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1. INTRODUÇÃO

2.2 O “SUSTENTÁVEL” E A PROBLEMÁTICA AMBIENTAL:

O termo sustentável e sua derivação sustentabilidade estavam, até a década de 1970, diretamente relacionados aos estudos da biologia populacional principalmente voltados ao manejo pesqueiro e florestal. Tais termos foram transferidos, por analogia, para se referenciar processos de desenvolvimento de forma geral. Seu uso mais conhecido e recorrente na atualidade é como complemento à palavra desenvolvimento. “O estudo do desenvolvimento requer uma perspectiva histórica e comparativa” (SACHS, 2002, p. 15).

Sachs (1993) tomou para si a responsabilidade de liderar o processo de conceituação mais precisa do termo sustentabilidade. Teórico do ecodensenvolvimento sugeriu cinco dimensões para dar ênfase a estratégias com objetivo de viabilizar a sua implementação (Quadro 1). Essas premissas foram lançadas como diretrizes a serem seguidas por todo aqueles que, de uma forma ou outra, estivessem envolvidos com o planejamento do desenvolvimento na sociedade. Seu empenho foi no sentido de transformar as premissas apresentadas em estratégias de

transição,11 quando da operacionalização desse enfoque. Essas estratégias devem ser estipuladas para cobrir períodos de longo prazo, pautadas numa perspectiva sistêmica, que aceita potencias mudanças de prioridades ao longo do tempo.

O termo nasce envolto ao contexto de globalização como “a marca de um limite e o sinal” que objetiva (re) orientar o processo civilizatório (LEFF, 2001, p. 09). Este tem sido apresentado de forma contraditória e antagônica, diante da notória fragmentação do conhecimento moderno. Desenvolvimento Sustentável ou sustentabilidade são palavras usadas para exprimir aquele desenvolvimento que se preocupa em atender as necessidades dos indivíduos no tempo presente sem comprometer as condições das gerações futuras em satisfazer as suas necessidades. Essa satisfação é posta sem definir, em nenhum momento, quais são e como e por quem serão definidas tais necessidades. Tal questão oscila entre a exploração predatória dos recursos com ênfase numa economia perversa e a tentativa de considerar o capital natural, o capital econômico e o capital cultural que estão interligados e evoluem historicamente mediante as relações de poder. Historicamente o termo “desenvolvimento sustentável” foi apresentado no relatório Nosso futuro comum em 1987, sendo referendado e propagado a partir de 1992 com a Rio 92 (CAVALCANTI, 2009, VIEIRA, 2002; 2007).

Cavalcanti (2009, p. 157) alerta que:

É preciso lembrar essa gênese para que se perceba a importância da seguinte pergunta: o que fez com que um restrito conceito da biologia populacional, que permanecia ignorado pela maioria dos mortais até o início da década de 1990, passasse rapidamente a ser usado com tanta desenvoltura para qualificar o desenvolvimento.

11 A transição a que se refere Sachs está pautado na necessidade de ocorrer

mudanças institucionais que contribuam para a efetivação das estratégias propostas e a criação de pacotes de políticas multidimensionais redirecionadas ao progresso tecnológico. Também é importante considerar que essas estratégias precisam promover mudanças nos estilos de vida, nos padrões de consumo e nas funções de produção.

Quadro 1 As cinco dimensões do Ecodesenvolvimento AS CINCO DIMENSÕES DO ECODESENVOLVIMENTO Sustentabilidade

social

- Criação de um desenvolvimento pautado numa nova visão de sociedade com maior equidade na distribuição de renda e de bens, de forma a reduzir o abismo entre os padrões de vida dos ricos e dos pobres.

Sustentabilidade econômica

- Alocação e gerenciamento mais eficiente dos recursos e do fluxo de investimentos públicos e privados;

- Ultrapassagem das configurações externas negativas resultantes do ônus da dívida e da saída de recursos financeiros do Sul por conta das barreiras protecionistas do Norte;

- Avaliação da eficiência econômica em termos macrossociais e não através do critério de rentabilidade empresarial de caráter microeconômico.

