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O teorema da utilidade esperada de Von Neumann e Morgenstern (1944)

No documento ANTÔNIO PAULO MACHADO GOMES (páginas 43-45)

2 FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA

2.1 A Teoria dos Jogos

2.1.6 O teorema da utilidade esperada de Von Neumann e Morgenstern (1944)

A hipótese da utilidade esperada implica que a ordenação de preferências de loterias do tomador de decisões é completa e transitiva. Uma ordenação de preferências de um conjunto de resultados é completa se, para quaisquer dois resultados, T1 e T2, ou T1 é preferido a T2, ou

T2 é preferido a T1. Se T1 é preferido a T2 e T2 é preferido a T1, então o tomador de decisões é

indiferente entre eles. A ordenação de preferências é transitiva se, dados quaisquer resultados, T1, T2 e T3, se T1 é preferido a T2 e T2 é preferido a T3, então T1 é preferido a T3. Portanto, essas

duas propriedades devem ser satisfeitas para que a hipótese da utilidade esperada seja válida. Este é o primeiro axioma de Von Neumann-Morgenstern (1944) (Bierman, 2010, p. 205):

Axioma 1 (Consistência): Há uma ordenação de preferências completa e transitiva dos elementos do conjunto L de loterias construídas com os elementos do conjunto finito de resultados X.

Conforme Bierman (2010) o axioma da consistência implica que é possível ordenar os elementos do conjunto X do pior para o melhor. Isso, porque todo resultado em X, diga-se, T, pode ser identificado com uma probabilidade de 100% de ocorrência, ou seja, LT = (T:1) cujo resultado T ocorre com certeza. O resultado é que qualquer ordenação de preferências de loterias implica a ordenação de preferências óbvias dos elementos de X: o resultado T é preferido ao T´ se, e somente se, a loteria LT é preferida à LT´. Portanto, se a ordenação de preferências de loterias é completa e transitiva, a ordenação de preferências implícitas dos resultados de X também é. Visto que X é finito, existe um resultado melhor e outro pior em X.

Exemplificando, entre 4 resultados possíveis: (i) não ser fiscalizado e obter um lucro de R$ 2.5 milhões; (ii) ser fiscalizado e autuado, mas ter o auto cancelado, gerando um lucro de R$ 1.8 milhão; (iii) ser fiscalizado, autuado e o pagamento ocorrer em um parcelamento especial, proporcionando um lucro de R$ 200 mil; (iv) ser fiscalizado, autuado e pagar à vista, gerando um prejuízo de R$ 4 milhões. Diante desses resultados, fica evidente do ponto de vista econômico, que a primeira opção – não ser fiscalizado e obter um lucro de R$ 2.5 milhões – é melhor que a última opção, cujo prejuízo será de R$ 4 milhões. Ou seja, considerando-se o axioma da consistência é possível ordenar os elementos de um conjunto de resultados do pior para o melhor.

O segundo axioma é o de monotonicidade, que em matemática significa que uma função entre dois conjuntos ordenados é monótona quando ela preserva (ou inverte) a relação de ordem. Ou seja, quando um conjunto aumenta o outro diminui, logo a função pode ser crescente ou decrescente. Exemplificando, considere-se uma loteria especial L(u) = (TB:u, TW:1 − u) na qual somente os piores ou os melhores resultados são selecionados com probabilidade u e 1 − u, respectivamente. Logo, como a função L(u) é monótona, à medida que se aumenta u de 0 a 1, a probabilidade de ocorrer TB fica cada vez maior e a de ocorrer TW, cada vez menor. Diante disso, à medida que u cresce, a loteria L(u) torna-se mais desejável. Além disso, Se T é qualquer outro resultado no conjunto X, por hipótese, a loteria trivial (TB:1, TW:0) = L(1) é preferida a T,

e T é, por sua vez, preferida à loteria trivial (TB:0, TW:1) = L(0). Portanto, a monotonicidade

implica que, à medida que u aumenta, L(u) torna-se cada vez mais preferida (Bierman, 2010, p. 205):

Axioma 2 (Monotonicidade): L(u) é preferida à L(v) se, e somente se, u > v.

