39.8 Operadores Compactos em Espa¸ cos de Banach e de Hilbert
39.8.2 O Teorema Espectral para Operadores Compactos Autoadjuntos
Vamos na presente se¸c˜ao demonstrar a vers˜ao do Teorema Espectral para operadores compactos autoadjuntos agindo em um espa¸co de Hilbert, generalizando em parte o teorema espectral provado para matrizes na Se¸c˜ao 10.4, p´agina 491.
Faremos implicitamente uso, em tudo o que segue, da Proposi¸c˜ao 39.17, p´agina 2053, que estabelece que os autovalores de um operador autoadjunto s˜ao reais e que para tais operadores os autovetores de autovalores distintos s˜ao ortogonais entre si. Tamb´em faremos uso, por vezes sem men¸c˜ao, da principal conclus˜ao do Teorema da Alternativa de Fredholm, Teorema 39.35, p´agina 2153: todos os elementos n˜ao-nulos do espectro de um operador compacto s˜ao autovalores.
Historicamente, a maioria dos resultados que apresentaremos sobre propriedades espectrais de operadores compactos autoadjuntos s˜ao fruto de trabalhos de Hilbert, Schmidt, Riesz e Schauder, realizados na primeira d´ecada do s´eculo XX.
Alguns dos teoremas abaixo s˜ao por vezes denominadosTeorema de Hilbert-SchmidtouTeorema de Riesz-Schauder, mas isso ´e feito de forma inconsistente na literatura, de modo que preferimos n˜ao adotar essa nomenclatura. Vide coment´ario
`
a p´agina 2159.
• Autovalores de operadores compactos autoadjuntos
O teorema a seguir tem um papel central a desempenhar na demonstra¸c˜ao do teorema espectral para operadores compactos autoadjuntos, por garantir que os mesmos sempre possuem pelo menos um autovalor. Uma parte de seu conte´udo j´a foi estabelecido no Teorema 39.34, p´agina 2148.
Teorema 39.36 SejaC um operador compacto e autoadjunto agindo em um espa¸co de HilbertH e denotemos porσ(C) o espectro deC e por σp(C)o conjunto de todos os autovalores deC. Ent˜ao, valem as seguintes afirma¸c˜oes:
I. 1. σ(C)\ {0}=σp(C)\ {0}.
2. ParaC6= 0 tem-seσp(C)\ {0} 6=∅, pois
− kCk, kCk ∩σp(C)6=∅, isto ´e, ou kCk ou −kCk ou ambos ´e autovalor de C.
II. 1. σp(C)⊂h
− kCk, kCki .
2. Cada autovalor n˜ao-nulo de C tem degenerescˆencia finita, ou seja, o subespa¸co de seus autovetores tem dimens˜ao finita.
3. σp(C)´e um conjunto infinito, exceto seC for de posto finito.
4. SeC n˜ao for de posto finito,0 ser´a o ´unico ponto de acumula¸c˜ao de σp(C).
5. SeC n˜ao for de posto finito, σp(C)´e enumer´avel (i.e., infinito e cont´avel). Portanto,σp(C)´e enumer´avel se
e somente seC n˜ao for de posto finito. 2
Coment´arios. Enfatizamos que o espa¸co de HilbertH, no enunciado acima, n˜ao ´e necessariamente separ´avel. Um outro coment´ario concerne ao caso de operadores compactos n˜ao-autoadjuntos. SeC ´e um operador compacto n˜ao-autoadjunto, pode-se provar (vide Teorema 39.34, p´agina 2148) que o conjunto de seus autovalores n˜ao-nulos ´e tamb´em cont´avel e se acumula no m´aximo em zero, mas pode ser vazio (mesmo queC seja de posto finito), o que n˜ao ocorre no caso de operadores compactos autoadjuntos (parteIdo enunciado acima). Um exemplo ´e operador de VolterraW, tratado no Exemplo 39.9 `a p´agina 2129. Outro exemplo ´e discutido no Exerc´ıcio E. 39.43, p´agina 2147.
