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Programa Agente jovem em Arez/RN: juventude e violação de direitos

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Academic year: 2017

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PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM SERVIÇO SOCIAL - PPGSS

VALÉRIA MARINHO DA SILVA

PROGRAMA AGENTE JOVEM EM AREZ/RN –

JUVENTUDE E VIOLAÇÃO DE DIREITOS

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PROGRAMA AGENTE JOVEM EM AREZ/RN –

JUVENTUDE E VIOLAÇÃO DE DIREITOS

Dissertação apresentada à Pós-Graduação em Serviço Social da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, como requisito parcial para a obtenção do grau de Mestre em Serviço Social

Orientadora:

Profª Drª. Denise Câmara de Carvalho.

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Silva, Valéria Marinho da.

Programa Agente jovem em Arez/RN – Juventude e Violação de Direitos/ Valéria Marinho da Silva. - Natal, 2009.

150 f.

Orientadora: Profª. Drª. Denise Câmara de Carvalho.

Dissertação (Pós-Graduação em Serviço Social) - Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Centro de Ciências Sociais Aplicadas. Programa de Pós-Graduação em Serviço Social.

1. Serviço Social - Dissertação. 2. Juventude - Dissertação. 3. Programa Agente Jovem - Dissertação. 4. Pobreza - Dissertação. 5.Violação de Direitos - Dissertação. I. Carvalho, Denise Câmara de. Universidade Federal do Rio Grande do Norte. III. Título.

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PROGRAMA AGENTE JOVEM EM AREZ/RN – JUVENTUDE E VIOLAÇÃO DE DIREITOS

Dissertação apresentada à Pós-Graduação em Serviço Social da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, como requisito parcial para a obtenção do grau de Mestre em Serviço Social.

Aprovado em

BANCA EXAMINADORA

Profª. Drª Denise Câmara de Carvalho (Orientadora) Universidade Federal do Rio Grande do Norte - UFRN

Profª Drª Claúdia Maria Costa Gomes (Membro – Titular) Universidade Federal da Paraíba - UFPB

________________________________________________________________ Profª Drª Silvana Mara de Morais Santos (Membro - Titular)

Universidade Federal do Rio Grande do Norte - UFRN

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A esses jovens brasileiros, expressão de luta e resistência no reconhecimento enquanto sujeitos de direitos.

A meu pai, Ricardo Fernandes (in memorian), com quem gostaria de partilhar mais esse momento de vitória.

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À Deus, companhia diária em minha vida, que me concedeu mais essa vitória.

À Professora Denise Câmara de Carvalho, orientadora deste estudo que com competência, sabedoria e vasto conhecimento técnico científico me conduziu nas reflexões expostas no decorrer desse trabalho.

Á amiga Any Kadidja pela amizade sincera, pelo apoio e pelos momentos de discussões teóricas empreendidas ao longo desse mestrado.

Às professoras da Pós Graduação que contribuíram com a minha formação profissional.

A todos que de alguma forma contribuíram para que eu pudesse alcançar mais essa etapa de realização profissional.

AGRADECIMENTOS ESPECIAIS

A minha mãe, amiga, incentivadora e exemplo em todos os momentos de minha vida

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Este trabalho propõe discutir a temática da juventude e da violação de direitos no âmbito do Programa Agente Jovem desenvolvido no município de Arez/RN, região canavieira do nordeste brasileiro. Tomamos como referência empírica, os jovens na faixa etária de 15 a 17 anos de idade que participavam das atividades do Programa, no período de abril à julho de 2008. Constituíram-se objetivos deste estudo, apreender as condições sócio-econômicas e culturais dos jovens participantes do Programa Agente Jovem, no contexto de violações de direitos; bem como a análise dos limites e possibilidades, os fundamentos teórico-políticos, metodológicos e as atividades desenvolvidas no Programa. Utilizamos como instrumentais metodológicos a observação, atividades em grupo com a técnica de grupo focal e a aplicação de entrevistas semi-estruturadas. Como resultado, observamos que a violação de direitos dos jovens inseridos no Programa Agente Jovem de Arez se constitui reflexo das múltiplas determinações da questão social, inerentes à sociedade capitalista, particularizadas no contexto da pobreza e da desigualdade social que adquirem visibilidade na fome, no desemprego/subemprego, na moradia precária, na baixa escolarização, na falta de lazer, na violência entre outros. As aproximações sistematizadas nesse trabalho são relevantes para o desvelamento da realidade da juventude brasileira, especificamente dos jovens de Arez, de forma que venha subsidiar futuras pesquisas, como também fomentar a discussão acerca da maneira como os Programas de Políticas Sociais são implementados e conduzidos na sociedade capitalista, em seu formato neoliberal, onde se sobrepõe a focalização e a seletividade em detrimento do acesso universal aos direitos democráticos. Assim, o grande desafio que se coloca para o século XXI é suscitar às vozes desses que fazem e verdadeiramente constroem esse país, na busca contínua e incansável da concretização de direitos na luta contra a barbárie instalada na sociedade capitalista.

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ANCED - Associação Nacional dos Centros de Defesa da Criança e do Adolescente.

AIDS – Síndrome da Imunodeficiência Adquirida. BIRD – Banco Interamericano de Desenvolvimento. BM – Banco Mundial.

BNDES – Banco Nacional de Desenvolvimento Social. CEDUC – Centro Educacional

CEPAL – Comissão Econômica para a América Latina. CPI – Comissão Parlamentar de Inquérito.

DIEESE - Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos. DSM – Manual de Diagnósticos e Estatística das Perturbações Mentais.

DST – Doenças Sexualmente Transmissíveis. ECA – Estatuto da Criança e do Adolescente. FINEP – Financiadora de Estudos e Projetos. FMI – Fundo Monetário Internacional.

Fórum DCA – Fórum de Direitos da Criança e do Adolescente. IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística.

IDH – Índice de Desenvolvimento Humano

IPEA Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada. LDB – Lei de Diretrizes e Bases da Educação. LOAS – Lei Orgânica da Assistência Social.

MDS – Ministério do Desenvolvimento Social e Combate a Fome.

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OIT – Organização Internacional do Trabalho. ONU – Organização das Nações Unidas.

PETI – Programa de Erradicação do Trabalho Infantil. PNAD - Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios. PNAE - Programa Nacional de Alimentação Escolar PNAS – Política Nacional de Assistência Social SUAS – Sistema Único de Assistência Social.

SUASWEB – Sistema de Acompanhamento Físico Financeiro das Ações de Assistência Social.

UFRN – Universidade Federal do Rio Grande do Norte.

UNESCO – Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura

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1 INTRODUÇÃO ... 12

2 INFÂNCIA E JUVENTUDE NA REALIDADE CONTEMPORÂNEA ... 21

2.1 HISTORICIDADE DO DEBATE INFANTO-JUVENIL ... 21

2.1.1 Processos de inclusão precarizada que geram violência ... 32

2.2 JUVENTUDE, POBREZA, DESIGUALDADE SOCIAL E AS POLÍTICAS PÚBLICAS ... 39

2.3 VALORES DA SOCIEDADE CAPITALISTA ... 50

3.0 CARACTERIZAÇÃO DOS JOVENS NO CONTEXTO DE VIOLAÇÃO DE DIREITOS. ... 56

3.1 O DEBATE CONTEMPORÂNEO DOS DIREITOS HUMANOS ... 57

3.2 CARACTERIZAÇÃO DAS CONDIÇÕES DE VIDA DOS JOVENS DE AREZ. ... 60

3.2.1Situação geral dos jovens entrevistados ... 61

3.2.2Situação de moradia e renda familiar dos entrevistados ... 63

3.2.3O lazer e o entretenimento ... 72

3.2.4As contradições da convivência familiar ... 75

3.3 A PRÁTICA DA VIOLAÇÃO DE DIREITOS: A PERCEPÇÃO DOS JOVENS81 3.3.1 Condições da escola e seus equipamentos. ... 81

3.3.2 Trabalho no cotidiano na percepção dos jovens ... 87

3.3.3 Escola e perspectivas de futuro no universo juvenil ... 90

3.4 RESULTADO DO GRUPO FOCAL: SAÚDE, EDUCAÇÃO, PROFISSIONALIZAÇÃO E TRABALHO. ... 93

3.4.1O primeiro contato com o grupo ... 94

3.4.2Discussão em grupo: direito a vida e a saúde ... 94

3.4.3O direito à educação e à profissionalização ... 98

4.0 LIMITES E POSSIBILIDADES DO PROGRAMA AGENTE JOVEM ... 102

4.1 O PROGRAMA AGENTE JOVEM DE DESENVOLVIMENTO SOCIAL EM ÂMBITO MUNICIPAL ... 103

4.2 O PROGRAMA NA VIDA DOS JOVENS BENEFICIÁRIOS E DOS TÉCNICOS107 4.2.1Perspectivas e oportunidades de vida para os jovens de Arez ... 110

4.2.2O valor da bolsa do Programa Agente Jovem. ... 112

5 – APROXIMAÇÕES DE ANÁLISE ... 114

REFERÊNCIAS ... 122

APÊNDICES...131

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1 INTRODUÇÃO

O interesse em pesquisar o contexto de violações de direitos vivenciados no cotidiano dos jovens que integram o Programa Agente Jovem do município de Arez/RN, adveio da nossa experiência como assistente social nesse município.

