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O solo fundante do texto de Sylvain Maréchal

1. As questões da educação das mulheres

1.3. O solo fundante do texto de Sylvain Maréchal

Como se disse, o texto de Sylvain Marechal enumera uma série grande de autores para legitimar as suas propostas no quadro da racionalidade. De entre os nomes que o autor refere, salientam-se Les auteurs de l’Encyclopédie, que Sylvain de Maréchal refere tanto para fundamentar a sua tese, o seu projecto, como para ilustrar as razões que motivaram o mesmo.

A referência a este movimento intelectual que resultou na criação de La

Encyclopédie ou Dictionnaire raisonné des Sciences, des arts et des métiers faz todo o

sentido, porque se trata de uma obra de referência obrigatória que retrata este momento histórico e que, em consonância com os valores da modernidade, visava a difusão do conhecimento como forma de promover o progresso da humanidade, opondo-se, desta forma, ao obscurantismo, à intolerância e aos preconceitos. Por outro lado, como obra pioneira e de exploração de novos formas de conhecimento e de construir saber, coexistem nela textos de autores e autoras sobre as mulheres e o feminino que ilustram a contradição de uma época que repensa os seus fundamentos, as suas práticas e a sua essência.

É exemplo desta ambivalência, por exemplo, a posição de Diderot que, por um lado, defende a possibilidade de qualquer mulher poder, de acordo com a lei, celebrar contratos matrimoniais especiais no sentido de assegurar a sua autoridade, mas que, por outro lado, sustenta a ideia de que os órgãos sexuais femininos eram órgãos

masculinos subdesenvolvidos, sendo este um condicionalismo essencial e marcante do ser humano feminino.

No que se refere à moralidade da mulher, ganha consistência o conceito de mulher doméstica que Rousseau também defende. Sobre esta aparente contradição, afirma Célia Amorós:

“No nos debe extrañar esta contradición en una obra como la Enciclopedia que reúne voces discordantes en muchos otros temas. En cualquier caso, es sintomático de una época que discute y elabora nuevos paradigmas de sociedade. Su interés es múltiplie: por un lado, describe, para criticarlas, las reivindicaiones de igualdade en la moral sexual que la práctica misma de las aristocratas introducía en la tormentosa polémica del siglo. Por outro, contrapone al modelo aristocrático galante dos nuevos tipos de mujer: la ilustrada y la mujer doméstica.” (Amorós in PULEO, 1993: 36)

Ainda nesta obra, autores como o barão d’Horbach, colaborador de l’Encyclopédie, critica a educação diferenciada para o sexo feminino devido às suas consequências devastadoras para as mulheres e para a sociedade em geral. Associa a falta de

educação das mulheres das classes populares à prostituição e critica a falsa moral que as condena exclusivamente. Defende, por isso, o ideal de esposa amiga e virtuosa da burguesia em ascensão, mas reclama uma educação igualitária para as mulheres de modo a que possam apropriar-se de uma cidadania activa que permita a apropriação da sua cidadania e o desempenho de funções políticas semelhantes às que os homens desempenham no estado (PULEO, 1993: 78).

Madame d’Epinay, mais radical e de enfoque marcadamente cultural, critica a diferenciação fundada nas diferenças biológicas. Afirma-se contra a forma como as mulheres são educadas, por acentuarem as características femininas mais negativas: “Por la manera en que en todos los Países se educa a las mujeres, parece que se propusieran hacer de ellas seres que conserven hasta tumba la frivolidad, la

inconstancia, los caprichos y los desatinos de la infância” (Madame d’Epinay in PULEO, 1993: 79) e, sobre as mães, afirma que não podem ser educadoras, pois “la educación de las hijas será confiada a reclusas despojadas de toda experiencia, secuestradas de la Sociedad, ignorantes, crédulas, supersticiosas, llenas de pequeñeces y de prejuicios”. Defende, portanto, uma mudança de mentalidade de todos aqueles que abordam temas como a educação e igualdade entre homens e mulheres, bem como uma lógica

baseada na razão isenta de preconceitos: “solo nos hacen falta cabezas nuevas para enfocar las cosas bajo puntos de vista diferentes”. (Ibidem: 86)

