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O TEMPLO EM SI

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No trecho anterior, em relação ao templo e ao corpo, o elemento que agrega os dois é o sagrado, no entanto, o templo, depois de cultuado com referência

mística, possui características singulares, até para manter o ritmo da preservação do sagrado99.

À primeira vista, o templo mantém automática e visivelmente uma força contra o profano. Ele existe para não deixar que o profano cresça entre os fiéis. Na relação sagrado e profano, um não pode ocupar o lugar do outro, ou seja, os dois não convivem no mesmo espaço, há fronteiras onde o profano deve ir ou manter o seu limite, isso abre uma janela para uma comunidade, a força dele estabelece limites permeadores de exigências, é capaz de estabelecer um ritmo da vida social de um povo acostumado ao seu cotidiano. O templo estabelece fortes momentos na comunidade responsáveis pela quebra das práticas profanas; este aspecto é notório em sua estrutura interior, o altar exerce a função de centro para as religiões, aspecto este acentuado às religiões cristãs, segundo o Frei Alberto Beckhauser, o altar é:

É um elemento bastante comum na expressão cultual dos povos. É antes de tudo o lugar do sacrifício. Pode significar ainda o centro do mundo, o lugar de encontro com a divindade. Aparece ainda como símbolo da totalidade, da pureza virginal. Por isso, era geralmente de pedra natural. Pode expressar ainda o centro de unidade (BECKHAUSER, 1996, p. 67).

E Eliade (1970, p. 441) argui:

A construção do altar sacrifical védico é ainda mais instrutiva a este respeito. A consagração do espaça desenrola-se segundo um duplo simbolismo. Por um lado, a construção do alta é concebida como uma criação do mundo. A água na qual as amassa a argila é assimilada à água primordial, a argila dos fundamentos da altar à outro lado, essa construção eqüivale a uma integração simbólica do tempo, à sua ‘materialização no próprio corpo do altar’ ‘O altar do fogo é o ano [...]. As noites são as pedras de vedação e destas há 360 porque há 360 noites no ano; os dias são de tijolos yajusmatî pois que estes são 360; ora, há 360 dias no ano’. O altar torna-se assim um microcosmos que existe num espaço e do tempo místicos qualitativamente diferentes do espaço e do tempo profanos. Quem diz construção do altar diz, ao mesmo tempo, repetição da cosmogonia. O sentido profundo de tal repetição em breve nos aparecerá.

Em sentido geral, no templo das religiões hindus, judaicas, cristãs e islâmicas há semelhanças de símbolos100 para as suas cerimônias. É claro que os

99 “A coisa sagrada é, por excelência, aquela que o profano não deve, não pode tocar impunemente

tocar” (DURKHEIM, 1989, p. 72).

100 Os símbolos encontrados no interior dos templos/igrejas: Católicos – altar, imagens de santos e a

Bíblia –, Congregação Cristã do Brasil, da Assembléia de Deus, da Deus é Amor, da Brasil para Cristo mantém como símbolo único a Bíblia.

símbolos exercem conotações múltiplas, ao entrar no templo de sua religião, o homem se posta de maneira não habitual, porque no templo todos os símbolos possuem a força de levá-lo ao estado de espírito em que tem o encontro com a divindade, entidade ou guru superior. Elementos do tipo luz e trevas, água, vela, óleo, cruz, vinho, cânticos, vestes, fogo, sinos, livros e textos sagrados, estátuas, imagem, gravuras, incensos, silêncio, peças de ouro contribuem para que o templo, em todas as religiões, possua características que lhe são próprias, tendo por si função importantíssima de preservar o sagrado ou o que lhe pareça de suma importância para o que o freqüenta. Também é comum, em todas as religiões, no templo, haver mediadores entre o ser superior a ser cultuado ou os elementos que propiciam a paz de espírito ou de alma aos freqüentadores. Estes mediadores apresentam e mantêm, no templo, todos os símbolos descritos acima para que o objetivo de que quem vá ao templo seja alcançado. É imprescindível dizer que o templo conserva um discurso e este é avisar aos chegantes de que o sagrado, o equilíbrio, a paz de alma e espírito são encontrados em seus ensinamentos, ritos e símbolos, dentro do seu espaço, exercendo assim uma mística sobre o homem.

Destarte, para proteger o templo uma das ações humanas mais comuns é a peregrinação. Conseqüência disso são os ritos de grandes caminhadas em direção ao templo de sua religião; as enormes torres e abóbadas voltadas para o transcendente, não se furtando ao aspecto de mostrar que ali o transcendente101

está presente e por isso é válida a sua busca.

Os templos de pequeno porte, especificamente os cristãos, mantêm o rigor de preservação por meio de rigorosos horários dos cultos e, no caso dos católicos, procissões ao redor do templo ou quarteirão, por ocasião de celebração, buscando reforço para a proteção do templo e de si mesmo.

O mesmo se passa com as muralhas da cidade: antes de serem defesa militar, são defesas mágica, visto que reservam, no meio de um espaço ‘católico’, povoado de demônios e de larvas, um espaço organizado, ‘cosmicizado’, quer dizer, promovido de um ‘centro’. Assim se explica que, em período crítico - cerco, epidemia - toda a população se reúne em procissão em volta dos muros da cidade, reforçando deste modo a sua qualidade de limites e de protecção mágico-religiosa. Esse envolvimento processional da cidade com todo o seu aparelho de relíquias, de círios, etc., reveste-se às vezes, de uma forma mágico-simbólica: oferec-se ao santo

patrono da cidade um círio cujo comprimento é igual ao perímetro do recinto. Estas práticas de defesa estavam muito espalhadas na Idade Média. Mas encontram-me também em outras de epidemia, faz- se em volta da aldeia um círculo destinado a impedir que goza de tanto favor em muitos rituais mágico-religiosos, tem por principal finalidade estabelecer uma compartimentação entre dois espaços hetergéneos (ELIADE, 1070, p. 440).

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