CAPITULO I - OS DIREITOS HUMANOS FUNDAMENTAIS NAS RELAÇÕES DE
1.6 O trabalho como direito social fundamental
42 Entretanto, não basta apenas a conquista de direitos, mas, sim, a luta para que estes direitos conquistados em um processo histórico longo sejam efetivamente exercidos, uma vez que, não bastam apenas declarações de direitos, mas sim, justiça e eficácia social dos direitos para que realmente se possa falar em direitos fundamentais do ser humano.
43 No entanto, é evidente que o tempo trouxe mudanças significativas e positivas, ao proporcionar mudanças no contexto das relações de trabalho, promovendo maior equidade.
(SÃO PEDRO, 2013).
Para Francisco (2009) o direito do trabalho tem como um dos primeiros fundamentos a proteção do trabalhador, sendo oriundo da reformulação do quadro social originado no capitalismo, que se organizou a partir da ascensão do movimento operário aos mecanismos de regulação social, principalmente o estatal, que visava inserção a máxima e digna proteção dos trabalhadores no ambiente laboral.
A exigência do direito ao trabalho decorre de fatos que vão além da sobrevivência, mas é norteado por processos que visam assegurar a dignidade do ser humano enquanto direito fundamental e que propicia a satisfação pessoal. Nesse sentido o direito ao trabalho vai além da finalidade de subsistência, configura-se como um meio que está em consonância com o direito à vida, visto que, sem o trabalho não há modos de se garantir o sustento de si e da família, passando o indivíduo por sua vez a dependência do Estado.
Para Miraglia (2009) o direito do trabalho deve refletir a realidade social de determinada época, se fortalecendo e assim se consolidando como instrumento da justiça social. Desse modo, o meio justrabalhista deve ser descentralizado, almejando abranger o maior número possível de trabalhadores excluídos, incorporando as novas técnicas e formas de contratação de mão-de-obra, possibilitando-lhes, assim, o usufruto real de seu manto protetivo. O Brasil carece, na atual conjuntura, de mecanismos que possam garantir a ampliação do ramo jurídico trabalhista e a plena concretização dos seus princípios e fundamentos, pois somente a partir dessa conduta se alcançará a plena democracia.
No ensejo do direito do trabalho, Calil (2010) há legislações que protegem os direitos humanos dos trabalhadores, cujas leis visam determinar os limites do poder ao empregador. Entretanto, apesar da obviedade de seu poder diretivo, o contratante ao dar ordens e exigir o seu cumprimento, deve limites, imposto pela lei, cujas delimitações se encontram em um plano mais amplo, que é o dos direitos e garantias fundamentais da pessoa humana. O poder diretivo é de tal proporção que mesmo na alçada da punição, que o Estado tomou para si de todos os outros ramos do direito, permanecem residualmente no direito do trabalho, em que reside a capacidade do empregador de punir o empregado com suspensão e dispensa por justa causa, reconhecendo ainda o direito ao trabalho como um direito social, contudo a legislação trabalhista vai além e visa garantir os direitos humanos dos trabalhadores.
44 Pois bem (SUIAMA, 2004), dentre os direitos fundamentais reconhecidos por nosso sistema constitucional está o direito ao trabalho, arrolado ao lado de outros direitos sociais no art. 6º da Constituição de 1988, in verbis: “São direitos sociais a educação, a saúde, o trabalho, a moradia, o lazer, a segurança, a previdência social, a proteção à maternidade e à infância, a assistência aos desamparados, na forma desta Constituição”.
Na Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão (1789), deu-se o reconhecimento do direito ao trabalho como direito inalienável, sendo também apresentado pela Declaração Universal dos Direitos Humanos, promulgado pela Organização das Nações Unidas, em 1948. Os textos basilares dos Direitos Humanos mostram o direito ao trabalho como um direito social, entretanto sua inserção em Cartas de Direitos Fundamentais de reconhecimento global mostra a relevância, que o trabalho tem para a esfera dos direitos humanos.
Artigo 23
I) Todo o homem tem direito ao trabalho, à livre escolha de emprego, a condições justas e favoráveis de trabalho e à proteção contra o desemprego.
II) Todo o homem, sem qualquer distinção, tem direito a igual remuneração por igual trabalho.
III) Todo o homem que trabalha tem direito a uma remuneração justa e satisfatória, que lhe assegure, assim como a sua família, uma existência compatível com a dignidade humana, e a que se acrescentarão, se necessário, outros meios de proteção social.
IV) Todo o homem tem direito a organizar sindicatos e a neles ingressar para proteção de seus interesses (Declaração Universal Dos Direitos Humanos, Assembleia Geral das Nações Unidas em 10 de dezembro de 1948).
Miraglia (2009) descreve que, o direito do trabalho, enquanto direito social fundamental, pode ser interpretado sob duas vertentes. A primeira diz respeito ao direito individual subjetivo de todo homem de acesso ao trabalho e à capacidade de prover a si mesmo e à sua família, e diante seu próprio trabalho, que deve ser digno. A segunda compreendea relação ao direito do trabalho propriamente dito, referindo-se ao direito social, coletivo, inerente a determinado grupo merecedor de proteção especial em virtude de sua desigualdade fática, os trabalhadores.
