Profeta é uma palavra que provém do grego (LXX) profh,thj (prophêtês).183
É um substantivo composto da raiz phê (dizer, proclamar, falar) e o prefixo pro (a favor de, ou diante de) – e do verbo pherô (dizer, trazer, carregar, produzir e também estabelecer). O nome faz referência, portanto, à origem exterior ao sujeito – ele tem que ir buscar e trazer para outros. É também uma atividade pública, diante de, ou em vez de. Sugere-se, assim, o significado de ―aquele que prediz‖, ―que conta de antemão‖.184
É usada para traduzir a palavra hebraica nabhi,185 literalmente: porta-voz, orador, visionário, adivinho, alguém que fala alguma coisa, tomado pelo êxtase ou percebe com clarividência o significado de certas realidades ou sinais na perspectiva da divindade. Aparece no AT 309 vezes, das quais 92 somente no livro de Jeremias.186 É exatamente pela abundância de ocorrência que surgem os maiores problemas. Muitas vezes, essa categoria acaba sendo usada para as mais diversas pessoas, inclusive falsos profetas, que estão longe de serem ―homens de Deus‖. A função e o sentido de nabhi variam ao longo da história. O que prevalece é a de ―comunicar a palavra de outra pessoa‖, ou seja, derivando do verbo pro-phemi, significa: ―falar diante de outro‖, ―falar em nome de‖.187
Também encontramos para designar profeta: ro'êh (vidente), hozeh (visionário) e ―is ‗elohîm (homem de Deus):
Segundo L. Sicre, ro‘êh (vidente) aparece somente 11 vezes. Nas tradições anteriores ao exílio aparece 6 vezes, em 4 delas referindo-se a Samuel (1 Sm 9,9.11.18.19); 1 vez referindo-se ao sacerdote Sadoc (2Sm 15,27) e 1 vez referindo-se aos ro'îm (videntes, Is 30,10). Além disso, o cronista emprega o termo 3 vezes para falar de Samuel (1Cr 9,22; 26,28; 29,29), e 2 vezes para Hanana, um personagem que denuncia o rei Asa de Judá e acaba na prisão (2Cr 16,7.10).
183 De acordo com as fontes mais antigas, ―o profeta‖ é o que interpreta as vozes desconexas da Pítia no oráculo
de Delfos. O que Zeus dá a conhecer a Apolo, e este transmite à Pítia, a sacerdotisa o expressa de forma não articulada. Há necessidade de um intérprete, o ―profeta‖, que articula de forma lógica e poética a revelação de deus. Por conseguinte o ―Prophêtês‖ é quem comunica, ou proclama a mensagem da divindade aos homens. Todavia, como esta mensagem se referia muitas vezes ao futuro, ―profêtês‖ acabou significando ―quem fala do futuro‖, ―aquele que prediz o futuro‖, uma espécie de adivinho. Cf. José Luís SICRE. Profetismo em Israel: o
profeta, os profetas, a mensagem. 3 ed. Petrópolis: Editora Vozes, 2008, p. 74.
184 Gerhard FRIEDRICH (ed.). Theological dictionary of the New Testament IX. Grand Rapids: Eerdmans
Publishing Company, 1995, pp. 783-784.
185 Peter Berger, comentando Weber (Ancient Judaism), reconhece que a profecia canônica está baseada em
fenômenos anteriores comumente chamados de nabiismo.
186 C. H. PEISKER. Verbete: Profeta. In: Lothar COENEN; Colin BROWN. Dicionário internacional de
teologia do Novo Testamento. 2. ed. São Paulo: Vida Nova, 2000, Volume II (N-Z), p. 1879.