Após 12 anos de atuação profissional no âmbito do Serviço Social no município de Arez/RN, pudemos constatar ao longo desse período a necessidade contínua em responder a determinadas questões que se colocam no cotidiano do exercício profissional, bem como buscar alternativas de enfretamento. Questões estas, demandadas pelos usuários do Serviço Social e que, sobretudo nos últimos tempos vêm sofrendo, com maior intensidade, as profundas mudanças ocorridas no interior do padrão de acumulação capitalista que por sua vez, tem refletido em todos os campos sociais; e que particularmente, no âmbito da Política Social vem se caracterizando pela (des)responsabilização do Estado aliado ao desmonte de direitos já conquistados pelas populações, contribuindo decisivamente na agudização do quadro de pobreza em nosso país, e consequentemente dos municípios.

A escolha do Programa Agente Jovem do município de Arez/RN, como unidade de referência empírica deu-se pelo fato do acesso facilitado para a coleta de dados e pela proximidade com os sujeitos da pesquisa, ocorrida em virtude de nossa atuação como assistente social no quadro efetivo de profissionais do município.

O município de Arez localiza-se no nordeste brasileiro na microrregião do litoral sul do Rio Grande do Norte, distante 58 quilômetros da capital Natal; sua economia gira em torno da agropecuária, da pesca artesanal, da cana de açúcar e da carcinicultura; estando as duas primeiras atividades voltadas para a subsistência e as duas últimas beneficiadas para o consumo nacional e para a exportação. Possui 12.236 habitantes, destes 3.256 constituem-se de jovens na faixa etária entre 15 a 29 anos; conforme revelou o censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – IBGE, em 2004.

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que foram suprimidos pelo surgimento da agroindústria canavieira, hoje visivelmente fincada em meio à paisagem rural. Aspectos que permeiam e conformam historicamente o desenvolvimento desigual da economia brasileira, com o surgimento da agroindústria canavieira datada do inicio do século XX.

Durante mais de sete décadas, foi a produção da cana de açúcar e a agricultura de subsistência que se constituíram a base da economia local do município de Arez, passando a carcinicultura somente a fazer parte no final dos anos de 1980 do século XX.

A carcinicultura emerge no contexto da economia brasileira nos últimos decênios como opção para alavancar o crescimento da produção de pescados em âmbito mundial. Foi na década de 70 do século passado que ocorreram as primeiras experiências de cultivo de camarão em cativeiro, entretanto somente na década de 80 se tornou uma atividade economicamente viável e lucrativa.

O nordeste se destacou como uma região de grande potencial para esse tipo de cultivo, sobretudo por possuir excelentes condições climáticas aliada a grandes extensões de terras litorâneas, água de boa qualidade e grande disponibilidade de mão de obra barata.

Dessa forma, o capital valendo-se do potencial aqüífero do município de Arez passou a utilizar amplamente os seus recursos naturais nessa exploração. Simultaneamente, aliado ao capital, o governo do estado do Rio Grande do Norte por meio de incentivos fiscais do Banco Nacional de Desenvolvimento Social (BNDES) e da Financiadora de Estudos e Projetos (FINEP) incentivou os pequenos proprietários e carcinicultores ao cultivo de camarão em cativeiro, proporcionando um impulso considerável a essa atividade (SANTOS, 2001).

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Apoiados nesses fatos; constatamos que as relações de exploração do trabalho historicamente estabelecidas pelo capital na manufatura, atualmente, ainda permanecem as mesmas, o que demonstra a versatilidade e flexibilidade do capital ao se transfigurar ao longo dos séculos. Com isso, queremos afirmar que a introdução do maquinário, as novas tecnologias e o avanço da ciência, no final do século XIX, significaram uma revolução nas formas de produzir e acumular riquezas, sobretudo quando comparados as técnicas manuais que dependiam prioritariamente da força física humana.

Em relação ao processo de surgimento da maquinaria na Inglaterra, Marx (1998) em O Capital analisa esse processo e a indústria moderna revelando as conseqüências nefastas para a vida dos trabalhadores; entre elas a extinção dos antigos ofícios, a exploração do trabalho infantil, o trabalho insalubre e penoso, o alcoolismo, o analfabetismo, a miséria e a degradação humana, o aumento dos acidentes de trabalho e da criminalidade. Problemas, ainda hoje, manifestados na exploração e acumulação capitalista e que tem sido agudizados pelo processo de mundialização do capital e a progressiva desigualdade social.

As mudanças ocorridas no mundo do trabalho na contemporaneidade são dentre muitos, alguns dos efeitos nocivos dos ajustes estruturais ocorridos nos últimos anos. Entretanto, o capital que pressupôs a formação da agroindústria canavieira é o mesmo da carcinicultura, que ao se expandir no contexto de reestruturação produtiva fez aumentar a exploração e as fileiras dos que se encontram alijados do mercado de trabalho. Como resultado, temos a conjugação de processos produtivos frutos de métodos arcaicos e modernos que reiteram a subordinação absoluta à lógica dos negócios por meio da histórica superexploração do trabalho e da devastação desenfreada do meio ambiente, que vem se intensificando no Brasil a partir do atual processo de mundialização amplamente difundido “modernizador”, mas que de fato possui suas bases sociais e políticas originárias no período colonial aprofundando ainda mais, as desigualdades que conformam o quadro de pobreza do nosso país.

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direitos a ele pertinentes, sendo muitas vezes, recrutados por terceiros no mercado informal de trabalho. (IAMAMOTO, 2006, p.150).

Não pretendemos aqui nos adentrar no processo de formação e desenvolvimento do capitalismo, mas atentar para os efeitos nocivos de sua exploração, o que tem conduzido um contingente considerável de trabalhadores ao desemprego que se vêem forçados à submissão perversa da lógica, cada vez mais intensiva da exploração capitalista.

Nesses termos, no processo de produção capitalista, a relação estabelecida entre o capitalista e o trabalhador torna-se uma relação desigual, à medida em que o primeiro enquanto detentor dos meios de produção consome a força de trabalho dos trabalhadores, fazendo-os consumirem os meios de produção através do processo de trabalho; que por sua vez se efetiva sem atender as suas necessidades básicas, na relação da compra da força de trabalho na troca por salário; legitimando dessa forma, uma situação que se supõe juridicamente igualitária no contexto contratual; mas que, todavia se legitima extremamente desigual e alienante, visto que o capitalista detém os meios de produção, a força de trabalho e o produto final do mesmo.

Observamos assim, que permanecem no movimento do capital as relações cada vez mais alienantes que se deslocam da esfera da produção para a do consumo, num movimento contínuo. Dessa maneira, a classe que detém o poder econômico e político sustentado por seus aparatos institucionais sorrateiramente escamoteia os conflitos, dissimula a exploração econômica e política, oculta os interesses particulares dando-lhes o aspecto consensual de idéias gerais e universais de toda uma coletividade.

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Constituindo assim, parte integrante das famílias brasileiras que permanecem vivendo aquém do limite da pobreza absoluta1, sem perspectiva de terem minimizados os seus problemas mais imediatos ou quiçá atendidas em suas necessidades básicas.

Nos últimos sete anos atuando na área dos Direitos Humanos2 no Conselho Municipal de Direitos da Criança e do Adolescente daquele município, nosso interesse em pesquisar questões infanto-juvenís foi se intensificando, principalmente após a nossa inserção na base de pesquisa do Programa de Pós-Graduação em Serviço Social da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) Saúde, Exclusão Social e Cidadania; como também à participação em conferências, capacitações e seminários temáticos.

