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2 FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICO-EMPÍRICA

2.2 REDES

2.2.1 O surgimento de uma nova perspectiva global: as redes

Neste trabalho, a terminologia de redes sociais é utilizada em uma única direção. Esta se refere ao estudo de análise de redes que explica e caracteriza as redes sociais como as interações estabelecidas

por um grupo delimitado de atores. Entretanto, a nomenclatura de redes segue várias direções que não se diferencia com clareza, a origem dos estudos de rede pode ser considerada uma justificativa para isso. Cabe aqui então, relatar como se deu o surgimento dos estudos das redes e sua evolução histórica.

Para Scott (2000), uma série de vertentes muito diversas moldaram o desenvolvimento da análise de rede dos dias atuais. Essas vertentes (apresentadas na Figura 02) têm estado entrelaçadas em uma história complexa, algumas vezes havendo fusão e em outras havendo divergência, tomando caminhos separados. Para o autor, a partir dessa história complexa, pode-se construir uma subdivisão para o mainstream da análise de redes sociais. Nessa subdivisão há três tradições principais: os analistas sociométricos, que trabalhavam em pequenos grupos e produziram muitos avanços técnicos com os métodos da teoria dos grafos; os pesquisadores de Harvard de 1930, que investigaram os padrões de relações interpessoais e da formação de “panelinhas”; e os antropólogos de Manchester, que construíram sobre estas duas vertentes, a estrutura de “comunidade” as relações nas sociedades tribais e vila. Scott (2000) assegura que essas tradições foram finalmente reunidas na década de 1960 e 1970, novamente em Harvard, quando a análise de rede social contemporânea foi criada.

Figura 2 - As correntes que dariam origem a moderna Análise de Redes Sociais

Fonte: Scott (2000)

Misoczky (2009) compartilha da idéia de Scott (2000) sobre a história complexa das redes e assegura que na década de 1930, a metáfora da rede foi usada pela primeira vez pelo antropólogo Radcliffe Brown. Na década seguinte as análises de rede, conforme a autora, seguiram três desenvolvimentos principais: análise sociométrica e teoria dos grafos; padrões de relações interpessoais e cliques; estrutura de relações comunitárias em tribos e sociedades aldeãs. Para a autora também foi através da influência dos acadêmicos de Harvard, e de sua ênfase em fatores estruturais relacionados à estabilidade, coesão e

Teoria de campo, Sociometria

Dinâmicas de grupo

Teoria dos Grafos

Teoria da Gestalt Antropologia

estrutural - funcional

Warner, Mayo

Gluckman

Homans

Bernes, Bott, Nadel

Mitchell

Estruturalistas de Harvard

integração de comunidades, que houve o abandono da rede como metáfora e à adoção da rede como modelo de análise.

Martes et al (2006), ao analisar a evolução histórica da análise de redes, especialmente dentro da tradição sociológica, também identificaram três bases formadoras. Referente aos estudos sociométricos, apoiados na psicologia gestáltica, os autores destacam o seu marco nos trabalhos de Jacob Moreno, desenvolvidos durante a década de 1930. Moreno utilizava sociogramas – representando grupos como uma coleção de pontos conectados por linhas – para identificar os relacionamentos em forma de rede entre pessoas e os padrões de interação, clusters e a dinâmica de pequenos grupos. A segunda base formadora: estudos desenvolvidos por antropólogos da Universidade de Manchester, os autores destacam que estes aliaram a matemática com a teoria social substantiva, no final da década de 1950. Além disso, utilizaram as redes egocêntricas, isto é, a análise de redes em torno de um indivíduo em particular, e a análise do conteúdo dos laços da rede por meio de abstrações que descrevem modos particulares de atividade social, tais como parentesco, interação política, amizade e relações de trabalho. Referente a terceira base, a qual diz respeito aos estudos desenvolvidos pelos estruturalistas da Universidade Harvard, Martes et al (2006) destacam que Harrison White e seus estudantes no final dos anos 1960 tinham a proposta de modelar e mensurar matematicamente os papéis sociais – chamada de blockmodeling – a qual pode ser considerada como o fundamento da atual forma de análise de redes.

Cabe destacar que atualmente as redes são discutidas nas mais variadas áreas do conhecimento, principalmente nas ciências física, humana e social. Sob essa perspectiva, Nohria (1992) assevera que pelo menos desde a década de 1950, o conceito de redes tem ocupado um lugar de destaque nas mais diversas áreas como a antropologia, psicologia, sociologia, saúde mental, e biologia molecular. No campo do comportamento das organizações, o conceito remonta ainda mais longe, desde 1930, quando se descreveu e enfatizou a importância das redes informais de relações na organização.

