4 ENGENHARIA AMBIENTAL: A PREOCUPAÇÃO AMBIENTAL E A
4.1 O surgimento do curso de Engenharia Ambiental
Buscamos caracterizar os cursos de engenharia ambiental quanto à sua organização curricular, às competências e campos de atuação profissional do egresso e informações concernentes ao histórico do surgimento desta modalidade da Engenharia, no Brasil e no mundo. Nesta busca pelo histórico do curso, encontramos autores como Buescher Jr. (s.d), Leonard (2001), Bengtson (2010) e Maczulak (2010), que relacionam a profissão à Engenharia Sanitária, considerando esta sua precursora. Alguns deles afirmam ser a Engenharia Ambiental uma das mais antigas profissões do mundo, relacionando-a às realizações humanas, desde tempos remotos, no campo do saneamento e da qualidade da água para distribuição e consumo. Assim, as raízes mais profundas atribuídas à engenharia ambiental, de acordo com estes autores, se relacionam à uma Engenharia Sanitária primitiva, limitada ao contexto histórico e social das diferentes civilizações, e que, naturalmente, evoluiu, acompanhando a evolução da ciência e da tecnologia ao longo do tempo.
Leonard (2001) considera que a Engenharia Ambiental tem existido lado a lado à engenharia civil por mais de cinco milênios, enquanto que Bengtson (2010) explica que a Engenharia Sanitária, focada na distribuição e tratamento de água e na coleta e tratamento de efluentes, emergiu como um campo específico da Engenharia Civil em meados do século XIX, quando a importância do tratamento da água potável e dos efluentes foi reconhecida. Buescher Jr. (s.d) afirma que nesta época a construção de aquedutos ganhou destaque nos Estados Unidos devido às demandas das crescentes comunidades por água. Daí surgiu também a preocupação pela qualidade da água para consumo. Em Londres, de acordo com Vesilind e Morgan (2013), à época dos anos 1890, o desenvolvimento e adoção do tratamento
biológico de esgoto foi impulsionado pelo problema de mau cheiro com o qual a cidade sofria, devido ao despejo do efluente na embocadura inferior do Rio Tâmisa, durante a maré de saída. Bengtson (2010) explica que a partir da intensificação da preocupação pública com a qualidade ambiental, em face dos problemas vivenciados, ocorrida no século XX, desenvolveu-se a Engenharia Ambiental, cujos campos de atuação englobam áreas como o controle da poluição do ar e a gestão de resíduos perigosos, além dos campos de abastecimento de água e tratamento de efluentes, tradicionais à engenharia sanitária.
Beuscher Jr. (s.d) exemplifica alguns episódios que contribuíram, nos Estados Unidos, para o desenvolvimento desta preocupação pública com relação ao meio ambiente, o que contribuiu, consequentemente, para o surgimento da Engenharia Ambiental. Um deles constitui o período pós- Segunda Guerra Mundial, quando produtos químicos sintéticos se tornaram comuns. Outro exemplo foi o lançamento, em 1962, do livro Silent Spring, de Rachel Carson. Neste livro, a bióloga denunciou os impactos causados por pesticidas e inseticidas, que começaram a ser intensamente utilizados após a Segunda Guerra Mundial e que, segundo Carson, causavam a contaminação da água superficial e subterrânea, do solo e em seres vivos, incluindo o homem.
Informações similares às mencionadas pelos autores citados foram encontradas também na página on line do curso de Engenharia Ambiental da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (visitada em 2014). De acordo com esta fonte, o surgimento de leis ambientais mais rígidas nos Estados Unidos, a partir da década de 1970, como mencionado por Buescher Jr., e na Comunidade Econômica Europeia, levou à necessidade de as instituições sanarem impactos antrópicos ao meio ambiente. Inicialmente, como informa a página, gestores ambientais foram capacitados para adequá-las às novas leis. A partir da década de 1980, focou-se na minimização de passivos ambientais, o que demandou profissionais para diagnosticar a contaminação ambiental antrópica e posteriormente mitigar os efeitos dessa contaminação. A medida em que cresceu a quantidade de produtos a serem tratados, os órgãos ambientais americanos começaram a impor restrições ao tratamento off site, sendo estes levados a centros de tratamento, por exemplo. Problemas com a eficiência nos tratamentos e com seu custo fizeram com que a indústria recorresse à academia, que compreendeu que se necessitava de um profissional com visão integrada do problema. Desse modo, deu-se o início da formação do engenheiro ambiental moderno. Segundo a página consultada, “moderno” se refere à contraposição ao engenheiro sanitarista, com formação
voltada ao saneamento ambiental – considerada por autores discutidos anteriormente como precursora da engenharia ambiental – e às diversas ênfases em meio ambiente criadas nas diferentes modalidades da engenharia.