Comentamos tamb´em que seCn˜ao for de posto finito pode ou n˜ao valer que 0∈σp(C), mas ´e sempre verdade que 0∈σ(C), pois 0 ´e um
ponto de acumula¸c˜ao deC. ♣
Prova do Teorema 39.36. Suporemos C 6= 0, de outra forma n˜ao h´a o que demonstrar. Provaremos separadamente as partesIeII.
Prova da parte I. A afirma¸c˜ao que σ(C)\ {0} = σp(C)\ {0} foi provada no Teorema 39.35, p´agina 2153. Como C ´e autoadjunto, valekCk= sup
ψ∈H,kψk=1|hψ, Cψi|(Teorema 39.12, p´agina 2055). Logo, existe uma sequˆenciaψn, n∈N,de
vetores emHcomkψnk= 1 tal quekCk= lim
n→∞|hψn, Cψni|(justifique!). ComoC=C∗,hψn, Cψni´e um n´umero real.
Dessa forma, como o m´odulo dehψn, Cψniconverge a kCk,hψn, Cψnideve ter uma subsequˆencia que converge akCk ou uma subsequˆencia que converge a−kCk(ou ambas). Para evitar sobrecarregar a nota¸c˜ao, tamb´em denotaremos essa subsequˆencia porhψn, Cψni, a qual convergir´a parac=±kCk, conforme o caso. Agora, usando o fato quec´e real, que
Como ψn ´e uma sequˆencia limitada e C´e compacto, a sequˆencia Cψn possui uma subsequˆenciaCψnj convergente, ou seja, existeψ∈H tal que lim Isso completa a prova da parteI.
Prova da parte II.
II.2. Vamos supor queλseja um autovalor deCe que seja infinitamente degenerado60. Isso significa que o subespa¸coMλ gerado pelos autovetores deCcom autovalorλtem dimens˜ao infinita. Podemos escolher emMλum conjunto ortonormal de vetoresφn,n∈N. Comohφn, φmi=δn, m, segue que param6=n,kφn−φmk2=
Isso contraria a hip´otese que C ´e compacto. Essa contradi¸c˜ao leva-nos a excluir a possibilidade de λser infinitamente degenerado, exceto seλ= 0.
II.3. Vamos supor queσp(C) seja um conjunto finito. Pelo itemII.2o subespa¸co gerado por todos os autovetores deC com autovalor n˜ao-nulo ´e de dimens˜ao finita e, portanto, ´e fechado. Vamos denot´a-lo porM. ´E bastante claro queM´e um subespa¸co invariante por C (justifique!). Assim, pelo Corol´ario 39.4, p´agina 2053,M⊥ ´e igualmente um subespa¸co fechado que ´e invariante porC.
Vamos denotar por P o projetor ortogonal sobreMe porP⊥ =1−P o projetor ortogonal sobreM⊥. Tem-se para todo ξ∈H
CP⊥ξ = 1CP⊥ξ = P+P⊥
CP⊥ξ = P CP⊥ξ+P⊥CP⊥ξ = P⊥CP⊥ξ ,
60Aqui supomos implicitamente queHn˜ao tem dimens˜ao finita, sen˜ao n˜ao haveria o que demonstrar
poisP CP⊥ξ= 0, j´a queCP⊥ξ∈M⊥ (poisP⊥ξ∈M⊥ eM⊥ ´e invariante porC). Isso significa que
P⊥CP⊥=CP⊥ . (39.173)
ComoC eP⊥ s˜ao autoadjuntos, tamb´em obt´em-se da ´ultima igualdade que P⊥C = CP⊥∗
= P⊥CP⊥∗
= P⊥CP⊥ = CP⊥, mas n˜ao usaremos isso.
