2. A Cibercriminalidade, o Terrorismo e o Ciberterrorismo
2.2. O Terrorismo e o Ciberterrorismo
2.2.1. O Terrorismo
Antes de mais importa aqui referir que o terrorismo surge como um atentado à segu- rança internacional, o qual iremos sumariamente estudar de seguida.
Deste modo, recuemos ao século XX, onde o Realismo veio consagrar a “conceção de segurança legada por Maquiavel, Hobbes e Clausewitz: o Estado soberano, ator unitário, como objeto e provedor da segurança; a segurança nacional559 como principal nível da segurança; a sociedade internacional anárquica560 de onde decorrem as ameaças, como ambiente em que se desenvolve a problemática da segurança dos Estados; o conflito inte- restadual como tipo dominante de conflito; a força militar e a diplomacia como meios usa- dos pelo Estado para providenciar pela sua segurança; a política de defesa como política de segurança político-militar em relação a ameaças externas; e a separação entre segurança externa e segurança interna”561.
Historicamente, o conceito de segurança aparece especialmente associado à ideia de segurança militar e do Estado562. Neste modelo, a “segurança nacional assume-se como um sistema de sistemas, assentes em conceitos estratégicos autonomizados mas sistematica- mente interdependentes e ancorados numa filosofia de ação em que a complementaridade e a subsidiariedade são elementos essenciais”563.
A segurança pode ser definida como a ausência de uma ameaça à estabilidade e sobe- rania do Estado. Deste modo, devido à evolução da sociedade humana e à globalização, o conceito de segurança sofreu alterações significativas, sendo que algumas dessas transfor- mações resultaram da presença do fenómeno da violência, que se traduz, sobretudo, num sentimento de insegurança, o qual é causado pela perceção de insegurança e pelo medo.
Associado à insegurança e ao medo surgiu o fenómeno do terrorismo, o qual entrou no nosso léxico com a Revolução Francesa de 1789, uma vez que, nos primeiros anos da Revolução, “os Governos tentavam impor a nova ordem, em grande parte, através da vio-
559 Defesa da soberania, da integridade territorial, dos valores e dos interesses dos Estado. 560 Descentralizada, competitiva, sem autoridade supra-estadual.
561 BRANDÃO, Ana – As tendências Internacionais e a posição de Portugal. In Actas. I Congresso Interna- cional do OBSERVARE. Lisboa: Universidade Autónoma de Lisboa, 2011. p. 5.
562 Esta alteração da natureza da segurança acontece no quadro complexo dos processos sociais, económicos, políticos e tecnológicos associados à globalização. No contexto de uma conflitualidade global, defende-se a ideia de se estar perante um novo paradigma de segurança, emergente nestas últimas duas décadas.
563 LOURENÇO, Nelson – As Novas Fronteiras da Segurança – Segurança Nacional, Globalização e Moder- nidade. In Segurança e Defesa. N.º 31 – fevereiro-junho 2015. Lisboa. p. 26.
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lência. Como resultado, o primeiro significado da palavra "Terrorismo", conforme regista- do pela Académie Française em 1798, foi de sistema ou regra de terror”564.
Todavia, a sua definição não é linear, considerando que o conceito de terrorismo “deriva da diversidade de motivos que mobilizam os terroristas, dos fins que prosseguem e dos métodos que empregam, combinado com o facto de que o terrorista, que alguns denun- ciam, é o lutador pela liberdade que outros prezam”565.
Com efeito, o ataque terrorista define-se por ser efetuado de “surpresa, pela sua vio- lência extrema e por ter como alvo preferencial a população, locais ou infraestruturas de utilização massiva, havendo enorme probabilidade de ocorrência de um elevado número de vítimas. Provoca o terror, o pânico e o medo constante, obrigando as pessoas a viverem em permanente sobressalto, condicionando o seu normal modo de vida”566.
Com o passar dos anos, o conceito inicial de terrorismo foi-se adaptando à nossa rea- lidade, pelo que se considera a alteração do seu paradigma na década de 1990, a partir do momento em que Osama Bin Laden se tornou líder do movimento islâmico, a Al-Qaeda.
