2 A BASE NACIONAL COMUM CURRICULAR (BNCC)
5.2 DAS METAFUNÇÕES À PREDICAÇÃO: A ESTRUTURA BASE DO TEXTO
5.2.2 O verbo como centro da oração e seus complementos
A centralidade do verbo é uma noção de notável relevância para os estudiosos da
Gramática Funcionalista. Como diz Neves (2013, p. 39), essa concepção é bastante estudada a
começar pela gramática de dependência (TESNIÈRE, 1959), desenvolve-se também na
gramática de valências (HELBIG, 1971; 1978; 1982; ENGEL, 1969; 1977), e na gramática
de casos (FILLMORE, 1968; 1971; 1977; ANDERSON, 1971; 1977; COOK, 1979).
Em princípio, o que se entende como base de uma gramática de valências é a ideia de
que todos os termos que ocupam um lugar vazio em torno do verbo são complementos
verbais, sendo que eles divergem entre si, incluindo-se entre eles o sujeito. Essa configuração
compõe o que se chama de estrutura argumental. Neves (2013, p. 40) deixa claro que o
“sujeito é um argumento de diferente estatuto, no sentido de que ele é o escopo da predicação
que se opera na oração [...], o que não se pode dizer de nenhum dos outros complementos
[...]”.
Nesse ponto, o que interessa saber é que essa condição é, antes de qualquer coisa, uma
condição sintática, mas que engloba a semântica, bem como a pragmática, uma vez que esse
processo puramente gramatical – a organização oracional – é instituído pela situação de
interação linguística entre os participantes do evento. É justamente na esfera pragmática que
se observa a possibilidade que têm os indivíduos de fazerem determinadas escolhas com
vistas à consecução de seus propósitos comunicativos.
Para ilustrar a noção de que a construção das orações está condicionada à intenção
comunicativa dos participantes e de que as escolhas dos termos que preenchem os lugares
deixados pelo verbo não são aleatórias, destaca-se do corpus de exame a seguinte manchete,
seguida do trecho da notícia a que ela se refere:
Supremo derruba vetos a aplicativos de transportes
O STF declarou inconstitucionais leis municipais que proibiam o uso de
aplicativos de transporte, como Uber, 99 e Cabify. Motoristas fizeram
paralisação parcial ontem, reivindicando ajustes nos valores recebidos.
(SUPREMO, 2019, p. A18).
A referida manchete apresenta a súmula da notícia6 que tem como Tema (função
textual) Supremo, termo que ocupa o lugar do sujeito (função interpessoal ou modo) numa
estrutura de sintagma nominal, uma vez que se faz necessária a especificação descritiva da
entidade referenciada. Evidentemente a função ideacional é também acionada pelos
interlocutores: há que reconhecer, a partir da experiência de mundo dos participantes, que
Supremo se refere à mais alta instância do poder judiciário no país. Do mesmo modo, inicia-se
a notícia pelo sintagma nominal O STF, que organiza a rede de encadeamento referencial no
texto, valendo-se novamente de um sujeito constituído de um sintagma nominal, no primeiro
complexo frasal da notícia. Neste ponto, o interlocutor precisa reconhecer a sigla como
substituta do termo da manchete, Supremo.
No segundo complexo frasal do exemplo, verifica-se que o acionamento referencial
depende de outro ponto na estrutura argumental da primeira oração, o uso de aplicativos de
transporte, como Uber, 99 e Cabify. O trecho inicia-se com o sintagma nominal Motoristas,
termo que preenche a casa do sujeito e que tem relação com “aplicativos de transporte”,
“Uber”, “99” e “Cabify”, identificados na oração anterior. Essa pequena amostra dá conta do
que diz Neves (2013):
6
Trata-se de uma definição que é mais explorada no capítulo seis deste trabalho, uma vez que a manchete
constitui o gênero discursivo eleito para exame.
Quando uma oração se constrói com o chamado sujeito expresso, isso tem
razões discursivo-textuais: não é porque alguém decidiu, num determinado
momento, contemplar uma das „subclasses‟ de sujeito da Nomenclatura
Gramatical Brasileira (sujeito oculto, sujeito simples, etc.) que tal tipo de
sujeito aparece, mas porque, nesse ponto do enunciado, um sintagma
nominal se faz necessário para operar uma descrição, imprescindível, por
exemplo, à configuração de uma entidade como elemento „novo‟ no fluir da
informação, o que não se obtém com Ø („sujeito oculto‟) e nem mesmo com
ele ou ela (sujeito expresso por pronome). (NEVES, 2013, p. 40, grifos no
original).
As razões discursivo-textuais, como aponta a autora, revelam que a construção
oracional depende exclusivamente de escolhas dos falantes direcionadas aos seus propósitos
comunicativos. Isso quer dizer que a escolha entre sujeito constituído de sintagma nominal ou
de pronome pessoal não é aleatória. faz parte de todo um contexto linguístico facilitador do
desenvolvimento e da compreensão da mensagem, o que evidencia novamente essa integração
dos universos sintático e semântico à pragmática.
Há que se considerar também os demais preenchimentos da estrutura argumental do
verbo. Pesquisas no campo da Linguística apontam para uma organização mais usual dos
argumentos, a chamada estrutura argumental preferida (EAP). Trata-se de uma propensão a
usos de determinada estrutura sintática, não sendo exatamente uma estruturação discursiva.
(DU BOIS, 1985). O que se evidencia nesses estudos é que em orações transitivas existe uma
tendência de continuidade tópica do discurso, uma vez que se verifica, em geral, uma maior
frequência de sujeito não lexical justamente por se tratar de informação já conhecida,
enquanto o objeto direto (geralmente informação nova) se constitui de sintagma nominal.
Também se verifica que raramente existe a ocorrência simultânea de sintagmas nominais nos
dois pontos de preenchimento da estrutura argumental, haja vista que é incomum a introdução
de duas informações novas no mesmo enunciado.
Para o direcionamento do exame proposto no capítulo seis deste trabalho,
acrescenta-se ao aparato funcionalista descrito nesta acrescenta-seção (especialmente para o processo de predicação)
a classificação dos verbos proposta por Chafe (1979). O modo de operar com as orações
nesses moldes é apresentado também no referido capítulo de análise.
6 A BNCC, O TEXTO E A AULA DE LÍNGUA PORTUGUESA
No documento
PERSPECTIVAS E PROCESSOS DE ORGANIZAÇÃO DO TEXTO: CAMINHOS PARA O TRABALHO COM A LÍNGUA PORTUGUESA EM SALA DE AULA
(páginas 57-60)