Muitas vezes durante meu campo, e minha reflexão sobre este, sobre quais minhas contribuições para o grupo seriam, pensamento que acompanhou Oliveira (2011) durante seu campo; algo que não pensava até ler seu trabalho, e por isso tive uma inspiração (OLIVEIRA, 2011). De um lado não me senti muito pressionado para contribuir pois acreditava que já nas sessões, como mais um, cumpria bem esta contribuição. Mas gostaria também de deixar uma contribuição teórica para o grupo do GIPSI, da qual transborda os alcances etnográficos, mas que se constitui como uma pequena ajuda permanente, para auxiliá-los neste trabalho tão importante que oferecem à comunidade que os cerca. Um pedaço teórico em forma de ferramenta para o pensamento em seu trabalho, baseado nas experiências que vivi no grupo, para atuais e futuros gipsianos.
No GIPSI, os casos não são fáceis, se ainda não o disseram isso, ainda te dirão.
Não são fáceis no sentido de manejá-las na clínica, e até fora dela, até com aqueles que lhe auxiliam neste caso, quando seus momentos estressores estão em seus ápices. Mas é possível que os casos do GIPSI se encontrem em situações um tanto padronizadas em seu trabalho, apesar de únicas e singulares em sua forma de expressão. É possível que encontre em seus futuros casos, situações onde egos subjugam, ou são subjugados pelos parentes. Egos que se submetem entre si, sob a forma de um cuidado e um cuidador.
Senhor do campo simbólico da família, os pais geralmente, ensinam os sujeitos a serem uma boa pessoa, pessoa de Deus, a não ser “namoradeiro”, não ser “o louco” que alucina, falar e se comportar direito, ser independente, e etc. A família em seu projeto global, encaixa um filho dentro deste mito familiar, de seus ideais culturais, presentes dentro do discurso tradicional; mas não necessariamente este se encaixará, e geralmente seu sintoma expressará esta inadequação. Aquilo que não dizem nos primeiros dias, ou nos “dias empacados” da clínica, quando “parece estar tudo bem” e nada de ruim ou de sofrimento aparece, até se perguntam por vezes, “por que estão aqui então?”, meus nativos para si mesmos sobre seus casos. Às vezes, podem aparecer um certo vácuo entre as demandas da família, e a auto cobrança, por vezes alucinatória, desses ideais que por vezes vem velados para o sujeito.
Saturno, devorando seu filho, como escravo de seu gozo, parece se reproduzir de forma mítica e inconsciente dentro do mundo simbólico nos casos do GIPSI, latentes na cena social. O desejo do Outro da tradição familiar, nem sempre está alinhado com o
desejo do paciente identificado, e desenlaçar essas implicações, a partir de uma fantasia ainda por vir, parece ser fundamental no alívio do sofrimento dos casos em que participei da elaboração e análise. A eficácia simbólica observada por meus outros antecessores (LÉVI-STRAUSS, 2017), no divã de terapeutas da época, apenas revivem esta constelação familiar, este sistema introdutório da cultura e dos costumes. Uma imagem, um ego no topo da formulação simbólica da família, na contracena da eficácia simbólica talvez seja observado em seus próximos casos. Como um totem, uma mãe ou um pai podem aparecer como os salvadores ou como carrascos da sanidade, e formuladores do que é ser inadequado dentro do comportamento familiar. Um ou mais egos na família, um membro deste sistema, pode discernir o certo do errado, em uma relação intergeracional, e algumas vezes, em minha estadia no GIPSI pude observar situações em que essas noções valorativas se opunham aos próprios terapeutas, rivalizando-os, tornando-os possíveis inimigos. E isso não deixava de aparecer nos sonhos e delírios que apareciam nos encontros clínicos de meus nativos com seus clientes. Nada que um bom manejo e uma boa supervisão não darão conta.
Triangulações, relações ambivalentes e por vezes muito conflitivas são indícios de possíveis casos para o GIPSI, bem como alucinações, fala dissociativa e outros pródromos que vocês sabem até mais do que eu. A teoria sistêmica se casa com a psicanálise, quando observamos um mundo inconsciente na pessoa e no grupo, onde absorve as fantasias de dominação, a fala não dita, o abuso não processado, e produz um inconsciente individual e coletivo que organiza esse grupo, e por vezes o desorganiza, gerando a crise, o que geralmente exige uma nova forma de organização. No sistema familiar, também linguístico e cultural, pela diferenciação dos termos, do ser pai ou ser mãe, filho ou padrasto, traz um reconhecimento deste lugar em uma vivência familiar, conflitiva ou não, produzindo uma certa eficácia simbólica dentro do discurso familiar, para quem se colocar neste lugar de senhor, geralmente quem possui o meio material de produção da vida, a comida, a casa, e o amor, por vezes incondicional. Ser uma pessoa mais independente, forte, inteligente, funcional podem ser o diferencial para se validar uma pessoa dentro deste sistema. Se uma pessoa pode escolher tomar seus remédios ou não, se tem o direito de sair de casa ou não, se pode sair, com quem, a que horários e em que condições, são mecanismos simbólicos do habitus familiar.
Ser ou não ser o “louco” da família muitas vezes te cristaliza em uma posição social específica da qual, muitas vezes, adoecem o sujeito. Como lidar com uma pessoa, se ela pode ou não tomar seus remédios sozinha, controlá-los, decidi-los, tudo isso. Toda
essa realidade dos limites simbólicos é metabolizada pelo grupo, mas os limites são decididos por seu totem. O totem é muito mais do que uma pessoa, é uma posição ou lugar simbólico, possivelmente ocupado por diferentes pessoas, que torna a família uma instituição independente e operante para cada um de seus membros. Ao invocar o valor dos bons costumes, da liberdade individual, e fraternidade, se legitima ou se critica uma forma de discurso. Aqui, na família que encontrarão, quem decide suas leis, geralmente são os pais, ou os possuidores do meio de produção da vida, a saber, a casa os alimentos e seu domínio simbólico como dito.
O comportamento se organiza de forma relacional na cultura, assim como o adoecimento quando produzidos por essas relações. Nunca se sabe como ou de onde esperar que apareça, mas a saúde mental e seus restos estão em todo lugar, está permeada na cultura, e nas relações que a constitui; dentro da família, das universidades, das escolas, das igrejas, das pistas de skate, nas pracinhas, nos cinemas, em quase todo lugar.
Onde tem saúde, geralmente tem saúde mental em algum nível, por muitos anos a antropologia tem visto o mundo do afeto e dos sentimentos como um campo inefável e ou inatingível metodologicamente. Mas a cada dia a depressão e ansiedade se torna um fato social ainda mais considerável. Muitos falam sobre um futuro verde, o que é inevitavelmente necessário. Mas para isso, precisamos também de um mundo mentalmente saudável, para tomar medidas saudáveis, e esse, no fim, é o objetivo do GIPSI, juntar uma família com um grupo de profissionais capacitados a fim de atenuar o sofrimento humano, constituído dentro e pela cultura a fim de auxiliá-los a tomar decisões mais saudáveis para si e sua vida. Dar espaço para o sujeito relativizar ou reavaliar esse habitus familiar, e seu lugar neste sistema, e permitir que o cliente produza os próprios signos e desejos (por vezes reprimidos), clamados por seu sofrimento, parece ser o caminho que o manejo clínico parece contemplar em sua prática. Socializar a individualidade é o caminho para o “louco” chegar ao mundo, em vez de ser excluído dele. Essa é a proposta do GIPSI, em sua prática mais fundamental.