Esta alteração alavancou-se nas declarações públicas deste novo líder, o qual eviden- ciava “uma mistura de extremismo religioso, desprezo para com os atuais regimes árabes, hostilidade face ao domínio dos EUA e insensibilidade quanto aos efeitos que as suas ações provocavam”567. Deste modo, germinava um “novo tipo de movimento terrorista, com uma determinada causa, organizado em rede, que não se limitava a um único Estado e cujos apoiantes estavam dispostos a cometer suicídio para destruir os seus adversários”568.
Assim, o terrorismo assenta num “método onde através da adoção de medidas violen- tas, sejam estas de caráter físico ou psicológico, praticada por indivíduos provenientes de grupos políticos, ou ideológicos, que visa por em causa a ordem estabelecida, e que estes mesmos actos se podem manifestar através de ataques a indivíduos, a grupos de indiví- duos, ou ainda e numa escala mais abrangente, a um governo ou uma população”569.
Deste modo, constate-se que o terrorismo, enquanto crime internacional, pode assu- mir diferentes formas e manifestações. As suas atividades visam a destruição dos direitos
564 VARINO, Alexandre – Terrorismo: a interrupção de sistemas. Lisboa: Instituto de Estudos Superiores Militares, 2012. Trabalho de Investigação Individual do CEMC – 2011/12. p. 6.
565 Ibidem. 566 Ibidem.
567 VARINO – Op cit. p. 7. 568 Ibidem.
569 FERREIRA, Renato – Globalização e Segurança. Um mundo em mudança. In CEDIS Working Papers. Direito, Segurança e Democracia. N.º 8 Lisboa: Universidade Nova de Lisboa, Faculdade de Direito, 2015. p. 30.
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humanos e das liberdades fundamentais. O mesmo pode ainda divergir quanto aos atos, os métodos e as práticas terroristas.
A ideia de incluir o terrorismo como um dos crimes mais graves que afetam a comu- nidade internacional encontra-se patente no projeto de Estatuto do TPI da Comissão de Direito Internacional de 1994570.
Esta temática não foi, contudo e mais uma vez, abordada na Conferência de Revisão de Kampala de 2010. Indubitavelmente, a principal dificuldade prende-se com a ausência de uma definição jurídico-política universal consagrada numa convenção global sobre o terrorismo internacional, prescrevendo que os atos terroristas em grande escala constituem um crime internacional571.
Com efeito, o terrorismo poderá ser compreendido como a “utilização ilegal de força ou de violência planeada contra pessoas ou património, na tentativa de coagir ou intimidar governos ou sociedades para atingir objetivos políticos, religiosos ou ideológicos”572.
Segundo o Professor António Lara, o terrorismo “inclui todos os atentados e agres- sões que visam generalizar um dano de monta a um paciente previamente indefinido, anó- nimo ou indistinto. É relativamente irrelevante quem morre ou fica ferido, desde que morra ou fique ferida muita gente (…) também pode visar um alvo concreto que se quer pressio- nar, eliminar, chantagear, fazer desaparecer de cena ou condicionar de forma definitiva, com vista a alterar o paralelograma de forças ou o circunstancialismo político de uma determinada correlação vigente”573.
Por outro lado, os ataques perpetrados no dia 11 de setembro de 2001 aos EUA tive- ram o condão de mudar de forma perene o paradigma da segurança mundial.
Estes ataques impactaram na forma como a segurança passou a ser entendida mun- dialamente. Desta forma, a ameaça passou a assumir uma natureza transnacional, ditando “a investigação sobre a relação entre segurança interna e a segurança externa e sobre os atores estaduais como fontes de insegurança. Em sentido inverso, a resposta à ameaça, sig-
570 A proposta da Comissão consistiu na integração de um artigo (o art.º 20.º) que contemplava, a par dos crimes de genocídio, de agressão, de violações graves das leis e costumes aplicáveis em conflitos armados e de crimes contra a humanidade, uma alínea específica, a alínea e), relativa aos “treaty crimes” nos quais se inseria o terrorismo.
571 Vários autores frisam que atos de terrorismo internacional, como os ataques de 11 de setembro de 2001, poderiam ser considerados como crimes contra a humanidade de acordo com o art.º 7.º do Estatuto e julgados pelo TPI.
572 Esta é a definição de Terrorismo da OTAN, expressa no MC 472. OLIVEIRA, Guerreiro – Terrorismo Transnacional. Conhecer o Inimigo. Lisboa: Instituto de Estudos Superiores Militares, 2008. Trabalho de Investigação Individual do CEMC – 2007/08. p. 4.
