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2.5 Estudos Realizados

2.5.5 O trabalho de Dechow, Myers e Shakespeare (2010) – DMS

DMS (2010) encontraram evidências de que os gestores utilizam a flexibilidade disponível nas regras de contabilização do valor justo para alisar resultados por meio do gerenciamento das receitas de securitização de ativos. Os autores propõem três objetivos: o primeiro objetivo foi determinar se os gestores usam o poder obtido a partir das regras de contabilização do valor justo para relatar ganhos maiores (foram examinadas duas circunstâncias, a primeira quando o lucro antes da securitização é baixo e a segunda quando o lucro antes do ganho de securitização está abaixo do nível do ano anterior). O segundo objetivo foi analisar a sensibilidade da remuneração do Chief executive officer (CEO) aos ganhos de securitização, e por último, o terceiro objetivo foi investigar se os conselhos desempenham um papel de controle para determinar tanto o tamanho dos ganhos relatados ou a sensibilidade da remuneração do CEO a estes ganhos.

DMS (2010) fizeram as seguintes previsões: 1) as acumulações discricionárias são maiores em empresas cujo lucro antes da securitização é baixo; 2) as acumulações discricionárias são maiores nas empresas que têm mais mudanças negativas em seus resultados antes da securitização; 3) os gestores usam seu poder discricionário sobre as taxas de desconto utilizadas para obter o lucro ou perda de securitização desejados; 4) a remuneração do CEO é menos sensível aos ganhos de securitização do que a outros componentes do salário; 5) a remuneração do CEO é menos sensível aos ganhos de securitização do que a outros componentes do salário quando a empresa possui conselheiros mais informados ou mais independentes.

O período analisado por DMS (2010) foi de setembro de 2000 a dezembro de 2005, uma vez que o SFAS 140 entrou em vigor em setembro de 2000 exigindo divulgações detalhadas sobre securitização. A amostra foi composta por empresas obrigadas a divulgar as receitas provenientes das operações de securitização no ano, o valor justo dos lucros acumulados e as mudanças adversas no final do ano, dessa forma alcançaram uma amostra com 305 empresas, sendo que 96 relataram ganho nas operações de securitização.

Primeiramente, os autores apresentam uma tabela a qual descreve a composição da amostra de acordo com o segmento em que as empresas operam e o tamanho dos ganhos reconhecidos,

cujo objetivo é examinar a importância econômica do efeito do ganho de securitização no resultado. Nesta tabela é apresentado o resultado decorrente da divisão do ganho de securitização pelo patrimônio líquido do ano anterior, o qual foi positivo para todas as observações da amostra.

Em seguida, os autores apresentam estatística descritiva e correlações do ganho de securitização dividido pelo patrimônio líquido do ano anterior e dos determinantes econômicos dos ganhos de securitização. Em relação aos ganhos de securitização, são apresentadas as seguintes variáveis: Gain (ganho de securitização dividido pelo patrimônio líquido do ano anterior); Pre-securitization earnings (lucro antes do ganho de securitização dividido pelo patrimônio líquido do ano anterior); Earnings (lucro líquido dividido pelo patrimônio líquido do ano anterior); Change in pre-securitization earnings (resultado pré- securitização do ano menos o resultado pré-securitização do ano anterior, dividido pelo patrimônio líquido do ano anterior).

Os chamados determinantes econômicos dos ganhos de securitização segundo os autores são:

Indust_Gain; Adverse_change/RI; Mkt_Vol; Discount_rate; Pré_Sec_FCF; Segment; Asset e Regulate. De acordo com os autores, conforme esperado, a matriz de correlações demonstra

que o Gain é positivamente correlacionado com o Indust_Gain, com o Mkt_Vol e com a

Dicount_Rate. Foram encontradas também correlações positivas entre Dicount_Rate, Indust_Gain e as medidas de risco (Adverse_change/RI e Mkt_Vol). Ainda, conforme

esperado pelos autores, as duas medidas da importância da atividade de securitização (Pré_Sec_FCF e Segment) são correlacionadas negativamente com o ganho.

Em seguida, os autores passam a analisar a relação entre os ganhos de securitização e os incentivos para gerir os resultados.Os resultados apontam que quando a variável independente é o resultado pré-securitização o coeficiente desta é negativo. Mesmo incluindo as varáveis de controle, destinadas a isolar o componente discricionário do ganho, o coeficiente do resultado pré-securitização permanece negativo. Dessa forma, segundo os autores, os resultados são consistentes com a afirmação de que os gestores utilizam as manobras da contabilidade pelo valor justo ao relatar os ganhos de securitização para gerir resultados.

Os autores analisam, ainda, a relação entre os ganhos de securitização e as taxas de desconto, por meio da regressão. Supõem que os gestores sabem o ganho que gostariam de relatar e

selecionam as taxas de desconto para atingir tal objetivo. Como as taxas de desconto também são afetadas por fatores econômicos, as variáveis de controle foram utilizadas na regressão na tentativa de controlar tais fatores. Nesse caso, foram utilizadas as seguintes variáveis de controle: Adverse_change/RI; Mkt_Vol; Asset e Regulate.

Os resultados demonstram que a taxa média de desconto utilizada pelas empresas da amostra é de 11,78%. Sendo que, para as empresas que relataram perda de securitização, a taxa de desconto foi de 8,68%, e para as que relataram ganhos, a taxa foi de 12,38%. Os autores apresentam ainda, uma matriz de correlações entre as taxas de desconto utilizadas pelas empresas que relataram ganhos e para empresas que relaram perda. De acordo com os resultados apresentados, existe uma forte correlação negativa entre as empresas que relataram perda, sugerindo que as empresas que relataram grandes perdas usam maiores taxas de desconto. No entanto, observou-se uma correlação positiva entre as taxas de desconto e os ganhos, sugerindo que as empresas que relatam grandes ganhos utilizam maiores taxas de desconto.

Os autores realizaram, ainda, testes para identificar a sensibilidade da remuneração do CEO aos ganhos de securitização relatados e concluíram que a mesma está positivamente associada aos ganhos de securitização. Os resultados indicam que a remuneração total é tão sensível aos ganhos de securitização como a outros componentes do salário. No entanto, os autores afirmam que a sensibilidade da remuneração do CEO ao ganho de securitização pode variar com as estruturas de governança, além disso, conselheiros mais informados ou mais independentes podem intervir e influenciar o tamanho dos ganhos relatados.

Em síntese, as abordagens apresentadas no trabalho de DMS (2010), tanto a primeira, que parte do pressuposto de que todo ganho é discricionário, quanto a segunda, que controla os vários fatores econômicos que podem afetar o tamanho dos ganhos relatados, produzem resultados semelhantes. Sendo que, em média, ganhos maiores são relatados quando o resultado pré-securitização é baixo ou está abaixo do nível do ano anterior, sugerindo que os gestores utilizam a flexibilidade disponível nas regras de contabilização do valor justo para gerir os resultados.