187
Os videntes aparecem em paralelismo com os visionários (hozîm). Formam um grupo que, mediante suas visões e palavras, recorda ao povo a sua responsabilidade frente a Deus. Não parece que são pessoas que são consultadas para resolver pequenos problemas, como o das jumentas, mas sobre questões de sumo interesse para a nação. O povo gostaria que suas visões e palavras fossem lisonjeiras e falsas. Eles dizem a verdade, ―colocam diante do Santo de Israel‖, ainda que provoquem as iras de seus concidadãos. Isaías vê o um paralelismo exato entre o seu destino pessoal e o destes personagens.188
O título hozeh (visionário) aparece em 16 ocasiões, 10 delas em Crônicas, o que reduz o uso antigo a 6 casos. Em 2Sm 24,11 fala-se de ―o profeta (nabhi) Gad, visionário do Rei‖. É uma expressão bem curiosa, pois parece sugerir que a missão deste profeta era servir ao rei com suas visões. O cronista mantém este título, ―visionário do rei‖, aplicando a Emã (1Cr 25,5) e Iditum (2Cr 35,15), porém, isso não significa deduzir que o ―visionário‖ seja um personagem da corte. Assim, o sacerdote Amasias denomina a Amós, quando lhe diz que volte a Judá (Am 7,12). Suas palavras não refletem muita estima por estes personagens. Vê-os como gente que ganha o pão com suas visões e palavras. O curioso é que esta avaliação negativa dos ―visionários‖ é compartilhada por um texto profético (Mq 3,5-7). Dirigindo-se aos falsos profetas que extraviam o povo, menciona juntamente com os profetas (nebî'îm), ―visionários‖ (hozîm) e adivinhos (qosmîm). Todos eles se vendem pela melhor oferta e declaram guerra santa a quem não lhes dá dinheiro.189
Predomina, porém, a visão positiva destes personagens. Em Is 29,10 fala-se dos ―visionários‖ em paralelismo com os ―profetas‖ (nebî'îm) como os órgãos que o povo de Judá dispõe para orientar-se corretamente. São os olhos que enxergam; a cabeça que governa. Provavelmente, estes dois termos, ―visionários‖ e ―profetas‖ foram acrescentados mais tarde como glosa explicativa. Mas o autor da glosa via estas pessoas como seres fundamentais para a sociedade. O maior castigo que Deus pode infligir ao povo é deixá-lo às cegas. A função concreta que desempenham fica mais explícita em Is 30,10.190
Já o título ‗îs ‗elohîm (homem de Deus) é muito mais empregado que os anteriores. Aparece 76 vezes, sendo 55 delas nos livros dos Reis. A maioria das vezes aplica-se a um personagem conhecido: Eliseu (29x), Elias (7x), Moisés (6x), Samuel (4x), Davi (3x), Semeia (2x), Ben-Joanã (1x). Mas, também se aplica a personagens anônimos: o profeta que condena a Eli (1 Sm 2,27), o profeta do sul que denuncia Jeroboão I (17x em 1 Rs 13), e outros profetas (1 Rs 20,28; 2Cr 25,7.9). Numa época tardia, este título foi entendido em sentido
188 SICRE. Profetismo em Israel: o profeta, os profetas, a mensagem, p. 74. 189 Idem, p. 74.
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honorífico, e aplicado a Moisés (Dt 33,1; Js 14,6; Sl 90,1; Esd 3,2; 1Cr 23,14; 2Cr 30,16) e a Davi (2Cr 8,14; Nc 12,24.36). Nesse sentido, esse título era bastante usado e por variada classe de pessoa: Samuel foi aplicado pelo criado de Saul, por Saul e pelo narrador; a Elias, pela viúva (1Rs 17,18.24), pelos oficiais de Ocozias (2Rs 1,9.11.13), e o próprio Elias emprega o título a si (2Rs 1,10.12); a Eliseu o termo é aplicado pela mulher estéril (2Rs 4,9.16.22), por um da comunidade dos profetas (2Rs 4,40), pelo porteiro do rei da Síria (2Rs 8,7), por Benadad (2Rs 8,8) e pelo narrador em numerosas ocasiões (2Rs 4,7.21.25.25.27.27.42; 5,8.14.15.20; 6,6.9.10.15; 7,2.17.18.19; 8,2.4.11; 13,19).191 Por que esse título era o preferido para referir-se a estas pessoas? O que motiva o uso do título ―homem de Deus‖?
