O que seria então o território vulnerável a partir dos conceitos relatados acima? A desigual-dade, a pobreza e a exclusão territorial seriam os definidores de território vulnerável? Seriam as relações de poder e fatores ambientais? Ou ainda seria estar suscetível a riscos e perigos aliado à falta de resiliência diante de tal situação?
A constituição do território como Estado-Nação leva em conta a topografia, o relevo e hidro-grafia, mas, certamente, na conceituação do território vulnerável não é a divisão política que nos interessa. Considera-se mais interessante analisar a fragmentação do espaço geográfico obtida por meio de intervenções urbanísticas (ferrovias, rodovias, estradas e córregos) ou até mesmo pela divi-são de poderes que regem esse território, criando fronteiras invisíveis nas quais as divisões políticas passam a ser menos relevantes do que as sociais.
Por isso, quando quisermos definir qualquer pedaço do território, como por exem-plo uma região, ou mesmo, uma unidade da federação, devemos levar em conta a interdependência e a inseparabilidade entre a materialidade, que inclui a natu-reza, e o seu uso, que inclui a ação humana, isto é, o trabalho e a política. Em ou-tras palavras, é preciso examinar paralelamente os fixos, aquilo que é imóvel como as estradas, as ferrovias, os portos, as telecomunicações, as áreas agrícolas, de mineração ou da indústria, e os fluxos, aquilo que é móvel como os transportes, o dinheiro, a informação e as ordens (SILVEIRA, 2011, p. 2).
Para um território ser definido como vulnerável deve-se levar em conta não só as caracterís-ticas do território em si, mas quem são as pessoas que ali vivem. Assim, tem-se duas vertentes:
a do lugar, espaço geográfico, e a das pessoas que vivem nesses territórios, espaço social; e dois indicadores: a pobreza, indicador econômico e social, e a exclusão, indicador social e territorial.
Alex Pizzio e Márcia Silva (2016) abordam a vulnerabilidade territorial por meio de uma refle-xão sobre o agir social - os sujeitos e suas condições sociais - e sobre a dinâmica territorial, a partir
da perspectiva do desenvolvimento humano com base nos espaços vividos, no território usado, e nas relações que nele se desenvolvem.
O termo vulnerável, quando aplicado ao território, normalmente, mas não sempre, vem vin-culado à vulnerabilidade social, como uma questão social de pobreza e exclusão, com ênfase nos aspectos socioeconômicos. Porém, nesse estudo também se verifica a vulnerabilidade ambiental e os fatores climáticos que podem atribuir essa definição ao território.
A vulnerabilidade socioambiental é definida por Humberto Alves (2006, p. 43) como a “coe-xistência ou sobreposição espacial entre grupos populacionais muito pobres e com alta privação (vulnerabilidade social) e áreas de risco ou degradação ambiental (vulnerabilidade ambiental)”.
Ou seja, a vulnerabilidade social, representada por meio de índices políticos, culturais e econômicos, e a vulnerabilidade ambiental, traduzida por perigos naturais, climáticos e tecnológicos - poluição e contaminação industrial – quando aplicadas a uma distribuição espacial, também podem ser vin-culadas ao conceito de território vulnerável. (MARANDOLA JR; HOGAN, 2006)
As relações tanto sociais como ambientais podem gerar diferentes riscos e perigos tornando, assim, o território vulnerável. Essa fragilidade pode surgir tanto das relações existentes no território, identificação, segurança e marginalização, quanto na probabilidade que tem o local de ser afetado por perigos naturais ou industriais/ tecnológicos. Em um ambiente despreparado, os fenômenos na-turais, como tempestades e enchentes por exemplo, podem causar danos irreversíveis como a des-truição de edificações precárias. Diante de tal situação, a falta de infraestrutura, como a existência de esgoto a céu aberto, pode contaminar o solo e, consequentemente, a população que por ali tran-sita. A exposição a essas carências e a potenciais perdas, devido à negligência do estado, à falta de recursos e à impossibilidade de controlar o clima acabam sendo o dia a dia das pessoas que vivem nesses territórios. O risco e o perigo diário reforçam a condição vulnerável na qual se encontram.
TERRITÓRIO VULNERÁVEL
No livro Família, escola e território vulnerável, Antônio Batista e Hamilton Carvalho-Silva (2013, p. 31) consideram “territórios vulneráveis”:
[...] os espaços criados nas metrópoles pelas desigualdades socioespaciais e que conjugam, no caso da cidade de São Paulo, localização periférica, isolamento espacial e grande concentração de baixa renda e escolaridade, implicando, desse modo, segregação socioespacial, bem como reduzido acesso da população a direitos básicos.
Geralmente permeados por construções ilegais, que correm o risco de ser removidas a qual-quer momento, esses territórios são apropriados por falta de opção, o que torna mais difícil a iden-tificação dos moradores com o local. Além disso, as redes que nele se formam surgem em função da fragilidade da situação dos habitantes. Sua situação econômica e as condições precárias do território se assemelham. A falta de recursos, em muitos casos, representa a escolha do território.
No conceito de território, percebe-se poder, domínio e apropriação de uma área sobre a qual é exercido certo controle. Ao inserir o termo vulnerável, de certa forma, insere-se a antítese desse controle, incorporando ao território o risco, o perigo e as situações que, justamente, fogem do contro-le. O território vulnerável, portanto, é marcado pela ausência de controle, é um local onde as leis não são cumpridas e os direitos dos cidadãos não são respeitados. Mas, não se pode negar a existência, nesses locais, de alguma liderança que ali reside e, de certa maneira, domina e controla o ambiente.
Esse domínio é político e as leis que lá vigoram são o resultado de acordos pontuais que variam de uma região para a outra.
TRO COMUNITÁRIO: CRITÉRIOS DE SELEÇÃO E ANÁLISE