Nos anos de 2003 a 2005, enquanto pesquisadora na Base de Pesquisa: Saúde, Exclusão Social e Cidadania da UFRN; fizemos uma primeira incursão sobre o universo juvenil, através do levantamento denominado: “Fala Garot@: drogas no cotidiano escolar”; a fim de verificar a propensão dos jovens de Arez, na faixa etária entre 12 e 18 anos, quanto ao consumo de substâncias psicoativas. Tomamos como referência neste levantamento, as discussões ocorridas nas reuniões ordinárias do Conselho Municipal de Direitos da Criança e do Adolescente; onde educadores e moradores da própria comunidade suscitaram hipóteses sobre o consumo de drogas entre os jovens do município, inclusive no entorno das escolas.

Ao final do levantamento, os resultados conclusivos reiteraram o que a própria realidade empírica já apontava, ou seja, uma certa inclinação, influência dos jovens para o consumo precoce do álcool e outras drogas. Observou-se, ainda, no que revelou esse levantamento, como se efetiva o contexto social, o consumo; o tipo de relacionamento familiar e social estabelecidos entre os adolescentes e a precariedade de acesso aos equipamentos de lazer, praticamente inexistentes naquele município.

1 O Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) define como pobres aquelas pessoas que vivem com uma renda inferior a meio salário mínimo e como indigentes aquelas com renda inferior a ¼ do salário mínimo.

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Há que se ressaltar, outros elementos relevantes e observáveis empiricamente no exercício profissional no cotidiano do município e que foram registrados em 2004, no documento “Diagnóstico da Infância e da Adolescência do Município de Arez”. Observa-se, por exemplo, a evasão escolar ocorrida no 9º ano do ensino fundamental; do considerável número de jovens sem ocupação; da falta de perspectivas no futuro expressada nas falas destes, a ausência de Políticas Públicas destinadas à juventude, de maneira que venha atender a crescente demanda e escassez de equipamentos culturais e desportivos.

Esse cenário, combinado aos determinantes de ordem sócio-econômica e cultural tem se mostrado generalizado e concorre para o quadro degradante do contexto de violação de direitos pelo qual passa a juventude brasileira.

A pesquisa no mestrado, como já nos reportamos, tomou como referência empírica os jovens residentes no município de Arez e participantes no Programa Agente de Desenvolvimento Social e Humano nos anos de 2007/2008, que faz parte das ações do Ministério de Desenvolvimento Social (MDS) do governo federal, mais conhecido por “Agente Jovem”. Esse Programa atende a faixa etária compreendida entre 15 e 17 anos de idade e se propõe a desenvolver atividades sócio-educativas que estimulem experiências práticas e o protagonismo juvenil, com ênfase nos aspectos da educação para o trabalho (que não se configurem como atividade de trabalho); como também, o fortalecimento dos vínculos familiares e comunitários.

A análise da situação dos direitos dos jovens nos conduziu ao estudo no contexto das determinações sócio-históricas contemporâneas e as possibilidades proporcionadas pelo Programa Municipal Agente Jovem no enfrentamento da violação de direitos. Nesse sentido, numa perspectiva analítica, encontram-se aqui registrados algumas das particularidades da condição de vida desses jovens, bem como a subjetividade que se constitui produto social, visto que articula a individualidade e a generidade. O que queremos demarcar é que esses jovens enquanto seres históricos vão ao longo de sua existência constituindo determinados traços identitários que marcarão a sua vida definitivamente, num processo dialético de autoconstrução ininterrupta.

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participantes no Programa Municipal Agente Jovem; c) analisar os resultados do Programa Municipal Agente Jovem no contexto das determinações sócio-históricas contemporâneas e suas possibilidades de garantia de acesso aos direitos da juventude; d) analisar o Programa Agente Jovem: fundamentos teórico-políticos; metodologia e atividades considerando a percepção dos sujeitos envolvidos: coordenação, técnicos e participantes.

Nosso propósito, ao redimensionar a problemática promovendo a sua discussão teórico-metodológica, é por acreditar que esta poderá se constituir em ponto de partida para a reflexão e para o debate acadêmico e respectivamente, para a futura proposição de políticas públicas direcionadas à faixa etária juvenil.

Nesta direção, nos propomos a aprofundar o entendimento da temática juventude e violação de direitos; como categorias analíticas, procurando desvelar os nexos e contradições que se fazem presentes e que compõem a teia social, econômica e cultural daquela realidade municipal; estabelecendo as mediações possíveis na tentativa de entender o contexto de violação de direitos vivenciados por aqueles jovens, buscando evitar percepções estereotipadas e adultocêntricas3 que direcionam a explicação de uma suposta “vulnerabilidade social”, de forma linear e patológica que culpabiliza o ser humano pela sua condição de vida e por estar vivo.

Para este estudo, a pesquisa de campo ocorreu no período de abril a julho de 2008. Abrangeu a utilização de distintas técnicas: a observação, a técnica de grupo focal e a entrevista semi-estruturada junto aos jovens, aos técnicos e coordenação do Programa. O trabalho está apresentado em quatro seções: 01 Introdução; 02 Infância e juventude na realidade contemporânea; 03 Caracterização dos jovens no contexto de violação de direitos; 04 Limites e possibilidades do Programa Agente Jovem e 05 Aproximações de análise.

No primeiro momento da pesquisa, buscamos a articulação com a coordenação do programa por meio da qual fomos informadas que 25 jovens eram atendidos pelo Programa Agente Jovem.

Iniciamos os primeiros contatos com o grupo e junto a esses, utilizamos técnicas de observação, atividades em grupo com a técnica de grupo focal, e

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posteriormente, a aplicação de entrevistas semi-estruturadas, que teve como base um formulário (apêndice A) contendo questões que permitiram a caracterização do jovem, suas relações familiares, sociais e as ações desenvolvidas no Programa. Foram entrevistados também, a coordenação e os técnicos do Programa tendo como objetivo situar as ações desenvolvidas e perspectivas quanto a consecução das finalidades do Programa e os resultados esperados.

No segundo momento, nos apropriamos dos dados da empiria, coletados a partir das entrevistas com os jovens e com os técnicos envolvidos no Programa, no sentido de tentar apreender as especificidades e singularidades dos sujeitos envolvidos na pesquisa bem como a dimensão universal que lhes é intrínseca.

O terceiro momento, dedicamos a análise e exposição dos resultados alcançados com a pesquisa, a partir dos quais chegamos às aproximações de análise que se constituem a síntese do que expomos ao longo da dissertação.

É importante ressaltar que a perspectiva crítica/analítica em relação a temática serão pautadas em autores como Karl Marx, Gramsci, Martins, Antunes, Paulo Netto, Ianni, Iamamoto, Yazbek, além dos que mais se aproximam do objeto pesquisado como Áries, Abramovay, Battaglia, Faleiros, Passetti entre muitos outros que embasaram este estudo e com os quais procuramos fazer interlocução.

A segunda seção, “Infância e juventude na realidade contemporânea”, traz a discussão teórica do debate infanto-juvenil, com base em uma retrospectiva dos processos de exclusão/inclusão e de violência que contribuem para o acirramento da questão social, que agudiza e emoldura o quadro de pobreza e a desigualdade social.

A terceira seção, “Caracterização dos jovens no contexto da violação de direitos”, está centrada na análise do debate sobre os direitos humanos infanto-juvenis na atualidade brasileira; apresenta a caracterização sócio-econômica e cultural dos jovens participantes da pesquisa e as particularidades vivenciadas por esses a partir de sua subjetividade no contexto da violação de direitos.

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entendimento do Programa, a análise dos limites e possibilidades de enfretamento no quadro de violação de direitos.

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2 INFÂNCIA E JUVENTUDE NA REALIDADE CONTEMPORÂNEA

A história contemporânea nos revela o legado de desrespeito e negação de direitos deixado a nossas crianças, adolescentes e jovens pelos nossos antepassados. As atrocidades cometidas pelos adultos nas diversas civilizações contra esse público, ainda hoje se refletem em algumas culturas.

No Brasil, desde a nossa formação econômica social no século XVI, fomos testemunhas de muitas dessas iniqüidades cometidas, em princípio contra as crianças indígenas e negras subordinadas ao imperialismo escravizante. Posteriormente, com a imposição de medidas internacionais que exigiam tratamento diferenciado a esse segmento infantil, levando em consideração sua particularidade de ser em formação e crescimento, é que se iniciou uma série de discussões que culminaram em legislações protetivas específicas.

Assim, o Estatuto da Criança e do Adolescente, na última década do século XX, é criado e significou o que tem de mais moderno em termos de legislação infanto-juvenil, trazendo uma ampliação no conceito de cidadania através da garantia de direitos e na forma de gestão proposta através da participação da sociedade civil organizada via Conselho de Direitos e Tutelares e na articulação das políticas setoriais.

