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3 MATERIAL E MÉTODOS

5.8 OBESIDADE E SOBREPESO EM PREMATUROS

Na reconvocação, aproximadamente um quarto das crianças nascidas prematuras apresentava sobrepeso ou obesidade, sendo que apenas sete destas crianças tinham história familiar de obesidade. Nenhuma criança com baixa estatura apresentava obesidade ou sobrepeso. A frequência de 8,2% de obesidade aos 6-7 anos nas crianças nascidas prematuras foi semelhante aos 8,5% encontrados por Belfort et al. (2013) em prematuros aos 8 anos. Entretanto, 15,9% apresentavam sobrepeso, contra 11,9% no estudo de Belfort.

A OMS coloca a obesidade infantil como um dos maiores problemas de Saúde Pública do século XXI, com um rápido e significativo aumento da prevalência em todo o mundo. Uma das formas mais eficazes de prevenção de obesidade na

idade adulta é a intervenção na infância, pois crianças com sobrepeso ou obesidade estão mais propensas a se tornarem adultos obesos. Vários fatores de risco para obesidade foram identificados em diferentes períodos da vida, mas merecem especial atenção aqueles relacionados ao ambiente intrauterino e aos primeiros meses de vida. O ganho rápido de peso compensatório nos primeiros anos de vida pode afetar negativamente a saúde no futuro e foi associado a sobrepeso ou obesidade em crianças e adolescentes tanto em países de baixa renda como em países desenvolvidos (STETTLER et al., 2002; DENNISON et al., 2006). Revisões anteriores indicam que a obesidade é mais frequente entre indivíduos de menor renda e menor escolaridade (MCLAREN, 2007), porém estudos recentes indicam que em países em processo de transição econômica ocorre um aumento da prevalência de obesidade por mudanças nos hábitos alimentares e menor prática de atividade física (BHUROSY; JEEWON, 2014). Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), entre crianças brasileiras de 5 a 9 anos de idade, 33,5% apresentavam excesso de peso e 14,3% estavam obesas, números ligeiramente menores no sexo feminino (IBGE, 2010). Portanto, apesar de um quarto das crianças desta amostra apresentarem sobrepeso ou obesidade, a prevalência foi inferior aos dados do IBGE e a prematuridade por si só não pôde ser considerada como fator de risco para sobrepeso e obesidade infantil.

Os primeiros mil dias de vida (da concepção ao 2º aniversário) são primordiais para uma vida saudável, inclusive na vida adulta. O período do nascimento aos 6 meses de vida é considerado crítico para o excesso de peso, fase de desenvolvimento do tecido adiposo e de funções endócrinas, em que a dieta oferecida às crianças tem grande importância no ganho ponderal (SORIGUER ESCOFET et al., 1996). No presente estudo, as crianças nascidas prematuras que apresentavam obesidade ou sobrepeso aos 6-7 anos tiveram maior ganho de peso no 1º semestre de vida, que foi um dos principais fatores determinantes da variabilidade do IMC aos 6-7 anos, assim como nos primeiros 24 meses, de acordo com a teoria dos primeiros mil dias de vida.

Recentemente, foi demonstrado que prematuros nascidos com maior IG e com maior escore Z do PN apresentavam maior risco de obesidade e sobrepeso na infância e na adolescência (VASYLYEVA et al., 2013). A associação direta entre IG e escore Z do peso e do IMC aos 6-7 anos foi evidenciada nas meninas desta amostra, enquanto nos meninos foi identificada a associação entre escore Z do PN

com o escore Z do peso e do IMC aos 6-7 anos. Vasylyeva et al. (2014) também mostraram que a rápida recuperação pôndero-estatural nos primeiros meses de vida consequente ao excesso de alimentação levou ao aumento de peso aos 2 anos de ICP e que os adolescentes obesos já tinham maior peso aos 24 meses de ICP. No presente estudo, as crianças com sobrepeso ou obesidade aos 6-7 anos ganharam mais peso até os 2 anos de ICP se comparadas às crianças com escore Z do IMC normal. O risco de obesidade e sobrepeso na idade escolar foi maior nos prematuros com maior escore Z do IMC aos 2 anos de ICP e nos nascidos AIG que evoluíram com RCEU, indo ao encontro dos achados de Vasylyeva et al. (2013) e à teoria dos primeiros mil dias de vida.

