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1. INTRODUÇÃO

2.1 A PROBLEMÁTICA AMBIENTAL E OS LIMITES DO

2.1.4 Uma crise socioambiental anunciada: reflexos da

A possibilidade de um colapso socioambiental e a possibilidade direta do estabelecimento de uma crise planetária não é, propriamente, um alerta recente, como comentado anteriormente. Diversos registros históricos, relatórios científicos e publicações variadas, como por exemplo os bastante conhecidos: “limites do crescimento” (MEADOWS et al, 1972), “Nosso Futuro Comum” (BRUNDTLAND,1987), “Agenda 21 Global” (RIO 92), “limites do crescimento: atualizações de 30 anos” (MEADOWS et al, 2007), e mais recentemente “Laudato si”(IGREJA CATÓLICA, 2015), configuram os alertas feitos sobre a multiplicação das degradações ambientais, a acentuação das desigualdades sociais e a crescente exposição dos cidadãos aos danos e riscos socioambientais dos mais diversos. Esses movimentos indicam que se precisa repensar, urgentemente, a legitimidade do modelo econômico replicado como um mantra na maioria dos países pelo mundo.

Isso por si só, já aponta para a necessidade de entendermos e aprofundarmos as discussões, estudos e pesquisas sobre as características, limites e transformações envoltas por esse modelo de “modernidade”. Existem muitas evidências acumuladas sobre os impactos da ação homem sobre o planeta ao se manter os rumos atuais, como o feito por Cavalcanti (2009) ao assegurar que podemos ter o mesmo destino que a sociedade maia se nos mantivermos nessa direção:

Há pelo menos uma dúzia de problemas ambientais suficientemente sérios para que um cenário de colapsos semelhantes ao dos maia não possa ser descartado. E não adiantará encontrar solução para alguns desses problemas sem que se consiga resolver os outros. Mesmo que se reduza a velocidade do aquecimento global, por exemplo, sem, no entanto, enfrentar a questão da água, esta, sozinha poderá destruir as sociedades contemporâneas. (CAVALCANTI, 2009, p. 157). Fica evidente que apesar de todo movimento em prol da manutenção da vida humana em um planeta limitado realizado nos últimos cinquenta anos, a sociedade parece ainda não perceber a dimensão exata desta questão e da sua responsabilidade no agravamento deste processo que se reflete, indistintamente, sobre toda a humanidade. Esta crise coloca em xeque, especificamente, a hegemonia de um modelo que fragmenta em várias disciplinas o conhecimento acumulado pela sociedade o que inibe a compreensão dos problemas socioambientais

como complexos e interdependentes e localizados majoritariamente nos aglomerados humanos (BOFF, 2012; ACSELRAD 2001). Porém, a origem desta questão estaria localizada “no predomínio, em escala planetária, de visões-de-mundo e atitudes marcadas pelo viés dualista e antropocêntrico” (VIEIRA, 2007, p. 22) predominante em nossas sociedades.

A atual situação do mundo pode ser compreendida a partir do reconhecimento da multiplicidade de crises existentes, reconhecidamente de caráter sistêmico, global e generalizado. Quatro crises são pontuadas por Lená e Nascimento (2012) como profundamente marcantes na história mundial. A primeira, faz referência ao esgotamento e encarecimento do petróleo enquanto recurso energético e ao seu consumismo exacerbado, chamada de crise energética. A segunda, conhecida como crise climática, vem na sequência fazendo uma alusão as mudanças no clima e consequente alteração da biodiversidade e privatização dos recursos naturais. A crise social, terceira apresentada pelos autores, surge envolta pelos mecanismos capitalistas da produção e crescimento e agravada pela globalização excludente submetida as assimetrias Norte-Sul. E, por fim apresentam a quarta crise, a crise cultural, que reconhece a ausência das referências e valores que já se pode observar na maioria dos contextos sociais. O que os autores temem, neste sentido, é a ocorrência de um colapso generalizado do sistema societário e planetário se não existir um enfrentamento rigoroso desse panorama, o que na percepção deles poderá representar o “apagar da consciência humana”.