Observemos agora queP⊥CP⊥´e compacto (pela Proposi¸c˜ao 39.78, p´agina 2140) e autoadjunto. Assim, pela parteI, existeϕ∈H, ϕ6= 0, tal queP⊥CP⊥ϕ=±P⊥CP⊥ϕ. Essa igualdade diz-nos queϕ∈M⊥, poisP⊥(CP⊥ϕ)∈M⊥, devido ao fatorP⊥`a esquerda. Se assim for, ent˜aoP⊥ϕ=ϕe, portanto,P⊥CP⊥ϕ=P⊥Cϕ=Cϕ, a ´ultima igualdade seguindo do fato que Cmant´emM⊥ invariante. Estabelecemos, assim, queCϕ=±P⊥CP⊥ϕ.
Agora, se P⊥CP⊥6= 0, ent˜aoϕseria um autovetor deC com autovalor n˜ao-nulo, o que significa que ϕ∈M, pela defini¸c˜ao de M. Ora, se ϕ 6= 0, isso n˜ao ´e poss´ıvel, pois o ´unico vetor que M e M⊥ tˆem em comum ´e o vetor nulo.
Conclu´ımos da´ı queP⊥CP⊥= 0, ou seja,P⊥CP⊥ = 0. Logo, por (39.173),CP⊥= 0. Isso, por sua vez, diz-nos que para todo ψ∈M⊥ valeCψ=CP⊥ψ= 0.
Assim, conclu´ımos que C aniquila todo o subespa¸coM⊥, ou seja, queM⊥ ´e constitu´ıdo por autovetores de C com autovalor zero. Pelo Teorema da Decomposi¸c˜ao Ortogonal, Teorema 38.2, p´agina 1982, todo vetorψ∈Hpode ser escrito na formaψ=ψM+ψM⊥, comψM∈MeψM⊥ ∈M⊥. Logo,Cψ=CψM∈M, poisM´e invariante por C. ComoM´e de dimens˜ao finita, o fato queCψ ∈Mpara todo ψ∈H est´a precisamente dizendo-nos queC ´e de posto finito.
E tamb´em f´acil de se ver que se´ C´e de posto finito ent˜aoC tem um conjunto finito de autovalores. Isso completa o que quer´ıamos provar.
II.4. SeCn˜ao ´e de posto finito, vimos no itemII.3queσp(C) n˜ao ´e um conjunto finito. Como, pelo itemII.1,σp(C) est´a contido no intervalo fechado e limitado (ou seja, compacto) h
− kCk, kCki
, σp(C) deve possuir pelo menos um ponto de acumula¸c˜ao (Teorema de Bolzano-Weierstrass, Teorema 32.7, p´agina 1542 e Teorema 32.15, p´agina 1554)). Seja x0
um desses pontos de acumula¸c˜ao deσp(C) e vamos supor que x0 6= 0. Comox0´e um ponto de acumula¸c˜ao deσp(C), temos em cada intervalo aberto (x0−ǫ, x0+ǫ), comǫ >0, infinitos autovalores deC. Tomemosǫpequeno o suficiente de modo que 06∈(x0−ǫ, x0+ǫ), ou seja, tomemosǫ >0 mas tal que|x0|> ǫ. Tomemos tamb´em uma cole¸c˜ao cont´avel λn, n∈N, de autovalores distintos de C contidos no intervalo (x0−ǫ, x0+ǫ). ´E claro que|λn|>|x0| −ǫpara todo n. Seja, para cadan∈N, um autovetorφn deC com autovalorλn e comkφnk= 1. Como os autovalores s˜ao distintos, valehφn, φmi=δn, m. Assim, paran6=m,
kCφn−Cφmk2 = kλnφn−λmφmk2 =
(λnφn−λmφm), (λnφn−λmφm)
= |λn|2+|λm|2 > 2 |x0| −ǫ2
. Como 2 |x0| −ǫ2
n˜ao depende demen, isso est´a dizendo-nos que Cφn,n∈N, n˜ao ´e uma sequˆencia de Cauchy, assim como nenhuma de suas subsequˆencias. Isso contraria o fato de C ser compacto. Logo,x0 6= 0 n˜ao pode ser ponto de acumula¸c˜ao de autovalores de C. Como pelo menos um ponto de acumula¸c˜ao deve existir, esse deve ser o pontox0= 0.