Sustentabilidade ecológica

- Intensificação do uso do potencial de recursos dos ecossistemas, com um mínimo de danos aos ecossistemas; - Substituição dos combustíveis fósseis pelos renováveis; - Redução do volume de recursos e de poluição, através da conservação de energia e de recursos e da reciclagem;

- Promoção da autolimitação do consumo;

- Intensificação da pesquisa para obtenção de tecnologias ecoeficientes;

- Definição de normas para uma adequada proteção ambiental. Sustentabilidade

espacial

- Obtenção de uma configuração rural-urbana mais equilibrada e uma melhor distribuição territorial dos assentamentos humanos e das atividades econômicas.

Sustentabilidade cultural

- Procura de raízes endógenas de processos de modernização e de sistemas agrícolas integrados, processos que busquem mudanças dentro da continuidade cultural e que traduzam o conceito normativo de ecodesenvolvimento em conjunto de soluções específicas para o local, o ecossistema, a cultura e a área.

Fonte: elaborado com base em Sachs (1993)12.

As tentativas de enfrentamento da crise socioecológica que emergiram, a partir da década de 1960, passam a incorporar a complexidade e visão sistêmica como novos preceitos para se definir meio ambiente e desenvolvimento. A sustentabilidade e suas dimensões passam a ser acrescidas, de forma qualitativa, à noção de

12 Este quadro foi elaborado em parceria com Luciana Butzke e Mariana

Tibes para integrar o texto do artigo final da disciplina: Co-gestão adaptativa para desenvolvimento territorial sustentável (2012/1).

‘desenvolvimento’ com a intenção de re-significá-lo enquanto novo estilo de vida - responsável, prudente e socialmente justo - e que prioriza a manutenção dos recursos naturais e, consequentemente, a sobrevivência humana no planeta.

O conceito de sustentabilidade tem uma ligação estreita com a economia e com a ciência reducionista em que a natureza é vista de forma utilitária, afirmam Holling, Berkes e Folke (1998). Este tipo de sustentabilidade serve ao desenvolvimento, à exploração, mas não ao uso sustentável do recurso, se entendemos o uso sustentável incluindo objetivos sociais, ecológicos e econômicos. Esta visão percebe a natureza como mercadoria e desta forma, segue as leis de mercado, leis que não favorecem a conservação. O outro tipo de sustentabilidade busca agrupar os interesses ambientais e sociais e entende que o capital natural, o capital econômico e o capital cultural que estão interligados e evoluem historicamente.

Existem diversos estudos de caso que mostram existir um processo que envolve a exploração dos recursos, crise socioambiental e aprendizado. Nestes estudos, geralmente, o colapso é percebido como uma condição necessária para entender a mudança do sistema. Existe um padrão de adaptação co-evolucionária entre sistema social e natural, em que a adaptação é guiada por crises, aprendizado e reconstrução. Colapsos constituem, às vezes, uma condição necessária para a mudança do sistema.

Aquilo que Holling, Berkes e Folke (1998) chamam de Co evolução adaptativa – crise, aprendizado e replanejamento. A sustentabilidade baseada na Co evolução adaptativa é um guia para a ciência, para as políticas e ações quando o foco da sustentabilidade está nos processos de desenvolvimento social e econômico, investindo na manutenção e restauração das funções do ecossistema. Isto sintetiza e torna o conhecimento acessível para a compreensão da relação entre o sistema natural e o sistema social. A sustentabilidade não é contraditória, ocorre que as soluções não podem ser dadas por uma ciência fragmentada ou que supõe como constantes e estáveis os fundamentos ecológicos, econômicos e sociais. Estas “soluções” geram mais problemas. A aprendizagem dos sistemas natural e social combinada com os insights da gestão adaptativa pode resolver ou minimizar as patologias e promover o aprendizado institucional e aumentar a resiliência dos sistemas natural e social (HOLLING; BERKES; FOLKE, 1998).