L. Sicre diz que o homem de Deus possui uma relação tão estreita com o Senhor que pode operar os maiores milagres. Não é a palavra que anuncia o futuro ou exige uma mudança do presente, mas a palavra poderosa que torna inesgotável o cântaro de farinha e o vaso de óleo. Além disso, ressuscita os mortos e desencadeia o raio. Por isso, quando a viúva de Serepta se dirige a Elias, depois do primeiro milagre, chama-o de ―homem de Deus‖. E, quando ressuscita seu filho, afirma ainda mais convicta: ―Agora reconheço que és um homem de Deus e que se cumpre a palavra do Senhor, que tu pronuncias!‖ (1Rs 17,24).192
Assim, pode-se dizer que os títulos ro‘êh (vidente), hozeh (visionário) e ‗îs ‗elohîm (homem de Deus), por vezes, são usados como sinônimos (1Sm 9,6.10). Todos juntos são entendidos, sobretudo a partir do séc. VI a.C., como nabhi (profeta – Is 29,10). O termo nabhi, embora seja designação genérica dos profetas hebraicos, parece ser mais indicativo daqueles profetas inseridos em corporações ou escolas proféticas (como Elias e Eliseu) ou ligados ao espaço do templo e da corte, como Natã. Por isso, costumam ser designados também como profetas ―cúlticos‖ ou ―institucionais‖. Estes parecem ter constituído a matriz mais comum do fenômeno profético.193
As antigas religiões e culturas possuíam xamãs, profetas, pajés, adivinhos, videntes, magos e conselheiros. Os povos de Israel e seus vizinhos possuíam muitos profetas que viviam em grupos. Eles traziam mensagens da divindade para o povo e para os reis, que esperavam apoio em seus empreendimentos.194 Na mentalidade do povo de Israel, o grande intermediário entre a divindade e o povo, ou seja, o céu e a terra, único capaz de conhecer o
191
SICRE. Profetismo em Israel: o profeta, os profetas, a mensagem, pp. 78-79.
192 SICRE. Profetismo em Israel: o profeta, os profetas, a mensagem, p. 79.
193 David E. AUNE. Prophecy in Early Christianity and the Ancient Mediterraneam World. Grand Rapids:
Eerdmans, 1991, p. 82.
194
futuro é o profeta.195 Segundo J. Lindblom, um aspecto que caracteriza toda profecia é a crença em algum tipo de revelação originária do mundo divino.196 O mesmo texto de Deuteronômio que proíbe consultar agoureiros e adivinhos de todo tipo prossegue com estas palavras:
Esses povos que vais conquistar ouvem astrólogos e vaticinadores, mas a ti o Senhor teu Deus não te permite isto. O Senhor, teu Deus, te suscitará um profeta dos teus, das tuas mãos, como eu; a ele ouvireis. É o que pediste ao Senhor, teu Deus, no Horeb, no dia da assembléia: não quero voltar a ouvir a voz do Senhor, meu Deus, nem quero ver esse terrível incêndio para não morrer. O Senhor respondeu-me: Tem razão. Vou suscitar um profeta como tu dentre os seus irmãos. Porei minhas palavras na boca dele e lhes dirá tudo que eu mandar (Dt 18,14-18).197
Para S. Baxter, a função do profeta é agir como embaixador ou mensageiro divino, anunciando a vontade de Deus, especialmente em época de crise. Eles falam como pessoas investidas de autoridade de Deus, a fim de falar em seu nome aos pecadores: ―Eis que ponho na tua boca as minhas palavras‖ (Jr 1,9). O profeta é um dos intermediários escolhidos por Yahweh para transmitir um conhecimento sobre o que deve fazer no momento presente ou sobre as incertezas do futuro. Ser profeta significa: ter sensibilidade maior, percepção psicológica, política e econômica da realidade, grande conhecimento do rumo que a história do povo toma, e especialmente, conhecer a política externa e acompanhar a movimentação de outros povos, vizinhos ou não. Ele deve ser místico, isto é, ter uma experiência íntima de Deus (convicção de que Iahweh fala por sua boca) e ser uma pessoa de oração.198
Segundo B. Juanes, o profeta se coloca como sentinela da história (Is 21,8; Hab 2,1). Naturalmente, a profecia autêntica deve passar pelo crivo do discernimento. O dom profético é genuíno se a vida do profeta é de bom testemunho, manifesta dons espirituais, é caridoso e prudente, submisso à autoridade verdadeira e cresce em sua missão. A vida do profeta é um elemento essencial da sua atividade e da sua eficácia. O profeta não é um escritor. É um orador, um pregador. Ela é parte integrante da credibilidade da mensagem que Deus lhe comunicou. A revelação divina desenvolve-se a partir dos profetas que, pouco a pouco, estabelecem e organizam a doutrina religiosa.199
195 AUNE. Prophecy in Early Christianity and the Ancient Mediterraneam World, pp. 82-84. 196 Johannes LINDBLOM. Prophecy in ancient Israel. Philadelphia: Fortress Press, p.1.
197 Embora esse texto tenha sido usado posteriormente para justificar a esperança na vinda de um profeta
definitivo, semelhante a Moisés, originalmente se referia à toda classe de profetas como transmissores da palavra de Deus. Cf. SICRE. Profetismo em Israel: o profeta, os profetas, a mensagem, p. 74.