Assim, percebe-se um crescimento e uma evolução dos estudos sobre redes. Esse crescimento nessa área de estudo se justifica, segundo Martes et al (2006), por uma mudança maior no mundo acadêmico, com início na segunda metade do século XX, que corresponde a fuga de explicações individualistas, essencialistas e atomistas em direção a explicações relacionais, contextuais e sistêmicas. Conforme as autoras, trata-se de uma mudança que vem ocorrendo em diversos campos do saber (como nos Estudos Organizacionais, Sociologia, Antropologia, até

a Medicina e a Física) e cujas origens remontam aos meados do século XX. Ainda sob essa perspectiva, Mizruchi (2009) destaca que a utilização da análise de redes tem conquistado um número crescente de adeptos nas últimas décadas, assim multiplicaram-se as pesquisas que sugerem que as redes sociais influenciam o comportamento de indivíduos e grupos, entretanto conseqüentemente as críticas à análise de redes também proliferaram. Para o autor, a utilização da análise de redes tem crescido pelo fato de conseguir reter uma concepção mais dinâmica das ações sociais, bem como possibilitar que se trabalhe em conjunto com outras teorias.

Scherer-Warren (2003) também confirma uma freqüência muito grande no aparecimento da noção de rede nos estudos sobre a sociedade contemporânea. A autora apresenta três respostas teóricas, do ponto de vista da análise sociológica da sociedade contemporânea, sobre as razões desta presença nas ciências em geral e, em particular, nas ciências humanas. A primeira resposta assegura que as redes são estruturantes da sociedade contemporânea globalizada. Para a autora, uma das importantes contribuições desta concepção encontra-se nos estudos de Manuel Castells, o qual afirma que a sociedade das redes é uma forma específica de estrutura social, que pode ser identificada pela pesquisa empírica como característica da era da informação. A segunda resposta apresenta a análise de redes como uma metodologia adequada para investigar e pensar a complexidade da sociedade contemporânea. Scherer-Warren (2003) argumenta que há vários autores que a tem empregado nos estudos sobre os movimentos sociais (EMIRBAYER e GOODWIN; DIANI; RISSE e ROPP e SIKKINK, apud SCHERER- WARREN, 2003). Finalmente a terceira resposta assevera que as redes referem-se a um tipo de relações/articulações sociais que sempre existiram, mas que na sociedade globalizada e da informação assumem características específicas e relevantes que merecem uma atenção especial das ciências sociais. Para a autora, diferentes metodologias e teorias propõem-se a apreender e retratar aspectos diversos deste fenômeno (MELUCCI; LASH apud SCHERER-WARREN, 2003). Cabe aqui destacar que essa pesquisa está mais relacionada com a terceira resposta teórica apresentada por Scherer-Warren (2003), este estudo, assim, relaciona as redes como um tipo de articulação social.

No campo das organizações, Nohria (1992) também aponta três razões para o aumento do interesse no conceito de redes entre os estudiosos em fenômenos organizacionais. O primeiro é a emergência durante as duas últimas décadas, a qual foi rotulada de "A Nova Competição" (o sucesso competitivo da nova concorrência levou a um

crescente interesse em redes). Uma segunda razão tem a ver com os desenvolvimentos tecnológicos recentes (o aumento de produção e redes de telecomunicações tem levado a um interesse concomitante nas redes organizacionais). O amadurecimento da análise de redes como disciplina acadêmica sobre o mesmo período é uma terceira razão para a tendência de aumento na direção de visualização como as redes de organizações. Entretanto, essa proliferação indiscriminada do conceito de rede ameaça relegá-lo ao status de uma metáfora evocativa, aplicada tão vagamente que deixa de significar qualquer coisa (NOHRIA, 1992).

Esse aumento do interesse no conceito de redes permite o surgimento tanto de teorias como de hipóteses de pesquisa. Na literatura internacional, podem ser encontrados pelo menos quatro princípios inter-relacionados que têm sido utilizados para gerar teorias e hipóteses: (1) a importância das relações entre atores; (2) a imersão social dos atores [embeddness] em campos sociais; (3) a utilidade das conexões da rede capital social); e (4) a padronização estrutural da vida social (KILDUFF E TSAI, 2003). Baseado nisso, Martes et al (2006) destacam que a produção internacional sobre redes e organizações apresenta um rápido crescimento nos últimos anos, incorporando elementos de diferentes tradições para gerar novas teorias e hipóteses orientadoras de pesquisas empíricas. Os autores ainda destacam que devido à sua importância, ao seu potencial e ao seu volume de produção pode-se dizer que esse tema já compõe o mainstream da área. Com base nessa afirmação, este estudo vai ao encontro ao primeiro princípio: a importância das relações, dos laços entre atores.