CAPÍTULO II – A Construção da Linguagem Audiovisual
3.2. Vídeo 1 Interdisciplinaridade e Transversalidade
3.2.3. O tecido interdisciplinar
Para analisar o conteúdo desse vídeo, primeiro foram resgatadas as palavras do professor Nilson José Machado, que diz que o aluno vai à escola para ler o mundo. Essa leitura metafórica no qual ele se refere pode ser compreendida como um tecido interdisciplinar. Uma ampliação da visão de mundo do aluno com perspectivas interdisciplinares, vindas de diferentes lugares e com diversas possibilidades.
O conteúdo desse primeiro vídeo diz respeito à gênese do pensamento de Edgar Morin, autor referencial desta pesquisa. Para tanto, antes de iniciar a discussão sobre a Interdisciplinaridade, vale um entendimento da humanidade da humanidade, que aborda a questão da cultura que constrói o homem e, que por sua vez, é construída por ele (MORIN, 2007, p.44).
Para o autor, faz-se necessário levar a humanidade até o saber das suas próprias realidades complexas. Só a partir daí pode-se enfrentar o desconhecido. “Quem somos nós? É inseparável de “onde estamos, de onde viemos, para onde vamos?”Conhecer o humano não é expulsá-lo do universo, mas aí situá-lo” (MORIN, 2007, p.25).
E esse posicionamento está presente do início ao fim do vídeo educativo. Mais do que um tratamento estético da temática, quem acompanha o vídeo é rapidamente posicionado geograficamente. Em consequência, o conteúdo é costurado quadro a quadro.
Segundo Morin (2007), o ser humano é plenamente físico e metafísico, biológico e metabiológico, constituindo-se de uma pluralidade, de uma justaposição das seguintes trindades: “a trindade indivíduo-sociedade-espécie; a trindade cérebro-cultura-mente e a trindade razão-afetividade-pulsão [...]”, a fim de explicar a origem da formação humana (p.51).
Essa elucidação inicial mostra que a origem da humanidade está relacionada a três fontes interligadas entre si. Uma fonte interior ao indivíduo, outra externa, constituída pela cultura (sociedade) e uma fonte anterior, originada da organização viva e transmitida geneticamente (espécie).
Ou seja, a tríade indivíduo-sociedade-espécie, está presente no ser humano e atua de forma dialógica a natureza-cultura e individual-coletivo estabelecendo uma relação ao mesmo tempo complementar e antagônica.
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Cada um desses termos contém os outros. Não só o indivíduo está na espécie, mas também a espécie está nos indivíduos; não só os indivíduos estão na sociedade, mas também a sociedade está nos indivíduos, incutindo-lhes desde o nascimento deles, a sua cultura (MORIN, 2007, p.51).
A menção à humanidade formada por meio da tríade indivíduo-sociedade- espécie elucida passagens implícitas no vídeo. Desta forma, para um bom entendimento da interdisciplinaridade e transversalidade, deve-se, primariamente, estabelecer relações entre essas três fontes.
No vídeo, por exemplo, antes mesmo de apresentar o Ribeirão Anhumas, a narradora (off) traz informações que são interligadas aos depoimentos de alunos e professores. Neste momento, a relação indivíduo-sociedade-espécie é proclamada e no decorrer do vídeo é cosida com elementos individuais (depoimentos) e sociais (agrupamento dos alunos nas margens do ribeirão).
No entanto, Morin (2000) alerta para que a lógica dos “mecanismos inumanos da máquina artificial”, na qual a sociedade e as relações humanas estão submetidas, não se validem “com sua visão determinista, mecanicista, quantitativa, formalista que ignora, oculta ou dissolve tudo o que é subjetivo, afetivo, livre e criador” (p.11).
E assim se caminha para compreender a essência encontrada no conteúdo do vídeo: a Interdisciplinaridade e a Transversalidade. Sem abandonar a tríade da relação indivíduo-sociedade-espécie, a investigação se debruça no esforço de compreender como a substância do tema pode contribuir com a reforma do pensamento, pois “em todos os lugares, se reconhece a necessidade da interdisciplinaridade” (MORIN, 2000, p.13).
Para tanto, o pensamento complexo acolhe os novos desafios impostos pela contemporaneidade em repensar a educação por meio de uma nova reflexão sobre metapontos de vista que rejuntem a vida, o homem, a terra e o cosmos.
Neste sentido, Morin (2000) aponta que o desafio é invisível. Mas é preciso começar e o começo pode ser desviante e marginal. Conforme mostrado no vídeo, a ideia é empreendida “pelo universo docente” e quando se difunde, torna-se força atuante. E essa dinâmica exige uma reforma do pensamento. “Uma reforma que nutre a unidade e a diversidade entre a totalidade e a particularidade de cada elemento” (p.26).
A reforma necessária do pensamento é aquela que gera um pensamento do contexto e do complexo. O pensamento contextual busca sempre a relação de inseparabilidade e inter-retroações entre todo fenômeno e seu contexto e de todo contexto com o contexto planetário. O complexo requer um pensamento que capte as relações, interrelações e implicações mútuas, os fenômenos multidimensionais, as realidades que são simultaneamente solidárias e conflitivas (como a própria democracia que é o sistema que se nutre de antagonismos e, que, simultaneamente os regula), que respeite a diversidade, ao mesmo tempo que a unidade, um pensamento organizador que conceba, a relação recíproca de todas as partes (MORIN, 2000, p.14).
Essa reforma de pensamento se refere à necessidade de seguir princípios que levem o pensamento para além de um conhecimento fragmentado. Um reforma na qual pensamento e conhecimento permitam as interações entre um todo e suas partes, as interligações entre o particular, o cotidiano, o local, a luz da complexidade do universo, capaz de conceber noções ao mesmo tempo complementares e antagônicas, ou seja, com os sentidos inesgotáveis e abertos ao real.
A transdisciplinaridade como o olhar que tece em conjunto a complexidade do mundo, do homem e é capaz de articular os diferentes saberes; mas só representa uma solução quando se liga à uma reforma do pensamento. Assim, “a reforma do pensamento contém uma necessidade social chave: formar cidadãos capazes de enfrentar os problemas de seu tempo” (Morin, 2000, p.18).
Talvez a mais importante noção a ser aprendida, seja que, no lugar de separar o conhecimento em compartimentos, deve-se pensar como a complexidade pode levar a uma conexão entre esses vários modos de pensar, religar as teorias, nos conhecimentos e na ciência, os laços indissociáveis da teia da vida e a possibilidade de responder as nossas expectativas, necessidades e interrogações cognitivas.
Esse processo transdisciplinar é, acima de tudo, cognitivo. Santos (2008) assinala que ele “associa-se à dinâmica da multiplicidade das dimensões da realidade e apóia-se no próprio conhecimento disciplinar”. Para a autora, sua validação se dá “a partir da articulação de referências diversas” (p.75). Desse modo, caminhamos ao encontro da articulação dos saberes por meio da religação das disciplinas.
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Por fim, cabe assinalar que o conteúdo interdisciplinar torna-se atrativo à medida que reúne elementos distintos e complementares. Conforme visto no vídeo, professores e alunos tecem os conhecimentos sobre o Ribeirão Anhumas em comunhão.
Aplicados ao processo ensino-aprendizagem, os princípios holográfico e transdisciplinar tornam o aprender uma atividade prazerosa na medida em que resgatam o sentido do conhecimento (perdido em razão de sua fragmentação e descontextualização). Esse é o desafio que se coloca na reconstrução da prática pedagógica (SANTOS, 2008, p.75-76).