II.5. Tomemos emh
− kCk, kCki
um intervalo fechado [a, b] que n˜ao cont´em 0. Se [a, b] contivesse infinitos autovalores de C, ent˜ao haveria em [a, b] um ponto de acumula¸c˜ao de tais autovalores, o que j´a vimos ser imposs´ıvel. Assim [a, b]∩σp(C) ´e um conjunto finito. Portanto, conjuntos comoh
−kCk, −kCkn
i∩σp(C) ehkCk
n , kCki
∩σp(C) s˜ao finitos para todo n∈N. Como
σp(C)\ {0} = [∞ n=1
−kCk, −kCk n
∪ kCk
n , kCk
∩σp(C),
conclu´ımos que o lado direito ´e uma uni˜ao cont´avel de conjuntos cont´aveis (finitos). Logo, σp(C)\ {0} ´e cont´avel e, portanto,σp(C) ´e cont´avel. A afirma¸c˜ao queσp(C) ´e enumer´avel se e somente seC n˜ao for de posto finito segue disso e do item II.3.
Isso completa a prova da parteII.
Estamos agora prontos para abordar o Teorema Espectral para operadores compactos e autoadjuntos.
• O Teorema Espectral para operadores compactos autoadjuntos
Para o enunciar o Teorema Espectral para operadores compactos autoadjuntos e para simplificar sua demonstra¸c˜ao precisamos acertar algumas conven¸c˜oes.
Se C ´e um operador compacto e autoadjunto agindo em um espa¸co de Hilbert H, vimos no Teorema 39.36 que o conjunto de seus autovalores ´e cont´avel (e at´e mesmo finito, caso C seja de posto finito) e cada autovalor n˜ao-nulo ´e finitamente degenerado. Vamos denotar por λn, n ∈N, o conjunto dos autovalores n˜ao-nulos, convencionando que se um autovalorλtem multiplicidadek ent˜ao ele aparecek, vezes seguidas na contagem, de forma que tenhamos, digamos, λm = · · · = λm+k−1 = λ. Com isso, a sequˆencia λn, n ∈ N, cont´em cada autovalor repetido o n´umero de vezes correspondente `a sua multiplicidade. Podemos convencionar tamb´em que os autovalores s˜ao ordenados de tal forma que
|λk| ≤ |λl| para todok≥l, ou seja, de forma que a sequˆencia|λn|, n∈N seja n˜ao-crescente. Sabemos que autovetores correspondentes a autovalores distintos s˜ao ortogonais entre si. O subespa¸coMλ gerado pelos autovetores de autovalorλ tem dimens˜ao k, a multiplicidade deλ. Com isso, podemos encontrar emMλ um conjunto ortonormal dekautovetores φm, . . . , φm+k−1. Constitu´ımos dessa forma um conjunto ortonormalφn,n∈N, de autovetores de C, cada qual com autovalorλn: Cφn=λnφn, para todon∈N. Vamos denotar porPn o projetor ortogonal relativo a cada autovetorφn: para todo ψ∈H valePnψ:=hφn, ψiφn.
Caso C seja de posto finito, ent˜ao as sequˆencias λn, n ∈ N, φn, n ∈ N e Pn, n ∈ N s˜ao, em verdade, sequˆencias finitas. Lembramos tamb´em que casoC n˜ao seja de posto finito, ent˜ao 0 ´e o ´unico ponto de acumula¸c˜ao da sequˆencia λn,n∈N (novamente pelo Teorema 39.36), o que implica limn→∞λn = 0, fato que usaremos adiante.
Com essas conven¸c˜oes e com essa nota¸c˜ao, temos o seguinte:
Teorema 39.37 (Teorema Espectral para Operadores Compactos Autoadjuntos) Seja C um operador com-pacto e autoadjunto agindo em um espa¸co de Hilbert H. Ent˜ao, a sequˆencia de operadores de posto finito
XN n=1
λnPn, N ∈N, converge a C na norma de B(H). Assim, para todoψ∈H tem-se
Cψ = X∞ n=1
λnPnψ = X∞ n=1
λnhφn, ψiφn. (39.174)
2
Coment´arios. Enfatizamos que o espa¸co de HilbertH, no enunciado acima, n˜ao ´e necessariamente separ´avel.
