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O uso do tempo de trabalho no interior dos domicílios

3 DISPONIBILIDADE PARA O MERCADO E DEDICAÇÃO À FAMÍLIA: O USO

3.2 A PARTICIPAÇÃO DE HOMENS E MULHERES NOS AFAZERES DOMÉTICOS E

3.2.2 O uso do tempo de trabalho no interior dos domicílios

A definição de um quadro analítico voltado para dar visibilidade às desigualdades que limitam e dificultam a inserção e permanência das mulheres no mercado de trabalho, acaba por colocar foco também em outra dimensão do debate acerca do tempo que é o seu uso diferenciado por homens e mulheres nos domicílios e suas implicações.

Conforme Bruschini e Ricoldi (2009, p. 96), “hoje é possível afirmar que qualquer análise sobre o trabalho feminino, procurando romper velhas dicotomias, estará atenta à articulação entre produção e reprodução, assim como às relações sociais de gênero”. Nesse sentido, as informações proporcionadas pela Pnad-C contribuem de maneira eficaz no sentido de dar concretude ao uso diferencial do tempo como fundamento da subordinação econômica, social e politica das mulheres. A Pnad-C, ao mensurar a jornada dedicada aos afazeres domésticos e atividades de cuidado realizadas por todos os membros do domicilio, deixa evidente seu potencial de desvelar como operam as relações de gênero nos agregados familiares, dando visibilidade e permitindo o reconhecimento social e econômico de um tipo de trabalho que no mais das vezes permanece oculto e desvalorizado.

Essa desigual responsabilização pelo trabalho doméstico não remunerado fica evidente a partir do momento que se constata que, segundo Dedecca (2004, p. 43), “em 2001 42% dos homens declaram realizar afazeres domésticos contra 90% das mulheres”. Já em 2015, conforme Pinheiro, (2018, p. 118), “91% das mulheres com 14 anos ou mais de idade declararam realizar alguma modalidade de ‘afazer doméstico’”, enquanto “apenas 54% dos homens na mesma faixa etária disseram dedicar-se, em alguma medida, a esse tipo de atividade”. Isso significa que, de 2001 a 2015, praticamente todas as mulheres se envolveram em afazeres domésticos e atividades de cuidado, enquanto pouco mais da metade dos homens dedicou algum tempo para este mesmo objetivo.

Essa disparidade em termos de dedicação às obrigações domiciliares já é, em si mesma, um indicador da menor responsabilidade do homem na organização familiar, havendo uma compreensão no sentido de que a responsabilidade por essas atividades faz parte de um conjunto de obrigações femininas. Por sua vez, essa maior responsabilidade acaba por se traduzir em um uso do tempo de modo

profundamente desigual entre homens e mulheres no interior das famílias (Dedecca, 2004).

Uma situação específica que de certo modo ratifica esse entendimento diz respeito às famílias unipessoais, ou seja, pessoa que vive sozinha. Nessa situação mulheres e homens que vivem sozinhos possuem praticamente a mesma carga total de trabalho. Em relação às mulheres, é nessa condição que elas apresentam a menor jornada doméstica, o que se traduz em maior autonomia para administrar o seu tempo. Já entre os homens, são exatamente os que vivem em arranjos unipessoais os que têm maior jornada de trabalho doméstico não remunerado. Ou seja, o homem que mora sozinho acaba realizando por conta própria as atividades do lar.

Porém, segundo Dedecca, Ribeiro e Ishii (2009), quando se analisa os dados relativos aos casais heterossexuais em que ambos possuem vida profissional, a situação muda, havendo uma redução substancial do tempo de trabalho masculino dedicado aos afazeres domésticos. Ou seja, quando há uma mulher no ambiente familiar, é provável que ela se torne a responsável pelos afazeres domésticos e o homem deixe de realizar as tarefas que executava quando morava sozinho.

Um dado da Pnad-C que expressa essa tendência diz respeito à população de pessoas não ocupadas (ou seja, que não estavam trabalhando), quando questionadas se gostariam de trabalhar e porque motivo não procuravam uma ocupação. Para o ano de 2016, 27,2% das mulheres entrevistadas respondeu que gostariam de estar trabalhando, mas não procuram um trabalho remunerado pelo fato de que “Tinha que cuidar dos afazeres domésticos, do(s) filho(s) ou de outro(s) parente(s)”, enquanto apenas 2,0% dos homens responderam da mesma forma. Um resultado expressivo de uma disparidade de gênero que expressa o quanto as responsabilidades familiares recaem sobremaneira sobre as mulheres de modo a proporcionar uma barreira de acesso ao mercado de trabalho. Um universo de mulheres superior a vinte e cinco pontos percentuais em relação aos homens. Em números absolutos, 1.423.632 mulheres que estariam disponíveis para trabalhar não fosse o trabalho doméstico não remunerado, face a 60.798 indivíduos homens. Um padrão que se mantém estável nos anos seguintes.

TABELA 16 - Pessoas não ocupadas de 14 anos ou mais de idade que mesmo querendo trabalhar não tomaram providência para conseguir trabalho no mês de referência por motivo e sexo (Brasil, 2016 a 2018).