O terceiro axioma de Von Neumann-Morgenstern é que, à medida que u aumenta, a certa altura atinge-se um ponto no qual o tomador de decisões é exatamente indiferente entre a loteria L(u) e qualquer resultado de T dado, pois, caso contrário, existiria uma descontinuidade na ordenação de preferências (Bierman, 2010, p. 206):

Axioma 3 (Continuidade): Para todo resultado T em X, existe um único número U(T), denominado a utilidade normalizada de Von Neumann-Morgenstern de T, tal que o tomador de decisões é indiferente entre o resultado (certo) T e a loteria L(U(T)).

Para ver o que o axioma da continuidade implica, sejam T1, T2, T3, T4 os lucros

(prejuízos) de R$1,5 milhão, R$1 milhão, −R$ 4 milhões e −R$ 7 milhões. Os resultados T1 e

T4 são, respectivamente, o melhor e o pior. Portanto, atribuímos a T1 a utilidade normalizada

de Von Neumann-Morgenstern de 1 e a T4 uma utilidade normalizada de Von Neumann-

loteria (T4:30%, T1 :70%), ou seja, 30% de chance de ter um prejuízo de R$7 milhões e 70%

de chance de ter um lucro de R$1,5 milhão, então T2 tem uma utilidade normalizada de Von

Neumann-Morgenstern de 0,70, pois o indivíduo é indiferente aos dois resultados. De maneira semelhante, se o indivíduo é indiferente a T3 e à loteria (T4:70%, T1:30%), a utilidade

normalizada de Von Neumann-Morgenstern de T3 é igual a 0,30 (Bierman, 2010).

Os dois últimos axiomas de Von Neumann-Morgenstern referem-se a mudanças ‘inconsequentes’ em uma loteria. Isso significa não alteração da atratividade relativa da loteria, ou seja, feita a escolha não há motivos para mudá-la. Portanto, o quarto axioma trata da substituição de um resultado em uma loteria por outro que o tomador de decisões considera igualmente atraente (Bierman, 2010, p. 206):

Axioma 4 (Substituição): Suponha que o tomador de decisões seja indiferente entre o

resultado certo T e a loteria L e a única diferença entre as duas loterias L1 e L2 seja a

de que, no lugar em que T aparece em uma delas, L aparece na outra. Então o tomador

de decisões também será indiferente entre L1 e L2.

Já o quinto axioma envolve a substituição de uma loteria composta por outra simples. Logo, o quinto axioma implica duas coisas: (1) o tomador de decisões está interessado somente na probabilidade da ocorrência de cada resultado, e não nos aspectos específicos do mecanismo pelo qual os resultados finais são selecionados; e (2) o tomador de decisões acredita que as seleções aleatórias que ocorrem em cada estágio de uma loteria composta são eventos independentes (Bierman, 2010, p. 207):

Axioma 5 (Simplificação): Suponha que L seja a loteria composta (L1:q1, L2:q2,...,

LM:qM), na qual cada uma das loterias Li é simples e Li = (T1:pi1, T2:pi2,..., Tk:pk), i =

1,..., M. Então o tomador de decisões é indiferente entre L e a loteria simples (T1:r1,

T2:r2, ...TK:r K), onde rj = ∑ipij ⋅qi.

Os cinco axiomas vistos têm a finalidade de demonstrar que a utilidade esperada somente será válida se, e somente se, os cinco axiomas de Von Neumann-Morgenstern forem satisfeitos. Isso significa que a função utilidade normalizada de Von Neumann-Morgenstern é uma representação da utilidade de Von Neumann-Morgenstern das preferências do tomador de decisões em relação a loterias. Isto é, na perspectiva da hipótese da utilidade esperada, o valor subjetivo que cada pessoa atribui a uma aposta, sendo que tal valor é a representação da sua expectativa de utilidade daquela escolha.

A desobediência tributária envolve incertezas e riscos de perdas, principalmente, monetárias. Logo, no próximo tópico serão abordadas as atitudes de um indivíduo em relação ao risco de perda monetária.

No documento ANTÔNIO PAULO MACHADO GOMES (páginas 43-45)