ComoCφn=λnφn, a express˜ao (39.174) significa tamb´em que para todoψ∈H,Cψ= X∞ n=1
hφn, ψiCφn. Compare-se isso `as afirma¸c˜oes
do Teorema 39.33, p´agina 2142. ♣
Prova do Teorema 39.37. Seja Pm ≡ [φ1, . . . , φm], m ∈ N o subespa¸co de H gerado pelos autovetores ortonormais φ1, . . . , φmdeC. Por ser de dimens˜ao finita, cadaPm´e um subespa¸co fechado deH. Para cadaN ∈N defina-se
KN := C− XN n=1
λnPn.
CasokKMk= 0 para algumM ∈N, ent˜aoC=PM
n=1λnPn e a prova est´a completa. CasokKNk 6= 0 para todoN ∈N, procedemos da seguinte forma.
Como os vetoresφn formam um conjunto ortonormal, valePiφj =hφi, φjiHφi=δi, jφi. Logo, se 1≤l≤N, tem-se KNφl = Cφl−
XN n=1
λnPnφl = λlφl−λlφl = 0, o que significa dizer queKN aniquila o subespa¸coPN.
Os Pj’s s˜ao autoadjuntos e compactos (por serem de posto finito) e, portanto, cada KN ´e tamb´em compacto e autoadjunto. O Teorema 39.36, p´agina 2155, garante, ent˜ao, queKN possui um autovalor igual akKNk ou a−kKNk. Seja ψ um autovetor n˜ao-nulo correspondente. Teremos KNψ =cNψ onde cN =kKNk oucN =−kKNk. Como KN
aniquila o subespa¸coPN, essa igualdade e a hip´otese quecN 6= 0 implicam queψ∈(PN)⊥.
Para ver isso, lembremos que pelo Teorema da Decomposi¸c˜ao Ortogonal, Teorema 38.2, p´agina 1982, podemos escrever ψ = χ+ξ, onde χ ∈ PN e ξ ∈ (PN)⊥. Como KN ´e autoadjunto e aniquila todo vetor de PN, vale hχ, KNψiH = hKNχ, ψiH= 0. Como,KNψ=cNψ, isso diz-nos que 0 =cNhχ, ψiH =cNhχ, χiH =cNkχk2, provando queχ= 0 e queψ=ξ∈(PN)⊥.
Agora, o fato queψ∈(PN)⊥ implicaPnψ= 0 para todo 1≤n≤N. Logo, KNψ=Cψ e a igualdadeKNψ=cNψ significaCψ =cNψ, ou seja,kKNkou−kKNk´e um autovalor deC.
Quando definimos a sequˆencia λn, n∈N, convencionamos colocar consecutivamente autovalores de multiplicidade repetida e orden´a-los de modo que|λn|, n∈Nseja uma sequˆencia n˜ao-crescente. Isso implica que secN =±kKNk´e um autovalor de Ccujo autovetor n˜ao pertence aPn, ent˜ao temos|cN| ≤ |λN|, ou seja,kKNk ≤ |λN|. Agora, tamb´em pelo Teorema 39.36, limN→∞|λN|= 0, o que implica limN→∞kKNk= 0. Isso ´e precisamente o que quer´ıamos provar.
• Base ortonormal completa de autovetores de um operador compacto autoadjunto
Seja C um operador compacto e autoadjunto agindo em um espa¸co de Hilbert (n˜ao necessariamente separ´avel)H.
SejaB1={φn|n∈N}, como acima, um conjunto ortonormal cont´avel de autovetores de Ccom autovalores n˜ao-nulos.