2.1 HISTORICIDADE DO DEBATE INFANTO-JUVENIL

O panorama geral que retrata a violação de direitos da infância e da juventude faz-se presente ao longo de sua trajetória, da historicidade desses segmentos.

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educação diferenciada a esse segmento infanto-juvenil; somente vindo a ocorrer mudanças significativas por volta do século XVII.

Ao nos reportarmos ao Brasil, a história revela números alarmantes que denunciavam as graves privações e negação de direitos vivenciados pela população infanto-juvenil; fruto do modelo econômico adotado no país e da ineficiência das Políticas Sociais implementadas nos séculos XIX e XX, por exemplo. A literatura especializada revela que práticas de dominação e interesses mercantilistas que conformam à formação econômica e social do Brasil impuseram um lugar social a cada uma das classes constitutivas desta sociedade. E, nesse sentido as crianças das classes dominadas, incluindo as populações indígenas e negras foram amplamente utilizadas pelo capital em seus objetivos de dominação e exploração.

Dentre alguns registros, observa-se que até a independência do país, em 1889 a preocupação com o grupo infanto-juvenil restringia-se ao recolhimento nas Casas dos Expostos, onde esses, recolhidos eram precocemente conduzidos ao trabalho infantil, a fim de ressarcirem aos seus responsáveis, como ao Estado o que lhes era concedido pela “guarda e acolhimento”. Assim, sucessivamente as primeiras Leis brasileiras que visavam normatizar a questão infanto-juvenil se pautavam na coercitividade se caracterizando pela culpabilização da criança e do jovem, instituindo na prática a desproteção e o desamparo a esse segmento populacional.

O peso desta história até hoje nos pesa. Ao crioulinho, ao moleque, à criança pobre, em suma, AO MENOR, não resta senão vender muito cedo sua força de trabalho, não resta senão sua infância curta, pois histórica, ideológica e economicamente está destinado, através do trabalho precoce e desqualificado, à reprodução da situação de exclusão vivida pelos pobres no Brasil desde a Colônia. (FALEIROS, 1995, p.236).

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Assiste-se ainda hoje, em pleno século XXI ao panorama de crianças e adolescentes no trabalho infantil, à medida em que praticamente são empurrados por um sistema econômico extremamente desigual, tendo que forçosamente contribuir no sustento e sobrevivência de suas famílias.

Face ao exposto, para apreender e desvelar o movimento do real e a violação de direitos vivenciada pela população infanto-juvenil na contemporaneidade faz-se necessário situá-la na historicidade, no campo dos Direitos Humanos, sobretudo no que se refere à formulação dos instrumentos de promoção e proteção de direitos da criança do adolescente por meio do aparato estatal que lhe dá suporte; em especial à formação do Sistema de Garantia de Direitos, os Conselhos de Direitos, os Conselhos Tutelares, as Defensorias e as Delegacias Especializadas.

Nos últimos anos, muito se tem discutido sobre os aspectos positivos da Doutrina dos Direitos Humanos, no sentido de torná-la instrumento de luta por algo que seja mais fundamental4 ao ser social, como mecanismo capaz de alavancar a luta por direitos de cidadania na construção de uma sociedade justa e democrática.

Apesar dos avanços obtidos nessa área, aliado ao fato de todos os países da América Latina e Caribe5 ratificarem a Convenção Internacional dos Direitos da Criança e do Adolescente, ainda persiste na atualidade em alguns destes países; leis infraconstitucionais que não se adaptaram a normativa da Convenção. Igualmente, a prevalência de profissionais, juristas e magistrados que ainda sustentam e reforçam a velha Doutrina da Situação Irregular6; direcionando críticas ferrenhas ao novo paradigma dos Direitos Humanos, isto é a nova

4Tendo como princípios norteadores a dignidade, a liberdade e a igualdade da pessoa humana estabelecidos primeiramente na Declaração Universal dos Direitos Humanos da ONU em 1948; posteriormente, na Declaração dos Direitos da Criança em 1959 e na Convenção sobre os Direitos da Criança de 1989 que foi ratificada pelo Brasil em 1990.

5 Estudos realizados sobre a questão da violação de direitos sofrida pela população infanto-juvenil tem sido aprofundados sobretudo nos países da América latina e Caribe em virtude das graves conseqüências da desigualdade social, fruto do modelo econômico capitalista adotado.

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Doutrina da Proteção Integral e da autonomia política, social e jurídica7 de crianças e adolescentes. Como exemplo, podemos citar a Argentina; país onde se engendrou a Doutrina da Situação Irregular e onde existem fortes focos de resistência. (NOGUEIRA NETO, 2005)

Todavia convém ressaltar, que o conceito de criança, adolescente e juventude assumem conotações diversas, segundo o interesse de cada área do conhecimento científico. A normativa internacional, sobretudo a partir da Convenção Internacional dos Direitos da Criança e do Adolescente a respeito de geração reconhece e institui um regime jurídico-político de promoção e proteção dos direitos humanos da chamada "criança", abrangendo os menores de 18 anos, entretanto no Brasil essa nomenclatura se desdobrou através do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) classificando como criança as pessoas até 12 anos de idade incompletos e adolescente as pessoas que se encontram entre os 12 e os 18 anos. (ECA 1999, p.73).

Em nível internacional foi o Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF), como agencia internacional das Organizações das Nações Unidas (ONU), que ficou encarregada de formular e operacionalizar uma Política Internacional de Promoção e Proteção aos direitos humanos para a faixa etária até os 18 anos. Todavia nos últimos anos no campo da educação e cultura, surge a categoria "juventude", sob os auspicio da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO) na ONU. De fato, ainda encontra-se em construção o instrumento normativo próprio, ampliando a promoção e proteção de direitos humanos especificamente desse segmento populacional para além da educação e cultura. Mas a UNESCO, adiantando-se aos instrumentos normativos ratificados pelo numero mínimo de países vem desenvolvendo no mundo mecanismos em favor da juventude, entendida aqui na faixa dos 16 aos 29 anos, mas sem falar ainda propriamente em direitos, em virtude da ausência da normativa internacional própria.

No caso brasileiro, a partir de 2005, começou a se falar em direitos da juventude, com legislação e mecanismos de garantia de direitos próprios (Conselhos da Juventude, Secretaria Federal, Programas Sociais). Entretanto,

7O principio da igualdade formal e material perante a Lei, a partir da ótica dos direitos humanos,

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sem clareza a respeito dessa questão da faixa etária que se estabeleceu em lei ordinária compreendendo aqueles entre 15 a 29 anos, ocasionando com isso choques com a faixa etária definida pelo ECA e seus mecanismos político-institucionais.

Vale salientar, no que diz respeito à categoria juventude ou jovem, amplamente utilizada nos estudos das diferentes áreas do saber que há amplas divergências teóricas sobre os limites de idade, o que faz aguçar ainda mais a polêmica. Todavia, há grupos que advogam o conceito de juventude estabelecendo que esse vai muito além de cortes cronológicos, o que implicaria numa análise transversal dessa categoria. (ABRAMOVAY; CASTRO, 2002).

Concordamos com Dayrell (2007, p.158) ao definir a juventude “como parte de um processo de crescimento mais totalizante, que ganha contornos específicos no conjunto das experiências vivenciadas pelos indivíduos no seu contexto social”. Assim, esse ciclo da vida não seria uma passagem com um fim predeterminado, nem tampouco um período de preparação que seria ultrapassado com a chegada da vida adulta. Seria um processo mais abrangente na formação do individuo humano-social, carregado de singularidades e de especificidades que definem a vida de cada ser humano.

É preciso acentuar que no imaginário social, a idéia de juventude que se plasma é a de modelos socialmente construídos, que enfatizam certo modo ideal correspondente a juventude. Nos anos de 1950, por exemplo, o estigma da juventude era o de “rebeldes sem causa”; nos anos de 1960 e 1970 o ideal era de uma geração idealista que ameaçava a ordem social, política, cultural e moral; nos anos de 1980, tratava-se de uma geração individualista, conservadora e consumista e nos anos de 1990 uma geração ameaçadora à integridade social que fazia uso de ações violentas individuais ou coletivas. (ABRAMO, 2007)

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A nossa pesquisa focalizou apenas os jovens na faixa etária de 15 a 17 anos de idade, tomando como referência os critérios de elegibilidade do Programa Agente Jovem, que se constituiu o cerne de nosso objeto de estudo.

