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O sofrimento e lamentação no Segundo Isaías

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4.1 OS SALMOS DE LAMENTAÇÃO

4.1.3 Subcategorias e tipos de lamentações no Antigo Testamento

4.1.3.3 O sofrimento como mediação a Deus

4.1.3.3.2 O sofrimento e lamentação no Segundo Isaías

O Segundo-Isaías refere-se aos capítulos 40 a 55 do livro de Isaías e foi produzido em terras babilônicas por um ou vários profetas desconhecidos. Eles atuaram entre os exilados, na

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Na dinâmica poética do texto, em algumas vezes parece que Jó irá aceitar a suficiência da graça, mas recaí em sua justificação de inocência. Até seu encontro com Deus, onde sai da posição de quem coloca em dúvida a justiça de Deus à ironia de Yhwh que o recoloca em seu lugar. ―Jó cedeu a um acesso de hybris metafísica. Duvidou da justiça do Criador, embora, ao mesmo tempo, a reconhecesse, uma vez que esperava dela a sua quitação. Exigindo de Deus a proclamação de sua justiça, na verdade ele negou a liberdade de Deus. Tentando justificar-se, reduziu Deus à finitude. Entendeu a justiça divina não em relação com o macrocosmo teocêntrico, mas em função de um microcosmo antropocêntrico. Vivendo em sua egocentricidade, ignorou a teocentricidade da vida. Se Jó tivesse o poder de Deus, poderia salvar a si mesmo, e Deus não hesitaria em oferecer-lhe os ritos da adoração cultual (40,14)! Mas o poder do homem, por mais vasto que ele seja nos limites de sua mortalidade, está cercado pelo nada. Exerça Jó seu poder dentro e fora de seu eu, e descobrirá logo sua fraqueza existencial! ‖. TERRIN, Samuel. Jó. São Paulo: Paulus, 1994, p.44.

Babilônia. O mais correto é data-lo por volta de 550 e 540141. Para Schwantes, o Segundo- Isaías é parte da segunda geração de exilados, posterior a Ezequiel, e pode ser situado entre os cantores do templo. Se admitirmos essa hipótese, ele poderia ser correlacionado aos cantores das lamentações junto ao templo. Isto é, cantores nas mediações dos remanescentes e cantores exilados.

O Dêutero-Isaías articula uma mensagem de salvação aos jerusalemitanos para acolher seus ouvintes. A salvação seria possível por meio do perdão142 divina àqueles que haviam abandonado ―arbitrariamente‖ a vontade do Senhor (SCHOORS, 1973, p.189-207). Portanto, o núcleo da profecia dêutero-isaíana é o retorno à terra. Esse assunto é tomado pela teologia como o ―novo êxodo‖: o regresso dos cativos para sua terra. O profeta incluiu tanto os exilados quanto os dispersos em sua mensagem. Mas nem todos a receberam. É provável que poucas pessoas lhe deram crédito143.

Chama-nos atenção no Dêutero-Isaías as passagens que tratam do Servo Sofredor: 42.1-4; 49.1-6; 50.4-9 e 52.13-53.12. São cânticos em sequencia na estrutura do livro. Apresentam este Servo Sofredor: vocação, tarefa, resistência e martírio. É comum em todo Isaías 40-55 e nos cânticos do Servo a defesa do universalismo religioso, isto é, que Yhwh deve ser o Deus de todas as nações; mas o sofrimento vicário não é comum no livro como um todo.

A missão do Servo Sofredor é englobar o conjunto das nações e Israel junto a ele. Porém, esta não é uma tarefa fácil, conquanto, exigirá do Servo a persistência em meio às contrariedades das nações e do próprio Israel. O último cântico vai mostrar que a realização plena de sua missão será através da mediação pelo sofrimento deste Servo Sofredor. Este Servo carrega ―martírio e vicariedade‖ (SCHWANTES, 2007, p.133). O Servo é alguém solidário com o sofrimento. Sua missão era um ―arquétipo para a missão de Israel‖ (KLEIN, 1990, p.137).

