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Objeções à tese sui generis

No documento COMPOSIÇÃO E IDENTIDADE MEREOLÓGICA (páginas 58-61)

2. CAPÍTULO II: EM DEFESA DA TESE DE COMPOSIÇÃO COMO IDENTIDADE

2.2. Composição como Identidade: O que é?

2.2.2. Objeções à tese sui generis

Em Many-One Identity, Baxter se propõe a solucionar paradoxos envolvendo as noções de identidade, número e existência. Segundo ele, tais paradoxos podem ser solucionados apenas se considerarmos uma coisa como sendo idêntica a muitas coisas. O problema é que identificar unidades com pluralidades é por si só paradoxal e então Baxter passa a desenvolver sua própria versão da tese de composição como identidade. De acordo com ele, devemos relativizar a relação clássica de identidade ao que ele chama de ‘contas’. Assim, não há apenas uma conta do que existe, há várias, nenhuma correta ou errada por si só, mas melhores ou piores que outras dependendo do contexto que nos interessa. No que eu chamarei de contexto interno de uma conta, a identidade funciona normalmente, obedecendo a Lei de Leibniz. Internamente a uma conta, nunca é o caso que muitos objetos sejam idênticos a um objeto. Internamente a uma conta, unidade e multiplicidade são exatas. Por outro lado, Baxter postula uma nova relação de identidade, que ele chama de cross-count identity41. É somente na relação de cross-count identity que um objeto pode ser dito idêntico a muitos objetos. Em grandes linhas, o que é contado como um numa determinada conta pode ser idêntico ao que é contado como muitos em outra conta. Numa conta, há um engradado de cerveja, em outra, há seis latas de cervejas. Isso significa que, em temos de cross-count identity a Lei de Leibniz não é aplicável, e, portanto, um objeto pode ser distinto de si mesmo. Baxter deseja que um objeto possa ser qualitativamente distinto de outro e, ainda assim, numericamente idêntico.

Uma formulação precisa da tese de Baxter é difícil de ser apresentada. No estado de arte das discussões sobre o tema, muitos autores simplesmente dizem que a tese proposta é ininteligível. Sobre a afirmação de Baxter de que o todo é “as muitas partes contadas como uma”, van Inwagen afirma que:

“No one will be able to get anything out of Baxter unless he understands this sentence, and I, as I have said, do not understand it”. (van Inwagen, Composition as Identity, 1994, pp 9).

Da mesma forma, Harte afirma:

“(…) Baxter proposes an extraordinary understanding of identity (although he might not see it this way) according to which many can indeed be identical with one. But, at least on my part, this has the consequence that I no longer understand what he means by such apparently ordinary terms as ‘one’, ‘many’, and ‘identical’.” (Verity Harte, 2002, cap. 1, pp. 24)

41 Algo como ‘identidade entre contas’ ou ‘trans-contas’. Preferi não traduzir o termo técnico por falta de

Se a tese é de fato sem sentido pode ser motivo para muito debate, mas uma coisa importante deve ser notada. Mesmo que a tese seja inteligível, o preço a se pagar por ela é bastante salgado, porque deveríamos abrir mão da Lei de Leibniz em sua versão mais forte, isto é, generalizada. A tese de cross-count identity restringe a Lei de Leibniz de modo que ela só é aplicável ao contexto interno de uma conta, mas nunca entre contas, e isso é problemático, como afirma Wallace:

“(…) Baxter thinks that puzzles about composition are evidence that our intuitions about identity are what are in need of revision, not our views about the relation between parts and wholes. In effect, he uses puzzles of composition as a modus tollens against our ordinary intuitions about identity. Unlike Baxter, however, I think that there are certain basic metaphysical principles we should never give up, especially if these principles are given up in favor of far sketchier ones. (…) So let me put my cards on the table as far as composition is concerned: I am more certain of the Indiscernibility of Identicals, than I am that Composition is Identity. If it turns out that [composition as identity] cannot be maintained in light of the Indiscernibility of Identicals, then I think this gives us good reason to give up [composition as identity]. So I certainly do not think that Baxter’s move is the right one to make—we should be giving up [composition as identity] if it means that we cannot maintain that the identity relation obeys the Indiscernibility of Identicals, not the other way around.” (Wallace, Composition as Identity, 2009, cap. 1, pp. 24, itálicos do autor).

Por caridade interpretativa, estou assumindo que a tese de Baxter é inteligível. Ao menos a princípio, ela me parece completamente inteligível: um objeto pode ser um como um todo e muitos como uma pluralidade. Ou seja, diferença qualitativa sem diferença numérica. Os exemplos de Baxter são mais concretos, um deles é:

“We reason upon causation insofar as it is a natural relation; we do not reason upon causation insofar as it is a philosophical relation. But (…) they are the same relation—causation.”

Mas acredito que a objeção de Wallace é base suficiente para rejeitarmos a tese sui generis de composição como identidade. É necessário um motivo muito forte para rejeitarmos um princípio lógico e metafísico tão básico como a Lei de Leibniz, e não me parece que esse é um preço justo a se pagar para se obter o que se quer. De qualquer forma, ainda há outro problema. Na medida em que a relação de cross-count identity não é a relação de identidade em sua formulação clássica, não faz sentido afirmar que ela é uma tese de composição como identidade. Seria preciso mostrar porque a relação de identidade proposta por Baxter é tão

genuína quanto a identidade estabelecida pela Lei de Leibniz para que possamos chamá-la de identidade com a mesma propriedade.

Sendo assim, passo por fim a apresentar a tese forte de composição como identidade, suas principais objeções e as respostas a ela que são encontradas na literatura sobre o tema.

No documento COMPOSIÇÃO E IDENTIDADE MEREOLÓGICA (páginas 58-61)