Em relação a situação brasileira faz-se importante destacar o contexto de mudanças ocorridas a partir da década de 80 do século XX; período caracterizado por grande efervescência política8 e avanços sociais; alavancados pela mobilização da sociedade que clamava por reformas institucionais; reformas essas que posteriormente foram incorporadas a Constituição Federal de 1988.

Convém ressaltar, que no período anterior a década de 1990 as Políticas Públicas destinadas à faixa etária infanto-juvenil pautavam-se por princípios tuteladores e higienistas, encontravam-se carregadas de um forte caráter moralizador e policialesco que contribuía na manutenção da ordem social estabelecida; ranços da colonização e modelo econômico adotados no processo de formação econômico-social do nosso país.

Nessa conjuntura, a Política Social destinada a esse grupo etário pautava-se no Código de Menores que ordenava o enquadramento de comportamentos juvenis ditos ”desviantes” e, sobretudo contra aqueles que insistiam em transgredir as “boas normas” de conduta social. Pairava então, uma falsa preocupação, um suposto “bem-estar” para com as crianças e adolescentes das classes subalternas9. Na verdade, tratava-se de uma estratégia dominante, controladora e punitiva para deter os filhos da classe trabalhadora, os ditos “carentes, abandonados, inadaptados e infratores”; abandonados pelo Estado que ameaçavam e “colocavam em perigo” as elites dominantes. (SILVA, 2005)

De fato, a legislação “menorista” instituída, proveniente do Código de Mello Mattos, exprimia o ciclo perverso da institucionalização compulsória que

8Essa conjuntura de transição político-democrática caracterizada pelo movimento das “Diretas Já”, pelo movimento em favor da anistia, as lutas por direitos trabalhistas, sociais, civis e políticos atingiram seu apogeu na segunda metade dos anos 1980 e foi denominada de “Nova República” ou “Transição Democrática”. De fato foi uma transição negociada que intencionava o exercício da democracia, da cidadania e a regulamentação do Estado de direito.

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estabelecia a apreensão, triagem, rotulação, deportação e confinamento10, ou seja, tratava-se de um mecanismo de controle da pobreza, onde crianças e adolescentes considerados em “risco pessoal ou social”, autores ou não de atos infracionais eram severamente punidos. Seres humanos transformados em objetos que sob os auspícios da norma vigente legitimava as práticas autoritárias, repressivas e incriminadoras da pobreza.

Constata-se que, somente, no final da década de 1970 do século XX; que grupos latino-americanos comprometidos com a causa infanto-juvenil instigados por movimentos internacionais com o apoio decisivo das Nações Unidas, iniciaram um grande embate político que resultou em mobilizações e articulações entre governos e sociedade civil na área da promoção e defesa desse segmento, e que culminaram com o Ano Internacional da Criança em 1979; no Ano Internacional da Juventude em 1985 e na ratificação do texto da Convenção Internacional dos Direitos da Criança em 1989.

Essas datas comemorativas, decorrentes dos movimentos sociais voltados para as questões das crianças, dos adolescentes e da juventude no Brasil, juntamente com a promulgação da Constituição Federal de 1988, que em seu artigo 227 ratificou a Convenção Internacional sobre os Direitos da Criança constituíram-se em marcos da criação e institucionalização do Estatuto da Criança e do Adolescente no país. Despontava então, nesse período, a Doutrina da Proteção Integral para crianças e adolescentes brasileiros.

Interessa salientar, que o Brasil se adiantou aos outros países no que diz respeito à normativa legal, atentando ao estabelecido na Convenção Internacional sobre os Direitos da Criança. Todavia devem-se as estratégias protagonistas do movimento social brasileiro de defesa infanto-juvenil, particularmente o Movimento Nacional de Meninos e Meninas de Rua e a Pastoral do Menor, que denunciavam as atrocidades cometidas contra aqueles que viviam na rua, instigando um amplo debate na sociedade civil estabelecendo as bases do que seria futuramente o Estatuto da Criança e do Adolescente.

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Entendemos aqui a sociedade civil, pautada nas análises de Gramsci que a situa enquanto espaço de luta de classe na busca pela hegemonia. Espaço de interesses diversos e heterogêneos das classes que compõem a sociedade e que conseqüentemente fazem parte do desenvolvimento das relações sociais de produção. Para Simionatto (1995, p.10)

longe das interpretações idealistas, a sociedade civil não existe deslocada das condições objetivas, plano em que ocorre a produção e a reprodução da vida material e, conseqüentemente, a reprodução das relações sociais. A esfera da sociedade civil, dessa forma, pode ser abordada a partir das diferenciações de classe e de interesses que se modificam pelo impacto das novas dinâmicas econômicas, políticas e socioculturais.

No âmbito contraditório e heterogêneo que perpassa a sociedade civil emergem as possibilidades dos setores que representam as classes subalternas de assumirem algum controle sobre o Estado fazendo valer o seu projeto societário contra-hegemônico, que poderá conduzir a uma gestão democrática popular do poder.

Esse embate acontece, por meio de suas organizações, associações e grupos que articulam alianças, comparam seus projetos éticos-políticos pelejando pelo predomínio hegemônico. Trata-se de um espaço de luta complexo e dialético onde se enfrentam classes antagônicas que lutam para impor seus interesses e demandas na condução do Estado em busca da hegemonia (CORREIA, 2004).

Em acordo com Correia(2004, p.172):

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Assim pois, a análise histórica da correlação de forças em cada conjuntura poderá definir e revelar o que se encontra obscurecido nas relações sociais de produção, assim como a função e as potencialidades negativas ou positivas da sociedade civil e do Estado. A luta a ser travada deverá se posicionar na defesa e interesses das classes subalternas, norteados pela resistência e construção de um projeto político contra hegemônico

Nesse ínterim, faz-se importante remarcar que o ECA se constituiu uma vitória de grupos organizados da sociedade civil que lutavam em defesa de crianças e adolescentes e não uma dádiva do Estado. Foi um momento de intenso embate político de enfrentamento entre forças antagônicas que tinham interesses jurídicos, políticos e sociais divergentes. “Assim, O Estatuto da Criança e do Adolescente foi institucionalizado no movimento dialético entre a conjuntura nacional e a internacional que caminhava em direção ao neoliberalismo” (SILVA, 2005, p. 37).

Desse modo, entendemos que a inclusão das demandas infanto-juvenis que se traduziram na aprovação do ECA adveio da resposta do capital mundial, ou seja, do Estado neoliberal que vinha e vem assentando suas bases num discurso que exalta a democracia, os direitos humanos, a descentralização administrativa, a parceria entre as instancias sociais e etc; mas que na realidade se constitui uma estratégia do grande capital para sustentar a dominação e o controle social.

No que se refere aos movimentos sociais em defesa da infância e juventude brasileira, há que se ressaltar que apesar dos avanços alcançados nos últimos decênios; ainda não atingimos o mesmo patamar que outros segmentos sociais que freqüentemente têm seus direitos violados e sofrem intensa discriminação; tais como; o movimento de mulheres que luta pelo fortalecimento, pela emancipação feminina e pela democratização das relações de gênero; os movimentos afro-descendentes; indígenas e homoeróticos que lutam contra todas as formas de discriminação e violência; e que assim organizados a partir da opressão e da violência sofrida se organizaram numa proposta contra hegemônica de libertação.

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desenvolvem a luta em prol desses segmentos. E este fato, faz toda a diferença: o de ser protagonista de seus próprios interesses estabelecendo suas ações ou o de se estar sob a tutela de outrem.

A prática cotidiana tem nos mostrado que se consolidou o discurso dominante na sociedade sobre o mundo infanto-juvenil onde ainda prevalecem as situações de violência, exploração, discriminações, negligência e extermínios infanto-juvenis. Sob esse respeito reconhece Nogueira Neto (2005, p.11) que:

Especificamente na luta pela emancipação da população infanto-adolescente, se torna necessário garantir tanto sua ‘identidade de direitos’, isto é, a sua condição de ‘sujeito de direitos’, quanto sua ‘liberdade de ser diverso e singular’, ou seja, sua condição de pessoa em crise >...@, quanto à sua essência humana e geracional.

É na sociedade que há de se lutar permanentemente na contra mão do processo hegemônico que aliena, oprime, marginaliza e exclui parcela considerável da população sob um discurso tradicional de naturalização da desigualdade social.

