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PROFETA NO ANTIGO TESTAMENTO

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A profecia tem uma abrangência muito grande. Por isso, preferimos destacar duas de suas funções: Prenunciar e profetizar. Muitos profetas profetizavam sobre o futuro e foram os primeiros prenunciadores e porta-vozes de Deus. Abraão é exemplo disso, quando anunciou a aliança que Deus havia feito com ele a respeito de sua semente (Gn 12,1-3; 20,7; Sl 105,15). Também Moisés, considerado o maior de todos os profetas, recebia diretamente a Palavra de Deus e a transmitia para Arão, que era o seu porta-voz (Ex 7,1-2). Porém, a normatização veio posteriormente com Moisés, porque viu Iahweh face a face, revelou seu ―nome‖ e transmitiu sua Lei ao povo (Dt 18,15-19; 34,10). Os dons de Moisés passam por Josué, Débora e Samuel. Durante a monarquia o número de profetas aumenta e eles passam a formar comunidades (2Rs 2,2-7). Com Natã, no tempo do rei Davi, começa a surgir a ideia de um Messias, Rei que eternizará a dinastia de Davi. O desaparecimento misterioso de Elias, considerado um grande profeta (1Rs 18), deixa na tradição judaica a doutrina de seu retorno no fim dos tempos para apresentar o Messias. Eliseu dá continuidade ao trabalho de Elias, seu mestre, e envolve o profetismo com os poderes políticos.217

Segundo D. Aune, o primeiro profeta israelita apareceu em nossas fontes no século XI a.C. São exemplos desse tipo de profeta: Samuel, Nathan, Elias e Eliseu. Estes apresentam características de homens notáveis pela sua ação e pela força de sua palavra (1Sm 9;1Rs 17; 2Rs 1,2-17; 6,1-7, 8-10; 13,14-21; 20,1-11). Associados a lugares santos e rituais religiosos, podiam combinar os papéis de sacerdote e profeta, como, por exemplo, Samuel. No período subsequente a Samuel, o profetismo conheceu um grande desenvolvimento, tanto no que diz respeito a personalidades singulares como no que se refere à continuação dos grupos e associações de profetas. Porém, os benê Nebi'im (filhos de profetas ou irmãos-profetas) vão se extinguindo paulatinamente, dando lugar às figuras individuais que continuam na esteira de Samuel, a ocupar um lugar de destaque na vida do povo de Deus. Estes profetas eram nômades, usavam um manto e uma vestimenta distintiva de pele de ovelha e viviam das

217 Richard A. HORSLEY; John S. HANSON. Bandidos, Profetas e Messias. Movimentos populares no tempo

ofertas que lhes eram oferecidas por aqueles a quem serviam. Tanto Samuel quanto Elias, Nathan, ou Eliseu, todos eles se ocuparam do mundo social e político que os rodeiavam, à semelhança do que farão os profetas escritores (Amós, Oséias, Isaías).218

Alguns profetas clássicos, como Joel, Naum, Habacuque e Zacarias parecem ter usado formas litúrgicas como um veículo literário para as suas profecias, pois todos eles manifestam a mesma solicitude pelos problemas do culto. Com base nestas evidências, parece provável que existisse, no período pré-exílico, um relacionamento formal entre alguns profetas e o culto do templo de Jerusalém. Alguns profetas eram membros assalariados do templo, sob a autoridade direta dos sacerdotes. O templo também provia um centro para profetas não formalmente associados ao culto, para exercitarem seus dons, como no caso de Jeremias. É largamente sustentado que os cantores no templo pós-exílico foram os sucessores das associações proféticas do templo pré-exílico. Entretanto, nenhuma associação profética estava ativa no templo pós-exílico.219

Surgem, assim, os chamados ―profetas do centro‖. São os que apóiam as ações reais. Estes têm casa, salário, lugar no palácio, proteção e amparo (cf. 1Rs 18,19; 22,6-9). Eles estão mais preocupados com o rei do que com a Aliança. São conselheiros dele (cf. 2Sm 7,1-3; 1Rs 1,11-26). Porém, mesmo no centro é possível distinguir posicionamentos diferentes em relação à profecia. De um lado existem aqueles que são sensíveis às situações de injustiça vividas pelo povo. Por isso, criticam e denunciam os agentes do sistema e, muitas vezes, pagam com a própria vida ―o preço de suas denúncias‖. Contudo, não conseguem propor uma mudança estrutural, como é o caso de Isaías (cf. Is 9,5-6).

No século VIII a.C, mais ou menos 50 anos após Eliseu, surgem os profetas canônicos. O primeiro deles é Amós. Este profeta se destaca na denúncia das atrocidades dos ricos e poderosos de Israel contra os empobrecidos da sociedade (Am 2,6-16; 3,10-12; 5,7-17; 6,1-7; 8,1-3). Anuncia um juízo vindouro, entendido desde sua perspectiva como ato de justiça da parte de Deus. Os próximos duzentos anos serão iluminados por Oséias, Miquéias, Naum, Sofonias, Habacuque, Isaias e Jeremias. Com Ezequiel, o tom profético se modifica para uma grande preocupação com o final dos tempos, numa linha mais apocalíptica, com visões grandiosas e descrições minuciosas. É o tempo do Exílio. Ageu e Zacarias são os profetas do Retorno, cujo maior interesse é a reconstrução do Templo. Depois vem Malaquias, Jonas, Joel e Daniel, que proclama o advento do Reino de Deus. Por fim, vem Abdias.

218 AUNE. Prophecy in Early Christianity and the Ancient Mediterraneam World, p. 82.

219 NOGUEIRA. Profecia e Glossolalia no Cristianismo Primitivo do I Século: Um Estudo em I Coríntios 14,1-

Alguns destes profetas são conhecidos como ―profetas da periferia‖, pois praticavam a chamada ―profecia livre‖.220

Estes têm seu grupo de apoio popular, a partir da experiência de Deus e da vida no meio do povo. Estes profetas têm preocupação com a justiça e o direito dos pobres (Dt 10, 16-19). Esta vinculação da voz profética com o direito dos pobres constitui elemento de crítica e distanciamento de alguns destes personagens em relação ao poder constituído.221 Eles combatem o abuso de poder e propõem mudança do sistema. Atacam o rei, o exército e o Templo, denunciam a opressão e a idolatria. Surgem como verdadeiros porta-vozes dos camponeses empobrecidos. Eles assumem esta função com todas as suas consequências: difamação, perseguição, prisão, tortura e até morte.

De acordo com S. Nogueira, o movimento profético que havia florescido de várias formas desde o início da monarquia israelita parece ter chegado ao fim com o exílio babilônico:

Seus últimos representantes, segundo David Hill,foram Ageu, Zacarias e a figura indistinta de Malaquias. Na verdade, difundiu-se uma opinião de que a profecia havia cessado no Judaísmo durante o quinto século que antecedeu a vinda de Cristo, retornando com a ascensão do cristianismo. A razão para essa compreensão pode ter sua raiz no conceito deuteronomista de profecia que veio dominar o pensamento religioso no início do período pós-exílico. De acordo com a posição deuteronomista, diz Robert Wilson,verdadeiros profetas eram aqueles cujos oráculos eram eficazes e cujas predições se verificavam. Este princípio tinha inicialmente aumentado a autoridade de profetas deuteronomistas, como Jeremias, cujas advertências de catástrofe haviam se cumprido.222

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