Smith et al. (1983) declaram que a “Engenharia é a arte profissional de aplicação da ciência para a conversão ótima dos recursos naturais para o benefício do homem”. Chaudhry (2013), por sua vez, afirma que a Engenharia Ambiental veio sanar a falha das engenharias tradicionais que não incluíram em seus procedimentos os conceitos de respeito ao meio ambiente e à sua capacidade de suporte em termos de exploração dos seus recursos e de devolução de resíduos a ele. Para Maczulak (2010), por séculos a Engenharia – referindo-se a autora à área civil, especificamente – desempenhou um papel vital ao criar estruturas funcionais e seguras para a sociedade. Entretanto, o bem-estar de um ambiente para o qual, por séculos, se despendeu poucos cuidados, demandou um novo componente, a sustentabilidade, para complementar esta funcionalidade e segurança. Assim, a autora explica que a Engenharia Ambiental combinou todos os princípios clássicos da Engenharia em uma nova filosofia “através da qual os seres humanos trabalham com a natureza, ao invés de tentar criar meios para forçar suas vontades sobre ela” (MACZULAK, 2010, p.xiii). E complementa afirmando que a Engenharia Ambiental tem crescido desde o século XX, substituindo o velho estilo da Engenharia por um novo estilo que faz da Ecologia uma prioridade (MACZULAK, ibid.).
4.1.1 O surgimento da Engenharia Ambiental no Brasil
Quanto ao surgimento do curso de Engenharia Ambiental no Brasil, encontramos fontes que também relacionam o curso à Engenharia Sanitária, e atribuem seu desenvolvimento à demanda por campos de atuação voltados à área ambiental. Segundo o texto da publicação mensal Conselho em Revista, do Conselho Regional de Engenharia e Agronomia do Rio Grande do Sul (CREA-RS), datada de maio de 2007, a intensificação da preocupação ambiental, observada a partir da década de 1980, apontou a necessidade de se criar uma disciplina mais multidisciplinar que a Engenharia Sanitária. Com a perda de espaço da Engenharia Sanitária, mais focada nos recursos hídricos e com uma forte ligação com a Engenharia Civil, criou-se o curso de Engenharia Ambiental (CREA-RS, 2007).
Segundo informações contidas na página on line do curso de Engenharia Ambiental da Universidade Federal do Triângulo Mineiro, como apoio ao PLANASA, o Plano Nacional de Saneamento do Brasil, instalado em 1968 de modo experimental e em 1971 de maneira formal pelo Banco Nacional da Habitação (MONTEIRO, 1993), o Ministério da Educação se mobilizou na produção de recursos humanos e procurou subsídios para a criação de um curso superior nesta área. A Secretaria de Ensino Superior do Ministério da Educação optou pelo modelo mitigatório e a Engenharia Sanitária foi criada em diversas escolas do país (UNIVERSIDADE FEDERAL DO TRIÂNGULO MINEIRO, acessado em 2014). Nesta época, a instituição eleita para exercer a administração do PLANASA foi a Associação Brasileira de Engenharia Sanitária e Ambiental, que congregava profissionais do saneamento básico (MONTEIRO, 1993).
A página on line do curso de graduação em Engenharia Ambiental da Universidade Federal de São Carlos informa que um dos primeiros cursos de Engenharia Sanitária- Ambiental foi implantado na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) em 1978.