Esta perspectiva de que o preconceito, aprendido em contexto social, como herança cultural, é um factor de preservação da desigualdade entre os sexos e da submissão da mulher foi também defendida por Poulain de la Barre. Este homem, discípulo de Descartes, apresenta ideias inovadoras na sua obra De l’égalité des deux sexes -

Discours physique et moral ou l’on voit l’importance de se défaire des préjugés, em que

questiona os preconceitos fundadores da conceptualização discriminatória do feminino, baseando-se no conceito cartesiano do Cogito, do pensar, do duvidar, e defendendo que, pela acção, se é também racional. Desmistifica desta forma a ideia de que a razão prática, aquela que era associada ao feminino, inviabilizava o

conhecimento e a racionalidade. Sobre este pensador do século XVII, afirma Fernanda Henriques:

“Aquilo que, ao longo dos séculos, determinou a desigual situação entre mulheres e homens assenta, somente, na força e não na racionalidade. Por isso, continua ele a defender, é necessário que a educação questione este preconceito e se ocupe em formular uma conceptualização da natureza com base em critérios puramente racionais.” (HENRIQUES, 2005: 8)

Poulain de la Barre defendia, assim, um modelo de educação comum para toda a humanidade, uma vez que o que importava era o modo como se pensava e não quem o fazia, homem ou mulher.

Apesar da diversidade de posições e de fundamentações sobre a educação de homens e de mulheres, o pensador que mais significativamente deu consistência à tese de Sylvain Marechal foi Jean-Jacques Rousseau.

Este autor forneceu os fundamentos teóricos para sustentar os valores da Revolução Francesa e do ideário da nova sociedade, mas, se, por um lado, defendeu uma lógica social baseada na igualdade, na fraternidade e na liberdade, por outro, apresentou uma proposta política de organização social sistematizada na educação diferenciada para crianças de um sexo e de outro, sendo, certamente, um dos responsáveis pelo modelo de educação das mulheres que vingou até ao século XX.

Baseando-se na dicotomia razão/corpo e na diferenciação entre razão teórica e razão prática, Rousseau reconfigurou a racionalidade feminina em função da sua sexualidade e da sua proximidade à natureza. Segundo estes pressupostos, legitimou

uma educação diferenciada para os dois sexos, retomando e reforçando uma concepção do feminino associado à sensualidade, à fragilidade e à sua função

reprodutora, a sua função natural. A mulher era formada e educada para se tornar um instrumento que viabilizasse a formação e a concretização do ser humano genérico e universal, o homem. Se o homem tinha ao seu dispor, por um lado, as Leis para regrar a exercício da liberdade e a razão para condicionar as suas paixões, a mulher, incapaz de aceder a uma racionalidade plena, poderia apenas contar com o pudor para controlar os seus instintos, condicionados pela sua natureza, pela sua biologia, pelo seu sexo. Na obra de Rousseau, Émile, o masculino tem ao seu serviço Sophie, cuja educação

deveria assegurar que esta se tornasse a companheira ideal do homem, sem individualidade, formatada para agradar e dar prazer ao homem, viabilizando a sua realização individual ao nível do contexto privado e, por consequência, potencializando a sua realização política, no domínio público. Ou seja, enquanto Émile se define como um ser único, autónomo e racional, Sophie, representante do feminino, é um ser colectivo, dependente, condicionado pela sua natureza e, por conseguinte, desprovido de entidade ontológica e de autonomia social:

“o ser feminino define-se em relação ao homem e não por si mesmo; a mulher é amante, mãe ou esposa, mas jamais um ser individual que valha em si próprio. (…) Ou seja, a relação homem-mulher caracteriza-se por uma reciprocidade hierárquica, desigual.”(HENRIQUES, 1998 : 186).