O que vimos revelando em nossa pesquisa, é que devemos intensificar a luta contra construções culturais socialmente absorvidas, que entendem que crianças e jovens são indivíduos com condutas e responsabilidades previamente definidos como se houvesse um tipo ideal ou até mesmo, um perfil de “ser criança”, “ser adolescente”, “ser jovem”, em contraposição ao fato de se constituírem sujeito de direitos, pessoa em desenvolvimento instituídos no ECA. Isto significa tornar claro, que a luta pela emancipação infanto-juvenil deve se estabelecer a priori na busca e garantia de sua identidade e liberdade peculiares a sua essência humana e geracional, dentro de sua condição de pessoa em desenvolvimento, indivíduo social, diverso e singular que possui uma historicidade que se encontra em constante construção.

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constituídos por pessoas adultas, protagonistas das ações que se dirigem ao segmento infanto-juvenil, e que embasados em um suposto ideal de emancipação como sujeitos da história; na verdade, assumem sobre esses uma dada dominação emanados em um discurso protecionista que acomoda e molda o modo de ser e de viver das crianças, dos adolescentes e dos jovens.

Mostra-nos Nogueira Neto (2005, p.10) que:

A participação proativa de crianças e adolescentes, no mundo familiar, social e político, passaria a se dar a partir deles próprios, e não como concessão do mundo adulto e como decorrência de políticas, programas e projetos artificiais que, no mais das vezes, promovem de fora para dentro esse “protagonismo” e ao mesmo tempo o emolduram e domesticam.

Ao se falar em infância e juventude ou qualquer outro segmento social brasileiro estigmatizado, torna-se imprescindível contextualizá-lo no âmbito da sociedade globalizada da qual fazem parte. Sociedade permeada por injustiças sociais que apartam e ampliam o fosso entre um grupo de possuidores e uma grande maioria de (des)possuídos.

Isso nos impele a observar e registrar que os graves problemas de natureza econômica, social, política, ambiental entre outros se entremeiam num nicho de divergências e particularidades que se avolumam e mundializam11 o quadro de crise e miséria provocada pelo capitalismo, redesenhando e globalizando12 a questão social.

11 Chesnais em suas análises opta pelo termo mundialização à globalização, por acreditar que o primeiro é mais preciso para demonstrar que a economia se mundializou e que o capitalismo nas relações capital/trabalho se metamorfosea, não tocando na estrutura social do modelo de produção capitalista. A seu ver trata-se de um processo amplo e contínuo de exploração, apropriação privada e acumulação de capitais.

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2.1.1 Processos de inclusão precarizada que geram violência

No panorama mundial, o Brasil situa-se com suas especificidades de formação econômico-social complementar e subsidiária13 à economia dos países desenvolvidos, consolidando-se nos últimos decênios com a “nova” política de cortes neoliberal14, na qual o Estado eximindo-se de sua responsabilidade de proteção desestabiliza as Políticas Sociais contribuindo com o agravamento do quadro de desigualdades sociais e abandono que resulta no acirramento da miséria e da violência15.

Deve-se observar que no atual cenário brasileiro de desmonte das Políticas Públicas, que incide diretamente no agravamento da desigualdade social, encontra-se em escalada progressiva os níveis de violação de direitos; o que tem levado as classes subalternas que mais sofrem essas violações, a responderem muitas vezes com violência.

A violência é um fenômeno social, geograficamente dimensional que permeia todas as populações; seja no âmbito público ou privado, mas que em determinadas conjunturas pode se acirrar por gênero, idade, etnia e classe social independentemente, levando seus indivíduos a se situarem ora como vítima, ora como sujeito dessa violência. Em razão disso, mesmo com a elevação do Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) nos últimos anos no Brasil16, os índices de violência na população juvenil continuam alarmantes principalmente, com altas taxas dos homicídios e mortes por acidentes de trânsito.

Estudos e pesquisas na área infanto-juvenil vêm demonstrando que as diversas modalidades de violência sofridas e praticadas pelos jovens possuem

13 Para aprofundamento da temática da economia dependente ver a obra de Florestan Fernandes “Capitalismo Dependente e Classes Sociais na América Latina”. 1981

14 Apesar dos apelos e mobilizações da sociedade civil nos últimos vinte anos conclamando o respeito aos direitos humanos que se encontram assegurados constitucionalmente, o Estado neoliberal continua seu processo de retirada da cobertura social pública e.corte nos direitos sociais.

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fortes vínculos com a questão da desigualdade social e com a condição de exclusão social, sobretudo dado à dificuldade de acesso dessa faixa etária aos bens e serviços básicos (educação, saúde, cultura, lazer e trabalho) atrelado também ao fator sócio-econômico; o que em determinados momentos favorece o estímulo da violência.

Ao nos reportarmos a categoria exclusão, queremos assinalar que esta se encontra diretamente ligada ao processo de dominação econômica, social e política a que são levadas as populações pelo modelo capitalista, desde a sua fase de acumulação primitiva. É certo que, na contemporaneidade essas situações que geram exclusões vêm se tornando cíclicas, estabelecendo-se de forma a criar um fosso, ainda maior, entre o mundo dos que possuem e dos outros, (des)possuídos, o que significa, que na vivencia diária dessas populações o capital a partir de seus interesses imprime diferentes modos e expressões de exclusão e inclusão, constituindo uma convivência entre a expropriação e a miséria. São situações de precariedade e vulnerabilidade mas não de exclusão definitiva ou absoluta, visto que em determinadas conjunturas são incluídas. Sobre isso, Martins (2002, p.21) em alusão, já apontava.

A exclusão moderna é um problema social porque abrange a todos: a uns porque os priva do básico para viver com dignidade, como cidadãos; a outros porque lhes impõem o terror da incerteza quanto ao próprio destino dos filhos e dos próximos. A verdadeira exclusão está na desumanização própria da sociedade contemporânea que ou nos torna panfletários na mentalidade ou nos torna indiferentes em relação aos seus indícios visíveis no sorriso pálido dos que não tem teto, não tem trabalho e, sobretudo não tem esperança.

Nesse percurso, na luta pela garantia de sua sobrevivência, os indivíduos buscam manter-se incluídos no mundo do trabalho e na vida social utilizando, algumas vezes, de recursos extremos ou ilícitos na tentativa de manterem-se integrados e sobrevivendo nessa sociedade. É quando se manifestam os meios transgressivos de inclusão, como: a corrupção, o roubo, o tráfico e a violência.

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debilidade da saúde, desconforto, moradia precária, fadiga e resignação” (YAZBEK, 2006, p.61) que se delimita no umbral da sobrevivência.

Num certo sentido, a violência se torna uma resposta dramática e ao mesmo tempo, expressão de revolta dessas populações ameaçadas de exclusão ante o imperialismo do capital que as oprime e as desumaniza.

O cenário que se apresenta aponta as contradições do atual modelo de sociabilidade. A fragilidade e instabilidade do segmento juvenil, particularmente dos filhos das classes trabalhadoras, que encontram enormes dificuldades na continuidade de seus estudos, de inserção no mercado formal de trabalho, decaindo em determinados casos para envolvimento com o crime organizado e o uso de substâncias psicoativas entre outras formas de exploração. Além do elevado número de jovens com gravidez não planejada, que por sua vez se relaciona ao acesso inadequado à informação e à insuficiência na distribuição de métodos anticonceptivos.

Observamos, na medida em que nos aprofundamos no estudo da temática violência que inexiste consenso teórico; quanto ao conceito, o que se justifica pela sua complexidade e pelas diversas concepções conceituais que a permeiam, entre elas a violência física, psicológica, simbólica, direta e indireta.

Vê-se que a multiplicidade das ações violentas ocorridas na sociedade se manifesta com mais intensidade em determinados contextos sociais e em certos períodos históricos. Rolnik (2005) demonstra que há uma estreita associação entre exclusão territorial e violência urbana, o que implica dizer que os índices de violência são maiores nos municípios onde há maior exclusão territorial do que naqueles mais pobres. Nesse caso, a exclusão se torna reprodutora da desigualdade de renda e das desigualdades sociais.

A violência física tem sido a mais recorrente, dado o seu caráter e conteúdo mais visível. Entretanto, outras modalidades de violência podem apresentar-se de forma isolada ou associada; ferindo não só a integridade física, mas a integridade psíquica, emocional e simbólica, constituindo-se em uma forma de violação de direitos.

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[...] existe violência quando em uma situação de interação, um ou vários atores agem de maneira direta ou indireta, maciça ou esparsa, causando danos a uma ou mais pessoas em graus variáveis, seja em sua integridade física, seja em sua integridade moral, em suas posses, ou em suas participações simbólicas e culturais.