Buscando referências que nos permitissem melhor entender o campo de atuação da Engenharia Sanitária nesta época de mudança impulsionada pela questão ambiental, encontramos Leme e sua obra intitulada “Engenharia do Saneamento Ambiental”, publicada em 1982. O autor explica que este campo da Engenharia busca, por meio da proteção ambiental, proporcionar a segurança sanitária necessária para a defesa da saúde humana. O autor explana sobre a ação do homem, que, segundo suas palavras, “tem utilizado o ambiente natural em que vive, aprimorando sua saúde e conforto” (p. xi), mas que ao manejar inadequadamente os recursos ambientais, agride continuamente os sistemas ecológicos naturais. Seus argumentos focalizam a retirada de matéria e energia dos ambientes naturais, caracterizados pelo autor como “água, solo e ar”, e o retorno dos recursos retirados do ambiente em forma de resíduos que podem causar desequilíbrios nos sistemas naturais. Também destaca os riscos causados pela exposição humana às fontes de radiação ionizante e de energia eletromagnética, calorífica e sonora. Com uma explicação bastante similar à caracterização que se dá à Engenharia Ambiental nos dias atuais, como observaremos ao longo deste capítulo, o autor afirma:
“A necessidade de evitar e eliminar forças que se opõem à vida humana é a razão fundamental da Engenharia de Saneamento Ambiental, que abrange um conjunto de princípios e fatos logicamente comprovados, constituindo
sistemas de engenharia que procuram proteger a saúde, aumentar a eficiência, o conforto e assegurar a proteção necessária ao equilíbrio dos sistemas ecológicos naturais e dos recursos auto-recuperáveis.” (LEME, 1982, p. xi)
Leme (ibid.) explica que a engenharia do saneamento ambiental estuda e soluciona problemas de proteção ambiental, através de sistemas que permitem a formulação e análise de fenômenos ambientais e a “seleção e projeto de dispositivos de engenharia necessários e capazes de controlar os ambientes”. Suas explicações evidenciam a preocupação com os efeitos da ação antrópica, mas o foco era o saneamento. A partir do ano de 1992, o Ministério da Educação, diante dos desafios inerentes aos problemas ambientais, convenceu-se da necessidade de uma reformulação do curso de Engenharia Sanitária, e estimulou ações no meio acadêmico, das quais resultou o relatório de Florianópolis, que recomendava a criação de cursos de graduação em engenharia ambiental (UNIVERSIDADE FEDERAL DO TRIÂNGULO MINEIRO, disponível em www.uftm.edu.br, acessado em 2014).
Reis et al., (2005) também demonstram que a criação do curso de Engenharia Ambiental está inserida neste contexto de conscientização acerca do meio ambiente, a finitude de seus recursos e as relações entre sociedade e natureza. Os autores explicam que na década de 1990 disseminaram-se cursos de graduação em meio ambiente no país, e atribuem este fato principalmente ao estabelecimento de legislações federais e estaduais cada vez mais rígidas, à pressão da sociedade por empreendimentos mais sustentáveis e à necessidade de as grandes empresas implementarem Sistemas de Gestão Ambiental, para se adequarem ao mercado internacional. Ao final da década, difundiram-se não apenas cursos superiores, mas cursos sequenciais e tecnológicos, além de cursos de graduação em áreas já consolidadas que passaram a oferecer habilitações ou ênfases em meio ambiente. Foi nesta década que se deu a criação do curso de Engenharia Ambiental no Brasil.
O primeiro curso criado no país foi o da Universidade Luterana do Brasil (ULBRA), campus de Canoas, Rio Grande do Sul, por meio da Resolução Consun/ULBRA n. 45, de 31 de outubro de 1991, subsidiada pelo Parecer n. 1.031, de 06 de dezembro de 1989, que somente foi iniciado em 01 de março de 1994 (REIS et al., 2005). O primeiro curso a entrar em funcionamento, no entanto, foi o da Universidade Federal do Tocantins, no ano de 1992, tendo sido a primeira instituição a diplomar engenheiros ambientais.
Atualmente existem no Brasil 123 cursos cadastrados no Ministério da Educação (MEC), com a denominação de Engenharia Ambiental, mais 145 cursos denominados Engenharia Ambiental e Sanitária, 6 cursos com a denominação de Engenharia Ambiental e Energias Renováveis, e outros 2 chamados Engenharia Ambiental e Urbana. Destes, 4 cursos são oferecidos à distância e os outros 272 são presenciais. Tais dados são disponibilizados no formato de relatório de consulta do sistema e-MEC, do Ministério da Educação, acessível através do link: http://emec.mec.gov.br/, acessado em dezembro de 2014. Quanto à Engenharia Sanitária, existem quatro cursos com esta denominação, de acordo com o sistema e-MEC, acessado também em dezembro de 2014.