198 J. Sidlow BAXTER. Examinai as Escrituras: Jó a Lamentações. Vol. 3. São Paulo: Vida Nova, 1993, p. 219. 199
Para J. Ashton, quando se fala de ―profetismo‖ ou de ―profetas‖, trata-se da existência de pessoas que se apresentam perante a comunidade como portadoras de mensagens divinas. Falando por Deus, o profeta é o primeiro e o mais importante intermediário entre a divindade e o mortal comum, um intérprete. Tal pessoa recebe designação diferente na sua respectiva cultura e língua. É profeta, aquele que recebe o encargo de anunciar a vontade de Deus, ou o seu juízo sobre os homens; aquele que deve comunicar aos outros com autoridade os fatos sucedidos, onde Deus se manifestou, quer oralmente, quer por escrito. São três as missões proféticas: a declaração do futuro (vontade de Deus), a declaração do presente (juízo de Deus) e a declaração do passado (ação de Deus).200 De uma forma geral, a opressão dos pobres, viúvas, órfãos, a violência contra os humildes e o desprezo do direito divino (mishpat) e da justiça (sedaqah) são apresentadas como motivos para a ―intervenção divina‖ na história. O povo seguia, muitas vezes, alguns ―profetas‖ que anunciavam o fim da dominação e da exploração de Israel.201
J. Lindblom caracteriza a profecia como sendo uma crença em algum tipo de revelação originária do mundo divino. Entre todos os desígnios, reais ou ilusórios, históricos ou místicos, o relacionar-se do divino com o humano, tem um lugar próprio na experiência profética.202 A respeito disso, A. Neher conclui dizendo: ―A profecia implica uma relação entre a eternidade e o tempo, um diálogo entre Deus e o homem.‖203 Diante de situações difíceis, necessidades, opressões, injustiças e arbitrariedades que atingiam o povo (1Rs 22,1- 28; 18,16-18) certos relatos bíblicos apresentam o profeta como um homem capacitado para conhecer coisas ocultas e adivinhar o futuro.204
200
Na Bíblia hebraica encontramos diferentes tipos de profetas inclusive com designações distintas.
Sabidamente, o cânon hebraico tem uma estrutura tripartite: ―Torah‖ (Torá), ―Nebiim‖ (Profetas) e ―Ketubim‖ (Escritos). A segunda parte do cânon está constituída pelo ‗livros históricos‘, embora não haja aí plena coincidência quanto ao objeto. Os livros de Josué, Juízes, 1 e 2 Samuel e 1 e 2 Reis, conhecidos como a Obra Historiográfica Deuteronomista, constituem os chamados ‗profetas anteriores‘ (nebi‘im aherim), enquanto que os livros de Isaías, Jeremias, Ezequiel e os doze menores (Dodekapropheton) constituem os ‗profetas
posteriores‘. Cf. John ASHTON. The Religion of Paul the Apostle. New Haven and London: YaleUniversity Press, 2000, pp. 54-72.
201 Milton SCHWANTES. Profecia e estado. Uma proposta para a hermenêutica profética. In: Estudos
Teológicos, São Leopoldo, v. 22, 1982, pp. 105-145.
202 LINDBLOM. Prophecy in ancient Israel. Philadelphia, p.1.
203 André NEHER. La esencia del profetismo. Salamanca: Ediciones Sígueme, 1975, p. 9. 204
Samuel pode encontrar as jumentas que o pai de Saul havia perdido (1Sm 9,6-7.20); Aías, já cego, sabe que a mulher que veio disfarçada até ele é a esposa de Jeroboão, e prediz o futuro de seu filho enfermo (1Rs 14,1-6); Eliseu sabe que o seu servo Giezi aceitou ocultamente dinheiro do ministro Naamã (2Rs 5,20-27), e sabe onde está o acampamento do arameus (2Rs 6,8s). Essa ideia vai perpassar o tempo e chegar até o Novo Testamento, como demosntra o diálogo de Jesus com a samaritana. Quando Jesus lhe diz que ela teve cinco maridos e que o atual não é dela, a mulher reage dizendo: Senhor, vejo que és profeta! (Jo 4,20); na novela de ―José e Asenet‖, diz-se: ―Levi entendeu o propósito de Simeão, pois era profeta e via com antecedência tudo o que ia acontecer‖ (23,8). Cf. José Luís SICRE. Os profetas. São Paulo: Paulinas, 1998, pp. 19-20.
