrecadar o pagamento da contribuição sindical por meio de boleto bancário ou equivalente eletrônico, com a incumbência e a responsabilidade da avaliação pelo juízo de conveniência e oportunidade dos requisitos da relevância e urgência, dando assim efetividade ao direito fundamental social da dimensão individual da liberdade sindical, tal como previsto pelo já mencionado artigo 8º, inciso V, da Constituição da República.

Por essa contribuição ser a principal receita dos sindicatos, influenciou os mesmos a valerem-se de convenções e acordos coletivos que autorizassem de forma geral a contribuição, porém como visto, tal forma não foi interpretada de maneira positiva, resultando na Medida Provisória 873/2019 que alterou artigos da reforma como meio de combater tal prática, assim, especificou-se na legislação a forma de autorização para que realmente seja facultado a cada trabalhador individualmente a escolha. A referida Medida alterou os seguintes artigos (grifo nosso):

Art. 545. As contribuições facultativas ou as mensalidades devidas ao sindicato, previstas no estatuto da entidade ou em norma coletiva, independentemente de sua nomenclatura, serão recolhidas, cobradas e pagas na forma do disposto nos art. 578 e art. 579.

Art. 578. As contribuições devidas aos sindicatos pelos participantes das categorias econômicas ou profissionais ou das profissões liberais representadas pelas referidas entidades serão recolhidas, pagas e aplicadas na forma estabelecida neste Capítulo, sob a denominação de contribuição sindical, desde que prévia, voluntária, individual e

expressamente autorizado pelo empregado.

Art. 579 O requerimento de pagamento da contribuição sindical está condicionado à autorização prévia e voluntária do empregado que participar de determinada categoria econômica ou profissional ou de profissão liberal, em favor do sindicato representativo da mesma categoria ou profissão ou, na inexistência do sindicato, em conformidade o disposto no art. 591. § 1º A autorização prévia do empregado a que se refere o caput deve ser individual, expressa e por escrito, não admitidas a

autorização tácita ou a substituição dos requisitos estabelecidos neste artigo para a cobrança por requerimento de oposição. § 2º É nula a regra ou a cláusula normativa que fixar a compulsoriedade ou a obrigatoriedade de recolhimento a empregados ou empregadores, sem observância do disposto neste artigo, ainda que referendada por negociação coletiva, assembleia- geral ou outro meio previsto no estatuto da entidade.

Art. 579-A. Podem ser exigidas somente dos filiados ao sindicato:I - a contribuição confederativa de que trata o inciso IV do caput do art. 8º da Constituição II - a mensalidade sindical; III - as demais contribuições sindicais, incluídas aquelas instituídas pelo estatuto do sindicato ou por negociação coletiva.

Art. 582. A contribuição dos empregados que autorizarem, prévia e expressamente, o recolhimento da contribuição sindical será feita

exclusivamente por meio de boleto bancário ou equivalente eletrônico,

que será encaminhado obrigatoriamente à residência do empregado ou, na hipótese de impossibilidade de recebimento, à sede da empresa.§ 1º A inobservância ao disposto neste artigo ensejará a aplicação do disposto no art. 598.§ 2º É vedado o envio de boleto ou equivalente à residência do empregado ou à sede da empresa, na hipótese de inexistência de autorização prévia e expressa do empregado. [...]

Ao observar as alterações feitas pela Medida Provisória 8731, conclui-se que

a partir dessa alteração, a autorização se dará por escrito pelo empregado, de maneira expressa, prévia, voluntária e individual, aquele que optar por contribuir, fará o recolhimento do valor exclusivamente por meio de boleto bancário ou equivalente eletrônico, que será encaminhado obrigatoriamente a sua residência.

As outras modalidades de financiamento sindical, contribuição assistência, confederativa e associativa não foram afetadas pela mudança, Segundo Sandro Sacchet de Carvalho (2019):

Demais encargos permaneceram inalterados, particularmente as contribuições para o Sistema S, que, entre outras coisas, financia as entidades sindicais patronais, ao passo que a contribuição sindical dos trabalhadores deixou de ser obrigatória

A partir dessa mudança, essas três contribuições terão uma importância maior no orçamento sindical, pois de acordo Martins (2019, p.330) “[...] o sindicato vai ter que sobreviver com as receitas da mensalidade sindical e das contribuições confederativa e assistencial dos associados”. Podendo inclusive, enfrentar alguns impasses no custeio das entidades.

Após a análise da mudança na contribuição sindical, a seguir serão verificados os efeitos dessa alteração nas relações entre trabalhador e sindicato, com foco principal na obrigatoriedade de representação, função prestada pelos sindicatos.

Documentos relacionados