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O valor da bolsa do Programa Agente Jovem

4.2 O PROGRAMA NA VIDA DOS JOVENS BENEFICIÁRIOS E DOS TÉCNICOS

4.2.2 O valor da bolsa do Programa Agente Jovem

Um dado que merece destaque na atual análise do Programa Agente Jovem é a transferência monetária feita aos beneficiários deste Programa e a aplicabilidade que esses jovens fazem com os recursos recebidos.

De modo geral, diante das respostas dadas pelos jovens entrevistados verificamos que a aplicação do dinheiro da bolsa, no valor de R$ 65,00, se destinava geralmente a aquisição de roupas e objetos de uso pessoal e na colaboração do orçamento doméstico.

Sobre essa destinação os técnicos atuantes no Programa ressaltaram:

O ideal seria que eles não precisassem desse dinheiro. Mas de fato tem famílias que precisam desse dinheiro. Alguns dos jovens ajudam em casa com o dinheiro da bolsa [...] disse que com esse dinheiro paga o gás e que por causa do atraso eles estavam sem o botijão. (Técnico 01, informação verbal)

Geralmente eles ajudam em casa e também adquirem objetos para uso pessoal, como higiene e as vezes, em aparelhos eletrônicos. [...] teve um dos participantes que falou: eu estou comprando com o dinheiro da bolsa tudo que eu preciso: perfume, xampu, creme [...] eu não sabia que era tão bom a gente andar cheirosa! [...] Eles realmente gastavam o dinheiro naquilo que dava prazer a eles [...]. Quando atrasa o dinheiro, eles ficam logo preocupados. Certa vez um dos jovens sumiu do Programa e eu fui conversar com ele onde ele tava trabalhando [...] sabe o que ele me disse? Olhe, no programa eu ganho 60,00 por mês e aqui na madeireira eu ganho 200,00. Eu prefiro estar trabalhando na madeireira, ganhar 200,00 e botar comida dentro de casa pra gente se alimentar do que ganhar 60,00. Então o que era que eu ia dizer pra esse jovem? [...]. (Técnico 02, informação verbal)

Com base nas respostas fornecidas tanto pelos beneficiários como pelos técnicos verificamos o quanto esse valor monetário, mesmo irrisório e insuficiente faz diferença na melhoria subjetiva dos beneficiários, traduzidas na elevação da auto-estima, como também numa pequena melhoria da organização familiar e do orçamento doméstico, contribuindo para o atendimento de algumas necessidades básicas.

Em casos de abandono ou desistência dos jovens das atividades do Programa, constatamos com base no depoimento descrito acima que as necessidades humanas imediatas falam mais alto entre a opção de receber o valor ínfimo do benefício e a inserção no mercado de trabalho, ainda que precariamente. Dessa forma o valor pago se torna pouco atrativo para manter o interesse e conseqüentemente a permanência do jovem ao Programa.

Sabemos que o valor monetário extremamente baixo é insuficiente para atender, ainda que precariamente, as necessidades da juventude brasileira. O que constatamos é que esses Programas de Transferência de Renda, aí incluído o Agente Jovem, encontra-se perpassado pelo viés neoliberal que busca justificar no baixo valor do benefício uma forma para o não estímulo a dependência econômica das famílias pobres beneficiárias e conseqüentemente a sua acomodação frente ao mercado de trabalho.

Em termos de uma perspectiva de totalidade programas sociais dessa natureza não retiram as famílias beneficiárias da condição de pobreza em que se encontram, mas melhoram minimamente a sua condição de vida perpetuando a saga da desigualdade social e da violação de direitos aos segmentos majoritários da população, especialmente dos mais jovens.

5 – APROXIMAÇÕES DE ANÁLISE

Observando avanços e recuos, numa perspectiva crítica de investigar o contexto de violação de direitos vivenciados na juventude, tomamos como referencia empírica, sujeitos de pesquisa, os jovens pobres e beneficiários do Programa Agente Jovem de Desenvolvimento Social e Humano, residentes no pequeno município de Arez/RN, situado na região canavieira do nordeste brasileiro.

Esse percurso nos levou a conhecer, entender e desvelar as mediações que se processam na tessitura social que amoldam e fundem as vivências desses jovens e conseqüentemente de suas famílias, atingindo a totalidade de suas vidas.

Trazer a temática, violação de direitos da juventude para o centro do debate nos levou a conhecer esses sujeitos, suas relações, seus medos, inseguranças, dificuldades, perspectivas e a ausência destas, em suas vidas. Levou-nos também, a perceber a centralidade referencial do trabalho para suas vidas, suas angústias expressadas verbalmente ao vislumbrarem a não inserção ou ainda a inserção prematura e precarizada no mercado de trabalho.