Nesse processo de Revelação, quando Deus pretende comunicar-se com os seres humanos, surge um fenômeno chamado profetismo.205 Surge efetivamente com a monarquia (em torno de 931 a.C), embora houvesse profetas antes e mesmo entre outros povos.206 Com o tempo, o profetismo se tornou uma instituição (1Sm 10,5; 19,20-24) e, ao lado dos sacerdotes e reis, passou a ser ungido e oficialmente constituído, para ser distinto dos que não eram reconhecidos, tidos como falsos. Por isso, grande parte dos profetas fazia parte do santuário e mais tarde do Templo. A questão colocada a partir do século VIII a.C. no antigo Israel era como distinguir entre a verdadeira e a falsa profecia, entre o verdadeiro e falso profeta.
O termo ―profeta‖ serve tanto para os que falam em nome de Iahweh (cf. 1Rs 18,36), quanto aos que falam em nome de Baal (cf. 1Rs 18,19); para os que estão ao lado dos reis (cf. 1 Rs 22,6), como para os que se opõem a eles (cf. 1 Rs 22,8); tanto para os que falam a favor do povo (cf. Jr1,5), como para quem fala contra o povo (cf. Jr 29,8-9); todos são intitulados ―profetas‖. Então, como diferenciar? Quem fala em nome de Iahweh e quem fala em nome de Baal? O que o profeta fala deve se realizar, e quando se realizar, todos saberão que o profeta fala a Palavra de Iahweh. Se o que o profeta fala não se realiza, este profeta é falso (cf. Dt 18,22; Jr 28,9). Muitas coisas ditas por ―profetas‖, julgadas como verdadeiras, porém, não se realizaram. Então, Jeremias estabelece um critério: o verdadeiro profeta é aquele que acusa os pecados e os desvios da Lei do Senhor. Assim, se um profeta anuncia algo e isto se cumpre, mas não convoca o povo a viver na Lei e na Aliança, este profeta é falso (cf. Jr 23, 15-22; Dt 13,2-6). Em suma, é genuína profecia o que está de acordo com a Aliança e favorece a vida.
De acordo com S. Nogueira, com a canonização das Escrituras Hebraicas no século I a.C., a profecia israelita clássica ou escrita (que aflorou durante a crise assíria na metade do oitavo século e desapareceu pouco depois da dissolução da monarquia judaica no sexto século) adquiriu o status de única, sacrossanta e paradigmática, e criou uma descontinuidade entre a profecia canônica e as formas subsequentes de revelação profética que emergiram
205 Um fenômeno universal, comum a todas as culturas e religiões. No caso de nossa pesquisa nos limitaremos
apenas ao espaço da cultura bíblica. Uma extensa bibliografia sobre o profetismo pode ser encontrada em Luis Alonso SCHÖKEL; José Luís SICRE DIA. Profeta I e II. 2. ed.. São Paulo: Paulus, 2002 e 2004. Para aprofundar as figuras dos profetas é essencial a obra de NEHER. La esencia del profetismo e Robert R. WILSON. Profecia e Sociedade no Antigo Israel, p. 277.
206 Na Bíblia são encontradas citações que se referem ao profetismo nos povos vizinhos de Israel: para referir-se
aos representantes da antiga arte de adivinhação e magia, Jeremias cita os profetas, empregando a mesma palavra ―Nabhi‖ usada para designar também os profetas de Israel (Jr 14,14); no livro dos Reis, a palavra ―nabhi‖ é utilizada para designar também os profetas de Baal (1Rs 18-19); no livro de Números, Balaão é descrito como profeta e vidente reconhecido pelos israelitas (Nm 23 – 24).
durante o período do Segundo Templo (516 a.C. - 70 d.C.), impedindo ambas as formas de fala profética de serem cumpridas satisfatoriamente.207
Um fenômeno típico no processo de transmissão das palavras proféticas são as releituras, isto é, o fato de palavras, ditos, coleções serem reinterpretadas e até ampliadas dentro de um novo contexto histórico. Neste sentido, as palavras proféticas são marcadas por um dinamismo no processo de transmissão. Esse dinamismo termina com a fixação do texto dentro de uma estrutura de cânon, mas continua em outro gênero de literatura interpretativa, como nos midrashim. Um midraxe é um tipo de interpretação no qual se busca afirmar um sentido e não tanto rememorar o contexto histórico. No processo de releitura é comum a sobreposição de novos sentidos aos textos ou fragmentos de textos proféticos.208