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O tratamento dos risos:

No documento fabianosantosaito (páginas 105-109)

Gago (2002) recomenda que tanto os risos quanto as informações de qualidade prosódica de subida, descida e continuação de entonação sejam anotadas concomitantemente com o segmento. Sugere ainda, a reserva do espaço de comentários do analista entre parênteses duplos para “informações contextuais relevantes para se entender o sentido das elocuções e para se entender os casos mais trabalhosos”.

Os símbolos utilizados como modelo de transcrição foram desenvolvidos por Jefferson e encontram-se em Sacks, Schegloff & Jefferson (1974).

Embora concordemos com muitas questões sobre o tratamento que se deve dar à transcrição dos dados, utilizando as postulações da ACe, devido a limitações de tempo e falta de experiência em transcrever as sutilezas prosódicas do discurso oral, para o momento, decidimos por adotar um sistema de notação mais simplificado em nossas transcrições, adaptado do modelo de transcrição de Sacks, Schegloff e Jefferson (1974, 2005).

4.7. Unidade de análise dos dados gerados nas entrevistas

Como Gago (2002) explica acima, na análise da conversa, o turno de fala ou tomada de turno é considerado a unidade de análise essencial numa sequência conversacional, sendo que um turno de fala sempre projeta a ação para um próximo turno durante a interação ou troca conversacional. Estes conceitos fundamentais foram elaborados por Sacks, Schegloff e Jefferson (1974, 2005).

Como um turno de fala estabelece uma relação dialógica com o próximo turno, surge a ideia de par adjacente, uma troca conversacional composta de duas partes ou dois turnos de

88 fala, em que a segunda elocução está funcionalmente dependente da primeira, como nos casos de saudações, convites e pedidos. A noção de par adjacente já se encontra delineada em Sacks et. al. (ibid.), quando discutem que há turnos de fala que selecionam o interlocutor para uma ação responsiva em relação a este primeiro turno.

Thornbury e Slade (2006) ressaltam que o conceito de par adjacente é uma das mais significativas contribuições da Análise da Conversa e o definem como um composto de dois turnos adjacentes produzidos por falantes diferentes, de modo que a segunda elocução se relaciona com a primeira. O exemplo mais prototípico é o par de pergunta e resposta, mas outros exemplos são: acusação-negação; oferta-aceite; pedido-concessão; elogio-escusa; desafio-recusa; ordem-obediência. Segundo os autores, os pares adjacentes possuem três características:

1- consistem de duas elocuções;

2- as elocuções estão adjacentes, a primeira é seguida imediatamente pela segunda;

3- falantes diferentes produzem cada elocução. (Id., ibid.) 67

Mas para a formação de um par adjacente, somente a sequência, ou seja, a disposição de um turno seguido de outro, não é suficiente, tem que haver uma relação funcional, lógica ou nocional do segundo turno com o primeiro, como Schegloff (2007) explica:

Para compor um par adjacente, a PPP (Primeira Parte do Par) e a SPP (Segunda Parte do Par) surgem como pares do mesmo tipo. Imagine PPPs como “Olá!”, ou “Você sabe que horas são?”, ou “Você gostaria de uma xícara de café?” e SPPs como “Oi!”, ou “Quatro horas”, ou “Não, obrigado.”. Os participantes da fala-em-interação não escolhem aleatoriamente um SPP para responder a um PPP, porque isto produziria absurdos como “Olá!” “Não, obrigado.”, ou “Você gostaria de uma xícara de café?” “Oi!”. Os componentes do par adjacente são tipologizados não somente em primeira e segunda partes do par, mas em tipos de par que podem compor parcialmente: saudação-saudação (“Olá!” “Oi!”), pergunta-resposta (“Você sabe que horas são?” “Quatro horas.”), oferta-aceite/recusa (“Você gostaria de uma xícara de café?” “Não, obrigado”, se é recusado). (Id., ibid., grifos do autor) 68

67

“[Adjacency pairs typically have three characteristics:] * they consist of two utterances; * the utterances are adjacent, that is the first immediately follows the second; and * different speakers produce each utterance.”

68

To compose an adjacency pair, the FPP [first pair part] and SPP [second pair part] come from the same pair type. Consider such FPPs as 'Hello,' or 'Do you know what time it is?,' or 'Would you like a cup of coffee?' and such SPPs as 'Hi,' or 'Four o'clock,' or 'No, thanks.' Parties to talk-in-interaction do not just pick some SPP to respond to an FPP; that would yield such absurdities as 'Hello,' 'No, thanks,' or 'Would you like a cup of coffee?,' 'Hi.' The components of adjacency pairs are 'typologized' not only into first and second pair parts, but into the pair types which they can partially compose: greeting-greeting ("hello,' 'Hi"), question-answer ("Do you know

89 Como as entrevistas se organizam semelhantemente a uma conversa, utilizaremos o conceito de par adjacente, como unidade para análise dos dados gerados nas entrevistas, principalmente o do tipo pergunta-resposta, uma vez que o pesquisador faz uma pergunta, que disponibiliza certas posições, e o entrevistado é direcionado a dar uma resposta, assumindo ou rejeitando as posições possíveis.

4.8. Apresentação dos dados gerados nas entrevistas

Também estamos utilizando algumas convenções da Análise da Conversa Etnometodológia no que diz respeito à organização e apresentação dos dados. Para efeitos de análise, ao longo do texto de discussão, distribuiremos excertos de dados selecionados que julgamos representativos das categorias apontadas pelo referencial teórico. Tentaremos preservar ao máximo a organização sequencial das entrevistas, isto não quer dizer que apresentaremos os excertos em ordem cronológica. Os excertos constituem pequenos trechos deslocados da versão integral das transcrições das entrevistas, apresentadas ao final desta dissertação (ver ANEXOS 8, 9, 10, 11, 12, 13 e 14).

Como foi explanado anteriormente, utilizamos as convenções de transcrição sugeridas por Sacks et. al. (1974, 2005), com algumas adaptações. Por convenção, os dados são apresentados utilizando-se a fonte tipográfica Courier New, tamanho 10, em tabelas com as bordas invisibilizadas. As tabelas são organizadas em quatro colunas: a primeira, para apontamento (para inserir uma flecha, “”, com o fim de enfatizar certa linha de dados); a segunda coluna é reservada para a numeração das linhas (que podem ser numeradas sequencialmente por entrevista – o que gera números grandes –, ou por página – nesse caso, cada página de transcrição recebe uma numeração sequencial, a primeira linha de cada página recebe o número 01 e prossegue sequencialmente até a última linha transcrita na página; a numeração reinicia a cada nova página); na terceira coluna são identificados os participantes da fala-em-interação, cada falante é identificado quando da troca de turnos; a quarta coluna traz o registro da transcrição dos turnos de fala. Os excertos das transcrições são identificados com a numeração da página(s) de que foi extraído, bem como das linhas destacadas da versão integral – essas informações são inseridas em colchetes (“[ ]”). Veja um exemplo a seguir:

what time it is?', 'Four o'clock'), offer-accept/decline ('Would you like a cup of coffee?', 'No, thanks,' if it is declined).”

90 Figura 6: Ilustração exemplificando o modo de apresentação dos excertos das entrevistas

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