Apreendemos como o capital transnacional, aqui representado na grande indústria açucareira e na carcinicultura fincadas na região, como força superior se embrenha em todos os espaços da vida das famílias desses jovens, subtraindo as possibilidades dos mesmos traçarem seus próprios destinos.

Partindo do exposto nas seções anteriores, tomamos a objetividade e a subjetividade dos sujeitos da pesquisa problematizados por meio do referencial analítico/crítico adotado, o que nos permitiu desvelar a dinâmica histórica e contraditória da vida daquela comunidade, assim como, o conteúdo compensatório e focalizado do Programa Agente Jovem de Desenvolvimento Social.e Humano.

As condições sociais, econômicas, políticas e culturais vividas pelos jovens no seio de suas famílias constituem o “pano de fundo” da realidade brasileira, essencialmente marcada pela pobreza e pela desigualdade social, permeada pelas diversas expressões que determinam a questão social, entre elas a fome, o

desemprego e o subemprego, a moradia precária, a baixa escolarização, a falta de lazer, a violência entre outros.

A pobreza que se apresenta na contemporaneidade adentra-se não só a dimensão material, mas também a espiritual resultante direta das relações de poder da sociedade. Sobre isso Yazbek (1996, p.63) assinala:

A pobreza é a expressão direta das relações sociais vigentes na sociedade e certamente não se reduz às privações materiais. Alcança o plano espiritual, moral, político dos indivíduos submetidos aos problemas da sobrevivência.

No movimento da investigação e de exposição, neste trabalho, do que apreendemos da realidade da pesquisa evidenciamos a precariedade sócio- econômica em que vivem os jovens arezenses e suas famílias, apresentando um rendimento mensal familiar variável entre ½ a 3 salários mínimos, estando seus provedores, na sua grande maioria masculina, incluídos no mercado informal de trabalho, restando às mulheres o trabalho doméstico. Esta realidade não se restringe à Arez, mas observa-se não só na região nordeste, como reproduz-se em muitos municípios brasileiros.

Sabemos que o rendimento é primordial para a sobrevivência e Bem Estar da família, dependendo também, o acesso a determinados bens e serviços e a qualidade de vida das populações.

Os dados do PNAD 2008 revelaram que no ano de 2007, os 10% da população ocupada com os mais baixos rendimentos detiveram 1,1% do total dos rendimentos de trabalho, enquanto os 10% com os maiores rendimentos recebiam 43,2%, o que demonstra a contínua prevalência da concentração de rendimento no Brasil. Registra-se assim, as grandes e graves disparidades de renda entre as classes brasileiras e que emolduram o quadro da desigualdade social em nosso país. “Desigualdades indissociáveis da concentração de renda, de propriedade e do poder, que são o verso da violência, da pauperização e das formas de discriminação ou exclusões sociais.” (IAMAMOTO, 2005, p. 59)

Quanto às condições de moradia verificamos que apesar do pequeno tamanho do município e da precariedade material revelada, as famílias dos jovens possuíam na sua maioria domicílio próprio, estando a sua totalidade com acesso

ao conjunto de serviços públicos de energia elétrica, abastecimento de água e coleta de lixo. Estando o serviço de esgotamento sanitário inacessível apenas aquelas famílias que residiam na periferia da cidade, isto é, aquelas localizadas mais distante do centro.

Vale salientar que no ano de 2006 e 2007 o município de Arez foi beneficiado com a concessão de programas públicos de habitação para a população de baixa renda e de rede de esgotamento sanitário, o que justifica a melhoria de infra-estrutura dos serviços públicos destinados aos cidadãos do município.

Assim, na medida em que os avanços constitucionais e os embates ocorridos nos últimos tempos no cenário político se situam e apontam para o reconhecimento de direitos trazendo para a ordem do dia a questão da pobreza e das exclusões, por outro lado o Estado, seguindo as indicações neoliberais das grandes instituições internacionais de fomento, que se encontram a serviço do capital, atuam contraditoriamente na desarticulação, na retração dos direitos e no baixo investimento no campo social.

Portanto, não podemos desconsiderar a análise da Política Social no âmbito contraditório e ambíguo do processo de produção e reprodução das relações sociais que configuram a vida social. Constatamos na medida em que, o Estado está submetido a serviço dos interesses econômicos e políticos dominantes, atua contraditoriamente no atendimento a determinadas necessidades sociais das classes trabalhadoras, no sentido de manté-las num processo de acomodação, atendendo ainda que precariamente, a determinadas necessidades de sobrevivência dessas populações empobrecidas. Para Abreu (2008, p. 346),

[...] existem cidadãos que possuem privadamente os meios de realização social e cidadãos que não possuem nada além de si próprios; cidadãos que trabalham e produzem sem se apropriar da riqueza por eles produzida e os que trabalham mas se apropriam da riqueza que os outros produzem; cidadãos que não governam sequer seus próprios destinos e os que governam os destinos de muitos; cidadãos que possuem meios para efetivar a discriminação e cidadãos que são discriminados.”