Esta tônica não é única em Isaías 40-55, o é em Amós, nos Salmos e, principalmente, na pessoa de Jeremias conforme seu livro. O Servo do Senhor, ou seja, assume o papel de lamentador para se colocar como mediador do povo distante de Yhwh para que este alcance suas misericórdias. O sofrimento se torna um meio desejável para um fim prospero e cheio de

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Veja os argumentos para esta datação em: SCHWANTES, Milton. Sofrimento e Esperança no Exílio: História e Teologia

do Povo de Deus no Século VI a.C. São Paulo: Paulinas, 2007, p.118,119. Klein também concorda: KLEIN, Ralph W. Israel no Exílio: Uma Interpretação Teológica. São Paulo: Paulinas, 1990, p.113.

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Perdão significa que ―o passado deixou de ser determinante‖ para o futuro de Israel. Em outras palavras, o perdão do Senhor supera o exílio. Conforme: SCHWANTES, Milton. Sofrimento e Esperança no Exílio: História e Teologia do Povo

de Deus no Século VI a.C. São Paulo: Paulinas, 2007, p.120,121.

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Para ver outras características da mensagem profética de Isaías 40-55, consulte: SCHWANTES, Milton. Sofrimento e

bênçãos. A isso damos o nome de mística da inutilidade. A mediação pelo sofrimento tem uma história importante na teologia do Antigo Testamento, da qual o Servo Sofredor faz parte144.

Moisés assim o fizera. Agora, rumo ao novo êxodo, o Servo Sofredor é o mediador representativo do povo de Deus. Westermann vê Moisés e este Servo como os ―pilares‖ da teologia da mediação. A diferença fica por conta dos detalhes entre esses personagens: sobre o Servo Sofredor não nos é descrito pormenores de sua vida e história. Moisés é o pioneiro na mediação do povo a Deus, o Servo é onde a história da mediação para Israel se encerra; e assim o faz em mistério: quem é este Servo?

A teologia da lamentação possuí paralelo com o esquema teológico da missão do Servo Sofredor do Dêutero-Isaías. A lamentação visa à salvação do sofredor, e assim o é a tarefa do misterioso Servo. Ela se torna um recurso para apelar a Deus e sair de uma situação miserável. No caso do Servo, ele mesmo assume os prejuízos do sofrimento vicariamente em prol dos sofredores, distantes de Yhwh e que devem se unir a ele, vindos de todas as nações. O Dêutero-Isaías mostra que é possível lamentar a Deus em qualquer momento. Yhwh estará sempre atento para as súplicas.

A teologia da lamentação é situada por Weiser como uma experiência de fé baseada na Aliança entre Israel e Deus; Deus permite que sejam feitas a ele as súplicas que caracterizam essa relação:

Os salmos de lamentação expressam a submissão do homem a Deus, a quem, atraves da lamentação, confia as suas tribulações e na súplica apresenta os seus desejos. A multiplicidade das aflições terrenas do indivíduo encontra sua unidade interior e seu apoio na orientação para Deus, através da fé comum alimentada pela tradição cúltica constantemente renovada [...] O tema da maioria dos salmos de lamentação, mais ou menos claramente expresso, é a separação de Deus e o desejo de restaurar o contato perdido com o seu poder vivo, na demonstração de sua presença, com a sua graça e a sua ajuda. É neste ponto que os salmos do Antigo Testamento se elevaram à sua mais alta espiritualidade e ao mais elevado nível do desenvolvimento da força da sua fé. Relacionando todo sofrimento com Deus e não com vários deuses ou demônios, como nas religiões politeístas, a fé do Antigo Testamento experimenta na sua tribulação a ameaça direta de toda a sua existência diante de Deus e, inversamente, vê na comunhão de vida com este Deus a única possibilidade de sua existência (WEISER, 1994, p.54).

144 Os mediadores principais são: os patriarcas, Moisés, Josué, os reis, os sacerdotes, os profetas e, por último, o Servo Sofredor. Consulte: WESTERMANN, Claus. Fundamentos da Teologia do Antigo Testamento. São Paulo: Editora Academia Cristã Ltda., 2005, p.85-95.

O Servo Sofredor serve de recurso de mediação entre Yhwh e seu povo, do exílio para todas as nações. Dessa forma, os cânticos do Servo Sofredor encaixam-se no gênero das lamentações, pois permite que o sofredor tenha liberdade em levar a Deus os ―mais profundos problemas da vida‖ e ―na oração‖ pedir ―decisões supremas‖ quanto sua situação (WEISER, 1994, p.55).

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