1 INTRODUÇÃO
2.4 O TRABALHO DA ENFERMAGEM COM ENFOQUE NA ERGONOMIA
Ao analisar o contexto atual, na era da globalização, o quadro da modernização tecnológica, da privatização e terceirização dos postos de trabalho, da concorrência e competitividade entre os homens e a precarização de emprego, de condições de trabalho, salários, enfim, condições necessárias ao sustento, bem- estar e saúde do trabalhador, verifica-se que o trabalhador se submete ao mercado de trabalho muitas vezes, questionar os riscos a que estão expostos no ambiente laboral.
No âmbito da saúde, os trabalhadores da área de enfermagem possuem exposição exagerada a movimentos manuais repetitivos, bem como adoção de posturas em pé, andando durante a maior parte do tempo, levantamento de carga e a força muscular desenvolvida com os braços e com as mãos também ocupavam a maior parte da jornada de trabalho, não atentando a qualidade do cuidado que oferece ao cliente, sua própria qualidade devida e, muito menos, o seu autocuidado – o cuidar de si.
Por tanto, ao estudar os riscos ocupacionais, destaca-se a classificação de Moraes, que os divide em cinco grupos, conforme sua natureza, a saber: riscos físicos; químicos; biológicos; ergonômicos e de acidentes. De acordo com a classificação referida, percebe-se que os trabalhadores de enfermagem estão expostos a inúmeros riscos que podem causar agravos à sua saúde, acidentes de trabalho e/ou doenças, principalmente durante a assistência ao cliente, e que essa exposição pode trazer consequências para a saúde do trabalhador em vários aspectos: físico, psíquico, emocional e social.
Sobre o risco ergonômico Loro, Zeitoune, Guido, Silveira e Silva, identificam no seu estudo que o trabalho de enfermagem em hospitais é realizado em longas jornadas, em pé, e com manipulação de peso excessivo sem respeitar a biomecânica corporal. Como consequências traz danos à saúde mental do profissional e ainda, a interferência disto na qualidade da assistência prestada. Albuquerque, Castro, Ferreira e Oliveira fala somente que os riscos ergonômicos podem afetar a vida do trabalhador interferindo em suas características psicofiiológicas.
Estudos realizados por Rodrigues (2009) identificaram os danos causados à saúde do trabalhador decorrentes de sua atividade laboral, enfatizando: os distúrbios osteomusculares e a enfermagem hospitalar; o estresse nos trabalhadores de enfermagem; danos consequentes da prática hospitalar e adoecimento dos trabalhadores de enfermagem (incluindo os distúrbios do sistema osteomuscular, seguidos dos transtornos mentais e comportamentais, dentre outros).
O termo “Ergonomia” é composto por duas palavras gregas; ergon (trabalho) e nomos (normas, regras, leis) e denomina o estudo da adaptação do trabalho às características dos indivíduos, de modo a lhes proporcionar um máximo de conforto, segurança, e bom desempenho nas suas atividades no trabalho (FALZON, 2007).
A Associação Internacional de Ergonomia (IEA) em 2000 adotou a seguinte definição: A ergonomia é a disciplina científica que visa à compreensão fundamental das interações entre os seres humanos e os outros componentes de um sistema, e a profissão que aplica princípios teóricos, dados e métodos com o objetivo de otimizar o bem-estar das pessoas e o desempenho global dos sistemas (FALZON, 2007). Daniellou (2004) a definiu como Método destinado a examinar a complexidade, sem colocar em prova um modelo escolhido a priori.
Sendo assim, ao desenvolvermos uma ação ergonômica buscamos elementos que nos permitam transformar o trabalho e também produzir conhecimentos. Nesta perspectiva a ergonomia foi se desenvolvendo, adotando como referência a noção de variabilidade, a distinção entre tarefa e atividade, e a regulação das ações associada ao reconhecimento da competência dos trabalhadores (ABRAHÃO et al., 2009).
Portanto a aplicabilidade dos conhecimentos da Ergonomia tem a finalidade de apontar alternativas que reduzam os constrangimentos impostos aos trabalhadores, como estabelecer recomendações que possam orientar a criação de ambientes de trabalho mais cooperativos e motivadores, tem significativa relevância, uma vez que oportuniza a conscientização dos trabalhadores quanto aos meios necessários à prevenção do estresse ocupacional (SANTOS et al., 2005).
Estudos demostram que a causa de danos e/ou adoecimento dos trabalhadores de enfermagem decorrentes da atividade laboral, estando os distúrbios osteomusculares presentes em mais de um estudo, sendo esse um agravo que tem acometido em grande escala a equipe de enfermagem, em especial, sob a forma de lombalgias (RODRIGUES, 2009; DARLIR e ROBAZZI, 2010).