No estudo da realidade desses jovens residentes nessa comunidade rural nordestina, identificamos um quadro de violações de direitos e conseqüentemente da cidadania negada que coincide com o de muitos outros jovens residentes em grandes regiões urbanas brasileiras. Jovens que partilham as mesmas carências e que sofrem os mesmos processos excludentes resultantes da gritante desigualdade social

Sabemos que o desrespeito e as violações no campo dos direitos humanos sempre fizeram parte da história da humanidade. Entretanto, na contemporaneidade brasileira existe um grande paradoxo representado no plano legalista institucional e na garantia e efetivação concreta desses direitos. Com isso queremos assinalar, que na mesma medida em que crescem em elevadas proporções as violações aos direitos, também o são as legislações que lhes garantem e que permitem avaliar o grau de desrespeito de tais violações, bem como a formalização das reclamações.

Alguns exemplos, do descaso com os direitos de nossa juventude nessa realidade local foram evidenciados na pesquisa e que no âmbito educacional se traduzem na precariedade das instalações escolares, na debilidade do acesso aos recursos e serviços escolares disponíveis ao alunato que se traduzem na superlotação das salas de aula, na precariedade digital que tem levado ao comprometimento intelectual e de aprendizagem dos alunos, na defasagem do ensino série e no baixo compromisso dos educadores com o ensino público de qualidade.

No âmbito da capacitação, profissionalização e inserção do jovem no mercado de trabalho, vimos que inexiste no município uma política de incentivo que se siga nessa direção; o que tem levado muitos jovens na garantia da sobrevivência e de sua família a se inserirem precoce ou clandestinamente no mercado informal de trabalho, com baixa ou nenhuma remuneração.

Evidencia-se, portanto, a limitada incorporação dos jovens pobres ao mercado de trabalho, restando-lhes muitas vezes à inatividade e o desemprego formatando diariamente a sua posição na escala social.

Essas situações de inclusão precarizadas e de negação de direitos condicionam nos jovens, o surgimento de sentimentos de desalento e frustração ante o desejo de mobilidade social e aspiração de uma condição de vida melhor, que lhes são negadas pela condição de privação e pobreza vivenciadas e que

repousam os seus fundamentos no modelo econômico adotado, que explora e aliena perpassando o conjunto das relações sociais.

Sabemos, que a problemática dessa juventude que se encontra prematuramente alijada do mercado de trabalho, que foram evidenciadas pelos jovens entrevistados em suas declarações, não será solucionada sem uma mudança radical da política econômica.

Restrições que se fazem presentes também, na oportunidade de acesso e usufruto aos equipamentos de lazer e sócio-culturais patentes nessa realidade, que no caso em tela, são praticamente inexistentes.

Constatamos que os jovens dispõem apenas da televisão e das praças da cidade como opção de entretenimento e lazer, tendo em vista que os escassos e insuficientes equipamentos sócio-culturais que dispõem são: o museu que possui acesso restrito, a biblioteca pública geralmente utilizada na sua totalidade pelo alunato na realização dos trabalhos escolares; o ginásio poliesportivo e as quadras das escolas municipais, onde se desenvolvem a prática restrita do futebol.

Nesse caso, os dispositivos do ECA que resguardam o direito ao esporte, a cultura e ao lazer encontram-se distantes da realidade desses jovens pesquisados.

Art 59. Os municípios, com o apoio dos Estados e da União, estimularão e facilitarão a destinação de recursos e espaços para programações culturais, esportivas e de lazer voltadas para a infância e a juventude. (BRASIL, 1999, p. 89)

Essa realidade demonstra que os incentivos a cultura, as atividades esportivas e ao lazer no município ainda são muito inexpressivos, se comparados a outros investimentos, o que demonstra a baixa importância dada a Política Sócio-Cultural no município.

Essa realidade local não difere muito da nacional, se constituindo num todo articulado, complexo e diversificado, permeado por problemas comuns resultantes das políticas neoliberais que se orientam para retração do Estado, atentando diretamente contra os direitos dos cidadãos, “especialmente daqueles que

dependem da esfera pública, da afirmação de direitos universais para terem acesso aos bens fundamentais.” (SADER, 2004, p. 09).