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nificou o retorno do Realismo”574, na perspetiva de adoção de “políticas que reforçam as fronteiras (físicas, biométricas e digitais) e o Estado como provedor de segurança, ataques territoriais, e segurança militar”575.
Contudo, o terrorismo, assumindo diversas formas, ainda não atingiu uma definição consensual, embora possa expressar, lato sensu, um clima de medo e terror576.
Depois dos atentados de 11 de setembro de 2001, os quais tiveram o seu foco na imprevisibilidade, o terrorismo deu mostras da sua vitalidade com os atentados de 2004 em Madrid577, de 2005 em Londres ou de 2010 em Moscovo.
Se os ataques de 11 de setembro de 2001 relançaram a questão sobre atos terroristas em grande escala poderem constituir “crimes internacionais” e recair sob a alçada do TPI, presentemente podem-se enunciar diversos argumentos que fundamentam a consagração do terrorismo como crime da competência deste Tribunal. Os referidos ataques foram con- siderados pelo CS como uma ameaça à paz e segurança internacionais, através da Resolu- ção n.º 1368, de 2001. Em várias Resoluções, este órgão reafirmou que o terrorismo em todas as suas formas e manifestações constitui uma das ameaças mais graves à paz e segu- rança internacionais, tendo a Estratégia Global de Combate ao Terrorismo da Assembleia Geral das NU de 2006 se referido a este fenómeno578 nos mesmos termos579.
Em complemento, sublinhe-se que os atentados de 11 de setembro de 2001 contribuí- ram para o aumento do sentimento de insegurança na ordem mundial. Como vimos, apesar de os EUA serem o principal alvo do terrorismo e, noutro patamar, o Reino Unido, a Espa- nha, a França ou a Rússia, certo é que nenhum lugar do mundo pode traduzir um sentimen- to de segurança absoluto, pois o novo paradigma do terrorismo, de natureza global e trans- nacional, assenta na incerteza e imprevisibilidade.
574 BRANDÃO – Op cit. p. 10. 575 Ibidem.
576 Os fenómenos da criminalidade organizada e do terrorismo, embora concetualmente diferentes, mas inse- ridos numa ameaça transnacional, podem conduzir a um interessante debate sobre o esbatimento de fronteiras entre a Segurança e Defesa.
577 “Depois do atentado contra as Torres Gémeas, um dos atos terroristas que mais afetou a atenção da opi- nião pública, não apenas espanhola, mas mundial, foi o que teve lugar em 11 de março de 2004, em Madrid, sempre tendo por objeto e finalidade, quebrar a relação de confiança entre a população e a estrutura governa- tiva.” MOREIRA, Adriano – A estratégia global contra o terrorismo. In Jornal Público. Ed. 01 de julho de 2014. p. 46.
578 A sua gravidade é acentuada pelas diferentes e múltiplas formas e manifestações que assume perpetrado também por atores não estatais, grupos que recorrem a diferentes métodos e detêm diferentes motivações. 579 Além disso, o princípio nullum crimen sine lege ao prever que nenhuma pessoa poderá ser criminalmente responsabilizada pela sua conduta quando esta não constitua, no momento que tiver lugar, um crime de com- petência do Tribunal (art.º 22.º), poderia significar que os autores de atos terroristas, a coberto deste princí- pio, permaneceriam impunes.
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Deste modo, refira-se que o terrorismo é instrumental, ou seja, é um meio e não um objetivo final, servindo deste modo para influenciar a opinião pública, através do recurso sistemático ao terror, bem como pela indiscriminação das vítimas a atingir e pela violência utilizada, a fim de evidenciar a incapacidade do Estado para proteger os seus cidadãos e, de igual modo, criar um clima de medo que impeça o normal funcionamento da sociedade. Neste particular, é necessário sempre algum cuidado na análise das suas motivações ou objetivos a atingir, porque os seus propósitos nem sempre são imediatos ou evidentes.