Essas questões suscitam o reconhecimento de que a etiologia da crise tem sua origem em um sistema econômico hegemônico e em padrões civilizatórios individualistas e excludentes, que mantém seus cidadãos reféns desta sua lógica perversa. Entretanto, apesar do reconhecimento consensual sobre tais problemas e suas possíveis consequências é grande a divergência sobre as modalidades de intervenção que se fazem necessárias (SACHS, 1997; BOFF, 2012).

A redefinição dos estilos de desenvolvimento e de suas organizações socioeconômicas, sociopolíticas, socioculturais e socioambientais, faz parte dos componentes essenciais para o enfrentamento da crise planetária do meio ambiente. Essa reflexão é extremamente importante para que se possa acentuar a necessidade de uma revisão das propostas de enfrentamento da crise de uma forma mais consistente e ética, em contraposição as maneiras que se apresentam na esfera dos governos e dos sistemas econômicos, tendencialmente

propensos a buscar alternativas imediatistas, altamente populares e de baixo custo.

Suas soluções, até o momento, tem se mostrado extremamente fragmentadas, pontuais e pouco efetivas para o real enfrentamento da crise por insistentemente persistirmos “em planejar as nossas intervenções em função de uma racionalidade predatória e de uma ânsia infinita de poder que comanda e orienta a dinâmica das sociedades contemporâneas” (FONTAN e VIEIRA, 2011, p. 19) ao invés de focarmos em adotar diretrizes com caráter mais preventivos e proativos e que estejam aptos a focar integral e simultaneamente as diferentes dimensões que envolvem os processos de modernização (VIEIRA, 2002; 2006; 2007).

O agravamento deste fenômeno vem abrindo novas pistas para a reflexão sobre as dimensões humanas das mudanças ambientais globais e para uma reavaliação em profundidade das nossas estratégias de desenvolvimento. (VIEIRA, BERKES, SEIXAS, 2005, p. 13).

Em síntese, se são os estilos atuais de desenvolvimento que acentuam a crise socioambiental que presenciamos se faz necessário, para o seu enfrentamento, criar novas estratégias de ação, tanto no que diz respeito aos cuidados com a natureza, quanto a elaboração de políticas públicas mais consistentes baseadas no pensamento sistêmico-complexo e que possa se sobrepor a simples exploração do crescimento material determinado por um modelo de desenvolvimento consumista e individualista, fazendo-nos questionar as consequências presentes e futuras da escolha por esse modelo hegemônico e que, por sua vez, nos instiguem em favor da busca incessante por mudanças de perspectiva que supere a visão utilitarista nas relações que mantemos com a natureza.

Por sua vez, não podemos falar de enfrentamento de tal crise sem associá-lo, simultaneamente, a extinção das desigualdades sociais, a erradicação da pobreza e a diminuição dos efeitos perversos dos desastres ambientais acentuados pela urbanização. Mudanças estruturais e não apenas emergenciais seriam necessárias para garantir o enfrentamento da crise socioambiental instalada em nossa sociedade. Para tanto, são necessárias iniciativas que reavaliem não só o modelo societário, mas, em especial, que revejam as formas de participação de cada cidadão na promoção das mudanças e nas transformações de comportamentos que se pretende ancoradas nos princípios que fundamentam a justiça ambiental

com ênfase no fortalecimento dos sistemas democráticos como condição para a aprendizagem social adaptativa (BUTZKE, 2014).

Uma nova visão de mundo, que inclua o sistêmico e o complexo, contribuirá para uma transformação ideológica sociopolítica inteiramente renovada, marcada por novos conceitos e possibilidades de desenvolvimento e de novos projetos de sociedade. É preciso que reconheçamos a necessidade de buscar um novo posicionamento frente a esta realidade, uma nova forma de planejar o futuro planetário onde predomine uma nova relação dos homens com a natureza.

Uma crise humanitária, societária, civilizatória, planetária parece não ser o mais importante, neste momento, o nome que se dê a esse problema. Pois esse é, sem dúvida, um momento que necessita ser refletido em profundidade, já que se refere diretamente as escolhas que estamos fazemos nos últimos séculos e que precisamos ponderar para criarmos um movimento que capaz de alcançar o pensamento das pessoas para que busquem alternativas capazes de modificar seus próprios rumos e os de um planeta que já está próximo do seu limite (LEFF, 2012; VIEIRA, 2006; 2007; 2009).

2.2 O “SUSTENTÁVEL” E A PROBLEMÁTICA AMBIENTAL:

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