Ao analisarmos a política para a juventude, especificamente o Programa Agente Jovem de Desenvolvimento Social, atualmente substituído pelo Pró- Jovem Adolescente. vimos que os resultados apresentados encontram-se distantes dos objetivos propostos mediante as dificuldades vivenciadas na prática cotidiana das atividades.

Observamos, a priori que as condições criadas para inserir, reinserir e manter o jovem no sistema de ensino têm sido extremamente deficitárias, tendo em vista que inexiste uma articulação sistemática entre a coordenação e os técnicos que atuam no Programa junto à escola.

A idéia de integrar o jovem à sua família, à comunidade e à sociedade se restringe a informações dadas geralmente às mães sobre o comportamento do jovem no desenvolvimento das atividades desenvolvidas no Programa. Quanto à participação desses nas intervenções em atividades comunitárias, vimos que de um modo geral, contribuem apenas como elemento de interação grupal, melhoria da sociabilidade entre os jovens e aumento da auto-estima. Isso faz retomar a idéia positivista de “integrar ao sistema” o jovem que se encontra “fora de padrões” ou “à parte do todo articulado”, desrespeitando o ritmo e o tempo de cada jovem. São atividades que muito pouco contribuem para o exercício da autonomia e para o crescimento juvenil dentro dos espaços sociais da comunidade.

Quanto à cobertura, verificamos que o número de jovens beneficiários atendidos pelo Programa em comparação com a demanda e com a população juvenil residente no município é extremamente insignificante. O que se justifica nas dificuldades orçamentárias que não permitem o atendimento da demanda reprimida.

Quanto a operacionalização, analisamos que a precariedade da proposta pedagógica demonstrada pelo desinteresse dos jovens com algumas temáticas abordadas, traduzidas pela não garantia ou pouco envolvimento dos jovens são alguns desses exemplos. A descontinuidade das ações que se revela na pouca duração do Programa, a estética e a falta de infra-estrutura física adequadas, com um espaço arquitetônico privilegiado para o desenvolvimento das atividades e as condições precárias de trabalho proporcionadas; constituem alguns dos

indicadores que ressaltam a lógica da provisoriedade e o lugar social subalterno indicado aos jovens beneficiários desse tipo de Programa.

Por aproximações sucessivas pode-se afirmar que o Programa Agente Jovem de Desenvolvimento Social e Humano, como Política Pública destinado aos jovens dentro do leque dos Programas de transferência de renda, se constituiu em mais uma resposta focalista da classe dominante via Estado.

Assim, reafirmamos que os avanços no âmbito do direito juvenil ainda não foram significativamente suficientes para mudar de forma substancial a realidade dos jovens pobres brasileiros; prevalecendo o hiato entre aquilo que se deseja e as condições materiais atualmente presentes nos Programas compensatórios que de maneira pífia reduz a desigualdade de renda, mas que em nada modifica os privilégios da classe dominante e a estrutura da concentração de renda no Brasil.

Finalmente reiteramos a análise de Zaluar em sua pesquisa realizada em 1994, contextualmente tão atual, e que apontou as ambigüidades existentes em nosso país

Num país como o Brasil, de ambigüidades tão grandes em relação à letra da lei e a prática política real, com uma cultura política ainda hegemônica que reproduz o clientelismo e todas as formas de privilegio que, por definição, excluem enormes parcelas da população, não há como ignorar essas vozes dos despossuídos que se tornam objeto das políticas sociais falhas, confusas e intermitentes que procuram preencher as faltas da pobreza (ZALUAR, 1994, p. 177-178)

O grande desafio que se coloca para o século XXI é suscitar às vozes desses que fazem e verdadeiramente, constroem esse país, na busca contínua e incansável da concretização de direitos na luta contra a barbárie instalada na sociedade capitalista.

Com isso queremos remarcar, que as aproximações analíticas que perquerimos na busca da apreensão dessa realidade, não se constituíram em um estudo definitivo, pronto, acabado, mas ao contrário significaram ainda mais, um estímulo para trazer à tona, as vozes, os sonhos e as diversas formas de resistência desses jovens pobres, filhos da classe trabalhadora, oprimida pelo capital, que ao longo dos séculos vivenciam cotidianamente situações de violação e/ou negação de direitos.

Dessa forma, esperamos que as aproximações aqui reveladas, venham contribuir para o entendimento da realidade desse segmento da população brasileira, de maneira a subsidiar pesquisas e estudos posteriores, bem como promover a implementação de um novo formato de Políticas Sociais pautadas nas necessidades sociais locais, de forma que venham fortalecer o Sistema de Proteção Social Brasileiro, garantidor de direitos democráticos.

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