• Nenhum resultado encontrado

Capítulo 5: Meditação Profunda: vontade de saber o 4400 Nova Gaia

5.2. Centralidade do hip hop no quotiano dos jovens rappers Gaienses

5.2.5. O suporte familiar e as relações de amizade

Expostos os desafios, perceber de que forma a família e/ou os/as amigos/as apoiam os nossos entrevistados por este caminho do rap torna-se fundamental, uma vez que são os indivíduos que possuem uma relação mais próxima com os jovens rappers.

Rodrigo (18 anos, estudante) revela-nos que a família é um dos pilares mais importantes da sua vida e uma das principais fontes de apoio:

A minha família ajuda-me muito nisto tudo. Ainda hoje, a minha avó me mandou mensagem a dizer que gostou muito da minha música […] acho que é uma coisa que não tenho problemas. A minha família aceita e apoia-me nisso […] a minha mãe é aquela cena “ok, fazes música, eu gosto”… mostro-lhe sempre as músicas antes de as lançar, mas ela não liga muito. O meu pai é tipo como se fosse o meu manager […] porque ele ‘tá sempre a dizer “ah, faz assim, lança agora, não lances depois, não deixes para amanhã, vá faz agora”, ‘tá-me sempre a dar dicas e a ajudar-me, por isso, é essencial para mim esse apoio. (Rodrigo, 18 anos, estudante)

96

Os pais e a avó de Marco (18 anos, Ensino Secundário, Fotógrafo/Videógrafo/Gestor de redes sociais) são pessoas com as quais o entrevistado estabelece uma relação muito próxima e importante, no entanto, estes não atribuem uma importância visível ao rap porque, segundo o jovem, não estão a par e não sabem, por exemplo, que há pessoas a viver disto e que é uma coisa possível, o que resulta na ausência de expectativas face a um possível futuro profissional na área. Ainda assim, o apoio está presente, quer da parte dos pais, quer da parte do irmão:

Os meus pais também por acaso sempre tiveram interesse, mas lá está, é mais na cena de hobbie e de pronto, sou filho deles e querem que eu esteja feliz, apoiam-me, mas não veêm um futuro profissional nisto por agora e eu percebo isso […] o meu irmão mais velho, chegou a uma altura da vida dele que se desligou um bocado do hip hop e já não ‘tá tão a par do que eu faço e do meio em si, as o outro que só tem mais dois anos que eu está muito a par e apoia e segue muito o meu trabalho. (Marco, 18 anos, Ensino Secundário, Fotográfo/Videógrafo/Gestor

de redes sociais)

Encontramos semelhanças na forma de transmissão do apoio da família entre Marco (18 anos, Ensino Secundário, Fotógrafo/Videógrafo/Gestor de redes sociais) e Leandro (20 anos, estudante), ao nível em que ambos salientam a importância dos pais e do irmão, vejamos os excertos elucidativos do seguinte testemunho:

O meu pai e a minha mãe sempre me apoiaram em tudo. São os melhores pais do mundo, mesmo […] quando comecei a fazer rap, foi uma cena que… a alegria e o orgulho dele [irmão] foi uma cena que nunca consegui descrever, já fiz um som para ele, é a parte um, há-de sair parte dois, algum dia. E, basicamente, é a pessoa com quem mais desabafo e com quem mais me enquadro na vida […] se não fossem eles olha, não sei bem o que andava a fazer por aí.

(Leandro, 20 anos, estudante)

O apoio que Miguel (23 anos, Licenciado em Música) sente da família, especialmente dos pais, traduz-se na liberdade concedida para que possa realizar os seus projetos musicais43. Santiago (19 anos, estudante) confessa-nos o apoio da mãe, apesar

de não ser o estilo musical da sua preferência. A ausência de apoio também marca presença na vida dos entrevistados, nomeadamente na de Gonçalo (21 anos, estudante), o próprio afirma que tem um bocado dos dois, tanto tem quem não acredita nem confia neste tipo de caminho, como também tem quem acredite porque já o seguiu e conseguiu. No que toca às relações de amizade, o jovem salienta que a amizade que estabelece com o seu grupo se fortalece pelo facto de produzirem música juntos. Quando o interesse pelo

43 Recordemos o prolongamento de um ano do término da Licenciatura devido à produção do

97

rap surgiu e o envolvimento nesta vertente do hip hop se tornou significativa, Salvador (21 anos, estudante) sentiu algum receio de comunicar a decisão à família e considera que foi uma decisão complicada de tomar porque também não sabia qual a ideia que eles iam ter daquilo e tipo “deixa isso e vai mas é estudar”. A reação não foi essa e nos dias de hoje eles viram que uma coisa não implica a outra e que posso estar focado na escola, tal como posso estar a fazer outra coisa qualquer e posso ‘tar a fazer música e continuar a ser uma pessoa com objetivos e ‘tar focado. É no seio dos amigos que o nosso entrevistado encontra, muitas vezes, o incentivo e apoio para prosseguir na carreira músical:

Quando desmotivas tens o teu grupo para te puxar para cima e dizer “não, ‘tás aqui por isto, isto e isto e fazes falta, continua. (Salvador, 21 anos, estudante)

O conteúdo que achamos pertinente deste eixo de análise diz respeito, essencialmente, ao facto dos nossos entrevistados encontrarem nos pais exemplos de força, luta e coragem para enfrentar os desafios da vida quotidiana. Percebemos, portanto, que o apoio e os esforços presentes nas famílias se transpõem para a formação de objetivos a ser alcançados pelos próprios jovens. Tomemos como exemplo:

Os meus pais, para mim, sempre foram vistos como uns guerreiros. Nunca renderam os braços, tiveram diversas adversidades na vida e nunca baixaram os braços então, eu levo-os como pessoas marcantes na minha vida. (Manuel, 22 anos, 11.º ano, área da restauração)

Os meus pais sempre trabalharam para que não me faltasse nada e, lá está, se há coisa que eu vou levar sempre comigo vai ser isso, aquela preserverança e vontade de ter, o facto de ter tudo contra nós e sempre lutamos contra tudo e se há coisa que eu quero ser um dia é como o meu pai e lutar mesmo contra tudo. (Daniel, 20 anos, 11.º ano, área comercial)