As Constituições Brasileiras de 1946 e 1967 já relacionavam, em seus arts. 145, § 2º, e 160, respectivamente, a dignidade da pessoa humana ao Direito do Trabalho, prescrevendo que a todos é garantido trabalho que possibilite a existência digna, tal como o princípio nos remete em sua definição, trata-se de uma primeira referência à dignidade da pessoa humana, por meio do trabalho. Sob outra perspectiva, atesta-se que a existência digna
45 está ligada à valorização do trabalho, de modo que não se obtém a realização plena da dignidade da pessoa humana quando o trabalho não for adequadamente apreciado. Assevera-se que a ausência de trabalho digno, afeta não apenas a pessoa que a ele não tem acesso, mas todo o seu grupo familiar e social. Ademais, os direitos sociais, dentre eles, o ramo justrabalhista, integram o rol de direitos fundamentais, cuja violação compromete a própria ideia de dignidade da pessoa humana. (LEDUR, 1998, p.98).
Assim, Miraglia (2009), deve-se garantir ao homem o direito de alcançar, por meio do seu trabalho, os recursos indispensáveis para desfrutar de uma vida digna. O trabalho regulado, ou emprego, é protegido pela legislação trabalhista, com o objetivo precípuo de melhorar as condições de vida do trabalhador e fixar o patamar mínimo civilizatório inerente a todos os empregados em face da sua condição peculiar na sociedade capitalista moderna. O empregado é considerado parte hipossuficiente da relação trabalhista, haja vista que submetido ao poder empregatício do detentor dos meios de produção.
Convém ressaltar, Delgado (2007) que o direito do trabalho regula as relações de emprego e que relações de trabalho são gêneros, dos quais a relação empregatícia é a espécie mais importante. Na relação de trabalho, o trabalhador se caracteriza como pessoa física que coloca sua mão-de-obra a serviço de outrem, já na relação de emprego só é empregado aquela pessoa física que dispõe da sua força laboral com pessoalidade, subordinação, não eventualidade e onerosidade.
A manutenção da dignidade da pessoa humana, a reafirmação do papel do trabalhador como cidadão, passa principalmente pelo respeito aos direitos básicos, e, fundamentais de todas as pessoas. O trabalhador, pela própria essência do contrato de trabalho, onde, em um dos polos, encontra-se o empregador com seu poder diretivo, organizacional e disciplinar e, no outro, o empregado, empenhando sua força de trabalho, vê-se em posição de inferioridade. É necessário que a legislação, por meio de mecanismos protetivos, iguale a posição de ambos. (CALIL, 2010).
Segundo Francisco (2008) o trabalho está inserido na cadeia produtiva e, portanto, não se separa da pessoa humana do prestador de serviços. Esta abordagem fundamental à temática do direito do trabalho somente teve seu reconhecimento quando os próprios prestadores de serviço, os trabalhadores passaram a se organizar e puderam expor suas necessidades, reivindicando a preservação de sua dignidade no âmbito social, transformando o valor dignidade humana do trabalhador um instrumento primordial em uma sociedade
46 notadamente capitalista, que se baseia, dentre outros aspectos na exploração do trabalho humano.
Miraglia (2009) reitera ainda que o sentido maior do direito do trabalho, é a melhoria das condições de vida dos trabalhadores e a determinação do mínimo existencial, deve ser interpretado para todos os trabalhadores, pois o ordenamento jurídico pátrio não concebe a existência de ninguém em situações aquém do seu princípio básico, a dignidade da pessoa humana. Trata-se, portanto, da concessão e da garantia de vivência, e não apenas mera sobrevivência digna a todos os trabalhadores, em que são eleitas as diretrizes fundamentais do trabalho digno, a fim de certificá-lo como substrato da dignidade social da pessoa humana e, portanto, inerente a todo ser humano.
Assim os Direitos Humanos são direitos inerentes a todas as pessoas e devem ser garantidos em todas as esferas: doméstica, social e pública. Assegurar a proteção dos direitos fundamentais dos trabalhadores é, em última instância, garantir a vida, segurança e integridade física dos cidadãos. Embora estes direitos possam se encontrar ameaçados em qualquer esfera da vida de alguém, não se deve olvidar jamais que é no local de trabalho, onde as pessoas passam a maior parte de seus dias e grande parte de sua vida adulta, que estas ameaças podem ser mais presentes. (CALIL, 2010).
Araújo (2009) infere que os direitos humanos constituem o manancial mínimo que assegura a dignidade humana, utilizado como elemento definidor dos critérios escolhidos para a formação do substrato normativo de cada país, em que é demonstrada a significância de uma legislação forte, efetiva e que proteja a dignidade humana no trabalho. Diante disso, entende-se que a legislação brasileira vem internalizando os direitos fundamentais em matéria trabalhista, com esforços reais para a erradicação de todas as formas de discriminação mediante a concretude das leis no País que visam assegurar a dignidade do trabalho no ambiente laboral.
CAPITULO II - ASSÉDIO MORAL INDIVIDUAL