SejaT o fecho do subespa¸co gerado pelos vetoresφn,n∈N. ´E f´acil de ver que se ψ∈T⊥, ent˜aoψ∈Ker (C). De fato, para todoψ∈T⊥ valehφn, ψiH= 0 para todo ne, por (39.174), isso implicaCψ = 0. Vemos, portanto, queH´e uma soma direta dos subespa¸cos fechadosT e Ker (C). Como Ker (C) ´e fechado, ´e um espa¸co de Hilbert e, portanto, possui uma base ortonormal completa (n˜ao necessariamente cont´avel) B0. Todos os vetores dessa base s˜ao autovetores de C com autovalor nulo. O conjunto B0∪B1 ser´a, portanto, uma base ortogonal completa em H, formada por autovalores (nulos ou n˜ao) deC. Conclu´ımos ent˜ao a prova do seguinte teorema:
Teorema 39.38 Seja C um operador compacto e autoadjunto agindo em um espa¸co de Hilbert (n˜ao necessariamente separ´avel)H. Ent˜ao, o espa¸co de HilbertH decomp˜oe-se em uma direta de subespa¸cos ortogonaisH=H0⊕
M∞ k=1
Hk
! , onde H0 := Ker (C) ´e o subespa¸co dos autovetores de C com autovalor 0 e Hk := Ker (λk1−C) ´e o subespa¸co dos autovetores de C com autovalor λk. Cada Hk com k ≥ 1 tem dimens˜ao finita e H0 pode ter dimens˜ao infinita. Por conseguinte,H possui uma base ortonormal completa formada por autovetores (com autovalores nulos ou n˜ao) de C. 2
Esse teorema pode tamb´em ser demonstrado sem evocar-se o Teorema Espectral. Para tal, considere-se o subespa¸co fechado A de H formado pela soma direta de T e Ker (C). Ou seja, A´e o subespa¸co fechado gerado por todos os autovetores deC(com autovalores nulos ou n˜ao). ComoA´e mantido invariante porC, ent˜aoA⊥ tamb´em o ´e (Corol´ario 39.4, p´agina 2053). SeP⊥ ´e o projetor ortogonal sobre A⊥, ent˜ao o fato de A⊥ ser invariante por C significa CP⊥ = P⊥CP⊥. Agora, P⊥CP⊥ ´e obviamente compacto e autoadjunto (Proposi¸c˜ao 39.78, p´agina 2140). Vamos supor que P⊥CP⊥ 6= 0. Pelo Teorema 39.36, existir´a φ ∈ H, φ 6= 0, tal que P⊥CP⊥φ = cφ, onde c = ±P⊥CP⊥. Essa express˜ao implicaφ∈A⊥ (devido ao fatorP⊥ do lado esquerdo). Assim, ela afirma queCφ=cφ. Mas isso diz-nos que φ´e autovalor deC, o que s´o ´e poss´ıvel se φ∈A. Logo P⊥CP⊥ = 0, mas isso, por sua vez, implicaCP⊥ = 0, pois CP⊥=P⊥CP⊥. Logo, para todoψ∈A⊥ teremosCψ =CP⊥ψ= 0, o que implica ψ∈Ker (C). Agora, Ker (C)⊂A e o ´unico vetor queAeA⊥ tˆem em comum ´e o vetor nulo. Provamos ent˜ao que seψ∈A⊥ ent˜aoψ= 0, ou sejaA=H. Pela defini¸c˜ao, isso diz precisamente que o conjunto ortonormalB0∪B1, que geraA, ´e uma base ortonormal completa emH, encerrando novamente a prova.
Coment´ario. Os Teoremas 39.36 e 39.38 foram demonstrados por Hilbert61, Schmidt62, Riesz63 e Schauder64. O Teorema Espectral para operadores compactos autoadjuntos foi provado por Hilbert em 1906, sendo o restante da teoria (re)elaborado pelos demais autores por volta de 1908. Esses trabalhos s˜ao os marcos iniciais da An´alise Funcional. Para mais detalhes hist´oricos desses importantes desenvolvimentos, vide
[95]. ♣
• O caso de operadores compactos n˜ao-autoadjuntos
O Teorema Espectral demonstrado acima para operadores compactos e autoadjuntos pode ser, como veremos, esten-dido em um certo sentido para operadores compactos n˜ao-autoadjuntos. J´a observamos, por´em, que nem todo operador
61David Hilbert (1862–1943).