Tudo isso nos permite dizer que as variadas formas, as novas e complexas configurações do fenômeno da violência nos últimos tempos dificultam a compreensão clara de suas determinações e a busca por soluções de enfrentamento. Como exemplo, queremos registrar os grandes embates nacionais, recentemente travados entre a sociedade civil, os governos e os órgãos de segurança pública do Estado (em âmbito federal, estadual e municipal) com destaque para o Movimento “Viva Rio” no estado do Rio de Janeiro, que propõe a busca de uma cultura de paz, em oposição a violência exacerbada, e o estabelecimento da segurança. Em contraponto, assiste-se cotidianamente a propagação massificada e coercitiva pela mídia, da punição e repressão, como mecanismos de enfrentamento da violência, sobretudo da criminalidade.

Outro aspecto da contemporaneidade brasileira é a recente discussão sobre a redução da maioridade penal dos adolescentes autores de atos infracionais. Debate este, que reforça o ciclo perverso das violações dos direitos infanto-juvenis e que enfraquece a luta por um Sistema de Garantia de Direitos, mais efetivo.

Contudo verificamos que a aprovação, em primeiro turno, pelo Congresso Nacional brasileiro da proposta de redução da maioridade penal dos adolescentes de 18 anos para 16 anos de idade; se constitui uma reação daqueles defensores do velho Paradigma da “Situação Irregular”, que se valendo de fatos isolados e super dimensionados pela mídia, persuadem os cidadãos brasileiros e grupos organizados a recusarem o Paradigma da Proteção Integral.

Volpi (2001) contesta os argumentos da periculosidade juvenil ao demonstrar que infrações cometidas por adolescentes perfazem um total de menos de 10% se comparados aos crimes praticados por adultos e que, da totalidade dos delitos praticados por adolescentes apenas 19% constituem delitos graves, como latrocínios, homicídios e estupros.

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apresentam, os desafios, as descobertas e as oportunidades aos indivíduos dessa faixa etária. Esse período da vida pode proporcionar em alguns jovens o surgimento de conflitos; seja em nível interno, consigo mesmo, em nível de seu (in)consciente ou em nível externo, no desenvolvimento de suas relações interpessoais propiciando o surgimento de problemas ou tendências tidas como anti-sociais17. Essas tendências são entendidas como comportamento do tipo instável, agressivo, desobediente, oposicionista que leva algumas vezes a prática de roubos, furtos, vandalismo, uso de drogas, entre outros (PACHECO et al., 2005).

Nesse sentido, constituindo-se a adolescência e a juventude como a fase de desenvolvimento onde o ser humano se apresenta instável e vulnerável às pressões e influências externas; pode concomitantemente apresentar-se como protagonistas da sociedade em que vive. Nesse processo de interações, podem resultar elementos que propiciem o surgimento ou não de ações violentas.

Explica a Psicologia Juvenil que a prática de ações violentas efetuadas por adolescentes relaciona-se a múltiplos determinantes; seja de natureza individual, familiar, econômico, social, entre outros; o que significa que esse tipo de comportamento poderá persistir ao longo da vida ou simplesmente se limitar a fase da juventude.

Organismos internacionais como a Comissão Econômica para a América Latina (CEPAL) e UNESCO vêm demonstrando por meio de estudos e pesquisas, o progressivo aumento da violência entre os jovens latino-americanos, especialmente no Brasil onde o número de delitos e de mortes violentas na faixa etária entre em 15 a 25 anos de idade cresce a cada ano.

Reiterando esses dados Abramovay et al, (2002); indica que os determinantes sócio-econômicos dos países latino-americanos atrelados a dificuldade de oportunidades, aos insumos básicos de saúde, educação, lazer e cultura vêm condicionando a violência e promovendo o que a autora citada, denomina de “vulnerabilidade social” dos jovens. Fenômeno que se traduz na vivência cotidiana da perda da qualidade de vida e na ausência da ação protetiva por parte do Estado, estabelecendo um quadro de extrema negação de direitos a

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esses cidadãos. Assim, a baixa qualidade do ensino público, o elevado índice de repetência, a inserção precoce no mercado de trabalho, a privação de oportunidades, o abuso no consumo de álcool e drogas, entre outros constituem fatores que incidem diretamente na conduta individual dos jovens, fomentando ações violentas.

Estatísticas recentes vêm demonstrando que esse segmento tem se tornado o mais suscetível a prática de atos violentos, se apresentando ora como vítima, ora como autor desses atos. Segundo o relatório da Organização dos Estados Ibero Americanos para a Educação, a Ciência e a Cultura – OEI, denominado “Mapa da Violência 2006”, o índice de homicídios entre jovens de 15 a 24 anos no Brasil vem aumentando regularmente a cada ano, sendo responsável por 39,7% de mortes entre os jovens. Destes homicídios, 93% das vítimas são do sexo masculino e 73,1% da raça negra; o que revela a prevalência de gênero e raça nas mortes juvenis. No contexto internacional comparando esses dados com os de outros países, vemos que o Brasil atingiu sua maior incidência, ocupando a 4ª posição entre os 84 países analisados, atrás somente da Colômbia e da Venezuela.

Pesquisa denominada “Drogas nas Escolas”, realizada pela UNESCO nas principais capitais brasileiras, no ano de 2002, reitera a informação de que há uma correlação entre o consumo de álcool e drogas e o surgimento de comportamento violento entre os jovens, sobretudo quando esses se tornam usuários regulares dessas substâncias; condicionando assim o aumento da violência em todos os espaços sociais até mesmo, no contexto escolar onde freqüentemente vêm acontecendo exemplos de desrespeito e transgressão as normas, traduzidos em vandalismo, depredações do patrimônio público e pequenos furtos.

A explicação para tais atos podem estar relacionados a falta de uma educação de base, cultural e social que se configura pela falta de acesso a bens culturais e do entendimento do bem público e do sentimento do coletivo, como também a fragilidade da Política Nacional de Enfretamento às Drogas.

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apelo mercadológico ao consumismo e o hedonismo que supõe a negação do semelhante como sujeito de respeito e como convivente. (FALEIROS, 2005).

Entretanto, mais que uma simples trajetória histórica, produto de processos “modernizantes” a violência é resultante de mudanças impostas no padrão de civilização e na absorção dessas mudanças que se traduzem em tecnologias e formas de produzir inovadoras, novas relações de trabalho e o ressignificado de instituições sociais tradicionais; tais como: a família e a escola que se constituem pilares da vida pessoal e coletiva.

Importa ressaltar uma outra pesquisa, recém publicada pela Organização dos Estados Ibero-Americanos para a Educação, a Ciência e a Cultura – OEA, também denominada “Mapa da Violência dos Municípios Brasileiros18” que demonstrou a interiorização da violência. Em outros termos, implica dizer que, na atual conjuntura vem ocorrendo um deslocamento da violência dos grandes centros urbanos para o interior dos estados brasileiros, o que segundo esse documento se justifica pela implantação de empresas no interior dos estados e conseqüentemente a emergência ou transferência de novos pólos industriais.

Neste quadro, falar em vulnerabilidade nos remete ao campo das Políticas Públicas, particularmente a Política Social enquanto ação estatal desenvolvida no interior da lógica capitalista. Nesse sentido, é preciso entender as novas configurações que se colocam no atual cenário contemporâneo brasileiro, sobretudo o que se sobrepõe em termos de Políticas para a juventude.

Antes, queremos remarcar que no campo das Ciências Humanas e Sociais o debate sobre vulnerabilidade é recente e polêmico. Na América Latina, foi Caroline Moser e colaboradores do Banco Mundial que abriram esse debate nos anos de 1990, quando se iniciou uma preocupação maior sobre os efeitos da pobreza e os resultados incipientes das Políticas Sociais. Os estudos revelaram que mesmo identificando através de indicadores de renda, aqueles que constituem as camadas mais pobres da sociedade, estes conceitos e categorizações ainda não foram suficientemente viáveis para dar conta da complexidade do fenômeno, tornando-se imprescindível apreender a pobreza além do entendimento dos conceitos de renda e vulnerabilidade, da concepção

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hegemônica de indivíduos que se encontram em uma suposta condição de “risco pessoal e social”.

A ideia que nos remete ao conceito de vulnerabilidade é o de instabilidade, suscetibilidade, algo que supõe está em risco. Assim em uma primeira aproximação, o conceito nos parece restrito, uma vez que se pode inferir que todos os seres humanos, em alguma circunstância de suas vidas possam estar vulneráveis em diferentes situações ou eventualidades.

Por outro lado, o conceito de vulnerabilidade nos remete também, a ideia de que este não pode se desvincular do direito à proteção.