Ano 2016 2017 2018

Motivo Homens Mulheres Homens Mulheres Homens Mulheres

Conseguiu proposta de trabalho para começar após a semana de referência

1,5% 0,8% 1,3% 0,6% 1,6% 0,9%

Estava aguardando resposta de medida tomada para conseguir trabalho

8,5% 4,7% 7,1% 4,0% 6,4% 3,4%

Não conseguia trabalho

adequado 9,3% 6,6% 8,4% 7,0% 10,0% 8,1%

Não tinha experiência

profissional ou qualificação 3,5% 2,9% 3,8% 3,3% 3,7% 2,7%

Não conseguia trabalho por ser considerado muito jovem ou muito idoso

8,3% 5,8% 7,3% 4,5% 6,6% 4,8%

Não havia trabalho na

localidade 30,4% 25,3% 34,4% 26,8% 35,5% 26,7%

Tinha que cuidar dos afazeres domésticos, do(s) filho(s) ou de outro(s) parente(s)

2,0% 27,2% 2,0% 25,9% 1,6% 25,3%

Estava estudando (curso de qualquer tipo ou por conta própria)

14,5% 10,3% 15,3% 11,2% 14,5% 11,2%

Por problema de saúde ou

gravidez 17,0% 13,5% 16,1% 13,5% 16,5% 14,7%

Outro motivo, especifique 5,0% 3,1% 4,3% 3,2% 3,5% 2,5%

Total 100,0% 100,0% 100,0% 100,0% 100,0% 100,0%

Fonte: Microdados PNAD Contínua Anual/IBGE - Elaboração Própria

Nesse sentido, ainda, nos agregados familiares, há uma tendência quase absoluta das mulheres se tornarem as maiores responsáveis pelas atividades domésticas e de cuidado. É o que expressam os dados da Pnad-C no período analisado, dos quais se depreende que, em relação ao tempo dedicado aos afazeres domésticos, as jornadas masculinas têm um padrão relativamente baixo de horas em todas as posições, sendo que as maiores cargas desse tipo de trabalho recaem invariavelmente sobre as mulheres da família, especialmente no que diz respeito às cônjuges e às chefes de família, nas quais se concentram as maiores médias horárias semanais: 23,6 e 22,5 horas, respectivamente, contra 11,3 e 11,8 dos homens na mesma posição, ou seja, o dobro de horas. Uma tendência que se repete nos anos de 2016 e 2017.

Interessante notar que as mulheres possuem carga de trabalho doméstico maior em qualquer condição que ocupe no domicílio81, inclusive em relação aos filhos, quando estes estão presentes no agregado familiar. Em relação a esses a situação fica ainda mais evidente e confirmam a naturalização do papel da mulher já na fase inicial do processo de socialização: as filhas tendem a se comprometer desde cedo pelas atividades domésticas e de cuidados, em valores muito superiores em comparação com os filhos. Assim, as mulheres na condição de filhas tiveram em média 13 horas semanais dedicadas aos afazeres domésticos em todos os anos analisados, enquanto os homens na condição de filhos tiveram média de 8,5 horas no mesmo período.

TABELA 17 - Pessoas de 14 anos ou mais de idade por média de horas dedicadas por semana ás atividades de cuidado e/ou afazeres domésticos, sexo e condição no domicílio (Brasil, 2016 a 2018)

Ano 2016 2017 2018

Condição no domicílio/Sexo Homens Mulheres Homens Mulheres Homens Mulheres

Pessoa responsável 11,9 21,5 11,8 21,6 11,8 22,5

Cônjuge ou companheiro(a) 11,5 23,5 11,4 23,0 11,3 23,6

Filho(a) 8,6 13,7 8,4 13,5 8,4 13,5

Enteado(a) 6,9 11,8 7,9 11,4 7,9 11,9

Genro ou nora 10,0 19,4 9,6 18,3 10,0 19,0

Pai, mãe, padrasto ou

madrasta 10,7 17,1 11,2 18,8 11,3 18,1 Sogro(a) 7,6 18,3 15,2 18,0 8,9 16,1 Neto(a) 8,8 12,6 8,8 11,4 8,5 12,5 Bisneto(a) 6,0 15,2 12,3 6,3 12,7 13,0 Irmão ou irmã 10,5 16,9 11,2 17,0 11,2 17,5 Avô ou avó 17,1 17,6 11,7 19,5 5,5 18,3 Outro parente 9,9 15,6 9,2 15,1 9,1 15,7 Agregado(a) 8,2 15,4 11,0 14,1 12,5 15,1 Convivente 11,4 13,0 9,4 12,4 9,4 12,8 Pensionista 9,4 11,0 14,0 9,0 11,6 5,6 Empregado(a) doméstico(a) 29,1 32,8 23,9 38,1 11,8 34,8 Parente do(a) empregado(a) doméstico(a) - - - - Total 11,0 20,6 10,9 20,4 10,9 20,9

Fonte: Microdados PNAD Contínua Anual/IBGE - Elaboração Própria

81

A condição no domicílio é caracterizada por meio da relação existente entre a pessoa responsável pela unidade domiciliar e cada um dos demais moradores. Exemplo: Cônjuge ou companheiro(a); Filho(a) ou enteado(a).