Esta é a razão por que Émile constitui um marco inquestionável pela forma como expressa a discriminação do feminino, pela influência que virá a ter nos sistemas educativos que se vão estruturar um pouco por todo o mundo ocidental, ao longo dos séculos subsequentes, e que se basearão numa educação com organizações e lógicas diferentes para cada um dos sexos.

A posição de Rousseau foi de tal maneira extrema que, no quadro do debate e do movimento das novas ideias, outros autores e autoras defenderam posições mais equalitárias para as mulheres. É este o caso, por exemplo de D’Alembert, matemático e filósofo de l’Enciclopédie, que reage à pedagogia proposta por Rousseau e defende uma educação humanamente digna para as mulheres, contrariando o passado de subjugação e de degradação. Expressa, afinal, a sua crença no poder da educação e do saber para a concretização do progresso. Afirmando que a educação das mulheres valorizara ao longo do tempo a mediocridade e a futilidade femininas, num contínuo

processo de exclusão da educação, da cultura e da política, D’Alembert criticou o projecto educativo de Rousseau e defendeu um novo modelo pedagógico que

viabilizasse uma nova dimensão relacional entre os dois sexos e que permitisse superar o receio e o temor das reais capacidades das mulheres.

Entre as mulheres, a grande opositora de Rousseau foi Mary Wollstonecraft. Escritora e intelectual inglesa do século XVIII, pertenceu ao grupo de radicais

receptoras da Revolução Francesa em Inglaterra e teve uma postura analítica e crítica face aos acontecimentos que marcaram a sua época. Com o intuito de contribuir para a construção de um futuro melhor e mais justo, defendeu a concretização de um

projecto educativo digno e humano para homens e para mulheres. Esta mulher procurou a autonomia financeira e intelectual, que lhe permitissem a sua afirmação pessoal e social, abrindo caminho para uma nova dimensão pública e política da mulher. Discordando da ideia de desigualdade entre homens e mulheres, fundada no conceito de uma razão feminina menor e menos capaz, Mary Wollstonecraft discutiu a proposta de Rousseau e insurgiu-se contra uma educação diferenciada para homens e mulheres. Defendeu que o modelo de educação praticado acentuava as diferenças entre homens e mulheres, refutou o determinismo biológico que condenava as mulheres a um ser e a um estar sem individualidade nem autonomia. Combateu o poder patriarcal, que associava à perpetuação de preconceitos tradicionais e a

privilégios misóginos, e procurou legitimar racionalmente as aspirações das mulheres de conquistarem a sua autonomia moral (em vez de receberem uma razão em segunda mão) e uma cidadania explícita na vida pública.

Mary Wollstonecraft afirmou que “’the personal is the political’ because politics, or

relations and institutions of power, condition personal identity, social relationships, and life chances for everyone» (GARY, 2007: xiii), e assumiu uma intervenção política e

cultural determinante na defesa dos direitos dos desfavorecidos, das mulheres e da educação permanente.

Em França, autora da Déclaration des droits de la femme et de la citoyenne, Olympe de Gouges afirmou publicamente com esta obra a sua posição face à autoridade masculina e o seu impacto negativo na relação entre os dois sexos. Como democrata, com preocupações raciais e sociais, defendeu a igualdade de direitos entre homens e mulheres no casamento, a capacitação da mulher como ser racional e como ser

autónomo que, ainda que diferente do homem, era seu par no Estado. A forma dinâmica e activa como interveio no debate e na defesa dos ideais de igualdade testemunham a sua crença nestes valores. Por outro lado, devido ao facto de ter ultrapassado aquilo que era aceitável numa mulher, tendo em conta o seu papel e o seu lugar, o preço de tal ousadia foi a condenação à morte.