Como tal, para conseguirmos ter uma visão mais abrangente sobre as diferentes ten- tativas de concetualização do terrorismo, devemos igualmente conhecer a perspetiva insti- tucional do fenómeno vertida em diversos documentos oficiais, sejam eles: de caráter polí- tico, como no caso do Conselho da UE que entende o terrorismo como um “ato que, pela sua natureza ou pelo contexto em que for cometido, seja suscetível de afectar gravemente um País ou Organização Internacional (OI), quando o seu autor vise intimidar gravemente uma população ou constranger indevidamente os poderes públicos ou uma OI, a praticar ou abster-se de praticar qualquer ato, ou desestabilizar gravemente ou destruir as estruturas fundamentais políticas, constitucionais, económicas ou sociais de um País ou de uma OI”580; ou de âmbito da doutrina militar, como o caso da OTAN, que entende o terrorismo como uma “utilização ilegal de força ou de violência planeada contra pessoas ou patrimó- nio, na tentativa de coagir ou intimidar governos ou sociedades para atingir objectivos polí- ticos, religiosos ou ideológicos”581.
Já o ordenamento jurídico português, através da Lei 52/2003, de 22 de agosto582, define o terrorismo como sendo “a atuação concertada de duas ou mais pessoas, que vise prejudicar a integridade e a independência nacionais, impedir, alterar ou subverter o fun- cionamento das instituições do Estado previstas na Constituição, forçar a autoridade públi- ca a praticar um ato, a abster-se de o praticar ou a tolerar que se pratique, ou ainda intimi- dar certas pessoas, grupos de pessoas ou a população em geral, mediante diversas formas de crime: a) crime contra a vida, a integridade física ou a liberdade das pessoas; b) crime contra a segurança dos transportes e das comunicações, incluindo as informáticas, telegrá- ficas, telefónicas, de rádio ou de televisão, instalações de serviços públicos ou destinadas
580 Considerando (8) da Diretiva (UE) 2017/541 do Parlamento Europeu e do Conselho de 15 de março de 2017 relativa à luta contra o terrorismo e que substitui a Decisão-Quadro 2002/475/JAI do Conselho e altera a Decisão 2005/671/JAI do Conselho. [Em Linha]. [Consult. 24 Mar. 2020]. Disponível em WWW:<URL:https://eur-lex.europa.eu/legal-content/PT/TXT/HTML/?uri=CELEX:32017L0541&from=EN. 581 OLIVEIRA – Op cit. p. 4.
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ao abastecimento e satisfação de necessidades vitais da população; c) crime de produção dolosa de perigo comum, através de incêndio, explosão, (…); d) actos que destruam ou que impossibilitem o funcionamento (…) de meios ou vias de comunicação, instalações de ser- viços públicos ou destinadas ao abastecimento e satisfação de necessidades vitais da popu- lação; e) investigação e desenvolvimento de armas biológicas ou químicas; f) crimes que impliquem o emprego de energia nuclear, armas de fogo, biológicas ou químicas, substân- cias ou engenhos explosivos, meios incendiários de qualquer natureza, encomendas ou cartas armadilhadas, sempre que, pela sua natureza ou pelo contexto em que são cometi- dos, estes crimes sejam susceptíveis de afetar gravemente o Estado ou a população que se visa intimidar”.
Ao nível académico, o terrorismo é analisado sobretudo no que diz respeito aos métodos, enquanto os políticos analisam o fenómeno no que toca aos seus objectivos e motivações. Do ponto de vista jurídico, apesar da definição supracitada, é de igual modo particularmente difícil alcançar um conceito de terrorismo, principalmente devido ao facto do terrorismo em si não ser um crime, pois é “apenas” um meio para atingir um fim, ou seja, todas as suas consequências – mortes, ferimentos, destruição, entre outras –, já estão devidamente tipificadas legalmente – homicídio, ofensas às integridade física, danos, entre outros –, tal como os seus atos preparatórios, nos casos em que a tentativa é criminalmente punível. Daqui deriva uma dificuldade que reside no facto de não haver meio de aferir objetivamente a intenção, motivação ou ideologia que serve de base ao ato terrorista.
Logo, como constatámos, a definição de terrorismo não é simples de conseguir, uma vez que, mais do que uma mera definição teórica ou ideológica, o próprio conceito encerra em si mesmo problemas de índole prática na sua prevenção e combate.
Todavia, alguns pontos comuns são identificáveis nas suas diferentes conceções: ameaça ou uso da violência (extrema) indiscriminada para atingir os seus objetivos políti- cos, os quais muitas vezes são camuflados em motivos sociais ou religiosos; imprevisibili- dade das suas ações ou dos seus alvos; forma de conflito assimétrico e não convencional; o principal objetivo das suas ações é provocar o medo e o alarme; e, regra geral, é levado a cabo por grupos organizados que têm um propósito político583 definido.