No estudo de Belfort et al. (2013), os autores demonstraram que o ganho de peso não associado a um maior crescimento linear com consequente aumento rápido do IMC nos primeiros 12-18 meses de vida teve relação com a obesidade e sobrepeso aos 8 e 18 anos de idade, com pouco benefício na melhora do coeficiente de inteligência. Outros estudos também mostraram forte associação entre ganho de peso nos primeiros 24 meses de vida e obesidade na infância, adolescência e idade adulta e aumento do risco cardiometabólico (ONG et al., 2000; ONG; LOOS, 2006;

ONG et al., 2015). Na mesma linha, outros autores demonstraram associação positiva entre a duração do aleitamento materno e o desenvolvimento neuropsicomotor aos 12 meses de ICP (O'CONNOR et al., 2003). Recentemente, autores brasileiros publicaram que não houve diferença significativa no desenvolvimento neuropsicomotor aos 12 meses de ICP entre os lactentes nascidos prematuros com PN inferior a 1500 g em AME até os 4 a 6 meses de ICP e os alimentados com leite materno suplementado com fórmula láctea multinutriente (CUNHA et al., 2016), o que já havia sido anteriormente reportado aos 18 meses ICP por Aimone et al. (2009), que também encontraram maior peso aos 12 meses de ICP nos alimentados com leite materno adicionado de fórmula multinutriente nas primeiras 12 semanas após a alta hospitalar. Todos estes achados sugerem que os objetivos de ganho ponderal e de crescimento e as recomendações nutricionais nos primeiros meses ou anos de vida para crianças nascidas prematuras ou com BPN devem ser revisados. Não se pode ignorar as evidências da estreita relação entre ganho ponderal nos primeiros 6 a 24 meses de vida e obesidade infantojuvenil e alterações metabólicas na vida adulta, devendo-se pesar o risco-benefício de dietas hipercalóricas.

Indubitavelmente, o leite materno é o melhor alimento oferecido ao RN e satisfaz completamente as necessidades energéticas da criança nascida a termo no primeiro semestre de vida (GÔUVEA; MARQUES, 2007). Neste estudo, somente 13% das crianças foram alimentadas exclusivamente com leite materno até o sexto mês de vida, recomendação da OMS (WHO, 2001). Quanto maior o período de aleitamento materno, menor o ritmo de crescimento linear nos primeiros 2 anos de vida, como descrito anteriormente (FUNKQUIST et al., 2010; KATTULA et al., 2014).

O AME por 6 meses foi associado a menor massa gorda na infância. (DE BEER et al., 2015).

A duração do aleitamento materno não foi diferente entre crianças com sobrepeso ou obesidade aos 6-7 anos e as crianças com escore Z do IMC adequado. No entanto, quanto menor a duração do aleitamento materno, maior o ganho ponderal nos primeiros 2 anos de vida. As crianças que ganharam mais peso no 1º ano ou nos primeiros 2 anos de vida, tinham escore Z do IMC mais alto na idade escolar. Com isso, supõe-se o papel protetor indireto do leite materno contra a obesidade infantojuvenil. Não somente o PN, mas a prematuridade, o aleitamento artificial e também o ganho pôndero-estatural nos primeiros anos de vida têm importância na determinação do risco de obesidade e de doenças cardiovasculares em fases posteriores da vida. (CLARIS; BELTRAND; LEVY-MARCHAL, 2010;

WEAVER, 2012).

5.9 COMPARAÇÃO ENTRE ESTATURA DAS CRIANÇAS E ESTATURA DOS