Holling (2001) entende a sustentabilidade como a tendência de criar, testar e manter a capacidade adaptativa. Desenvolvimento é o processo de criação, teste e manutenção de oportunidade. A frase que

combina os dois, "desenvolvimento sustentável", assim se refere ao objetivo de promover capacidades adaptativas e criar oportunidades.

Desenvolver, segundo o dicionário Aurélio, é sinônimo de envolver, crescer, progredir, aumentar. Já a palavra ‘sustentar’ expressa a manutenção, conservação ou perpetuação da vida. Refletir sobre estes dois temas tem se tornado um exercício complexo e intrigante para mim. Portanto, para Holling (2001), desenvolvimento sustentável não é um paradoxo, mas um termo que descreve uma parceria lógica.

O Desenvolvimento sustentável, segundo Lená (2012) é um conceito contraditório, uma vez que o aumento progressivo da economia provoca irreversíveis processos de degradação ambiental e existe evidente contradição entre crescimento econômico e a conservação da natureza “Assim, se a questão do desenvolvimento sustentável é, de um lado, a dos limites e impactos biofísicos do crescimento material, de outro, também é uma questão de como a sociedade valora as gerações futuras que estão distantes no tempo.” (LENÁ, 2012, p. 359).

A sustentabilidade enquanto processo de desenvolvimento requer o reordenamento dos aglomerados urbanos e o estabelecimento de novas relações funcionais. Nossas cidades, altamente globalizadas, apresentam profundas desigualdades sociais quando expõe alguns de seus cidadãos aos riscos ambientais mais diversos. Sachs (2002) argumenta que a desigualdade é o ‘câncer moderno’ que ameaça a democracia. A população trabalhadora é submetida ao risco de morar em locais inadequados ou insalubres (encostas íngremes, margens de rios, áreas alagadiças ou terrenos contaminados por lixo tóxico) e ainda tem que lutar com as dificuldades impostas pela falta de acesso a recursos ambientais indispensáveis, como água, solo seguro e saneamento adequado (LEFF, 2001).

Para entender o que acontece atualmente é fundamental conhecer o processo de globalização, cada vez mais acelerado pela modernidade. A acentuada crise econômica enfrentada recentemente pelos países desenvolvidos ampliou profundamente a fragmentação do conhecimento e a percepção dos riscos que são potencializados pelas alternativas econômicas.

Para Acselrad (2001, p. 23), é preciso:

[...] pensar um novo modelo de desenvolvimento urbano, baseado nos princípios da democratização dos territórios, no combate à segregação socioespacial, na defesa dos direitos de acesso aos serviços urbanos e na superação da desigualdade

social manifesta também nas condições de exposição aos riscos urbanos.

É comum o discurso que alega, em nome da obtenção e acumulação de capital, medidas de segregação espacial, de degradação ambiental e de desarticulação política que enfraquece as populações mais empobrecidas. É preciso, em contraposição a esta corrente, defender a inclusão da noção de justiça ambiental e privilegiar a busca da produção, da distribuição e da reprodução dos múltiplos atributos de um ambiente com qualidade para todos (ACSELRAD, 2001; VIEIRA, 2007).

Será necessário:

[...] um novo princípio civilizador, norteado pela

ética da comunidade dos seres (community-of-

beings) e alimentado pelos avanços alcançados, sobretudo nos domínios da ecologia humana

sistêmica, da ética do desenvolvimento e da educação relativa ao meio ambiente. (VIEIRA,

BERKES, SEIXAS 2005, p. 21)

É preciso que se busque um novo ponto de vista, que supere os padrões dominantes de racionalidade e o desgaste progressivo da hegemonia de dominação da natureza.

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