62Erhard Schmidt (1876–1959).
63Frigyes Riesz (1880–1956).
64Juliusz Pawel Schauder (1899–1943). Schauder foi tragicamente assassinado pela Gestapo.
compacto em espa¸cos de dimens˜ao infinita possui autovalores. Assim, esperamos alguma diferen¸ca em rela¸c˜ao ao caso autoadjunto, pois na decomposi¸c˜ao espectral (39.174) s˜ao os autovaloresλn deCque comparecem. A observa¸c˜ao crucial vem do fato que|C|:=√
C∗C´e compacto e autoadjunto (Proposi¸c˜ao 39.82, p´agina 2145) e, pelo Teorema 39.36, p´agina 2155, possui autovalores, valendo inclusive o Teorema 39.37.
Seja C um operador compacto mas n˜ao necessariamente autoadjunto e seja C = U|C| sua decomposi¸c˜ao polar (Teorema 39.31, p´agina 2136). Pela Proposi¸c˜ao 39.82, p´agina 2145, sabemos que|C|´e compacto, autoadjunto e positivo.
Podemos, pelo Teorema Espectral para operadores compactos e autoadjuntos, Teorema 39.37, p´agina 2158, escrever
|C| = X∞ n=1
µnhφn, · iφn, (39.175)
ondeµns˜ao os autovalores positivos de|C|(os quais s˜ao positivos pois|C|´e um operador positivo) eφnos correspondentes autovetores normalizados. Usando a decomposi¸c˜ao polarC=U|C|, temos ent˜ao
C = X∞ n=1
µnhφn, · iU φn.
Lembremos que, pelo Teorema da Decomposi¸c˜ao Polar (Teorema 39.31, p´agina 2136), Ker (U) = Ker |C|
= Ker (C), de modo queU φn 6= 0, poisµn >0. Se definirmos ψn :=U φn, teremoshψn, ψmi=hU φn, U φmi=hφn, φmi=δm, n, a segunda igualdade decorrendo do fato deU ser uma isometria parcial (e do fato queU φn6= 0 para todo n∈N). Isso mostra que os vetoresψn, tal como os vetoresφn, formam um conjunto ortonormal.
Em resumo, o que conclu´ımos desses coment´arios ´e o seguinte:
Teorema 39.39 (Representa¸c˜ao Canˆonica de Operadores Compactos) Seja C um operador compacto agindo em um espa¸co de Hilbert H. Ent˜ao, existem n´umeros positivos µn, n ∈ N (denominados valores singulares do ope-radorC) e conjuntos ortonormais φn, n∈N, eψn, n∈N, emH tais que
C = X∞ n=1
µnhφn, · iψn , (39.176)
a convergˆencia da s´erie de operadores do lado esquerdo se dando na norma de B(H). Se C for de posto finito, a soma acima ser´a finita. Assim, para todoχ∈H podemos escrever
Cχ = X∞ n=1
µnhφn, χiψn , (39.177)
A representa¸c˜ao (39.176), ou (39.177), ´e denominada representa¸c˜ao canˆonica do operador compactoC. 2
Nota. Definindo os operadores lineares e limitadosQnχ:=hφn, χiψn,n∈N, podemos escrever (39.176) na forma C =
∞
X
n=1
µnQn.
Note-se que os operadoresQns˜ao compactos (por serem de posto finito) e satisfazemQ2n=hφn, ψniQn(verifique!) e geralmente n˜ao s˜ao,
portanto, projetores, nem sequer s˜ao autoadjuntos, exceto seφn=ψn. ♣
A express˜ao (39.176) est´a tamb´em dizendo-nos que todo operador compactoCagindo em um espa¸co de Hilbert pode ser aproximado em norma por operadores de posto finito. Isso generaliza o Teorema 39.33, p´agina 2142, pois aqui n˜ao precisamos supor queHseja separ´avel.
