3. CAPÍTULO III: ESSENCIALISMO E UNIVERSALISMO MEREOLÓGICO
3.3. Por que levar o essencialismo mereológico a sério?
A seção anterior foi dedicada à formulação e esclarecimento das três possíveis respostas à questão especial da mudança. Como dito no prólogo, o interesse deste capítulo é a relação entre o essencialismo mereológico e o universalismo mereológico. Portanto, será necessário mostrar porque devemos levar a primeira tese a sério e porque rejeitar o inessencialismo e o integralismo mereológico. Passo então a apresentar os principais problemas e os motivos pelos quais rejeitarei ambos.
Em primeiro lugar, consideremos o inessencialismo. No exemplo do navio de Teseu, vimos que parece haver bons motivos para aceitar mudanças irrestritas nas partes de um todo. Porém, o inessencialismo não é uma tese que se aplica apenas a casos brandos como o do navio de Teseu ou das partes que normalmente compõem o corpo de um ser humano. Na realidade, o inessencialismo possui resultados muito mais bizarros, que vão totalmente de encontro às nossas crenças do senso comum, como nos mostra Chisholm:
“If the view is true, then this table, this physical thing that is before us now, is such that it could have been made up of my left foot and the Grand Central Station. Or, to be more exact, if extreme mereological inessentialism is true, then this table, my left foot, and the Grand Central Station are three things which are such that there is a possible world in which the first is made up of the second and third − in which this table is made up of what, in this world, are my left foot and the Grand Central Station.
Indeed, there would be indefinitely many such possible worlds. In trying to imagine this table being made up of my foot and the station, perhaps we thought of my foot and the station as they now are, with all the particular parts that they now happen to have. But if extreme mereological inessentialism is true, then the foot and the station could have had parts entirely other than those that they have in fact. The foot could have been made up of Mt. Monadnock and Mr. Robinson's necktie and the station could have been made up of a certain horse and a certain fish. So, of the indefinitely many possible worlds in which this table is made up of the foot and the station, some of those will be such that in them the foot is made up of the mountain and the necktie while the station is made up of the horse and the fish, but others will be such that in them the station is made up of the horse and the necktie while the foot is made up of the mountain and the fish.
It is difficult to imagine how even God could tell these worlds apart. Which are the ones in which the necktie is made up of the horse and the station and which are the ones in which the mountain is made up of the fish and the foot? One would have to say, of the mountain and the necktie and the horse and the fish, that they could have been made up of other things, too. Hence, of those worlds in which the foot is made up of the mountain and the fish, there will be those in which the fish is made up of the necktie and the station…” (Chisholm, Parts as Essential to Their
Wholes, pp. 4-5, 1973)
A passagem é longa, porém esclarecedora. Admitir o inessencialismo mereológico significa aceitar não apenas que o navio de Teseu poderia ser composto por outras tábuas e continuar a ser o mesmo, mas também que ele poderia ser composto por quaisquer outros objetos e continuar a ser mesmo, ainda que tais objetos sejam coisas tão distintas de tábuas como pedras, taças de vinho ou seres humanos! Além disso, há ainda o problema da identidade de tais totalidades. No caso da mesa, colocado por Chisholm, há mundos em que ela é composta por um tampo e uma base de madeira, mas há outros nos quais ela é composta por um peixe e uma montanha. O problema é: como é possível diferenciar os mundos nos quais o tampo é o peixe e a montanha é a base, daqueles em que o tampo é a montanha e o peixe é a base?
Por causa de tais resultados o inessencialismo se torna o paradigma para a discussão sobre a viabilidade do essencialismo mereológico:
“These reflections, on the consequences of extreme mereological inessentialism, may suggest to us that some version of mereological essentialism must be true.” (Chisholm, Parts as Essential to Their Wholes, pp. 5, 1973)
Em outras palavras: parece que precisa haver um limite. No jogo de trocas de partes em um todo, há regras, nem tudo vale, sob pena de obtermos resultados extremos como estes gerados pela aceitação do inessencialismo mereológico.
Além disso, eu identifico outro problema no inessencialismo mereológico. Ele não parece ser capaz de dar conta de todo tipo de mudança como seu nome parece sugerir. À bem da verdade, o inessencialismo só é compatível com substituições, e, talvez, adições de partes. Se ao invés de substituirmos as tábuas que compõem o navio de Teseu, nós as retirarmos gradualmente, em algum momento o navio simplesmente deixará de existir. Não existe navio sem que haja partes compondo um navio. Não há um mundo possível onde o navio de Teseu
não possui tábua alguma ou não é composto por nada67 simplesmente porque em tais mundos não há navio de Teseu. Isso se aplica a casos mais comuns de totalidades não essenciais como dunas de areia, por exemplo. Parece que retirar um grão da duna não é suficiente para comprometer sua identidade ou existência, mas retirar todos os grãos é. Isso é um indício de que mesmo no contexto do inessencialismo mereológico, há um limite, não é o caso que toda e qualquer mudança seja inócua. Mas se for assim, então estamos próximos de reduzir o inessencialismo mereológico a uma espécie de integralismo mereológico. Obviamente que o que estaria em jogo aqui não seria uma mudança qualitativa de partes, mas sim quantitativa. Seja como for, a mera consequência desastrosa de uma totalidade poder ser composta por partes completamente avessas às atuais já é suficiente para rejeitarmos o inessencialismo.
Porém, pular de um extremo a outro parece uma atitude precipitada, e, além do mais, o integralismo se mostra como um bom modelo de resposta à questão especial da mudança, principalmente por se adequar bem às nossas crenças do senso comum e também por dar uma explicação plausível à possibilidade da mudança. Objetos mudam porque sua mudança não afeta suas partes essenciais.
Parece-me, no entanto, que há alguns problemas sérios com o que estou chamando de integralismo mereológico a agora o analisaremos mais de perto.