Os distúrbios osteomusculares relacionados ao trabalho não são causados por um esforço repetitivo qualquer. Suas causas vão além dos sintomas físicos, pois elas passam pela organização do trabalho, dificuldades interpessoais, bem como os fatores ergonômicos intrínsecos ao ambiente laboral.
De acordo com Villarouco e Mont’Alvão (2011) os elementos que compõe o ambiente que devem ser considerados pela Ergonomia do Ambiente Construído, são aqueles referentes ao conforto ambiental (luminoso, térmico e acústico), à percepção ambiental (aspectos cognitivos), adequação de materiais (revestimentos e acabamentos), cores e texturas, acessibilidade, medidas antropométricas (layout, dimensionamento), e sustentabilidade. “Faz-se necessário uma abordagem sistêmica quando se trata de avaliar o ambiente sob a ótica da ergonomia”. A autora defende que: Uma metodologia pensada a fim de verificar adequação ergonômica de espaços construídos deve contemplar duas fases, sendo uma de ordem física do ambiente e outra da identificação da percepção do usuário em relação a este espaço. As análises e recomendações são geradas da confrontação dos dados obtidos nas duas fases.
Nesse entendimento, PASQUALINI (2010), afirma que o posto de trabalho deve estar ergonomicamente adequado ao operador para que possa realizar suas tarefas com conforto, eficiência e eficácia, sem causar dados à saúde física, psíquica e mental, visto que o posto de trabalho envolve o homem, seu local e toda ajuda material que o indivíduo necessita, tais como máquinas, ferramentas, equipamentos, mobiliário, softwares, sistemas de proteção e segurança, equipamentos de proteção individual e o próprio sistema de produção.
Partindo em direção de outra perspectiva sobre a análise do trabalho, temos a Ergonomia denominada de língua francesa, atualmente denominada como “Ergonomia da Atividade”, esse novo olhar sobre a atividade do trabalho esta centrada na atividade humana, e mais concretamente, na atividade situada na ação.
Um dos conceitos fundamentais da presente abordagem é a distinção entre o conceito de tarefa e de atividade: “A tarefa é o que se deve fazer o que é prescrito pela organização. A atividade é o que é feito, o que o sujeito mobiliza para efetuar a tarefa” (FALZON, 2007). Com base em tais conceitos, a tarefa é o trabalho prescrito pela empresa, o qual influencia e constrange as atividades, e assim o trabalho real (GUÉRIN et al., 2001).
Portanto ao fazer uso do termo “atividade de trabalho” a ergonomia refere-se ao individuo que trabalha com uma série de habilidades e saber prático, baseado em suas experiências no trabalho, que o capacitam a controlar, regular e coordenar, e construir sua ação para alcançar determinado objetivo. Tal atividade é situada em um determinado contexto, composto por componentes materiais, sociais e históricos, que fornecem recursos, mas também apresentam constrangimentos.
Simultaneamente, tal contexto é afetado pela experiência de vida subjetiva do individuo, e assim, é constantemente revisada e atualizada.
Neste contexto, a Ergonomia da Atividade vai se preocupar com as estratégias (regulação, antecipação, etc.) usadas pelo operador para administrar a distância entre a prescrição e o trabalho real (Guérin et al., 2001). Assim, esta modalidade de análise ergonômica focará o modo como o trabalho é sempre objeto de uma gestão e de uma apropriação pessoal pelo trabalhador, mesmo tendo sido prévia e heteronomamente fixado pela definição da tarefa, ferramentas utilizadas; características próprias das pessoas e do contexto de uso.
A vasta quantidade de pesquisas nessa área sobre os mecanismos de regulação e sua interação com os sistemas organizacionais tem comprovado que a ergonomia desempenha um papel importante no contexto do trabalho.
De acordo com Couto (2011), dentre as metas finais da ergonomia está à busca por reduzir significativamente as lesões e doenças relacionadas ao trabalho, bem como reduzir os acidentes que venham a ser ocasionados por atos e condições inadequadas. Também faz parte dessa meta conseguir de modo gradativo a eliminação das situações que possam causar desconforto, fadiga, dor e dificuldade na realização do trabalho.
Atualmente muitas instituições já fazem uso da análise ergonômica do trabalho, para intervir em situações cujas problemáticas variam desde a concepção de salas de controle, extremamente automatizadas, passando por questões referentes ao trabalho manual ou, ainda, por queixas relacionadas ao ambiente físico de trabalho, sem deixar de lado os problemas de saúde, em particular, os decorrentes das lesões por esforços repetitivos.
Sendo assim a empregabilidade na área da saúde dos estudos ergonômicos constituem-se em um caminho para a obtenção de informações específicas e relevantes sobre a melhoria da qualidade do cuidado e da qualidade de vida do trabalhador no trabalho.