A decomposi¸c˜ao (39.176) generaliza para operadores compactos em espa¸co de Hilbert a decomposi¸c˜ao em valores singulares para matrizes, a qual foi apresentada na Se¸c˜ao 10.8.2, p´agina 542.
• Valores singulares de um operador compacto
Os n´umerosµn que comparecem em (39.176) e (39.177) s˜ao denominadosvalores singularesdo operador compactoC.
Vemos que trata-se dos autovalores de |C|. O operador Cn˜ao necessariamente tem autovalores mas sempre tem valores singulares e, por isso, h´a que se fazer a distin¸c˜ao entre ambos os conceitos.
E. 39.44 Exerc´ıcio. Mostre que a representa¸c˜ao canˆonica do operador compacto n˜ao-autoadjuntoC:ℓ2(N)→ℓ2(N) definido no Exerc´ıcioE. 39.43, p´agina 2147, ´e
Ca = X∞
k=1
1
k hek, aiek+1, paraa∈ℓ2(N), ondeek∈ℓ2(N)´e o vetor cujal-´esima componente ek
l´e dada por ek
l=δk, l. 6
• Operadores nucleares
J´a comentamos `a p´agina 2143 que nem todo operador compacto agindo em espa¸cos de Banach pode ser aproximado por operadores de posto finito. Para espa¸cos de Hilbert, por´em, isso ´e verdade, como atesta a express˜ao (39.177). No entanto, essa mesma express˜ao motiva uma importante defini¸c˜ao que apresentaremos e discutiremos brevemente aqui: a deoperadores nucleares, no¸c˜ao introduzida por Grothendieck65.
Sejam XeYdois espa¸cos de Banach. Um operador limitadoN :X→Y´e dito ser umoperador nuclearse existirem constantesµn>0, n∈N, comP∞
n=1µn <∞, funcionais lineares cont´ınuos ln∈X† comklnkX†= 1 para todon∈N e vetoresyn ∈YcomkynkY= 1 para todon∈N, tais que
N x = X∞ n=1
µnln(x)yn, (39.178)
para todo x∈X.
A condi¸c˜ao P∞
n=1µn < ∞, ´e inclu´ıda por ser suficiente para garantir convergˆencia do lado direito da express˜ao (39.178). Pela express˜ao (39.177), vemos que um operador compacto em um espa¸co de Hilbert ´e nuclear se e somente se a sequˆencia de seus valores singulares for som´avel.
E. 39.45 Exerc´ıcio-exemplo. Sejaψn,n∈N, um conjunto ortonormal de vetores em um espa¸co de HilbertHe sejaPno projetor ortogonal sobreψn. O operador
C = X∞
n=1
1 nPn
´e compacto (vide o exemplo da equa¸c˜ao (39.160)) mas n˜ao ´e nuclear. Justifique essas afirma¸c˜oes. 6
Como exerc´ıcio, deixamos ao leitor demonstrar as seguintes afirma¸c˜oes, v´alidas no contexto geral de espa¸cos de Banach: 1. todo operador de posto finito ´e nuclear (isso ´e evidente, ali´as);2. todo operador nuclear ´e compacto;3. toda combina¸c˜ao linear de dois operadores nucleares ´e novamente um operador nuclear;4. o produto (`a direita ou `a esquerda) de um operador nuclear por um operador cont´ınuo ´e novamente um operador nuclear. Vide [429].
39.9 O Teorema Espectral para Operadores Limitados Auto-adjuntos em Espa¸ cos de Hilbert
Na presente se¸c˜ao trataremos do Teorema Espectral para operadores limitados autoadjuntos agindo em espa¸cos de Hilbert em suas diversas formas. Seguiremos proximamente [315], mas completaremos v´arias lacunas daquela exposi¸c˜ao.