Por outro lado, podemos ainda constatar que o terrorismo possui motivações racio- nais, psicológicas, culturais, mas sobretudo políticas, sendo os seus objectivos demonstrar a vulnerabilidade e impotência do respetivo governo, atrair a simpatia da opinião pública
583 As suas causas assentam, regra geral, no fundamentalismo religioso, no racismo, no desejo de indepen- dência nacional e/ou na revolta social.
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pela escolha de alvos cuidadosamente selecionados que podem ser publicamente racionali- zados, causar uma polarização e radicalização entre o público, levar o governo a tomar ações repressivas que provavelmente afetarão a sua legitimidade e credibilidade e apresen- tar os atos de violência para que pareçam atos heróicos. Por último, as suas consequências podem levar à morte, ao terror, à insegurança, à vingança, a represálias, à confusão, à incoerência e até ao desgoverno de um Estado.
Em complemento, importa igualmente referir outras ameaças que deverão ser consi- deradas, devido à sua pertinência e efeito destrutivo.
Neste sentido, a proliferação das Armas de Destruição Maciça (ADM) é potencial- mente a maior ameaça à nossa segurança, apesar de os regimes instaurados pelos tratados internacionais e os mecanismos de controlo das exportações terem conseguido abrandar a proliferação das ADM e dos respetivos sistemas de lançamento. Contudo, o progresso das ciências biológicas pode vir a aumentar a potência das armas biológicas nos próximos anos; os ataques com produtos químicos e materiais radiológicos constituem também uma séria possibilidade. A disseminação da tecnologia em matéria de mísseis vem trazer igual- mente um novo elemento de instabilidade584.
No que respeita à criminalidade organizada, a grande parte das atividades dos grupos criminosos consiste no tráfico transfronteiriço de droga, mulheres, migrantes clandestinos e armas. A criminalidade organizada pode igualmente estar ligada ao terrorismo. O incre- mento da pirataria marítima representa uma nova dimensão da criminalidade organizada à qual deverá doravante ser consagrada maior atenção.
A conjugação de todos estes elementos será a principal ameaça a ter em conta, uma vez que o terrorismo está determinado a fazer uso da máxima violência, pelo que a dispo- nibilidade de armas de destruição maciça à criminalidade organizada(inclui cibercriminali- dade), acaba por provocar um enfraquecimento do sistema estatal e a privatização da força, o que poderá colocar-nos perante uma ameaça verdadeiramente radical.
Neste sentido podemos indicar assim um conjunto de ameaças que afetam a seguran- ça internacional: proliferação de armas de destruição massiva, com eventual combinação de ameaça nuclear, química, biológica e radiológica; o terrorismo internacional; a crimina- lidade transnacional, violenta e organizada; os ciberataques, ciberterrorismo, e cibercrimi-
584 O cenário mais assustador é o da aquisição de armas de destruição maciça por parte de grupos terroristas. Se tal acontecesse, um pequeno grupo teria capacidade para infligir danos a uma escala que antes se encon- trava apenas ao alcance dos Estados e dos exércitos.
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nalidade; os conflitos regionais; as crises humanitárias e desastres naturais; e a pirataria internacional, sobretudo marítima.
Recorde-se que, os atentados com maior impacto mundial, o caso do 11 de setembro e do 11 de março, evidenciaram uma série de fenómenos típicos de um mundo globalizado, que passa pela impotência dos aparelhos militares contra inimigos invisíveis, e relembra as estratégias políticas e económicas dos Estados no espaço global, destacando a mobilidade das empresas que atuam nestes cenários. Perante os atentados ocorridos em 2001 nos Esta- dos Unidos, o terrorismo passaria a ser classificado como a maior ameaça à segurança internacional.
Com efeito, atualmente estamos perante um conjunto alargado de definições de terro- rismo, sendo que a maioria se insere no conceito de Estado Falhado, em que a fragilidade do próprio Estado leva ao colapso das instituições estatais, instrumentos responsáveis pela segurança, bem-estar. Face a este conjunto de debilidades enumeradas anteriormente os Estados perdem a legitimidade do exercício do poder, associada a uma instabilidade políti- co-social, acrescido do facto de perderem o monopólio do uso da força e da capacidade de controlarem o território nacional, gera o aumento da violência e o caos, o que favorece o