Com base nessas percepções, entendemos vulnerabilidade social como situações resultantes das relações estabelecidas pelos seres humanos na práxis da vida social, a partir da forma como estes se apropriam dos recursos materiais ou simbólicos disponíveis pelo Estado, pelo mercado e pela sociedade, bem como pelas estratégias de sobrevivência, ante as mudanças estruturais.

Conforme Sposati (2004, p.41) “os riscos sociais não advêm de situações físicas, psicológicas, biológicas, como a saúde, mas se instalam no campo relacional da vida humana.” Implicando, portanto, na ausência ou fragilidade de ações preventivas e protetivas por parte do Estado; instaurando um estágio social de perda e negação de direitos conquistados pelos cidadãos.

2.2 JUVENTUDE, POBREZA, DESIGUALDADE SOCIAL E AS POLÍTICAS PÚBLICAS

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Em termos de avanços na formulação de Políticas para os jovens as organizações não-governamentais se adiantaram propondo programas e projetos específicos para o segmento dito “vulnerabilizado”, isto é aqueles jovens provenientes de famílias pobres, que viviam ou estavam em situação de rua, envolvidos com o consumo ou tráfico de drogas19.

Como já mencionamos anteriormente, no ano de 2005, um grande avanço em termos de Políticas para a juventude adveio com a criação da Secretaria Nacional de Juventude, órgão responsável pela elaboração da Política Nacional da Juventude, pela articulação entre as Políticas e ações existentes direcionadas aos jovens, pela implantação do Conselho Nacional de Juventude, e pelo desenvolvimento do Programa Nacional de Inclusão de Jovens (Pró-jovem). A partir dessa Política, a juventude passou a ser entendida como heterogênea, de características distintas que variam de acordo com aspectos sociais, culturais, econômicos e territoriais. Tendo como eixos norteadores a noção de oportunidades e direitos.

Em termos de legislação e propostas o Brasil está bem fundamentado, entretanto apesar dos avanços nessa área, ainda existe a prevalência nas diretrizes dos Programas e Projetos destinados aos jovens a intenção de reintegração a ordem social que busca o enfrentamento de “situações problemas”, supostamente ocasionados pela conduta moral desses jovens beneficiários das ações. Com base em nossa análise percebemos um viés moralista e coercitivo cujo foco é integrar os jovens à sociedade, também supostamente, instruindo-os moralmente, para que possam assumir uma postura condizente à participação efetiva enquanto membros dessa sociedade. No fundo, imprimindo uma falsa moral e uma inserção precarizada.

Em relação às Políticas Públicas consideramos necessário situar como ocorreu nas duas ultimas décadas, a trajetória das Políticas direcionadas aos jovens a partir da lógica neoliberal a fim de trazer à tona às contradições no processo de sua implementação.

19 Isso implica ressaltar, que as primeiras idéias de Políticas Sociais para esse segmento se

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As Políticas Sociais, principalmente a Política de Assistência Social caracterizou-se ao longo de sua existência como assistencialista, com programas e ações fragmentadas e focais que estimulam a subserviência política e o clientelismo.

Uma das marcas constitutivas da Assistência Social brasileira desde a sua institucionalização em 1930, em resposta às expressões da questão social foi a sua destinação para o segmento social de trabalhadores considerados “carentes” e “necessitados”. Entretanto, apesar dos avanços legais e da redefinição instituídos e alcançados na Constituição Federal de 1988 e na Lei Orgânica da Assistência Social (LOAS) em 1993, onde esta Política passou a se destinar àqueles a quem dela necessitasse, prevalecendo ainda hoje o caráter de necessidade. Conforme bem assinalou, Carvalho (1997, p. 02):

>...@ a Assistência Social constitui justamente, a ação voltada para os trabalhadores com pouca ou nenhuma visibilidade para o capital, os chamados carentes, os não cidadãos ou cidadãos de segunda categoria. A Assistência Social é a prática estatal para indivíduos já discriminados, em situações especiais. E, como tal a Assistência Social é vivenciada e representada pelo Estado brasileiro como o campo do não direito, efetivando-se em deslocamento histórico do direito para o mérito da necessidade.

De fato, ainda hoje, apesar das lutas sociais e do reconhecimento legal da universalização dos direitos sociais, prevalecem nos Programas e ações da Política de Assistência Social a re-implementação de critérios de elegibilidade20

extremamente excludentes que se definem pelo grau de miserabilidade dos seus usuários e não em função de direitos conquistados. Com isso, atesta-se a prevalência nessa Política, do enraizamento do assistencialismo e a manipulação de benefícios sociais pautados em um esquema de favorecimento político e paternalismo patente; frutos da cultura política brasileira que subtrai direitos conquistados.

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É preciso reiterar, que em pleno século XXI os Programas Sociais persistem atuando em situações de extrema pobreza e miserabilidade, dentro de um quadro de desigualdade social e de regulação da questão social:

>...@ apreendida como o conjunto das expressões das desigualdades da sociedade capitalista madura, que tem uma raiz comum: a produção social é cada vez mais coletiva, o trabalho torna-se mais amplamente social, enquanto apropriação dos seus frutos mantém a vida privada, monopolizada por uma parte da sociedade. (IAMAMOTO 2005, p. 27)

Entretanto convém assinalar que o grande marco histórico da Política Pública - a Constituição Federal de 1988, também conhecida como Constituição Cidadã, e a Lei Orgânica da Assistência Social (LOAS) regulamentada em 1993, que redefiniram a Assistência Social como Política Pública de Seguridade Social; direitos de todos e dever do Estado; somente avançou e se tornou realidade em virtude das grandes mobilizações nacionais da sociedade civil organizada.

Dessa forma, a Assistência Social como Política de Seguridade Social deve se constituir um meio na luta pela cidadania daqueles que se encontram fora do mercado formal de trabalho, àqueles considerados formalmente no passado como “indigentes”.

Na verdade vivenciamos na atualidade, sobretudo nos últimos 20 anos, um momento de grande incoerência no âmbito da Assistência Social. Trata-se da redefinição simultânea, dessa Política Pública atrelada a desresponsabilização do Estado no trato da questão social. O Estado mantém-se subordinado ao capital dominante que impõe regras econômico-financeiras, exigindo do Brasil uma modernização e maior competitividade seguindo a lógica do neoliberalismo. Em conseqüência desse ajuste econômico tem-se a agudização dos processos de desigualdade e destruição de direitos e conquistas dos trabalhadores que foram tão bem assinalados por Carvalho (1997, p. 20):

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Essa incoerência, no âmbito das descobertas e conquistas de direitos sociais brasileiros convive com o desmonte, o desrespeito e a recusa desses mesmos direitos pelo capital via Estado, com a violência cotidiana perpassando as relações sociais através da reposição de privilégios e “novas” discriminações, restabelecendo relações de dominação que levam a ‘apartação social’ e (re)instalação de um novo estado de barbarismo. (IAMAMOTO, 2005).

Carvalho (2006, p. 21) chama a atenção para esse paradoxo brasileiro do Sistema de Proteção Social; na convivência contraditória entre o reconhecimento legal e jurídico-institucional na ótica da cidadania e a deteriorização da rede de serviços públicos:

>...@ é a questão da LOAS face a (re)atualização do assistencialismo, numa multiplicidade de programas residuais, ampliando o movimento pela implantação do SUAS, na viabilização da Assistência Social como política pública de cidadania; é a situação do ECA, continuamente desrespeitado pelas estruturas institucionais e poderes instituídos, alimentando uma cultura de discriminação, colocando a exigência política de um enfrentamento, sem trégua, pelo reconhecimento da condição de cidadania para crianças e adolescentes atingidos pela violência da exclusão >...@

O que foi até o momento abordado, configura o panorama da sociedade brasileira contemporânea; que apesar dos avanços legais ainda não foram efetivamente suficientes para garantir os direitos da população e sua condição de eminente cidadania. Com base nessa discussão faz-se relevante para a nossa pesquisa, os dados da realidade infanto-juvenil, que vimos pesquisando.

Segundo informações do Relatório sobre Situação dos Direitos da Criança e do Adolescente no Brasil21, elaborado em 2004 pela Associação Nacional dos Centros de Defesa da Criança e do Adolescente (ANCED) e pelo Fórum Nacional Permanente de Entidades Não Governamentais de Defesa dos Direitos da Criança e Adolescente (Fórum DCA).

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Tabela 01 - Distribuição dos entrevistados segundo ciclo de estudo e idade
Gráfico 01 - Distribuição da ocupação do pai ou responsável pela família segundo os  entrevistados
Tabela 02 – Distribuição do número de moradores na residência e a renda familiar  mensal dos entrevistados
Tabela 03 – Renda familiar e consumo de bens duráveis.
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