De se mencionar em relação aos filhos e filhas, a disparidade de gênero existente na declaração sobre cuidar de afazeres domésticos, ou seja, proporção de filhos e filhas que responderam “sim” a essa pergunta: em 2016, 80,6% das meninas responderam positivamente, contra 57,4% de resposta dos meninos.

TABELA 18 - Proporção de pessoas de 14 anos ou mais de idade por realização de tarefas domésticas no próprio domicílio na semana de referência, sexo e condição no domicílio – dados selecionados (Brasil, 2016 a 2018) Condição no domicílio Realização de tarefas domésticas no domicílio 2016 2017 2018

Homens Mulheres Homens Mulheres Homens Mulheres

Pessoa responsável Sim 80,6% 93,0% 85,0% 95,1% 86,4% 95,2% Não 19,4% 7,0% 15,0% 4,9% 13,6% 4,8% Total 100,0% 100,0% 100,0% 100,0% 100,0% 100,0% Cônjuge ou companheiro(a) Sim 76,4% 95,5% 81,0% 96,9% 82,3% 97,2% Não 23,6% 4,5% 19,0% 3,1% 17,7% 2,8% Total 100,0% 100,0% 100,0% 100,0% 100,0% 100,0% Filho(a) Sim 57,4% 80,6% 62,3% 83,1% 65,1% 84,4% Não 42,6% 19,4% 37,7% 16,9% 34,9% 15,6% Total 100,0% 100,0% 100,0% 100,0% 100,0% 100,0%

Fonte: Microdados PNAD Contínua Anual/IBGE - Elaboração Própria

Os percentuais variam nos anos de 2017 e 2018, mas não suprimem a lacuna de gênero existente entre as respostas. Em toda a série se demostra que filhos e filhas realizam trabalho doméstico, sendo que há uma sobrecarga em relação às meninas de pelo menos vinte pontos percentuais em comparação aos meninos. Tamanha discrepância pode ser interpretada como um indicativo de que a assimetria de gênero encontra no interior das famílias um terreno fértil para reprodução.

Nesse sentido, da análise das informações fornecidas pelos dados da Pnad- C de 2016 a 2018, depreende-se que, dentre outras constatações, fica evidente a persistência de uma divisão sexual do trabalho – tanto remunerado quanto não remunerado – como traço marcante da sociedade brasileira. Neste sentido, é possível concluir que as mulheres ocupam o espaço do trabalho remunerado em grande escala, assumindo de modo perene o papel de provedora direta pelo bem estar da família, atribuição tradicionalmente associada homens. Entretanto, essa característica da participação feminina no mercado de trabalho não alterou

significativamente a sua participação na realização dos trabalhos de reprodução social, haja vista a taxa de participação elevada que se mantém constante nestas atividades (Tabela 5).

No Capítulo 1 foi observado o diferencial de gênero em relação às condições de inserção e permanência da mulher no mercado de trabalho brasileiro, ocasião em que foi demonstrado que as mulheres possuem maior dificuldade para encontrar colocação no mercado de trabalho, assim como ocupam posições mais precarizadas e auferem, em média, rendas inferiores em comparação com os homens. Compreende-se que uma das explicações para este fato relaciona-se justamente à menor disponibilidade das mulheres para o mercado de trabalho (em comparação à disponibilidade dos homens) e pelo fato de que elas apresentam altas taxas de participação em atividades de cuidados e afazeres domésticos, cujas jornadas dessas atividades são consideravelmente superiores às apresentadas pelos homens, o que constitui uma forte barreira para que elas tenham acesso igualitário ao mercado de trabalho.

A afirmação de que a esfera doméstica é um terreno fértil para as reprodução das assimetrias de gênero, no sentido de que desde a cedo idade as crianças – meninos e meninas – já estão submetidos às representações mais tradicionais de gênero na participação no trabalho doméstico e no tempo a ele dedicado, é um forte indicador de uma divisão sexual do trabalho que atribui às mulheres prioritariamente a responsabilidade pelo trabalho doméstico não remunerado, independentemente da idade, condição de trabalho, nível de renda ou escolaridade.

Os dados apresentados pela PNAD-C no período analisado permitem afirmar, dentre outras conclusões, que no Brasil sempre coube às mulheres – cultural e historicamente – a responsabilidade pelos cuidados com a casa e com a família. Assim, em pleno século XXI as mulheres continuam sendo responsáveis por tarefas como o preparar a comida, cuidar de crianças, de familiares idosos, dos enfermos e das pessoas com deficiência, manter a higiene do espaço doméstico e das roupas dos membros da família, zelar pelos cuidados de saúde e de educação de todos, dentre outras. Todas essas atividades cotidianas demandam de quem as realiza um grande esforço físico e uma grande quantidade de tempo e, a despeito

disso, são socialmente invisibilizadas, embora indispensáveis para a reprodução social e econômica da sociedade.