2. ACONTECIMENTO E CONVÍVIO NA EXPECTAÇÃO
2.1. O teatro como acontecimento na filosofia do teatro
No entender do pesquisador Jorge Dubatti, principal teórico com quem articulo a base atual de meus estudos, o teatro é encaradocomo um acontecimento, considerando a constante busca pela produção de sentido para o seu fazer e seu acontecer.
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Ao propor uma revisão dos estudos das artes cênicas, o pesquisador traz a filosofia do teatro como uma possibilidade de renovação e exposição de problemas das disciplinas que circundam esse campo, convocando um novo olhar para o que conhecemos a respeito da história do teatro e o modo como nos foi contado até então.
O questionamento das concepções já impostas sobre o teatro eleva o campo de estudo que o reconhece como um exercício em constante estado de mudança, assim, propõe que o teatro existe enquanto acontecimento e que ele se estrutura a partir de sua relação com a cultura vivente, na sua relação com o acontecer.
O autor Jorge Dubatti traz o conceito de cultura vivente como um sistema operativo de seu trabalho acerca da filosofia do teatro.
[...]si el teatro es un acontecimiento ontológico (convivial-poético- expectatorial, fundado em la compañía), en tanto acontecimiento el teatro es algo que pasa en los cuerpos, el tiempo y el espacio del convivio, existe como fenómeno de la cultura viviente en tanto sucede, y deja de existir cuando no acontece. (DUBATTI, 2012, p. 28).
A relação que estabeleço com a amplitude que o conceito de cultura vivente nos traz é de um espaço de construção da cultura de maneira constante, propensa à evolução e à revisão de seus modos de operação. Não podemos afirmar que as bases culturais de um determinado povo se solidificam, mas se adaptam conforme se modificam os hábitos e se renovam os desejos de consumo culturais.
Poderíamos falar também de uma cultura viva, traduzindo o conceito para o contexto brasileiro, no entanto, em busca de uma ampliação do panorama observado na obra de Dubatti e na visita técnica à EEBA, entendo que a propositiva de uma cultura vivente se faz mais coerente com o discurso que aqui apresento.
Sobre o teatro como acontecimento, Dubatti considera que está acima de definições de base semiótica ou estruturas de linguagem, pois passa a relevar que o sujeito construtor, que “expressa” o teatro está no palco e fora dele. A partir de uma profunda reflexão do teatro portenho, como crítico, professor e historiador, Jorge Dubatti propõe com a filosofia do teatro uma nova qualificação para todo amante dessa arte, uma vez que todos eles passam a se questionar e a levantar possibilidades do fazer teatral, em acontecimento.
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Considerar as presenças dos sujeitos do teatro, seja como emissor, como mensageiro ou como receptor, é considerar que cada uma dessas vias permite ampla interpretação para uma experiência vivida. Em questões fundamentais como “Por que fazemos teatro?” ou “Por que estudamos teatro?” estão preservadas as respostas de quem, não necessariamente,as estuda, mas que, possivelmente, se entende como parte da cultura vivente. Portanto, como diz Dubatti, “todo amante do teatro torna-se um filósofo do teatro” (2016, p.15).
O espectador teatral que, com certa assiduidade, frequenta espetáculos, pode dizer que o estudo em teatro lhe traz prazer; outro pode dizer que lhe enriquece culturalmente; para outro ainda, pode ser irrelevante e para o pesquisador será um caminho que delineará a continuidade de seus estudos, mas ainda assim, de qualquer maneira, todos estarão num exercício contínuo de ressignificação.
A filosofia do teatro surge como resposta à problematicidade da entidade do teatro diante dos fenômenos de desdelimitação histórica, transteatralização¸ liminaridade e disseminação (ou teatralidade expandida, incluída em fenômenos não teatrais). Propõe-se “retornar o teatro ao teatro”, o que implica o desafio de delinear uma redefinição que assuma a experiência histórica da problematicidade aniquilada pelo teatro nos séculos XX e XXI [...]” (DUBATTI, 2016, p. 30).
Na perspectiva da filosofia do teatro, é necessário fugir dos grandes vícios e preconceitos que se evidenciam em seu fazer como o “tudo é teatro”, ou ainda, “no teatro tudo é subjetivo”.
Essa situação, que Dubatti chama de des-definição da arte, é uma problemática que merece atenção especial, considerando que vivemos a era de uma ampla difusão digital de todo e qualquer material em arte. A grande variedade de acesso a acervos de museus online, filmagens de espetáculos, filmes emgeral, além do conteúdo teórico referencial das artes em diversas línguas e com a possibilidade de uma tradução eletrônica, abrem caminho para uma perspectiva de fruição do material artístico observado nas telas, que não convoca o espectador, ou ainda, o leitor da teoria artística, ao ato de presenciar o acontecimento artístico. O que pode gerar, como já ocorre, dentro dos canais digitais (sites e afins) o efeito de implosão de comentários rasos ou genéricos a partir do material observado, corroborando assim com um espaço de des-definição da arte.
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Do mesmo modo que avançamos quanto ao acesso amateriais de estudo, pesquisa e fruição da arte, também restringimos uma argumentação aprofundada sobre os mesmos.
Modos de relação baseados no que Dubatti chama de tecnovívio, apontam para uma questão da qual não podemos nos isentar: o mundo digital nos abriga e nos consome fortemente, como podemos nos reabrigar do mundo? Como podemos buscar esse abrigo através do convívio?
A filosofia do teatro amplia o espaço de discussão quanto à relevância do fazer teatral, justamente por considerar a zonade experiência e de subjetividade que se abrigam no acontecimento teatral contemporâneo.
Se no mundo há diferentes acontecimentos, o acontecimento teatral diferencia-se de outros não artísticos (de reunião) e de outros artísticos (cinematográfico, plástico, radiofônico, musical, televisivo etc.), porque possui determinados componentes de ação (subacontecimentos), de combinação singular, que constroem uma zona de experiência e de subjetividade com fazeres e saberes específicos na singularidade do seu acontecer. (DUBATTI, 2016, p. 84).
Essa busca pelo abrigo do mundo, da arte teatral em nosso caso, revela-se de maneira contundente se observarmos o movimento presente na singularidade de cada espectador, que carrega uma subjetividade da qual, muitas vezes, não tem conhecimento, ou ainda, não reconhece como manifestação de sua subjetividade, o que também é uma forma de ação na cultura vivente.
Podemos optar pela escolha do comentário ou da síntese pelo espetáculo que se assiste ou ampliar as subjetividades que nos são provocadas a confrontar com nossahistória pessoal. A relação da expectação em convívio e a produção de poiesis no teatro como acontecimento, favorecem o espaço de reflexão das subjetividades da recepção, como desenvolveremos a seguir.
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