4 OS SENTIDOS DA INTEGRAÇÃO CURRICULAR
4.2 O CURRÍCULO DOS CURSOS INTEGRADOS
4.2.2 O trabalho interdisciplinar como proposta organizadora da
Pereira (2009, p. 264) para explicar o surgimento de uma mobilização em torno da interdisciplinaridade, afirma que “[...] No final do século XIX, as ciências haviam se dividido em muitas disciplinas e a busca pela interação entre estas disciplinas ecoa forte no sentido de promover um diálogo entre elas.”.
O tema da “interdisciplinaridade” surge no Brasil na década de setenta, quando Hilton Japiassú (1976) publica o livro Interdisciplinaridade e patologia do saber. Desse modo, “Japiassú e Ivani Fazenda são considerados responsáveis pela veiculação do tema no Brasil, sendo o fulcro temático de Japiassú epistemológico, e o de Fazenda, pedagógico”. (ALVES; BRASILEIRO; BRITO, 2004, p. 141)
Como estudioso desse novo conceito, Japiassú (1976, p. 30) analisou a questão da fragmentação do saber e afirmou que
[...] a exigência da interdisciplinaridade, longe de constituir o real progresso do conhecimento, revela muito mais o sintoma da situação patológica em que se encontra hoje o saber. O número de especializações exageradas e a rapidez do desenvolvimento de cada uma, culminam numa fragmentação crescente do horizonte epistemológico.
Veiga Neto (2010, p. 1) observa que, “[...] apesar de tais discussões terem surgido, entre nós há mais de três décadas, parece que ainda estamos longe de chegar a acordos
satisfatórios sobre o que é a interdisciplinaridade [...]”. Diante disso, Santomé (1998, p. 45) compreende que
[...] para algumas pessoas, a interdisciplinaridade [...] tem a sua razão de ser na busca de uma [...] nova etapa do desenvolvimento da ciência caracterizado por uma reunificação do saber em um modelo que possa ser aplicado a todos os âmbitos atuais do conhecimento. Para outras, [...] é provocada pela dificuldade [...] de delimitar as questões que são objeto deste ou daquele campo de especialização do saber.
Em vista do exposto, Santomé (1998, p. 46) destaca que, o resultado da polarização de interesses em estabelecer o limite do conhecimento que cabe a cada disciplina, é “[...] a construção de um novo campo do conhecimento que abranja as parcelas em disputa; este é o caso de disciplinas e profissões como bioquímica, geofísica, agroquímica [...] etc”.
É importante destacar que a interdisciplinaridade não se manifesta simplesmente em situações de aprendizagem em que um mesmo tema é abordado por diversas disciplinas, levando em conta os seus aspectos intrínsecos. Para Japiassú (1976, p. 120) a interdisciplinaridade transcende a essa visão, pois considera o autor que
[...] à interdisciplinaridade faz-se mister a intercomunicação entre as disciplinas, de modo que resulte uma modificação entre elas, através de diálogo compreensível, uma vez que a simples troca de informações entre organizações disciplinares não constitui um método interdisciplinar
Desse modo, como proposta metodológica do trabalho escolar, consideramos que o principio para o estabelecimento de um trabalho interdisciplinar está na compreensão de que o conhecimento não pode ser concebido separado das diversas dimensões que afetam a vida humana, ou seja, nos seus aspectos social, político, econômico, ambiental, dentre outros.
Voltando o nosso olhar para a construção de currículos integrados da EPTNM, Machado (2010, p. 92) entende a interdisciplinaridade como uma das formas de estabelecer essa mediação. E para atender a essa possibilidade, a autora explica que
[...] a interligação das disciplinas pode ser explorada por diversos recursos, tais como: desenho da grade curricular30 contemplando
aproximações temporais, fusões de conteúdos, realização de estudos e pesquisas compartilhadas, promoção conjunta de seminários e eventos, implementação de métodos de ensino por projetos e dos temas geradores, dentre outros. (MACHADO, 2010, p. 92)
Tomando por base as idéias apresentadas por Machado, organizamos, no quadro abaixo, os princípios norteadores de algumas dessas propostas metodológicas que buscam viabilizar a apreensão do conhecimento a partir do estabelecimento da interrelação entre parte e totalidade.
QUADRO 5 - Metodologias de caráter interdisciplinar Método de Ensino e
aprendizagem Objetivos
Projetos
Vincular teoria e prática mediante a investigação de um tema ou problema; estimular a mobilização e a articulação de diferentes recursos e conhecimentos, incorporando os conteúdos à medida da necessidade do desenvolvimento do projeto. Possibilita um maior contato com a realidade/contexto.
Temas geradores31
Aproximar o processo de ensino-aprendizagem da realidade. Combinar, em um mesmo processo, os diferentes momentos do conhecimento, a ação transformadora da realidade e o processo de ensino-aprendizagem. Considera que os sujeitos deste processo de reflexão-ação-educação não são exteriores ao mesmo, senão indivíduos reais e concretos, que no curso de sua existência e em função dela fazem da realidade em que estão imersos, e que da qual integram, o objeto do seu pensamento. Entrelaçar e integrar aspectos da realidade complexa e contribuir para superar a perspectiva seqüencial e fragmentada de organização curricular.
Fonte: A autora, fundamentada nas idéias de Machado (2010, p. 92)
Conforme percebemos no quadro acima, toda e qualquer experiência de trabalho ou estudo interdisciplinar deve ter como elemento central a realidade, ou seja, o objeto de estudo inserido e determinado pelos diversos fenômenos que conformam a totalidade.
Destacamos ainda, como proposta de trabalho interdisciplinar, o envolvimento de grupos de trabalhos de docentes e pedagogos na construção coletiva dos Projetos Pedagógicos de Cursos ou currículos. Ressaltamos que o trabalho interdisciplinar implica em despojamento, em conceber o conhecimento como totalidade, e não condiz com a visão fragmentada, que atribui o pertencimento de um conteúdo a este ou aquele componente disciplinar. E apesar das divergências, fruto de disputas vaidosas por parcelas do conhecimento, o trabalho interdisciplinar é um momento também das convergências, da
31 Recurso central da metodologia criada por Paulo Freire.
oportunidade de compreender que os conteúdos particularizados não se bastam e, em dado momento, se integram para dar a forma ao todo que é o conhecimento.
Na sequencia, abordaremos os princípios oficiais que têm norteado a elaboração dos currículos do Ensino Profissional.